Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O que é dito - MANUEL ANTÓNIO PINA

Alguma coisa em algum lugar
de o que existe e de o que não existe
é isto que escreve e a ciência de isto
a pura voz sem sujeito e o fora de ela.

Esta mão é um acontecimento improbabilíssimo
que o infinito e a eternidade atravessam,
alguma coisa fala de si própria através de ela.
De que pode ela falar senão de tudo?

O que está dentro e o que está fora
e vê e é visto de toda a parte
é o mesmo e o outro
e tudo isto é sabido em mim.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 8 de setembro de 2013

Forma, só forma - MANUEL ANTÓNIO PINA

Brincarei ainda na infância
lembrando-me agora?
E que recordação
me pensa a esta hora?

O que sou passou
Pela minha existência,
tenho uma presença
mas já lá não estou:

sou também lembrança
de alguém em algum sitio,
onde não alcança
o que, lembrado, sinto.

E aí repousa já
tornado esquecimento
um dia que virá
há muito, muito tempo.

EM - CEM POEMAS PORTUGUESES SOBRE A INFÂNCIA - ANTOLOGIA - TERRAMAR

sábado, 31 de março de 2012

Não o sonho - MANUEL ANTÓNIO PINA

Talvez seja a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 21 de março de 2012

Chico - MANUEL ANTÓNIO PINA

Talvez não fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.

Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem

muros, fecham janelas,
o medo
é a sua fortaleza.

O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 11 de março de 2012

Nenhuma música - MANUEL ANTÓNIO PINA

«O gato olha-me
ou o meu olhar olhando-o?
E eu o que vejo senão
a mesma Única solidão?

Chamo-o pelo nome,
pela oposição.
Em vão:
sou eu quem responde.

Virou-se e saltou
para o parapeito
real e perfeito,
sem nome e sem corpo.
(Também eu estou,
como ele, morto).»

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 1 de março de 2012

Morada - MANUEL ANTÓNIO PINA

Sozinho na grande cama,
perdido nos seus frios corredores,
ouço, de quartos interiores,
a tua voz que me chama.

Do fundo da noite enorme
onde pouso a cabeça por fora
a tua voz de alguém acorda-me
como num sono insone.

Como se a tua voz agora
antigamente me chamasse
e tudo, menos a tua voz, faltasse
fora da minha memória.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mateus, 26, 26 - MANUEL ANTÓNIO PINA

Tomai, este é o meu corpo:
formas e símbolos.

Fora de mim, o meu reino
desmembra-se dentro de mim.

E o que fala falta-me
dentro do coração.

E estou sozinho fora de mim
como um coração fora de mim.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Voyager - MANUEL ANTÓNIO PINA

Um instante, um só instante,
do azul ao vermelho, da música ao fogo!
Por que não encontra o sangue o seu lugar
entre os dispersos mundos?

Perde o viajante
o caminho de regresso.
No cristal do coração
que nenhum sono embacia,
fulgem imagens de imagens
de frios sonhos desfeitos.
algum país voltado para fora
lhe abrirá as vastas portas
e ele repousará enfim
sem noite e sem memória.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Os tigres de Tosamurai-no-ma - MANUEL ANTÓNIO PINA

Ninguém os vira antes, nem Naonobu,
emboscados na matéria da madeira
inexistindo puros e interiores.

Capturados pela astúcia do carmim
e do oiro na cerimónia da pintura
correm imóveis entre as cerejeiras.

Os seus olhos impacientes
presos do lado de fora
fitam com ira os turistas.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Os rouxinóis do chão - MANUEL ANTÓNIO PINA

Rouxinóis guerreiros guardam
o chão de Ninomaru
seu canto unânime acorda
sob o tropel dos turistas

Às portas dos quartos não
se sobressaltam os guardas
nem as sentinelas chamam
do alto dos torreões

Onde os Tokugawa dormem
não chegam os inimigos
Das paredes pendem as
espadas embainhadas

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O intruso - MANUEL ANTÓNIO PINA

Se me voltar fico
diante do meu rosto,
não suportarei
o meu puro olhar.

Quem me procurará
entre os homens?
Um intruso grita
dentro de mim, oiço-o no coração

como um irmão medonho
sonhando a minha vida
por outro vivida
em mim, também um sonho.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O regresso - MANUEL ANTÓNIO PINA

Matéria, corvo
comedor de crias.
Um rio árduo corre
fora de si mesmo.

É tarde em qualquer parte
como se eu lá estivesse.
Volto para casa,
imóvel foz de sangue.

O coração é feito
de ardentes sedas
por que respira a morte,
os sonhos feitos de outros sonhos.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A quarta porta - MANUEL ANTÓNIO PINA

É a solidão
o que o coração procura,
como poderei não
saber o que não sei?

Estou cada vez mais longe de qualquer coisa,
regressarei alguma vez
a tudo o que há-de vir?
O que está atrás de ti

é a imagem
que o Futuro persegue.
Este é um lado de tudo
e o outro é o mesmo e o outro.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 17 de dezembro de 2011

A pura falta - MANUEL ANTÓNIO PINA

Tudo é sabido onde
alguma coisa fala de si própria
e de falar de isso
e de falar de falar.

Aquilo que está cada vez mais longe,
a pura falta de coisa nenhuma,
é o que Conhece e É
a sua indizível inexistência.

Nós, os maus, onde
é fora de fora de tudo,
eternamente regressamos
ao sítio de onde nunca saímos.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Antes do princípio - MANUEL ANTÓNIO PINA

Este é o traidor, o filho
os seus puros olhos param
debaixo da cabeça,
em silêncio percorrem a Morte,

o passado, as palavras omitidas.
Só aquele através de cujo horror
a Literatura escrever
se tornam faladores.

aqui está a calúnia, o silêncio,
aquilo que não tem nada para dizer,
eu morro debaixo de isto e de tudo
e tudo isto é sabido para mim.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 27 de novembro de 2011

Aquele que quer morrer - MANUEL ANTÓNIO PINA

São chegados os tempos escandalosos
da Morte e da Inocência.
Aquele que quer saber e
apodrece de fora para dentro

dança já sobre os destroços do Futuro
com voláteis pés conceituais.
O sentido de tudo faz parte de tudo,
o Mistério não pode ser ocultado nem revelado.

Tudo o que passou
está a ser passado infinitamente
e o Futuro é a eternidade de isto
e tudo é sabido em si próprio.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Transforma-se a coisa estrita no escritor - MANUEL ANTÓNIO PINA

Isto está cheio de gente
falando ao mesmo tempo
e alguma coisa está fora de isto falando de isto
e tudo é sabido em qualquer lugar.

(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto;)
o escritor é uma sombra de uma sombra
o que fala põe-o fora de si
e de tudo o que não existe.

Aquele que quer saber
tem o coração pronto para o
roubo e para a violência
e a alma pronta para o esquecimento.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A pura luz pensante - MANUEL ANTÓNIO PINA

Tudo é tudo ou quase tudo
e nada é a mesma coisa.
Na realidade são tudo coisas indiferentes.
(Imagens... Imagens... Imagens...)

É este o caminho da Inocência? Exis-
te tudo e a aparência de tudo. (Imagens...)
Totalmente tolerante é
a matéria metafórica da infância.

Tenho que tornar a fazer tudo,
a emoção é um fruto fútil, a pura luz
pensando dos dois lados da Literatura.
Aqui estão as palavras, meti o focinho nelas!

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 30 de outubro de 2011

O último dos homens - MANUEL ANTÓNIO PINA

Não há nada e não o sei
e a ciência de tudo é impossível e a
ciência da ciência da impossibilidade de tudo
Já fiz tudo, já aqui estive, já li tudo!

Aquele que quer morrer
dança sobre os destroços de tudo.
Ó insolência da escrita! Lá vens tu, ó fa-
diga, ó lágrimas!

Difícil solidão (de cócoras) a do escriba,
atravessa o deserto às costas do melhor amigo.
Tem que se lembrar de tudo
pequenas frases, umas primeiro outras depois

EM -  POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Agora é - MANUEL ANTÓNIO PINA

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor     agora
isto vai devagar
isto agora demora

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM