segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Eu não te pedi - GEORGINA CAÇADOR

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Eu não te pedi
Para entrares na minha vida.
Ponto final.
Mas tudo está mal.
Tu estás aqui tão perto do peito
Que eu quero para mim.
Eu não te pedi, nem hoje nem ontem,
Nem no futuro que vem por aí...
Tu entraste à bruta,
Só por arrogância
E eu não impedi.
Como poderia?
Um homem tão belo
De mãos poderosas...
Ficam a pairar ideias fogosas
Na mente tão triste
De quem vive só.
Eu não te pedi!
Porque foi que entraste?
Não quero que fiques
Não quero!
Não quero nem posso acreditar,
Que hoje ou amanhã,
Em qualquer lugar,
Por qualquer motivo,
Te venha a amar.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS III - ANTOLOGIA - IN-FINITA

E, em mim, outro eu emergiu - VÍTOR COSTEIRA


LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

Adentraste na minha pálida e vazia vida
como salvador remédio em carne doente
e suavizaste as canibais dores letais,
que se espalhavam pelos meus dias
como raízes de plantas daninhas vorazes,
eliminando as maleitas singelamente, uma a uma,
e devolvendo uma renovada esperança
ao castanho triste do meu fundo olhar...

Injetaste o teu forte medicamento
sem provocar quaisquer reações alérgicas,
seguindo a tua própria posologia
em doses que apenas tu soubeste receitar,
numa prescrição que apenas tu conhecias
e que bula alguma jamais contivera
e eu acolhi-te como dócil paciente ansioso
sem que o meu ser sofresse efeitos colaterais...

Infiltraste o teu mais equilibrado fármaco
com a sapiência de quem sabe bem o que fazer
e as cores certas voltaram como uma bandeira,
e um vivo brilho deu vida ao meu olhar marinheiro
e as forças soergueram músculos e velame
e novos sonhos e bonanças quiseram marear!
Um outro eu emergiu de dentro de mim
como um barco salvo do mais profundo mar!

EM - ASAS DE COLIBRI - VÍTOR COSTEIRA - ANDORINHA EDITORIAL

domingo, 3 de fevereiro de 2019

90 anos - LARA SALGUEIRO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA
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Tempo vivido
Memória traçada
Sonho escondido
Risos de fada

Amor de avó
Carinho de mãe
Linha e nó
Costura também

Odores de flores
Conselhos verdadeiros
Mil e um amores
Longos ribeiros

EM - TANTO E NADA - LARA SALGUEIRO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

Algures - ANABELA SANTOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sem sono me deitei
Por ti muito esperei
Meus braços entrelacei
Apenas sonhei
Pelos campos me perdi
Em tombos e corridas
Por ti me encantei
Em flores me envolvi
Num perfume sem fim
Entranhado em mim
Sem mais fim, corri
Presa em flores
Meu cabelo apanhei
Malmequeres coloquei
Saltei, brinquei
Gargalhadas dei
Menina fiquei
Cabelo despenteado
Vestido esvoaçando
No rosto estampado
É bom o chão molhado
No meu sonho fiquei
Tranquila
Sorrindo para ti
Meu lindo Jasmim.

EM - DEIXEI O CORAÇÃO FALAR - ANABELA SANTOS - IN-FINITA

Por amor cometi muitas loucuras - JOÃO LÍDIO SILVA CINTRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Me entreguei por inteiro ao que senti
Demorou mais aos poucos percebi
Enganei-me com muitas criaturas
Por ser vítima de amor com falsas juras
Eu jurei nunca mais acreditar 
Em ninguém que procure me enganar
Tendo juras fingidas sem pudor
Já chorei tantas vezes por amor
Que não tem mais lágrimas pra chorar

Nunca mais tive um pingo de alegria
que pudesse irrigar o meu sorriso
Hoje o meu coração é duro e liso
Como um piso onde a flor jamais se cria
Meu penar misturado à agonia 
Espremendo meus olhos sem parar
Foi juntando meu pranto e fez um mar
Me afoguei no meu próprio mar de dor
Já chorei tantas vezes por amor 
Que não tenho mais lágrimas pra chorar.


EM - ECOS DO NORDESTE - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Que poema querias que eu tivesse sido? - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Nunca me permitiste ser o teu poema!
Sempre preferiste mais rica prosa
e mais fina e elegante pena,
para ainda maior pena minha,
nos livros que foste desfolhando…

E foste disfarçando a tua iliteracia,
na arte que tinhas em esconder
a minha tristeza na tua alegria,
lendo os poemas que preferias ler,
sem olhares para mim como poesia…

Nunca leste as dores que escrevi
nos gritos das palavras que calei,
pela indiferença que em ti senti,
sabendo que jamais eu seria lido
por quem não sabia nem me queria ler…

Quem querias tu que eu tivesse sido
nas páginas dos teus livros de fantasia,
num delírio mais forçado que querido,
que a tua esforçada e louca vida vazia
de tudo fazia para tanto me magoar?

Que palavras querias que eu tivesse dito
se nunca estavas feliz para me ouvir?
Que poema querias que eu tivesse sido
se raro me ofereceste o teu sorrir?


EM - POEMAS DE MEL E LIMÃO - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA

Asas de Sonho - GEORGINA CAÇADOR

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Dai-me asas Senhor, para voar,
Pelos penhascos do Arizona.
Beber o sol a poeira,
Dormir a sesta à soalheira.

Dai-me asas Senhor, para sonhar.
Perder-me no mundo da fantasia,
Perder-me nas palavras da poesia,
Só porque quero.
Só porque sim.

Dai-me asas Senhor,
Sempre que passo
Pelo verde bom do Sorraia,
De Almeirim.
Só porque gosto, só porque sim.

Amanhã quando voar,
Um pouco ao largo
Um pouco por demais,
Dai-me asas Senhor para viver,
Tanto sonho que será...
Jamais?...

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS III - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Da terra nasce a vida, mas eles já estão mortos... - ISABEL BASTOS NUNES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA HELVETIA EDIÇÕES

E quando o dia nasce
A lua parte, o sol desponta
Da terra nasce a vida
Mas eles já estão mortos.

E na podridão da droga
Massacrando os corpos vencidos,
Eles correm para a morte
E deixam os corpos estendidos.

E da terra brota a vida
Mas eles já estão mortos.

E fazem das ruas sepulturas
Escondendo-se nos vãos das portas,
Embrulhados em mantas fétidas e pútridas
Num silêncio gélido de figuras mortas.

Mas se da terra nasce a vida
No chão eles já estão mortos.

E nos olhos retiveram a última imagem
De uma seringa gasta e podre
E, injectando o pobre corpo exangue,
Partem sem saber, para uma última viagem.

Mas eles já estavam mortos para a vida.

E quando a noite cai
E os corpos começam a cair,
Muitos deles, em imagens hediondas
Parecem ao longe estar a sorrir.

E, sozinhos morrem, apodrecendo
Sem ninguém se importar
Até que os venham buscar.

E o carro da morte, demora a passar
E então,
Então já não nasce vida na terra,
Porque todos eles estão mortos para ela.

EM - A VIDA EM POESIA 3 - ANTOLOGIA - HELVETIA EDIÇÕES

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Leito - PEDRO CALDEIRA SANTOS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

Tenho um leito adormecido
Onde me deito
E acordo
Inquieto
Mas onde coabito
Com a esperança de um dia
Depois de nele adormecer
Ao acordar
Possa contemplar
De novo
Sereno
O teu despertar

EM - ERUPÇÕES - PEDRO CALDEIRA SANTOS - MP EDITORA

Regressei...* - GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Regressei com a lentidão de quem vem de longe
do mar com pedras na boca para cuspir nos lugares
onde o vento envolve a gruta das nascentes.
Só a palidez das minhas unhas denunciava
o sinal de alarme que me atravessava os pulsos
mordidos por meus dentes quando a dupla sombra
dos barcos me roubou, em golpes certeiros,
o trigo onde se afundaram as foices.

EM - UMA VARA DE MEDIR O SOL - GRAÇA PIRES - COISAS DE LER

As pedras - JACQUELINE TORRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Gosto das pedras quietas
Sempre graves, sempre de gravata escura
sempre no limiar da porta
            aguardando pássaros
Aí, conversam essas mudezas miúdas
            de pés de passarinho e cisco
Agudas e antigas
Não há juventude nas pedras
já nasceram velhas
já nasceram sem exclamação
São pesados vagos pontos-finais.
Mas gosto das pedras
            pelo universo que revolvem
            nas abelhas, nas formigas, na lesma
Tão certas, tão castas
tão precisas, tão diluvianas
tão estradas, tão errantes
Tão retratos dos meus olhos
Gosto das pedras ficando
enquanto vou passando
            com meu verso de andorinha
desregulando a paisagem da palavra
            na moldura da tarde.


EM - ECOS DO NORDESTE - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Abraços - ISABEL BASTOS NUNES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O teu corpo é o espaço
Dos meus sonhos limitados
Meu pecado e tormento
Meus desejos consumados
Muitos deles sonhados,
Quando o amanhecer desponta
E são diluídos no tempo,
No pouco tempo que temos,
Mas que tão perfeitos são.

E naqueles abraços
Em que envolvo o teu corpo,
Com gestos de sedução
São de uma estranha melodia,
Quando me estendes as mãos
Em perfeita sintonia.

Abraços,
Apenas quero abraços
De um dia inventado,
De uma noite louca de desejos
De um amanhecer dourado
No teu corpo orvalhado
Pelo amor

Abraços,
Assim me deixo levar
Bem devagarinho,
Sem pressas de lá chegar.

EM - À PROCURA DE MIM - ISABEL BASTOS NUNES - IN-FINITA

Espécie rara - GABRIELA RUIVO TRINDADE

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Viste bem?
Debaixo do tapete, atrás da porta?
Tens a certeza? Olhaste para dentro da salamandra?
Em baixo da cama?
Espreitaste para dentro da chaminé?
Indagaste junto dos vizinhos
Do carteiro
Dos meninos que jogam à bola no terreiro?
Procuraste em todas as árvores
Todos os postes
Todos os muros de jardim?
Todos os recantos onde se possa ter escondido?
Esta é uma ave muito tímida
Não dá nas vistas
Vive oculta na paisagem
Canta pouco
O seu silêncio é uma espécie de música
Espécie rara
Só quem procurar com afinco terá o privilégio de encontrá-la
Talvez a tenhas visto, meu amor, e porventura não deste por ela

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS III - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Artesanato - FRANCISCO SILVA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA
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Faço babetes, guardanapos e bordados
Não porque goste mas por necessidade
Moro na rua com outros desamparados
E aí o dinheiro é uma preciosidade

Faço por encomenda ou por atacado
No sítio onde à noite fico deitado
Aproveito os restos de pano e fio do lixo
Para devagarinho fazer um lindo bordado

Quando posso vou vender algures na cidade
Fazer dinheiro para me alimentar e dormir
Quando tenho algum vou à taberna curtir
Quando não tenho choro de raiva na intimidade

Queria deixar o raio das linhas e agulhas
Ser dono de teares maravilhosos
Viver sem estes esquemas manhosos
Ter uma vida de rico sem agruras

Mas quando?
Só quando Deus me levar para outras finuras

 EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Ode à criação da noite III - ALVARO GIESTA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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III

Pelas frestas do silêncio a emoldurar as arestas
das desconjuntadas portas das desabrigadas casas,
entravam braçadas de luz
respirando o puro ar da muita manhã orvalhada;

o frio metálico da solidão estreitava-se
no abraço do poeta, enquanto a inquieta mão,
gota a gota,
erguia o poema como se fosse a casa para viver.

E eu e o homem com cabeça de vento
adormecíamos na terra do país das águas
plantada neste círculo achatado nos polos,
sem nos apercebermos,
         – como as outras apagadas criaturas –
que hoje era o primeiro dia da criação da noite.

EM - O SERENO FLUIR DAS COISAS - ALVARO GIESTA - IN-FINITA

No tempo - ALBERTO CUDDEL

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Amei-te desde sempre em mim
Mesmo que o sempre tenha sido
Um tempo perdido na memória
Apenas o que lembro de ontem
E ontem foi todo o meu tempo!

... Talvez seja eu possuído de virtude
Uma mera crente e doce inquietude
Onde me deposito na vontade de Amar
Novo e firme a cada azul do teu olhar!

Vivo na plácida certeza de encontrar
Na alma pura e terna de todo teu ser
Verdadeira e paciente forma de amar
Ainda que em mim nada tenha a esperar!

... Talvez me perca no tempo
Naquele tempo em que vejo
Os dias e noites desfilarem
Sem que o amor se revele
Na fisicalidade dos corpos
Que apenas se desejam!

EM - COMO FAZER AMOR - ALBERTO CUDDEL - IN-FINITA

Solidariedade dez - JACIEL BEZERRA

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Ouça isso atentamente
Arraste a cadeira e sente
Que agora vou falar
Depois que estiver sentado
Ouça  com muito cuidado
O que vou manifestar

Escute bem o meu verso
Espalhe para o universo
Nem precisa por meu nome
Espalhe em todas as redes
De água a quem tem sede
E dê comida a quem tem fome.

Se espelhe em Jesus
Carregue a sua cruz
Faça a cidadania
Não bote arma na mão
E não atinja o irmão
Dê a ele uma poesia

Não viva se lastimando
Espante os medos cantando
Se puder adote um órfão
Que com certeza lhe abrange
Faça um gesto, doe sangue
Se desejar, doe um órgão.

Viva versos, faça rima,
Dê sempre a volta por cima
E serás um vencedor
Viva do jeito de Deus
Que as rimas e versos meus
Foi ele que me enviou

Veja um deus em cada miserável
Faça conta ao que não se presta
Que é assim que Deus nos testa
Nos nossos dias de luta
Tudo isso só depende da conduta
E do jeito de agir de cada homem

Esquecendo a cor, a raça, o nome
E quebrando muralhas e paredes
Dando água a quem tem sede
E comida a quem tem fome.


EM - ECOS DO NORDESTE - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Moram em mim pedaços de luar - SUSANA NUNES

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Moram em mim pedaços de luar
Folhas de papel que escrevo e deito fora
Mas porque as quero e teimo em guardar
Vou buscá-las para as juntar à minha história
Abeiro-me da branca ave e do profano
Dos dias que me correm e das quimeras
E porque em mim me mora o desengano
Invento coliseus para o deitar às feras
Ai vida que te louvo e ponho em riste
Que venero e enalteço na palavra
Gravada no meu peito a ferro e fogo
Ai caminho que me habita e que me assiste
Que tanto me sente, na vida bem-fadada
Como na malograda, nas peças deste jogo.

EM - NA PELE DA PALAVRA - SUSANA NUNES - IN-FINITA

Coração salva-vidas - GABRIELA RUIVO TRINDADE

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eu vou arranjar maneira
de calar meu coração
como numa canção
brasileira
vou recuperar
meu fluxo sanguíneo
ainda que o tenha
de resgatar
na tua boca
(e meu coração
desenha teus lábios
com a precisão
cirúrgica
de um salva-vidas)

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS III - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Espaços - RUTE FERREIRA

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Às vezes parece que não sou eu
Sou um espelho de mim que não soou.
Quero achar o que se perdeu de mim por aí
Inventar lugares onde não estou
Ir lá sempre que quiser.

EM - OUTONO DE MIM - RUTE FERREIRA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA