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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Caminhos – Debora Pio

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Eu tenho dores
Que a ninguém interessam
Tenho amores
Que já partiram
Para outros destinos 
Ou mesmo morreram
Um mar enorme
Sal a arder os olhos
Um coração defeituoso
Não gera lágrimas 
Só dor.
A lua, imensa, reina absoluta
Silêncio 
Silêncio 
Somente o ruído de mansas ondas
A desfazer a lua na areia 

 EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 4 de março de 2025

Meu pai, o jatobá - Debora Pio

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Abraçavas o jatobazeiro e fechavas os olhos
Esboçando um leve sorriso
Um gesto de humilde meditação
Comunicação com a mãe
Sempre gostaste de tirar os sapatos
Sentir a terra, a água, a areia, o sol
Embalando os teus pés
Os teus pensamentos
Teus olhos verdes iam então para o horizonte infinito
Alisavas com as tuas mãos as rugas do tronco das árvores
Onde o mapa do tempo conta histórias.
Quando, juntos, por ali passávamos
Ali onde fica o jatobá ancestral
Levemente erguias o chapéu
E com voz emocionada e rouca, dizias:
- Ó, meu jatobá!
Davas-lhe, assim, um abraço
Aquele – de respeito pela Natureza.
Duma feita, deste-me uma grande semente
Caída daquele jatobazeiro.
Guardei-a.
Inocência
A peste levou-te
Hoje, temos a semente plantada na terra, junto contigo
Retorno telúrico
Destino de todos os viventes
Um dia
Comungarei convosco.

Pai, in memoriam.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Urbanismo - Debora Pio

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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A cidade de dia
As calçadas livres, limpas
Por assépticas
Vitrines, glamour
Inúmeros passantes
O vai-e-vem interminável
Movimento.
Noite
Como por ficção
As calçadas vão se enchendo
De invisíveis seres
Aparecem colchões, cobertas,
Uma caixinha de feira, de madeira, faz a vez de criado-mudo
Aparece uma flor numa garrafa vazia
O design interior dos sem-teto,
Dos invisíveis
Alguém lê um livro, apoiado a um amontoado de roupas
A estética noturna
Os ônibus passam,
Pela janela, na velocidade da luz,
Os invisíveis permanecem invisíveis.
Sob o caixa 24 horas do Banco Nacional
Alguém se cobre por inteiro, para poder dormir. À mostra,
O ícone dalgum santo e um copinho de papel, com algumas moedas de menor valor.
Menor valor...
E seguimos, passageiros.
O farol abriu.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VIII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 28 de janeiro de 2023

Tardes - DEBORA PIO

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O cheiro do mar
das férias da infância
Vejo as minhas mãos pequenas
a tentarem abarcar o mundo
que era espuma
a espumas das ondas, que ia e vinha
avançava e recuava
o castelo de areia
o mormaço
Aquele calor preguiçoso
Vontade de dormir
Embalada pelo som daquele quebrar das ondas
Oceano aberto
A brisa noturna
A aumentar o arrepio
Da febrícola provocada pelo excesso de sol
De sal
Os olhos quase cerrados
Fata Morgana
A ilha que não havia
A areia que levitava
A infância que se foi
Com o amanhecer.
A menina que já não era
Que já não sou
Mas as mãos, pequenas
Ainda querem abarcar o mundo
Um mundo de areia
Que se esvai
Que se esvai.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 20 de novembro de 2022

Ruptura - DEBORA PIO

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Este chão
Tão pisado por mim
Subitamente faz-se desconhecido
A morte do patriarca
Fez com que a tribo
Se desestabilizasse
Fendas
Rupturas
Não há retorno
O que há é
Um caminho novo a ser aberto
A custo de dor
A custo de suor e sal
Pisemos.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 2 de julho de 2022

Jogo partido - DEBORA PIO

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Quebrei-me em mil pedaços
E já não consigo juntar-me
Uma parte minha, foi-se com meu pai, morto de surpresa
por uma dessas peças que a vida nos prega
Outra parte voa sem destino determinado, voa e observa
às vezes, noutras – sonha
Ainda há uma parte que se despedaça por tragédias alheias
Mas que nunca são totalmente estrangeiras
Uma vez que o barro que fez Adão, fez a todos nós
Ao Norte há frio e guerra
Ao Sul, pecados de cores que nunca amainam
Pecados de aromas e ritmos
Fazendo com que a vida seja uma celebração intensa
Como farei eu
Para seguir assim, em pedaços, partes que não se concatenam
Pedaços de outro quebra-cabeças
Como se ajuntados por um deus desconcentrado e preguiçoso
Como farei eu para seguir?

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

De passagem - DEBORA PIO

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In memorian, Lui

Em teus olhos
Havia mais morte que vida.
Assim como uma dona de casa
Que estende a roupa limpa no quintal
Em dia de chuva
foste vivendo.

Vez por outra uma placidez invadia-te as feições
Que em geral eram algo entre triste, tenso e morto,
Como as folhas que caem, ainda são folhas e podem até estar verdes
Mas já não têm vida.
Ainda me lembro
Daquela tarde em que, juntos, olhávamos o mar, em silêncio.
Teu rosto, enigmático
De estátua sem olhos
Teu corpo, naquele usual abandono a si mesmo
A respiração, leve
Subitamente, um suspiro. Tua mão segurou a minha.
Naquele momento, foi como se tivesses despertado mas quisesses
ainda lá ficar, onde estiveras há um instante...
Depois disso, foste-te afastando. Deixei. Não havia nada a fazer.
Um dia, percebi que já não estavas... distância e neblina.

Muito tempo se passou
Seguimos por caminhos diferentes
Voltas e voltas, vertigens
Também o planeta deu voltas
Assim como os ponteiros do relógio
- objeto que abominavas!
Num certo fim de tarde ofereceram-me um envelope pardo
Onde havia algumas fotos
Disseram-me que era tudo o que guardaste, mais umas outras
coisinhas, como pedras e conchas

Aguardei o momento
Momento
Tu sempre odiaste o passado, raramente te referias a ele
E eis que a minha herança foram as fotos daquele dia, no mar
Eu e tu, de mãos dadas.
Tu já não habitavas entre nós
Eu não soube o que fazer
Então coloquei o disco do Albinoni para tocar.

Fica em paz, mar imenso!

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÃNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Tela - DEBORA PIO

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Tela em branco
Papel em branco
Branco
O branco nas ideias
A angústia do poeta
Pois o poema não se derrama na página
No imaculado papel

Deixar a música do vento
Penetrar os meus ouvidos, os meus pensamentos
Na vã tentativa de
Domesticar desejos selvagens.
Você ali, eu aqui
Anseios tão distintos que nos unem, nos separam
A música do vento
Que varre o papel...
Eu, a tentar – inutilmente, construir o quebra-cabeças
do pensamento
Unindo letras de alfabetos numa poção mágica que não resulta
E o peito, por isso, parece prestes a explodir
Faz frio e o pássaro metálico, que vive na copa da árvore diante
da minha janela,
Canta – canta é força de expressão – bate notas metálicas,
de manhã e de tarde
E você
Diz que é para cá que deseja voltar.
Pergunto-me se para os pássaros haverá abismos...
Faz-se escura a noite
O poeta, angustiado, concretiza ser noite de domingo
Pensa no sexo frio

Na semana mesma

Igual
No cinzento que será o amanhecer...
E o pássaro metálico, canta.

A vida passa num triz
E é escrita a giz.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÂNEA - IN-FINITA