Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
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terça-feira, 31 de julho de 2012

XIX - ALBERTO CAEIRO

O luar quando bate na relva
Não sei que cousas me lembra...
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas
E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas...

Se eu já não posso crer que isso é verdade,
Para que bate o luar na relva?

EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A música das almas - VINICIUS DE MORAES

Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma
E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangulam a terra...

Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos...
Mas nos caminhos todos choraram com os rostos levados para o alto
Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

domingo, 29 de julho de 2012

Infância - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé
Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - RELÓGIO D'ÁGUA

sábado, 28 de julho de 2012

Epigrama nº 5 - CECÍLIA MEIRELES

Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exacto.

E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do acto.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Onde porei meus olhos...* - DIOGO BERNARDES

Onde porei meus olhos que não veja
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que para descansar parte me seja?

Já sei como s'engana quem deseja,
Em vão amor firme contentamento,
de que, nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.

Mas inda, sobre claro desengano,
Assim me traz est'alma sogigada,
Que dele está pendendo o meu desejo;

E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada,
Que, quanto mais me chego, menos vejo.

EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 26 de julho de 2012

As gavetas - PEDRO MEXIA

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Delírio - MARIA TERESA HORTA

O desejo revolvido
A chama arrebatada
O prazer entreaberto
                              O delírio da palavra

Dou voz liberta aos sentidos
Tiro vendas, ponho o grito
Escrevo o corpo, mostro o gosto
                              Dou a ver o infinito

EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 24 de julho de 2012

Enterro sob o sol - RUY BELO

Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho pela areia dêem-me um
enterro sob o sol enterro de água

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 23 de julho de 2012

173 - RICARDO REIS

Se hás-de ser o que choras
Ter que ser, não o chores.
Se toda a mole imensa
Do mundo ser-te-á noite,
Aproveita este breve
Dia, e sem choro ou cura
Goza-o, contente por viveres
O pouco que te é dado.

EM - POESIA - RICARDO REIS - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 22 de julho de 2012

Mesa dos sonhos - ALEXANDRE O'NEILL

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devolvo o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida.

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 21 de julho de 2012

Sobre tudo - MARIA JOSÉ LACERDA

Sobre tudo
O nada
De nada ser.

Sobre tudo
O parecer
De nada ser.

Sobre tudo
A força do querer
Viver.

Sobre tudo
Caminhar
Sem parar.

Sobretudo
Sorrir
Para não chorar.

Sobre tudo
O eu de nós
Mesmo sós.

Sobretudo
Amar
Sem questionar.

Sobre tudo
O coração
Sem qualquer razão.

EM - DANÇA DE PALAVRAS - MARIA JOSÉ LACERDA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Tens o dom do mal - MANUELA FONSECA


Tens o dom do mal
Espalhado nas ruas desertas
Ensanguentadas
De risos nocívos
E mulheres prenhas de lágrimas
Debruçadas sob o efeito
Do teu cinismo vomitado
Na fronteira de um mundo
De secura silenciosa
Onde a paz
Só tem bilhete de ida
Em pequenos corpos
Ainda mornos

Onde o teu fogo
Já só é artifício

EM - POESIA SEM REMETENTE - MANUELA FONSECA - TEMAS ORIGINAIS 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

SOU II - EMANUEL LOMELINO


Em cada poema que faço acrescento mais um elo
numa corrente que sou eu, assim me apresento
com cada poema que escrevo ganho novo alento
sigo a ser o que era, nem mais feio nem mais belo

Nos poemas exponho o meu carácter sem medos
sou mais extrovertido sem deixar de ser genuíno
posso perder algumas coisas mas não me arruíno
só por me revelar como sou sem ocultar segredos

Nasci no mundo, sou de todos sem ser de ninguém
aqui me têm de alma nua sem qualquer preconceito
este sou eu na mais verdadeira das minhas formas

Prefiro ser assim real, este é o jeito que me convém
não quero ser visto ou entendido como ser perfeito
porque bem vistas as coisas nunca segui as normas

EM - AMADOR DO VERSO - EMANUEL LOMELINO - TEMAS ORIGINAIS

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Guevara - MIGUEL TORGA


Não choro, que não quero
Manchar de prantos
Um sudário de força combativa.
Reteso a dor, e canto
A tua morte viva.

A tua morte morta
Pelo próprio terror em que ficaram
À tua frente
Aqueles que te mataram
Sem poderem matar o combatente.

O combatente eterno que ficaste,
Ressuscitado
Na voluntária crucificação.
Herói a conquistar o inconquistado,
Já sem armas na mão.

Quem te abateu, perdeu a guerra santa
Da liberdade.
Fez brilhar na manhã do mundo inteiro
Um sol de redentora claridade:
O teu rosto de Cristo guerrelheiro.

EM - POESIA COMPLETA VOL. II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 17 de julho de 2012

Filinto Elísio - MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE


Zoilos, estremecei, rugi, mordei-vos:
Filinto, o grão cantor, prezou meus versos.
Sobre a margem feliz do rio ovante,
Donde, arrancando omnipotência aos Fados,
Universal terror vibrando em raios,
Impôs tropel de heróis silêncio ao globo,
O imortal corifeu dos cisnes lusos
Na voz da lira eterna alçou meu nome.
Adejai, versos meus, ao Sena ufano
De altos, fastosos, marciais portentos:
E ganhando amplo voo após Filinto,
Pousai na eternidade em torno a Jove.
Eis os tempos, a inveja, a morte, o Letes
Da mente, que os temeu, desaparecem:
Fadou-me o grão Filinto um vate, um númen;
Zoilos! Tremei! - Posteridade! És minha.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - BOCAGE - VERBO

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O cisne - JOÃO RUI DE SOUSA


Na urdidura da acção
entre a água e o sapato
contemplo a constelação
de nenúfares jubilados
com olhos de devoção,
contemplo a proa dum cisne
- alheio ao sim e ao não -
vogando no alto mastro
de saber-se em conjunção
com relvas, árvores e o passo
de quem o olha inundado
com a calma da visão,
com o perfil do seu garbo.

EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE

domingo, 15 de julho de 2012

Funchal - VÍTOR CINTRA


Derramas p'las vertentes da montanha,
Que é teu anfiteatro natural,
Feitiço e excelência, que é tamanha
E tornam-te em autêntico postal.

Entalhas no cimento a natureza,
Com grande e fino gosto ornamental
E esses teus adornos, de princesa,
Deslumbram quem passeia em ti, Funchal.

As flores, que te vestem de beleza,
Emprestam-te um encanto especial
E a gente hospitaleira, co'a franqueza,
Espalha simpatia sem igual.

O mar, que ora te beija, ora te banha,
É calmo junto a ti, de forma estranha.

EM - MEMÓRIA DAS CIDADES - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS

sábado, 14 de julho de 2012

Vénus aérea - NUNO JÚDICE


É um mistério esta claridade
que nasce de um corpo sem passado,
onde a leio numa língua sem idade,
adivinhando o seu futuro neste fado.

Caem pálpebras num cair de pano,
abrem-se dedos num florir de mão,
no seu jardim a primavera não é engano,
no seu rosal o amor está em botão.

Uma boca de pérola envolve-a de segredo,
e dela tiro um brilho de estrela.
Respiro o seu perfume sem ter medo,

acendo nos seus olhos a última vela.
Levo-a como deusa ao templo do mar,
e vejo-a despir-se como se fosse flutuar.

EM - GUIA DE CONCEITOS BÁSICOS - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Fim das verdades - ANTÓNIO MR MARTINS


No manual da virtude
se exclui o desvario;
nada gere a atitude
urdida pelo desafio.

A ambição desmedida
usurpa simples verdade
e acicata a ferida
que germina lealdade.

Há meios entre os quais
jamais se deverá seguir,
na estrada duma vida.

Suavizar nobres ideais,
à posição do permitir,
é encontrar a guarida!...

EM - MÁSCARA DE LUZ - ANTÓNIO MR MARTINS - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Labirinto - LUÍS FERREIRA


Houve um olhar,
Que vestiu o meu rosto
Submerso nos traços dos rios
Que fixaram o perímetro da pele.
O desejo perdido
Evaporou-se no último gesto
Quando se fechou o ímpeto das tardes,
No assombro de uma máscara.
Ainda espero,
Que a paisagem minta,
Afagando as urzes
Quando todas as palavras acordarem.

EM - O CÉU TAMBÉM TEM DEGRAUS - LUÍS FERREIRA - ESFERA DO CAOS

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Meu corpo teu trilho - ANGELINA ANDRADE


Procuraste em mim o trilho
Em pedaços dedilhados
Na boca sabendo a pecado
Dos beijos almiscarados
Perfume colhido em ti
Da seiva que te bebi
Teu pomo quente salgado
Teu corpo por mim cortejado
Que me toma me esventra
Me acorda em tormenta
Na trilha sedenta
Do gosto a pecado

EM - DEIXA-ME ADIVINHAR-TE - ANGELINA ANDRADE - TEMAS ORIGINAIS

terça-feira, 10 de julho de 2012

Regresso ao lar - ÁLVARO DE CAMPOS*


Há quanto tempo não escrevo um soneto
Mas não importa: escrevo este agora.
Sonetos são infância, e, nesta hora,
A minha infância é só um ponto preto,

Que num imóbil e fútil trajecto
Do comboio que sou me deita fora.
E o soneto é como alguém, que mora
Há dois dias em tudo o que projecto.

Graças a Deus, ainda sei que há
Catorze linhas a cumprir iguais
Para a gente saber onde é que está...

Mas onde a gente está, ou eu, não sei...
Não quero saber mais de nada mais
E berdamerda para o que saberei.

EM - POESIA - ÁLVARO DE CAMPOS - ASSÍRIO & ALVIM

* Àlvaro de Campos é um dos heterónimos de Fernando Pessoa

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A felicidade - JOÃO CARLOS FERREIRA


Prometo que te serei fiel
Não queiras saber o á-bê-cê
E se chorares dou-te um lenço de papel.

Não queiras saber o final
O suspense é o que faz alimentar a ilusão,
Prometo ser imparcial,
Mas sou adepto da abstracção.

Não me perguntes se sou feliz,
A felicidade é um conceito muito abrangente,
Sou eterno aprendiz,
A felicidade é imortal e omnipotente.

Não me perguntes como estou,
Às vezes a raiva flui como fel,
Outras vezes sou tempestade que amainou
E às vezes sou como folha branca de papel.

EM - REFÚGIO - JOÃO CARLOS FERREIRA - PAPIRO

domingo, 8 de julho de 2012

Aritmética da vida - EMANUEL LOMELINO


Sou a adição das virtudes e defeitos
Multiplico-me com simples desejos
Divido-me em inopinados lampejos
Subtraio de mim apenas preconceitos

Adiciono-me mais querer e vontade
Divido-me em amáveis sentimentos
Subtraio aos bons, maus momentos
E multiplica-se a minha felicidade

Sou um corpo inteiro e sou fracção
Tenho valor de ípsilon ou o de xis
Sempre submetido a uma equação

Do quadrado sou hipotenusa e raiz
Unidade de medida, grau e precisão
Sou parcela imutável, sou o que fiz

EM - AMADOR DO VERSO - EMANUEL LOMELINO - TEMAS ORIGINAIS

sábado, 7 de julho de 2012

Caminhando - ANA CASANOVA


Continuo a caminhada
Por estradas tortuosas
Escorregadias, talvez erradas...

Mas se alguém sabe o caminho
Daquelas dizem, nos trazem sorte

Amor, Saúde, Sucesso...

É que se alguém sabe
Eu apenas peço

Ajuda-me na caminhada

EM - NÓS ETERNOS - ANA CASANOVA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Consoantes Átonas - INÊS LOURENÇO


Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência

tá[c]til do beijo? Eu não nasci
nos Trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.

EM - COISAS QUE NUNCA - INÊS LOURENÇO - &etc

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Café no Campo Grande - ANTÓNIO BORGES COELHO


A árvore acompanhada
o automóvel com gente
na almofada

Um homem só

Olha pela vidraça
toma café
música e a chuva
que cai na praça

Está como um café
dentro da chávena das coisas

EM - AO RÉS DA TERRA - ANTÓNIO BORGES COELHO - CAMINHO

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Meditação... - CECÍLIA VILAS BOAS


Saí para encontrar paz de espírito
no espaço recatado da natureza.

Em silêncio e longe do mundo
no verde esperança, entre densa vegetação
apoiei minhas mãos trémulas e combalidas
no varandim do Amor infinito
desinteressado e presente
Amor de Deus.

Precisava sentir a Sua mão amiga
encontrar quietude e conforto
num lugar de culto perfumado pela essência natural
onde minha alma respirasse profundamente.

Nesta modesta cumplicidade interior
em perfeita comunhão com o Divino
fechei os olhos
elevei o pensamento
e Meditei.

EM - ÂMBAR E MEL - CECÍLIA VILAS BOAS - CHIADO

terça-feira, 3 de julho de 2012

À hora "marcada" - JOSÉ LUÍS OUTONO


À hora "marcada"
O sentimento isolou-se
Como comboio sem destino...
No restolhar da saudade
Apenas o ruído do carril
Sem vapor ou essência
Sonoriza a beira-rio
Agora moldura de pedras roliças...
Nem o silvo do rubor alcançado
Nem a velha estação esquecida
Fazem lembrar o épico da chegada...
Desço agora a estrada longe
De mão dada com a flor
Que ainda apanhei por acaso...
Abraço-a e leio-me nas horas que foram
Um nascer...

EM - MAR DE SENTIDOS - JOSÉ LUÍS OUTONO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Quem és? - NATÁLIA CANAIS NUNO


Quem és, que desarrumas a que sou?
E não te importas se amar não tens!
Salto muros, desafio os céus, e estou
Triste, triste sempre que não vens.

Tudo sabes da minha intimidade
Tu que pões meu coração ao vento!
Morrem por ti meus olhos de saudade
Em cada lágrima minha és lamento.

É contigo que sempre eu converso
Altas horas, até ao alvorecer da aurora
Meus sentimentos transformo em verso
Dentro da vida és esperança que aflora.

Quando partir em alegria ou desespero
Quero que venhas comigo deste jeito
Companheira amiga contigo quero
Adormecer levando-te no meu peito.

À poesia que vive em mim.

EM - PESA-ME A ALMA - NATÁLIA CANAIS NUNO - LUA DE MARFIM

domingo, 1 de julho de 2012

O teu berço - JAIME CORTESÃO


Bem como a ave que entrelaça o ninho
Este meu coração pus-me a ajeitá-lo...
E à força de desvelos e carinho
Fiz um berço tão bom, que é um regalo...

Depois fui lá deitar-me com jeitinho
E todo o dia e toda a noite o embalo,
E o berço bate, bate... de mansinho...
Que eu pus a vida toda em abaná-lo.

Anda... sossega... dorme um lindo sono.
Que nunca a Dor da Vida te desperte.
Que nunca o berço fique ao abandono:

Meu coração, fonte de Vida e Arte,
Se sente, canta só pra adormecer-te;
Se pulsa, abana só para embalar-te.

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM