Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

À beira do caminho - LUÍS FERREIRA

Não quero ferir a sedução das palavras,
Nem arruinar os vestígios dos ecos
Que se soltam ao vento,
Traçando uma linha infinita,
Como um caminho até à foz.
Não quisera eu fugir,
À natureza que emanava de mim,
Incendiando os momentos
Trazendo sempre o verbo amar nos dedos,
Para se transfigurar nos poemas.
Esse é o caminho do poeta,
O meu... e de todos os que seguirem estes passos
Degrau a degrau... como se o céu me chamasse
Num voo que um dia sonhei,
Transfigurando o meu eu
Entre as sementes dos meus livros.

EM - O CÉU TAMBÉM TEM DEGRAUS - LUÍS FERREIRA - ESFERA DO CAOS

domingo, 29 de setembro de 2013

Pautas - CECÍLIA VILAS BOAS

Escrevo pautas de música intensa
Acordes que dilaceram o meu ser
Jazigos de palavras silenciadas.

Estranho desvario!
Por que me arrasta este pesar?
O que sou, o que anseio afinal?

Neste negro, denúncia de perdição
No emaranhado de sentires já finados
Escrevo o prelúdio, dum final anunciado.

EM - O ECO DO SILÊNCIO - CECÍLIA VILAS BOAS - ESFERA DO CAOS 

sábado, 28 de setembro de 2013

VI - PAULO EDUARDO CAMPOS

entre nós existe a distância de um labirinto
uma casa de campo fechada durante anos
com tudo o que o tempo traz:
memórias, pó, teias de aranha...
eu existo na noite
eu existo nas noites que te seguem,
nas sombras dos corpos, nas almas antigas.
sou a passagem, a pedra tumular e secreta
para o outro lado,
para o tempo que não queremos acreditar.

EM - A CASA DOS ARCHOTES - PAULO EDUARDO CAMPOS - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Água - LÍDIA BORGES

És a melodia das fontes
a festa dos rios das cascatas.
És o sossego dos montes
na sede que neles matas.

És a minha inspiração
minha alegria
meu mar minha harmonia.

Um violino um piano uma flauta...
Ninfa que corre incauta
ao som de um belo hino.

Água da minha sede
não me faças esperar.
Pode ser que eu consiga
beber-te sem me afogar.

EM - NO ESPANTO DAS MÃOS - O VERBO - LÍDIA BORGES - LUA DE MARFIM


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Cereja chocolate - JOSÉ LUÍS OUTONO

Repito-me neste dizer
De um nome que és
Cereja...
De um ser que vives
Nos amores de (a)mares...

Repito-me neste querer
Ter o teu nome, no meu olhar
Chocolate...
Demorar na languidez do gesto
E adormecer na tua caligrafia!

EM - MAR DE SENTIDOS - JOSÉ LUÍS OUTONO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Quantum de luz - ANA MARQUES GASTÃO

Sinto o bater d'um coração
fulgurantemente tosco
e pressinto, na ressonância
de meu pé, um súbito degrau
em radical recomeço.

Enquanto a vida age,
corro, às avessas, por dentro
dos olhos. A acuidade
visual é máxima,
traçada de mínio.

Não que a proteína opsina
tudo altere em meu olhar
de pigmentos dispersos,
apenas imagino,
nereide e neptúnica,
um quantum de luz.

EM - ADORNOS - ANA MARQUES GASTÃO - DOM QUIXOTE

terça-feira, 24 de setembro de 2013

XXIV - DANIEL AFONSO

percorri a tarde imensa
junto ao rio largo
tardes de domingo de outrora
senti o teu perfume
penso que aquele gesto ao vento seria o teu
não te vi
adivinhei-te apenas
incerteza do sentido
acariciei-te a alma
quando te percorria o veludo da tua pele

largo é o rio
larga é a memória dos teus gestos
na torrente das águas

EM - DIAS DE SETEMBRO - DANIEL AFONSO - UNIVERSUS

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quando a alma chora - ANA COELHO

No íntimo do corpo
a alma chora
nos contornos do sorriso
que os olhos chamam
em toadas audíveis
sussurram segredos a desvendar...

A silhueta inclina-se
em arte de inquietação
e os milagres
escorrem até ao limite dos pés...

Um rosto leve e potente
rasga o céu em luz
o corpo enruga-se
na pequenez desprovida...

O peso descai
o fardo cobre-se em leveza
na insustentável excelência do crer...

EM - O TACTO DAS PALAVRAS - ANA COELHO - EDITA-ME

domingo, 22 de setembro de 2013

O que quis ser? - ALEXANDRE CARVALHO

Barbeiro, jornaleiro
aguadeiro, ou Tanoeiro?
Em terra de toureio
quis ser forcado
cavaleiro ou toureiro.
Imaginariamente fiz arte,
fui bombeiro,
não fui aviador...
Todos desaparecemos
com ou sem dor
mas na memória,
a memória cultural
perdurará escrita
num qualquer mural.

EM - CAVALETE COM POESIA - ALEXANDRE CARVALHO - UNIVERSUS

sábado, 21 de setembro de 2013

Falta poetas - CARLOS TEIXEIRA LUÍS

Falta poetas
no poema do horizonte de todos os dias
falta corpo
às ancas dançantes da mulher que ri
Ó Vitor Hugo
que seria do teu homem que ri se não
o fosse
por que não uma mulher bem mais velha
que o pobre
vagabundo a quem faltava inteligência
falta poemas
no fórum dos gregos esquecidos
Virgílio por
exemplo ou não era grego
falta-me poesia
para um dia feliz com pouco sol

EM - HOMEM-ÁRVORE - CARLOS TEIXEIRA LUÍS - LUA DE MARFIM


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Dizer adeus - JOSÉ MOURA

Fui para aí para te ver
Uma viagem que foi em vão.
Cheguei à tua terra, não pode ser,
Regressei contigo no coração.

Disseste que esperavas por mim
Esse desejo não aconteceu,
Fui à tua terra e não te vi,
Esse meu sonho desapareceu.

Partiste sem dizer adeus,
Disseste que a culpa era minha.
Ir ao teu encontro era um sonho meu,
Fui-me embora porque não vinhas...

EM - PALAVRAS QUE DIZEMOS... - JOSÉ MOURA - UNIVERSUS

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Adivinha - CRISTINA SILVEIRA DE CARVALHO

se fosse sábado agora
e os gestos se soltassem
ao sol macio deste abril

se me olhasses devagar
na magia que (pres)sinto

se adivinhasses o meu nome

verteria nas tuas mãos
os meus olhos de água.

EM - UM INSTANTE ASSIM - CRISTINA SILVEIRA DE CARVALHO - LUA DE MARFIM

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Limites - LISETTE ALVARINHO

Tinha o azul para pintar
Um sonho vago, eloquente.
Estar ali e poder ficar
Nesse palco vazio, decadente.
Num espaço apertado, circunscrito,
Onde o limite a traçar
Só seria o infinito.
Uma tela enorme, vaga e fria,
Do longo caminho percorrido
Perdida na nostalgia
Dum Outono adormecido,
Que deu lugar ao Inverno,
Dessa tão longa corrida.
Um sopro suave, calmo e terno,
Neste percurso da vida.

EM - TRANSPARÊNCIAS - LISETTE ALVARINHO - UNIVERSUS

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Frase inacabada - ALBERTO RIOGRANDE

Tem calma, o teu corpo está a desaparecer
no passeio de domingo. Lamentas
o frio da tarde, mas os teus olhos
são um farol adormecido
num porto sem cordas, sem navios.
Agora abraçamos o vento
naquela força brutal com que os braços
se apertaram em voltas e mais voltas
no vendaval do desejo. Ah, os passos
repetidos no cinzeiro da tarde
são amarelo, azul, preto, amarelo,
na imperfeita lucidez da frase inacabada.

EM - OFÍCIO DOS PÁSSAROS - ALBERTO RIOGRANDE - LUA DE MARFIM

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Tatuagens... - CAMILO PESSANHA

Tatuagens opulentas do meu peito!
Tropheus, emblemas, dois leões alados...
Mais, entre corações engrinaldados,
Um enorme, soberbo amor-perfeito.

E o meu brazão. Tem de oiro, n'um quartel
Vermelho, um liz; e no outro uma donzella,
Em campo azul, de prata o corpo, - aquella
Que é no meu braço como um broquel.

Timbre: rompente, a megalomania.
Divisa: um ai, que insiste noite e dia
Lembrando ruínas, sepulturas rasas,

Entre castellos, serpes batalhantes
E aguías de negro desfraldando as azas,
Sobre que realça o oiro dos besantes.

EM - CLEPSYDRA - CAMILO PESSANHA - RELÓGIO D'ÁGUA

domingo, 15 de setembro de 2013

Mudam-se os tempos... - LUIS VAZ DE CAMÕES

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança,
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro e doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO CLÁSSICOS

sábado, 14 de setembro de 2013

Sonetos - ANTÓNIO BOTTO

Enganei-me julgando que podia
facilmente deixar de pertencer
a esta dolorosa cobardia
de que é feito afinal o meu viver.

Sim, julguei que era fácil esquecer
a penetrante e funda melodia
que entre nós é frequente aparecer
num gesto ou num olhar de simpatia.

Mas ai!, mal me encontrei na solidão
partiu-se todo o aprumo da firmeza
de encontro à minha eterna sujeição...

Era impossível! Não direi mais nada
- o resto é perguntar à natureza
se a noite vai além da madrugada.

EM - CEM SONETOS PORTUGUESES - ANTOLOGIA - TERRAMAR

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Alpenduradas no sonho... - VITOR CINTRA

Alpenduradas no sonho,
há vagas de ilusão
adormecendo a vida.

Esquecidas do tempo,
espirais de odores
ornamentam os pináculos da paixão,
acolchoando o sentir.

Na sofreguidão epidérmica,
guardiã do desejo,
diálogos luxuriosos vagueiam sensibilidades.

Ofegando,
crescem instantes.

EM - NAS BRUMAS DA MAGIA - VITOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Somos um país - MARIA JUDITE DE CARVALHO

Somos um país do sim
o da tristeza em azul,
tudo o que existe é assim
neste sul.

Mostramos o sol e o mar
e vendemo-lo a quem tem,
para podermos aguentar
o que vem.

Ah, país do fato preto,
meu país engravatado
do grande amor em soneto
da grande desgraça em fado.

EM - CEM POEMAS PORTUGUESES SOBRE PORTUGAL E O MAR - ANTOLOGIA - TERRAMAR

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A actriz incendiada - JOSÉ JORGE LETRIA

Desaparece, como puderes, no meio
dos sobressaltos do vento e da espuma
e, se tiveres uma visão, que seja
a das sombras amotinando-se
contra a mitigada luz que as mantém
cativas e ténues. Liberta-te da chuva, agora,
das suas estrias húmidas, da sua geometria
lisa e límpida, e proclama  sem medo
o prodígio do sol sobre as areias,
no grande palco do silêncio das vozes,
actriz incendiada pela volúpia do estio.

EM - POESIA ESCOLHIDA - JOSÉ JORGE LETRIA - UC

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Contribuo... - ALBERTO PIMENTA

Contribuo
com o que posso
para
a lixeira cultural

não é muito eu sei
outros dão muito mais
eu não passo de um amador

enfim
o importante
é cada um dar o seu melhor
como dizem os irresponsáveis

EM - CEM POEMAS PORTUGUESES DO RISO E DO MALDIZER - ANTOLOGIA - TERRAMAR

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Reter o desenrolar da vida - ANTÓNIO MR MARTINS

Submeti-me à aprendizagem
desse belo tema que é a vida,
reflectindo-o numa imagem
de uma variedade sortida!...

Inquiri-me sempre a preceito
do que concerne seu caminhar,
sem a resposta do mesmo jeito
tenho-a sentido então passar!...

Reuni-me em tantos sentidos,
uns pelo bem, outros pelo mal,
sem de tudo me ter inteirado...

Foram os maus substituídos,
os bons envolvidos, no seu final,
no presente sempre resguardado!...

EM - MÁSCARA DE LUZ - ANTÓNIO MR MARTINS - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 8 de setembro de 2013

Forma, só forma - MANUEL ANTÓNIO PINA

Brincarei ainda na infância
lembrando-me agora?
E que recordação
me pensa a esta hora?

O que sou passou
Pela minha existência,
tenho uma presença
mas já lá não estou:

sou também lembrança
de alguém em algum sitio,
onde não alcança
o que, lembrado, sinto.

E aí repousa já
tornado esquecimento
um dia que virá
há muito, muito tempo.

EM - CEM POEMAS PORTUGUESES SOBRE A INFÂNCIA - ANTOLOGIA - TERRAMAR

sábado, 7 de setembro de 2013

Fernão de Magalhães não deu à costa - JOAQUIM PESSOA

Fernão de Magalhães não deu à costa
com as costas direitas mas carregado
com o azul que viu nos oceanos
e os ombros e as naus a descoberto.

Fernão de Magalhães, meu caro amigo
tivesses tu agora um cacilheiro
e terias descoberto o mar da palha
em viagem de circum-revolução.

Fernão sim, Fernão não. Ou, assim não
chegaremos lá. (Veja-se a páginas
últimas do compêndio desta história).

Meu bom Fernão! Talvez se tu tivesses
dado uma volta ao mundo em bicicleta
a gente hoje aguentasse a pedalada.

EM - 125 POEMAS - JOAQUIM PESSOA - LITEXA

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Corria Maio... - FÁTIMA PISSARRA

Corria Maio nos pinhais
e nós tínhamos fome e sede
e comíamos rosas
e bebíamos água
e os pássaros nasciam-nos na voz
e sem mistérios
simplesmente nus
descobríamos os gestos deslumbrantes
as melodias encantadas
éramos sol e lua penetrando-nos.

EM - CEM POEMAS PORTUGUESES NO FEMININO - ANTOLOGIA - TERRAMAR

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O rio - VINICIUS DE MORAES

Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um frio cristalino
Distantes milénios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.

Um rio nasceu.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Natal... na província neva - LUÍS FILIPE CASTRO MENDES

Recordação de neve na cidade:
Às vezes os meus dedos procuravam
um conforto de infância ameaçada.

Nos bolsos esgarçados o cotão,
os restos de ternura nunca dada:
sempre se me fez longe o coração.

E o conforto perfeito, sem idade,
das coisas que há por dentro da lembrança;
recordação de neve na cidade:
foi antes do terror, da esperança.

Seja sempre quem sou esta distância
que muda em mim as coisas conseguidas
em dedos que procuram da infância
cotão, ternura, restos de outras vidas.

EM - CEM POEMAS PORTUGUESES DO ADEUS E DA SAUDADE - ANTOLOGIA - TERRAMAR

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Nocturno de dia - ÁLVARO DE CAMPOS

... Não: o que tenho é sono.
O quê? Tanto cansaço por causa das responsabilidades,
Tanta amargura por causa de talvez se não ser célebre,
Tanto desenvolvimento de opiniões sobre a imortalidade...
O que tenho é sono, meu velho, sono...
Deixem-me ao menos ter sono, quem sabe que mais terei?

EM - POESIA - ÁLVARO DE CAMPOS - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Auto-retrato - ALEXANDRE O'NEILL

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvos; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
   Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
   do que neste soneto sobre si mesmo disse...

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 1 de setembro de 2013

Passar a limpo a matéria - ALBERTO CAEIRO

Repor no seu lugar as cousas que os homens desarrumaram
Por não perceberem para que serviam
Endireitar, como uma boa dona de casa da Realidade,
As cortinas nas janelas da Sensação?
E os capachos às portas da Percepção
Varrer os quartos da observação
E limpar o pó das ideias simples...
Eis a minha vida, verso a verso.

EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM