Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
NESTE MOMENTO O TOCA A ESCREVER É PATROCINADO POR ALGUMAS EDITORAS E AUTORES QUE OFERECEM LIVROS DE POESIA.

sábado, 30 de novembro de 2013

Hino à razão - ANTERO DE QUENTAL

Razão, irmã do Amor e da Justiça,
mais uma vez escuta a minha prece,
é a voz dum coração que te apetece,
duma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
de astros e sóis e mundos permanece;
e é por ti que a virtude prevalece,
e a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
buscam a liberdade, entre clarões;
e os que olham o futuro e cismam, mudos,

por ti, podem sofrer e não se abatem,
mãe de filhos robustos, que combatem
tendo o teu nome escrito em seus escudos!

EM - SONETOS - ANTERO DE QUENTAL - ULMEIRO

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Retrato físico - BELMIRO BARBOSA

São feições do rosto, o jeito de caminhar,
tudo está retido ao alcance dos meus olhos.
Não sei se é uma vantagem enfatizar
gente a quem roubarei privacidade aos molhos.

Privacidade do inocente e relevância,
que deixa uma marca de fixar tão excelente.
Rio-me sozinho quando vejo à distância
as recordações que me surgem de repente.

Sei que roubarei às pessoas um grande ensejo
de partilha, porque o confronto é muito raro,
mas não mudo nada para que isso aconteça.

Tudo se passa naturalmente sem pejo.
Tudo se passa naturalmente e reparo
no transeunte, seus complexos sem que esqueça...

EM - SÓ CEM SONETOS - BELMIRO BARBOSA - CHIADO EDITORA

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Correm turvas as águas deste rio* - LUIS VAZ DE CAMÕES

Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio,
uas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.

EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

As minhas ilusões - FLORBELA ESPANCA

Hora sagrada dum entardecer
de Outono, à beira-mar, cor de safira,
soa no ar uma invisível lira...
O sol é um doente a enlanguescer...

A vaga estende os braços a suster,
numa dor de revolta cheia de ira,
a doirada cabeça que delira
num último suspiro, a estremecer!

O sol morreu... e veste luto o mar...
e eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
à flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas ilusões, doce tesoiro,
também as vi levar em uma de oiro,
no mar da Vida, assim... uma por uma...

EM - SONETOS - FLORBELA ESPANCA - BERTRAND

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Brilho - ALEXANDRE CARVALHO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

Ontem não sorri
faltou-me o esplendor
a mágica, o brilho do seu ouro
seu místico sorriso
qual boneca de porcelana
de olhos vidrados,
sem pestanejar, distante,
sem olhar em redor.
Remetendo-me num vazio... só isso.

EM - CAVALETE COM POESIA - ALEXANDRE CARVALHO - UNIVERSUS

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Pastor de horizontes - JOÃO CARLOS ESTEVES

algures, num sonho incerto
um pastor de horizontes soltou as lágrimas de névoa
onde a esperança repousava em flor

as palavras germinaram
no orvalho lacrimoso que o pastor soltou
e o poema ganhou vida

mas hoje
entristeceram-se as palavras,
o crepúsculo afastou-se em silêncio
e o infinito adormeceu cansado
na palma da sua mão

EM - INVENTEI-TE AS MANHÃS - JOÃO CARLOS ESTEVES - CHIADO EDITORA

domingo, 24 de novembro de 2013

Crepúsculo - LITA LISBOA

Como se rasga o tempo?
Com a treva de um grito
impossível de ecoar?

O tempo é uma fogueira
que se vai extinguindo,
é essência que declina brandamente.
Como melodia...
composição musical em três compassos.
Cada compasso, uma pulsação.
Cada pulsação, o tempo que caminha.

E o grito... projecta o tempo no silêncio.
A fogueira se dissipa
a melodia dilui-se no vazio...

E o tempo perde a luz no crepúsculo!

EM - CREPÚSCULO - LITA LISBOA - TEMAS ORIGINAIS

sábado, 23 de novembro de 2013

Beijo - RUTH CÂNDIDO

Esse teu olhar
derrete-me o coração
sinto-me como o mar
na fúria da paixão.

Meus lábios pedem um beijo
meu corpo uma carícia
estremeço de desejo
numa doce malícia!

Tuas mãos ardentes
no meu corpo vão deslizando
sinto teus lábios quentes
numa onda vou-me largando.

Os dois num só nos tornamos
em saudade e em desejo
e assim nos amamos
na memória de um beijo.

EM - UM SOPRO DO DESTINO - RUTH CÂNDIDO - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Ave adormecida - EDGARDO XAVIER

Na minha mão
O teu sexo é uma ave adormecida
Na quietude da manhã
E o teu corpo
A praia onde é serena
A voz do azul
Profundo

No sono
Todas as vontades
São líquidas

EM - CORPO DE ABRIGO - EDGARDO XAVIER - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Manhã gramatical - ANTÓNIO CARLOS CORTEZ

Faria deste céu a minha casa
e do rio a imagem fixa   eterna

Mas não possuo outras palavras
só vocábulos pobres

ardem na boca fértil mas opaca
O homem perde a pouco e pouco

o estranho sonho da linguagem
O anjo insano traz-lhe os sons da fala

Ao escrever fixa a imagem da casa
na folha em branco sabem agora

a impossibilidade de a habitar de novo
Não torna a inocente palavra a ser tocada

EM - DEPOIS DE DEZEMBRO - ANTÓNIO CARLOS CORTEZ - EDITORA LICORNE

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O outro lado - HELENA ISABEL

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

És tu, sim
O outro lado de mim.
Vento sereno do meu temporal.
Água doce do meu mar.
Amor mágico que o mar inventou!
Calaram-se as sereias,
E tudo parou.
Encontraram-se as almas
Saíram das águas,
No bosque encontraram as horas calmas.
As guitarras soaram
O fado ocultou-se,
Ouviu-se da lua a melodia.
À beira mar o luar enfeitiçava
Os beijos das ondas na areia,
Na minha viola eu tocava
Sou eu, sim
O outro lado de ti... assim!

EM - MAR QUE ME ESCREVE - HELENA ISABEL - CHIADO EDITORA

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Amnésia - CRISTINA PINHEIRO MOITA

Ó tempo,
dá-me tempo para escrever
neste tempo que passa.
Há tempo!
que a memória quer descrever
que a memória não deslace
pode falhar "sem eu querer"
grande memória me valha
quando o corpo tem prazer
pois na falha da memória
sou eu e tu
sem saber.

EM - FALUA DA SAUDADE - CRISTINA PINHEIRO MOITA - LUA DE MARFIM

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Balada de um amor triste - JOSÉ ILÍDIO TORRES

No peito não lhe cabia um coração
Que de poemas era todo ele feito
Mas nesse vazio tão cheio de solidão
O amor era de ilusão quase perfeito

Tela que pintava num afago só
Escultura graciosa que fazia incompleta
Texto sem dó que arquitectava
Sua procura não tinha partida
Nem a meta era a cura procurada

E havia em tudo o que nele não cabia
Uma espécie de peito cheio de poemas
E um vazio que por fora não se via
E era solidão de quem escrevia apenas

EM - OS POEMAS NÃO SE SERVEM FRIOS - JOSÉ ILÍDIO TORRES - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 17 de novembro de 2013

A noite - TELMA ESTEVÃO

A noite despe-se,
quente e húmida para mim,
com ela vem o sopro do vento
e o cheiro do jasmim.

Vagueio sem rumo,
tendo como companhia,
a minha própria sombra
e as palavras do meu pensamento.

Procuro o vazio da noite,
o prazer mágico,
das viagens suspensas,
nas fantasias da imaginação.

Quase me perco,
nesse turbilhão de sensações,
não consigo parar,
não quero parar...
Com estas ideias vadias,
perdi a distinção,
entre o sonho e o sonhar.

EM - PALAVRAS - TELMA ESTEVÃO - LUA DE MARFIM

sábado, 16 de novembro de 2013

Entretanto - DAVID MOURÃO-FERREIRA

Entre missas e mísseis teus irmãos
Entre medos e mitos teus amigos
Entretanto entre portas tu contigo
entretido a sonhar como eles vão

Entre que muros moram suas mãos
Entre que murtas montam seus abrigos
Entre quem possa ver deste postigo
entre que morros morrem de aflição

Entre murros enfrentam-se os mais tristes
Entre jogos ou danças proibidas
entre Deus e a droga os menos fortes

Entre todos e tu vê o que existe
Entreacto em comum somente a vida
Entre tímidas aspas já a morte

EM - MATURA IDADE - DAVID MOURÃO-FERREIRA - ARCÁDIA

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Bolero - SOFIA BARROS

Sinto-te na cadência ardente dum bolero,
turbilhão que me invade no interior da pele.
Olhas-me pressentindo o quanto te quero,
regas-me num brinde ao som de Ravel.

Sinto-te em ondas fortes de desejo,
amor consumado em altar ao relento,
consagrado na paixão ébria dum beijo
que redescobrimos a cada momento.

Sinto-te em vagas salgadas e quentes
e, juntos, navegamos nessa ondulação
que une amantes em ritmos ferventes
de rituais mútuos de adoração.

EM - ANTES DE SERMOS DIA - SOFIA BARROS - LUA DE MARFIM

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Os olhos abraçam o destino - ANA COELHO

Desci do altar
com as lágrimas nas palmas das mãos,
desfolhei todas as emoções
como um livro
que me acompanha a todas as horas.

Os suspiros
assustam o silêncio
e os passos caem lentamente
na impotência
que acorrenta a silhueta ténue.

Os olhos abraçam o destino
que parte em desigualdade fugaz,
todos os atalhos escurecem
o suor rasga os músculos
e o mundo dilui-se
em fluxos de maresia
idolatrados pelas rochas imóveis
de uma solitária praia vazia...

EM - TACTO DAS PALAVRAS - ANA COELHO - EDITA-ME

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Efeito de borboleta - DOMINGOS DA MOTA

Levita, bate asas multicores
e assopra uma brisa tão suave
que agita o sorriso das flores
e aviva o espírito das aves

Se aqui prende a atenção dos beija-flores,
mas além há tufões e tempestades
e a cadeia perversa dos pavores
que inundam e devastam as cidades,

que poder tem a frágil borboleta
para estar na origem, ser estafeta
da brisa para vento ou ciclone

Não se pode culpar sua leveza
(nem existe moral na natureza)
Que dizer do papel do bicho homem

EM - BOLSA DE VALORES - DOMINGOS DA MOTA - TEMAS ORIGINAIS

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Um corpo - JOSÉ RICARDO NUNES

Nunca imaginou
o seu passado, não dispõe de um rosto.
Experiências, histórias, princípios de factos
não o demoveram. Enrola-se
naquele lençol muito branco que lhe dá
um corpo. Um corpo,
cheio de sacadas.

EM - NOVAS RAZÕES - JOSÉ RICARDO NUNES - GÓTICA

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Houve noites...* - GRAÇA PIRES

Houve noites em que sonhei
que o sol incendiava as pedras
que eu pisava.
Ou eram os meus pés
que ateavam o fogo?
À espera que as lembranças
me tranquilizem
cubro, com o véu do tempo,
o meu verdadeiro rosto.
Desfaço a bainha
dos panos que me vestem
com a farpa desta sede lenta,
que se oculta na terra,
sem retorno.

EM - UMA EXTENSA MANCHA DE SONHOS - GRAÇA PIRES - LABIRINTO

domingo, 10 de novembro de 2013

Invento-te - SUSANA MAURÍCIO

Invento-te,
nas memórias traiçoeiras
que percorrem minha mente.

Invento-te,
nas horas em que relembro
tua boca, a minha queimando.

Invento-te,
no sentir de tua pele
roçando pelo meu corpo.

Invento-te,
meu coração dispara
e meu corpo se prepara.

Invento-te, Amor,
em cada hora de espera
de ti, em que a saudade impera.

Reinvento-te, Amor,
no passar de cada dia
em que quebramos a monotonia.

Com Amor... assim... nos reinventamos!!!

EM - EROTICAMENTE TUA - SUSANA MAURÍCIO - UNIVERSUS

sábado, 9 de novembro de 2013

Balada do Picoto - RODRIGO CAMELO

Respira um pouco. Expira mais e mais.
Avisto ao longe a cruz meu pai
e não há quem te siga para essa luz.

Subi a árvore mais alta, verti cada gota no tronco
e fiz do animal mais apto, minha bússola.
Dos que reúnem toda a história num acto.

EM - MÁQUINAS SEM ROSTO - RODRIGO CAMELO - DG EDIÇÔES

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Delírio - FLORBELA DE OLIVEIRA

Gritos de raiva saem em chamas dos céus,
e transformam-se em pombas brancas.
Ama-me, abraça-me simplesmente!
Sente-me!
Vamos voar juntos para o infinito onde os deuses nos
aplaudem.
Vamos para onde o sol também possa brilhar mais.
Vamos, vamos e sem parar chegaremos aos céus onde a vida
já não existe.
Segue-se a vida dos seres iluminados, outra vida...
Onde estou?

EM - NUVENS DE UM PASSADO - FLORBELA DE OLIVEIRA - UNIVERSUS

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Dia 262 - JOAQUIM PESSOA

Assim me perguntaste,
assim te respondi:
tudo é paixão.

Como não lamber
da tua pele, o mel
que o desejo fabrica?

E como a minha boca
não recolher o néctar
da tua boca?

Ou como não sorver
das tuas mãos o pólen
da ternura?

E se, em vez de paixão
for sexo apenas,
ou loucura?

Pode até não ser amor.
Mas, seja o que for,
não é pior.

EM - ANO COMUM - JOAQUIM PESSOA - EDIÇÕES ESGOTADAS

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Meto-me para dentro...* - ALBERTO CAEIRO

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas-noites,
E a minha voz contente dá as boas-noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 5 de novembro de 2013

às senhoras da casa Fernando Pessoa - VASCO GRAÇA MOURA

aqui vão estes papéis
como vós solicitais,
pensei que eram cinco ou seis
e afinal são muitos mais,
mas não valem cinco réis...
por isso formulo ingentes
votos de que vós depois
de os lerdes sorridentes
sejais tão benevolentes
quanto formosas já sois.

EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Constatação - JOÃO RUI DE SOUSA

Por esta encosta de enlace
por este rio de tormenta
de nada serve o disfarce
de supor que o que se tenta
fosse luz que se alcançasse.

Por esta escarpa de vidro
por esta chuva lilás
reina bem dentro e escondido
esse lume que nascido
nem retrocede nem jaz.

O meu crédito é havido
e por meu jugo capaz
de ser o tecto banido
duma casa sem sentido
de só bolor pertinaz.

EM - PAUSA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE

domingo, 3 de novembro de 2013

Foto nobre - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Não, não estou a sugerir
que a realidade não existe,
sugiro apenas que não tem mérito.
Rendo-me a toda a argumentação
em contrário e entrego,
como refém,
a fotografia da minha primeira comunhão:
aí estou eu, ignorando a miopia
e outros defeitos de fábrica,
apostado em cobrar dívidas.
Ainda que o consentissem,
não podia estar mais perdido
- por acaso podia, mas tal
ciência, como tanta outra,
ficou sepultada no negativo.

EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 2 de novembro de 2013

Queria chamar-te amanhecer - ROSA MARIA

Queria chamar-te amante... queria chamar-te amanhecer
Queria escrever um verso perfeito... chamar-te meu amor
Ser em ti o céu infinito... partir de mim e em ti anoitecer
Queria nos braços da madrugada ser o aroma duma flor

Queria regressar ao teu sorriso pelas veredas da saudade
Escrever-te um poema de amor e guardar-te todo em mim
Fazer do teu corpo o meu sonho... do teu olhar a eternidade
Nas tuas mãos meu amor entregar a minha alma nua de ti

Queria meu amor esquecer os medos e vestir-me de paixão
Envolver-te docemente no meu corpo... despida de mágoas
Doce como o luar... vestir-me de amor e renascer na ilusão
Ser uma estrela a iluminar a noite... o remanso das águas

Queria romper espaços... dançar ao som de acordes insanos
Ter a insanidade da paixão e a insensatez de uma criança
Saltar abismos... subir montanhas e esquecer os desenganos
Deixar enfim que a vida me envolva num mar de esperança

Queria ser um instante na madrugada... vestir a noite de desejo
Ser o tudo e o nada... uma música suave... um corpo de ternura
Dançar a valsa da solidão e prender o infinito num doce beijo
E rodopiar assim eternamente nos braços dolentes da loucura

Queria escrever um eterno poema de amor... de amor amante
Sereno como o silêncio das rosas e tão profundo como o mar
Que vestisse o meu corpo de maresia... apenas por um instante
Que perfumasse de pétalas de rosas este meu longo caminhar

EM - A ESSÊNCIA DAS COISAS - ANTOLOGIA - EDIÇÕES PAULA OZ 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Vidas a eito estragadas - ANTÓNIO MR MARTINS

Balança enfim a corrente
que orienta os sentidos,
trajando de outra vertente
e nos toma por foragidos.

Surgem múltiplas contradições,
subtilezas noutros capítulos,
restando sempre as condições
para sorridentes títulos.

Sorteiam taxas sem nexo
e juros sem tempo de mora
numa cabala sem medida.

Baixam proventos em anexo,
sobem impostos a toda a hora
e estragam-nos assim a vida.

EM - MANIFESTO ANTICRISE - ANTOLOGIA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA