Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temiam eram a gripe, o calor, os insectos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - RELÓGIO D'ÁGUA
domingo, 9 de setembro de 2012
sábado, 8 de setembro de 2012
Epigrama nº 12 - CECÍLIA MEIRELES
A engrenagem trincou pobre e pequeno insecto.
E a hora certa bateu, grande e exacta, em seguida.
Mas o toque daquele alto e imenso relógio
dependia daquela exígua e obscura vida?
Ou percebeu sequer, enquanto o som vibrava,
que ela ficava ali, calada mas partida?
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA
E a hora certa bateu, grande e exacta, em seguida.
Mas o toque daquele alto e imenso relógio
dependia daquela exígua e obscura vida?
Ou percebeu sequer, enquanto o som vibrava,
que ela ficava ali, calada mas partida?
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Nascemos para amar...* - MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE
Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura:
Tu és doce atractivo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.
Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n'alma se apura
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.
Qual se abismou nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.
Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura:
Tu és doce atractivo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.
Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n'alma se apura
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.
Qual se abismou nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.
Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
origem - PEDRO MEXIA
Por detrás do teatro de sombras
há um corpo, dentro dos fantoches
existem mãos, o falcão regressa
ao falcoeiro, os bonecreiros seguram
bonecos de madeira, as paredes brancas
alguém as caiou, as nuvens preexistem
ao desenho das nuvens, mas não podemos
retroceder tanto, basta-nos a história
em si mesma e não a sua origem.
EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE
há um corpo, dentro dos fantoches
existem mãos, o falcão regressa
ao falcoeiro, os bonecreiros seguram
bonecos de madeira, as paredes brancas
alguém as caiou, as nuvens preexistem
ao desenho das nuvens, mas não podemos
retroceder tanto, basta-nos a história
em si mesma e não a sua origem.
EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Saliva - MARIA TERESA HORTA
Situando-te no meio
desta frase
que se equilibra morna
de saliva
distingo a cor do verão
entre este inverno
que é o teu sabor
na minha língua
EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE
desta frase
que se equilibra morna
de saliva
distingo a cor do verão
entre este inverno
que é o teu sabor
na minha língua
EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Gaivota I - RUY BELO
A tão difícil paz facilmente alcançada
a máxima inquietação ao fim e ao cabo queda
a serenidade em duas curtas asas resumida
em corpo tão pequeno a vida toda
a voz da ambição afinal muda
perfeitíssima obra onde tudo se equilibra
- que assim se cubra quanto tanto se celebra
e uma chave só tal mundo abra a ninguém lembra
EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM
a máxima inquietação ao fim e ao cabo queda
a serenidade em duas curtas asas resumida
em corpo tão pequeno a vida toda
a voz da ambição afinal muda
perfeitíssima obra onde tudo se equilibra
- que assim se cubra quanto tanto se celebra
e uma chave só tal mundo abra a ninguém lembra
EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
XXXIII - ALBERTO CAEIRO
Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram à solta para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam...
EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram à solta para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam...
EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM
domingo, 2 de setembro de 2012
Medida - MIGUEL TORGA
Jogo contra o destino.
Cada minuto, cada desafio.
Livre neste baldio
Da liberdade humana,
Arrisco a consciência dos meus actos
Na roleta da sorte.
O triunfo e a derrota não me importam.
Nenhum triunfo vale o sol que o doira,
E nenhuma derrota o é na morte
Que temos certa.
Quero apenas fazer a descoberta
Do que posso e não posso
Sem poder nada.
Aprendo a conhecer o meu tamanho
Pela maneira como perco ou ganho.
EM - POESIA COMPLETA VOL. II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE
Cada minuto, cada desafio.
Livre neste baldio
Da liberdade humana,
Arrisco a consciência dos meus actos
Na roleta da sorte.
O triunfo e a derrota não me importam.
Nenhum triunfo vale o sol que o doira,
E nenhuma derrota o é na morte
Que temos certa.
Quero apenas fazer a descoberta
Do que posso e não posso
Sem poder nada.
Aprendo a conhecer o meu tamanho
Pela maneira como perco ou ganho.
EM - POESIA COMPLETA VOL. II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE
sábado, 1 de setembro de 2012
Mesma chama - MARIA JOSÉ LACERDA
Olho-te e quero o teu abraço,
e teu carinho no afago desejado,
o teu tudo,
meu amado.
Os teus olhos!
(sou apaixonada pelo teu olhar)
Sem palavras,
no doce contemplar,
dizem mais que qualquer falar.
Se dúvidas houvera,
noutro tempo,
neste exacto momento,
amo-te conscientemente,
no todo do meu presente.
Homem de mim,
que ao chegar,
ou ao partir,
sabes sempre,
como fazer-me sorrir.
Tu não tens idade,
dentro de ti vi,
descobri,
que tens o adolescente,
de sempre,
que me beija,
e,
ama,
com a mesma chama.
EM - DANÇA DE PALAVRAS - MARIA JOSÉ LACERDA - TEMAS ORIGINAIS
e teu carinho no afago desejado,
o teu tudo,
meu amado.
Os teus olhos!
(sou apaixonada pelo teu olhar)
Sem palavras,
no doce contemplar,
dizem mais que qualquer falar.
Se dúvidas houvera,
noutro tempo,
neste exacto momento,
amo-te conscientemente,
no todo do meu presente.
Homem de mim,
que ao chegar,
ou ao partir,
sabes sempre,
como fazer-me sorrir.
Tu não tens idade,
dentro de ti vi,
descobri,
que tens o adolescente,
de sempre,
que me beija,
e,
ama,
com a mesma chama.
EM - DANÇA DE PALAVRAS - MARIA JOSÉ LACERDA - TEMAS ORIGINAIS
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Versos escritos nágua - MANUEL BANDEIRA
Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo,e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
EM - ANTOLOGIA - MANUEL BANDEIRA - RELÓGIO D'ÁGUA
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo,e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
EM - ANTOLOGIA - MANUEL BANDEIRA - RELÓGIO D'ÁGUA
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Soneto de agosto - VINICIUS DE MORAES
Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados
Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.
Espantei-me, confesso-te, dos brados
Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.
Só assim arrancara a linha inútil
Da tua eterna túnica inconsútil...
E para a glória do teu ser mais franco
Quisera que te vissem como eu via
Depois, à luz da lâmpada macia
O púbis negro sobre o corpo branco.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE
Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.
Espantei-me, confesso-te, dos brados
Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.
Só assim arrancara a linha inútil
Da tua eterna túnica inconsútil...
E para a glória do teu ser mais franco
Quisera que te vissem como eu via
Depois, à luz da lâmpada macia
O púbis negro sobre o corpo branco.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Ser - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.
Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
seu ombro nenhum.
Interrogo meu filho,
objecto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstracto?
Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te
como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.
O filho que não fiz
faz-se por sim mesmo.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - RELÓGIO D'ÁGUA
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.
Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
seu ombro nenhum.
Interrogo meu filho,
objecto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstracto?
Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te
como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.
O filho que não fiz
faz-se por sim mesmo.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - RELÓGIO D'ÁGUA
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Pausa - CECÍLIA MEIRELES
Agora é como depois de um enterro.
Deixa-me neste leito, do tamanho do meu corpo,
junto à parede lisa, de onde brota um sono vazio.
A noite desmancha o pobre jogo das variedades.
Pousa a linha do horizonte entre as minhas pestanas,
e mergulha silêncio na última veia da esperança.
Deixa tocar esse grilo invisível,
- mercúrio tremendo na palma da sombra -
deixa-o tocar a sua música, suficiente
para cortar todo arabesco da memória.,.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA
Deixa-me neste leito, do tamanho do meu corpo,
junto à parede lisa, de onde brota um sono vazio.
A noite desmancha o pobre jogo das variedades.
Pousa a linha do horizonte entre as minhas pestanas,
e mergulha silêncio na última veia da esperança.
Deixa tocar esse grilo invisível,
- mercúrio tremendo na palma da sombra -
deixa-o tocar a sua música, suficiente
para cortar todo arabesco da memória.,.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Aquela nunca vista...* - ANTÓNIO FERREIRA
Aquela nunca vista formosura,
Aquela viva graça e doce riso,
Humilde gravidade e alto aviso,
Mais divina que humana real brandura,
Aquela alma inocente e sábia e pura
Que entre nós cá fazia um paraíso,
Ante os olhos a trago e lá a diviso
No céu triunfar da morte e sepultura.
Pois por quem choro, triste? Por quem chamo
Sobre esta pedra dura a meus gemidos
Que nem me pode ouvir nem me responde?
Meus suspiros nos céus sejam ouvidos;
E enquanto a clara vista se me esconde,
Seu despojo amarei, amei e amo.
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
Aquela viva graça e doce riso,
Humilde gravidade e alto aviso,
Mais divina que humana real brandura,
Aquela alma inocente e sábia e pura
Que entre nós cá fazia um paraíso,
Ante os olhos a trago e lá a diviso
No céu triunfar da morte e sepultura.
Pois por quem choro, triste? Por quem chamo
Sobre esta pedra dura a meus gemidos
Que nem me pode ouvir nem me responde?
Meus suspiros nos céus sejam ouvidos;
E enquanto a clara vista se me esconde,
Seu despojo amarei, amei e amo.
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
domingo, 26 de agosto de 2012
Na água - PEDRO MEXIA
O reflexo da árvore.
Ninguém toca na sua margem.
Permanece. Realidade inteira.
Enquanto a árvore,
ardil dos sentidos,
se desfaz
quando alguém agita
a sua imagem.
EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE
Ninguém toca na sua margem.
Permanece. Realidade inteira.
Enquanto a árvore,
ardil dos sentidos,
se desfaz
quando alguém agita
a sua imagem.
EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE
sábado, 25 de agosto de 2012
Hálito - MARIA TERESA HORTA
E vertical o hálito
é saudade
o frio que amanhece
sobre os vidros
Debaixo dos lençóis
vou-me vestindo
com as tuas mãos
num vagar antigo
EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE
é saudade
o frio que amanhece
sobre os vidros
Debaixo dos lençóis
vou-me vestindo
com as tuas mãos
num vagar antigo
EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Mas que sei eu - RUY BELO
Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como uma folha
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como uma folha
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Perdição - MIGUEL TORGA
Como a tarde sem mim tem alegria!
Como o sol vai contente sem me ver!
Uma noite de angústia em pleno dia...
Um tição na fogueira, sem arder...
Ah, danada traição de quem não sabe
Viver a vida!
Ah, pombas felizes
A catar o piolho do presente
Diante da tristeza dos meus olhos
Postos na eternidade!
Deus, a morte, a verdade,
E esta ilha de sombra
Num mar de luz!
Este molde vazio
De cada hora,
Agónico por dentro e fúnebre por fora!
EM - POESIA COMPLETA VOL. II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE
Como o sol vai contente sem me ver!
Uma noite de angústia em pleno dia...
Um tição na fogueira, sem arder...
Ah, danada traição de quem não sabe
Viver a vida!
Ah, pombas felizes
A catar o piolho do presente
Diante da tristeza dos meus olhos
Postos na eternidade!
Deus, a morte, a verdade,
E esta ilha de sombra
Num mar de luz!
Este molde vazio
De cada hora,
Agónico por dentro e fúnebre por fora!
EM - POESIA COMPLETA VOL. II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
XLII - ALBERTO CAEIRO
Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.
EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.
EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 21 de agosto de 2012
A António Nobre - MANUEL BANDEIRA
Tu que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:
Com que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino!
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e desejando tanto...
Mas tu dormiste em paz como as crianças.
Sorriu a Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca... O lindo som!
Quem me dará o beijo que cobiço?
Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...
Eu, não terei a Glória... nem fui bom.
EM - ANTOLOGIA - MANUEL BANDEIRA - RELÓGIO D'ÁGUA
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:
Com que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino!
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e desejando tanto...
Mas tu dormiste em paz como as crianças.
Sorriu a Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca... O lindo som!
Quem me dará o beijo que cobiço?
Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...
Eu, não terei a Glória... nem fui bom.
EM - ANTOLOGIA - MANUEL BANDEIRA - RELÓGIO D'ÁGUA
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