Fomos os dois à terra preciosa
tão celebrada e nunca bem descrita
onde Flora se veste caprichosa
e Bernardim cantou sua desdita.
Enquanto Amor na ameia pedregosa
de lado põe as setas e dormita,
a sua branda fala, caudalosa,
em espanto e comoção se precipita.
Ouvindo elogiar Amor acorda.
Quer ver também. E à denegrida borda
ligeiro trepa sem que alguém o note.
Olha, sorri-se com supremo enfado
e vai pôr-se a espreitar, todo enlevado,
pelo teu pequeno, triangular decote.
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segunda-feira, 21 de março de 2016
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Distância - ANTÓNIO GEDEÃO
Quantas vezes me perco e desespero
com doidas saudades que me assaltam
desses teus olhos que de amor se exaltam,
desses teus lábios por que tanto espero.
Sonhando, quantas vezes regenero,
as divinas carícias que me faltam.
Acordado, mais doces se ressaltam
porque mais compreendo que te quero.
Às vezes sinto em mim tão negro luto
que penso dar a vida para ter-te
junto ao meu peito apenas um minuto.
Pobre de mim, sem me lembrar que ao dar-te
a minha vida toda para ver-te,
ia ficar sem vida pr'adorar-te!
EM - OBRA COMPLETA - ANTÓNIO GEDEÃO - RELÓGIO D'ÁGUA
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Máquina do mundo - ANTÓNIO GEDEÃO
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
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Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
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sábado, 4 de abril de 2015
Reflexão total - ANTÓNIO GEDEÃO
Recolhi as tuas lágrimas
na palma da minha mão
e mal que se evaporaram
todas as aves cantaram
e em bandos esvoaçaram
em torno da minha mão.
Em jogos de luz e cor
tuas lágrimas deixaram
os cristais do teu amor,
faces talhadas em dor
na palma da minha mão.
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na palma da minha mão
e mal que se evaporaram
todas as aves cantaram
e em bandos esvoaçaram
em torno da minha mão.
Em jogos de luz e cor
tuas lágrimas deixaram
os cristais do teu amor,
faces talhadas em dor
na palma da minha mão.
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sábado, 23 de agosto de 2014
Amostra sem valor - ANTÓNIO GEDEÃO
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
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Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
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terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Poema da selva - ANTÓNIO GEDEÃO
Se eu não fosse eu, teria ido além
e voltado contente.
Como não fui, resta-me este degrau
p'ra pensar nisso.
Andar no mundo
é como atravessar o continente negro
do berço à contracosta.
Vai-se crescendo e andando. Sonhando enquanto é tempo.
Depois...
Depois todos o sabem. As metáforas são fáceis.
São os olhos que espreitam na escuridão do mato,
redondos como sóis e acesos como chamas.
São os uivos, mais longos do que o fôlego,
que brocam a folhagem e esfrangalham os nervos.
São os ruídos secos, rasteiros e insinuantes,
no restolho macio, almofadado e húmido.
São os silêncios, os crivos de buracos imensos,
engolidores de espasmos e de espantos.
São isto e mais aquilo.
São aquilo e mais isto.
E assim por aí fora.
Todos o sabem no momento certo.
É só esperar um pouco.
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e voltado contente.
Como não fui, resta-me este degrau
p'ra pensar nisso.
Andar no mundo
é como atravessar o continente negro
do berço à contracosta.
Vai-se crescendo e andando. Sonhando enquanto é tempo.
Depois...
Depois todos o sabem. As metáforas são fáceis.
São os olhos que espreitam na escuridão do mato,
redondos como sóis e acesos como chamas.
São os uivos, mais longos do que o fôlego,
que brocam a folhagem e esfrangalham os nervos.
São os ruídos secos, rasteiros e insinuantes,
no restolho macio, almofadado e húmido.
São os silêncios, os crivos de buracos imensos,
engolidores de espasmos e de espantos.
São isto e mais aquilo.
São aquilo e mais isto.
E assim por aí fora.
Todos o sabem no momento certo.
É só esperar um pouco.
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terça-feira, 9 de julho de 2013
Estatística - ANTÓNIO GEDEÃO
Quando eu nasci havia em Portugal
(em Portugal continental
e nas ridentes,
verdes e calmas
ilhas adjacentes)
uns seis milhões e umas tantas mil almas.
Assim se lia
no meu livrinho de Corografia
de António Eusébio de Morais Soajos.
Hoje, graças aos progressos da Higiene e da Pedagogia,
já somos quase dez milhões de gajos.
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(em Portugal continental
e nas ridentes,
verdes e calmas
ilhas adjacentes)
uns seis milhões e umas tantas mil almas.
Assim se lia
no meu livrinho de Corografia
de António Eusébio de Morais Soajos.
Hoje, graças aos progressos da Higiene e da Pedagogia,
já somos quase dez milhões de gajos.
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Distância - ANTÓNIO GEDEÃO
Quantas vezes me perco e desespero
com doidas saudades que me assaltam
desses teus olhos que de amor se exaltam,
desses teus lábios por que tanto espero.
Sonhando, quantas vezes regenero,
as divinas carícias que me faltam.
Acordado, mais doces se ressaltam
porque mais compreendo que te quero.
Às vezes sinto em mim tão negro luto
que penso dar a vida para ter-te
junto ao meu peito apenas um minuto.
Pobre de mim, sem me lembrar que ao dar-te
a minha vida toda para ver-te,
ia ficar sem vida pr'adorar-te!
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quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Arma secreta - ANTÓNIO GEDEÃO
Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.
Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.
A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.
Erecta, na torre erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal de partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.
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segunda-feira, 21 de junho de 2010
Canção do oboé - ANTÓNIO GEDEÃO
Habita no meu sangue como um solo de oboé.
Inexistente e imaginada
é toda feita de nada
mas necessária como o ar que não se vê.
Com os pés alados das semicolcheias
que estravasam da pauta,
baila no estrado olímpico das veias,
descontraída, turbulenta, incauta.
Oiço-a acordado e sinto-a adormecido
nas ondas largas que no sangue vão
como o transístor que se encosta ao ouvido
e apenas ouve quem o tem à mão.
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quarta-feira, 26 de maio de 2010
Poema sem esperança - ANTÓNIO GEDEÃO
Toda a esperança que tive a dividi
por quantos a quiseram receber.
Deles espero agora que a devolvam
com novo rosto e acrescentado juro.
A esperança era fingida, toda feita
de conscientes manhas e de enganos,
tão bem arquitectada que passava
por sincera, vivida, verdadeira.
Era uma esperança imposta, necessária
para as voltas dos dias e das noites,
sem roupagens, sem véus, sem adereços
como na estatuária se apresenta.
Uma esperança sem esperança, alimentada
a soro e drogas no hospital das letras:
no escuro, ensimesmada como um feto;
na luz, extravasada como adulto.
Transferindo-me a outros me recolho
e me fico, de ouvidos apurados,
num solitário andar entre automóveis
nas poluídas ruas da cidade.
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domingo, 25 de abril de 2010
Pedra filosofal - ANTÓNIO GEDEÃO
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contaponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
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segunda-feira, 29 de março de 2010
Lágrima de preta - ANTÓNIO GEDEÃO
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas,
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
in... Obra completa - ANTÓNIO GEDEÃO - Relógio D'Água
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