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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Elogia barroco da bicicleta - ALEXANDRE O'NEILL

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais - eu que era um teórico
do ar livre - e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me entangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,

dá-me as asas - trrrrim! trrrrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar!

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A criação - ALEXANDRE O'NEILL

Da folha de papel, amarfanhada,
a mosca sobe aos montes,
desce aos vales,
evola-se.

A mão, armada,
recomeça a planar
sobre outra folha, lisa,
de papel.

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 12 de abril de 2015

O amor é o amor - ALEXANDRE O'NEILL


O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar,
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa cama estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? - 
espírito e calor!

O amor é o amor . e depois?!

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O´NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A morte, esse lugar comum... - ALEXANDRE O'NEILL

É trivial a morte e há muito sabe
fazer - e muito a tempo! - o trivial.
Se não fui eu quem veio no jornal,
foi uma tosse a menos na cidade...

A caminho do verme, uma beldade
- não dirias assim, Gomes Leal? -
vai ser coberta pela mesma cal
que tapa a mais intensa fealdade.

Um crocitar de corvo fica bem
neste anúncio de morte para alguém
que não vê n'alheia sorte a própria sorte...

Mas por que não dizer, com maior nojo,
que um menino saiu do imenso bojo
de sua mãe, para esperar a morte?...

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Auto-retrato - ALEXANDRE O'NEILL

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvos; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
   Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
   do que neste soneto sobre si mesmo disse...

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 8 de março de 2013

A meu favor - ALEXANDRE O'NEILL


A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça-

EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Rir, roer - ALEXANDRE O'NEILL

E se fôssemos rir,
Rir de tudo, tanto,
Que à força de rir
Nos tornássemos pranto.

Pranto colector
Do que em nós sobeja?
No riso, na dor,
Que o homem se veja.

Se veja disforme,
Se disforme for.
Um horror enorme?
Há outro maior...

E se não houver,
O horror é nosso.
Põe o dente a roer,
Leva o dente ao osso!

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 22 de julho de 2012

Mesa dos sonhos - ALEXANDRE O'NEILL

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devolvo o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida.

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 30 de maio de 2012

À maneira de Benamor Lhopes - ALEXANDRE O'NEILL


A vida não é de abrolhos.
É de abr'olhos.

A vida não é de escolhos.
É de escolhas.

Por que me olhas e m'olhas?
Por que me forras a alma
com o relento de um sentimento?

Serei eu a tua escolha?

Abre os olhos e olha,
que eu já me escolhi em ti!

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 3 de abril de 2012

Soneto - ALEXANDRE O'NEILL

No céu duma tristeza cor de farda,
Uma angústia de nuvens se desenha.
O amor já morreu: que o tempo venha
Desmantelar o que a memória guarda.

Jogai!, jogai! Quem não jogar não ganha
Nem perde. É a última cartada.
Eu aposto na vida, mesmo errada.
Talvez outro destino me sustenha.

Avião de Lisboa para o mundo,
Apaga-me a tristeza com as asas,
Tão nítidas no céu em que me afundo!

Depois desaparece atrás das casas
E deixa-me o azul, o azul profundo,
E duas nuvens de razão tocadas.

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 3 de março de 2012

O beijo - ALEXANDRE O'NEILL

Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Poema - ALEXANDRE O'NEILL

No tempo em que os suicidas falavam
Amar-te teria consequências.

Mas teria?
Ou nem uma última ruga
Viria alterar a face das coisas
Dispô-las pela primeira vez a meu favor?

(Uma ruga que me deixasse para sempre limpo
Para sempre autêntico
E que imediatamente me recompensasse
Do acto por excelência cabotino
De desaparecer a deixar rasto
De desaparecer em contracção, em convulsão de teatro).

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 14 de janeiro de 2012

O revólver de trazer por casa - ALEXANDRE O'NEILL

Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa,
Fizeram já de mim o revólver de trazer por casa,
Aquele que toda a gente, uma, duas vezes na vida,
Encosta por teatro a um ouvido
Que acaba por se fechar envergonhado.

Um bom revólver domesticado:
Algumas noções de pré-suicídio, mas não mais,
Que a vida está muito cara e a aventura
Nem sequer devolve o barco que lhe mandam.

Quem espera por mim não espera por mim
E talvez me encontre por um acaso distraído.
Mas no meu obsceno monstruário de gestos,
Guardo o mais obsceno
Para quando a ilusão se der...

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Soneto inglês - ALEXANDRE O'NEILL

Como o silêncio do punhal num peito,
O silêncio do sangue a converter
Em fio breve o coração desfeito
Que nas pedras acaba de morrer,

Vive em mim o teu nome, tão perfeito
Que mais ninguém o pode conhecer!
É a morte que vivo e não aceito;
É a vida que espero não perder.

Viver a vida e não viver a morte;
Procurar noutros olhos a medida,
Vencer o tempo, dominar a sorte,
Atraiçoar a morte com a vida!

Depois de morrer de coração aberto
E no sangue o teu nome já liberto...

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 25 de dezembro de 2011

O teu nome - ALEXANDRE O'NEILL

Flor de acaso ou ave deslumbrante,
Palavra tremendo nas redes da poesia,
O teu nome, como o destino, chega,
O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo
De todas as cores do dia!

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Os amantes de Novembro - ALEXANDRE O'NEILL

Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Poesia e propaganda - ALEXANDRE O'NEILL

Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
Pelo pequeno avião da propaganda
E no céu inocente de Lisboa,
Um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ao rosto vulgar dos dias - ALEXANDRE O'NEILL

Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

                   *

Ao rosto vulgar dos dias,
À vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

                   *

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O tempo faz caretas - ALEXANDRE O'NEILL

Visto que não há regresso
E o tempo está de mau cariz,
Viremos o dia do avesso
Para ver como é, primeiro.

A carranca dum velho ou o traseiro
Prazenteiro dum petiz?

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 5 de novembro de 2011

Canção - ALEXANDRE O'NEILL

Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito

E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece

E saiam todos os sóis
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
- mas que saiam de joelhos

E das mãos que saiam agora
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM