segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ária para assovio - VINICIUS DE MORAES

Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio.

As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?

O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve.

(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme.)

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

domingo, 19 de agosto de 2012

O enterrado vivo - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - RELÓGIO D'ÁGUA

sábado, 18 de agosto de 2012

Som - CECÍLIA MEIRELES

Alma divina,
por onde me andas?
Noite sozinha,
lágrimas, tantas!

Que sopro imenso,
alma divina,
em esquecimento
desmancha a vida!

Deixa-me ainda
pensar que voltas,
alma divina,
coisa remota!

Tudo era tudo
quando eras minha,
e eu era tua,
alma divina!

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Amor é fogo que arde...* - LUIS VAZ DE CAMÕES

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Uma árvore - PEDRO MEXIA

Uma árvore é uma ideia.
Se olhares para uma árvore
ela desaparece.
A casa por entre os ramos
que na infância não construíste
surge como um fantasma menor.
Não saber o nome das árvores
deixou-te estranho e alheado,
mas elas também não sabem
o teu nome.
Uma árvore não te dará sombra
ou madeira:
É um vocábulo e um símbolo
mas não sabes o seu sentido.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Voragem - MARIA TERESA HORTA

Não sei desta voragem
no teu corpo

esta espécie de odor
ou de viagem

não sei deste sabor
ou desta cinza

desta aguda lentidão
camuflada

EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Relendo Daniel Filipe - RUY BELO

Desertar do céu deste inverno a andorinha
bem pouco diz talvez não o notar
Mas não a ver nem quando o sol domina
ilumina o seu voo sobre o mar
que terra tenho eu para mo perdoar?

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Lamento - MIGUEL TORGA

Ah, cavalo sem freio a galopar
No prado que só vês quando tens fome!
Ah, pássaro sem nome
Que passeia no céu
E não sentes tonturas sobre o abismo!
Bicho também,
Porque não sei correr,
Voar.
Pisar o pasto
E desprezar do alto a sepultura?
Pus em mim o cabresto que me prende,
Cortei as asas da libertação,
E rente à perdição
De cada hora,
Devoro o próprio chão que me devora.

EM - POESIA COMPLETA VOL. II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

domingo, 12 de agosto de 2012

XL - ALBERTO CAEIRO

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 11 de agosto de 2012

A Camões - MANUEL BANDEIRA

Quando nalma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Génio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,

Não morrerá, sem poetas nem soldados,
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

EM - ANTOLOGIA - MANUEL BANDEIRA - RELÓGIO D'ÁGUA

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Soneto de intimidade - VINICIUS DE MORAES

Nas tarde da fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Consolo na praia - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te - de vez - nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme meu filho.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - RELÓGIO D'ÁGUA

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Aceitação - CECÍLIA MEIRELES

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Alma minha gentil...* - LUIS VAZ DE CAMÕES

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Número 5 - PEDRO MEXIA

Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

domingo, 5 de agosto de 2012

Encontro - MARIA TERESA HORTA

Com virilidade - com ócio
e com ausência

de oceano
com ébano
e por fraqueza

com suporte orgânico
refiro-me aos teus
dedos

longos locais claros
para inventar
nas ancas

EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE

sábado, 4 de agosto de 2012

As impossíveis crianças - RUY BELO

Nesta manhã de outono dos primeiros frios
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Prenúncio - MIGUEL TORGA

Na tarde calma, ondula
A invisível ramagem dum poema.
Uma secreta brisa,
Que apenas se adivinha,
Percorre o mundo íntimo das coisas
E acorda em sobressalto
As folhas do silêncio.
Falta ainda o poeta...
Mas a evidência
Da sua voz
É como a luz do sol quando amanhece:
De tão branca, parece
Que descora a ilusão da madrugada...
Antes ele não viesse,
E em cada solidão se mantivesse
Esta bruma de música sonhada.

EM - POESIA COMPLETA VOL. II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

43 - JAIME ROCHA

Quase no fim, numa pequena nuvem de água,
os corvos dançam e vomitam um besouro
gigante. Todos os homens se ajoelham numa
longa noite. Todos se defrontam com um
último olhar do pássaro. E depois existe
um poço com uma tampa ondeada que ferve
ao sol e envia uma luz cinzenta para o céu.
Dessa água nasce um novo ser que se dispersa
pelos terrenos escolhidos para o centeio.

EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Passeio em mim - MARIA JOSÉ LACERDA

Passeio,
pelo interior de mim.

Viajo no meu espaço,
por caminhos conhecidos,
tantas vezes percorridos.

Vou,
num vagaroso percorrer,
admirada,
seguindo em frente,
pelo meu ser,
ser preenchida de tanta gente.

Construo defesas,
baixo os braços,
derrubo represas,
e,
no fim,
ainda estou a sós,
comigo dentro de mim.

EM - DANÇA DE PALAVRAS - MARIA JOSÉ LACERDA - TEMAS ORIGINAIS