As palavras abrem portas
que só elas abrem-fecham:
revolvem o pó da lembrança
batem no vidro do coração
temporário Jonas prisioneiro
Engolidas pela máquina do tempo
um dia irão reaparecer
em mudos ecrãs iluminados
Hão-de ser recopiadas
mas sem poderem já recuperar
o acre sabor metafísico
da sua perdida voz
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
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quarta-feira, 22 de julho de 2015
quinta-feira, 11 de julho de 2013
As palavras não-amadas - ANA HATHERLY
As palavras não-amadas
desgastam-se
como películas usadas
pela desatenção do tempo
As palavras não-amadas
tornam-se vagas testemunhas
de um esplendor desprezado
vagueiam sem sentido
como solitárias carpas
no aquário do tempo
A marca do vivido
auto-usa-se
quando não acreditamos mais
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desgastam-se
como películas usadas
pela desatenção do tempo
As palavras não-amadas
tornam-se vagas testemunhas
de um esplendor desprezado
vagueiam sem sentido
como solitárias carpas
no aquário do tempo
A marca do vivido
auto-usa-se
quando não acreditamos mais
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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
O eco de mil sinos de prata - ANA HATHERLY
O eco de mil sinos de prata
emudece
ante o labor da aranha
O tempo emudece
na cegueira do ar
na sua geografia nula
Que queres de mim
matéria insensível?
Nas coisas conhecidas
o verbo ser emudece
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emudece
ante o labor da aranha
O tempo emudece
na cegueira do ar
na sua geografia nula
Que queres de mim
matéria insensível?
Nas coisas conhecidas
o verbo ser emudece
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Um campo aleatório - ANA HATHERLY
Seda vítrea
luz de neve
Frio agudo
alto céu
veludo e véu
Cintilação de Vida
construção
em si mesma infinita
A língua:
um campo aleatório
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luz de neve
Frio agudo
alto céu
veludo e véu
Cintilação de Vida
construção
em si mesma infinita
A língua:
um campo aleatório
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terça-feira, 13 de dezembro de 2011
A alta pirâmide da fala II - ANA HATHERLY
Falar é
um saber amplo e profundo
indício
duma obsessão incurável
Os pontos ágeis da petulante fala
dobro
como se fossem uma súbita esquina
É uma longa caminhada
no sentido do outro
buscando
a esquiva consonância do encontro
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um saber amplo e profundo
indício
duma obsessão incurável
Os pontos ágeis da petulante fala
dobro
como se fossem uma súbita esquina
É uma longa caminhada
no sentido do outro
buscando
a esquiva consonância do encontro
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sábado, 3 de dezembro de 2011
A alta pirâmide da fala I - ANA HATHERLY
A alta pirâmide da fala
o que é?
o que é que realmente expressa?
Uma efémera aliança
se esconde no enigma do sentido
no mistério do acidente
Tudo são zonas de silêncio
e intervalo
Um emaranhado só
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o que é?
o que é que realmente expressa?
Uma efémera aliança
se esconde no enigma do sentido
no mistério do acidente
Tudo são zonas de silêncio
e intervalo
Um emaranhado só
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quarta-feira, 23 de novembro de 2011
O que é o espaço? - ANA HATHERLY
O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginado imagens?
O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta
Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível
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senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginado imagens?
O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta
Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível
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domingo, 13 de novembro de 2011
As impensáveis portas da ilusão - ANA HATHERLY
O que é que leva o meu barco
para esta praia
onde um poder esquivo
se contenta
com a ambígua oferta de palavras?
Estamos aqui
no exíguo barco do desejo
exibidos
na frágil singularidade do verbo
Insatisfeitos sempre
aguardamos
que se abram
as impensáveis portas da ilusão
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para esta praia
onde um poder esquivo
se contenta
com a ambígua oferta de palavras?
Estamos aqui
no exíguo barco do desejo
exibidos
na frágil singularidade do verbo
Insatisfeitos sempre
aguardamos
que se abram
as impensáveis portas da ilusão
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Nostalgia - ANA HATHERLY
Na caixa da ferramenta do poeta
a nostalgia é o instrumento
duma lassidão crepuscular
assassina do dia
A memória
é um conservatório de combates
mais ou menos arrumados
mais ou menos diferidos
para a caixa dos conceitos
Obscuro simulacro do real
sombra desmaiada
emergindo cada vez mais lenta
a nostalgia é o adeus da paixão
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a nostalgia é o instrumento
duma lassidão crepuscular
assassina do dia
A memória
é um conservatório de combates
mais ou menos arrumados
mais ou menos diferidos
para a caixa dos conceitos
Obscuro simulacro do real
sombra desmaiada
emergindo cada vez mais lenta
a nostalgia é o adeus da paixão
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terça-feira, 25 de outubro de 2011
A palavra-escrita - ANA HATHERLY
A palavra-escrita
é um labor arcaico:
sulca enigmas
venda e desvenda
o sentido do gesto
É uma imagem detida
recolhida do mais fundo cinema íntimo
onde o verdadeiro
é um ser invisível
O cinema do mundo está aí
onde houver ilusão
onde houver vontade de ver
mesmo que seja só o nada
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é um labor arcaico:
sulca enigmas
venda e desvenda
o sentido do gesto
É uma imagem detida
recolhida do mais fundo cinema íntimo
onde o verdadeiro
é um ser invisível
O cinema do mundo está aí
onde houver ilusão
onde houver vontade de ver
mesmo que seja só o nada
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sábado, 15 de outubro de 2011
As palavras dirigem-se umas às outras - ANA HATHERLY
As palavras dirigem-se umas às outras:
dormentes nos dias cinzentos
acordam nos sonhos
mas acordam-nos dos sonhos
salvadoras-matadoras
roedoras de raízes
O seu alcance é
a vastidão erma do sentido
À flor do rio do olvido
o seu brilho
flutua fugaz no corpo da grafia
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dormentes nos dias cinzentos
acordam nos sonhos
mas acordam-nos dos sonhos
salvadoras-matadoras
roedoras de raízes
O seu alcance é
a vastidão erma do sentido
À flor do rio do olvido
o seu brilho
flutua fugaz no corpo da grafia
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quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Pensando o tempo - ANA HATHERLY
Pensando o tempo
hesitamos
como quem está
diante de um desconhecido e frio mar
Pensar
implica sempre
um certo grau de distorção
uma paralaxe da memória
Com imprecisão
lançamos a nossa rede de ideias
o nosso turbilhão friável de palavras
Como se o tempo fosse um mar
com suas vagas alisadas pelo vento
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hesitamos
como quem está
diante de um desconhecido e frio mar
Pensar
implica sempre
um certo grau de distorção
uma paralaxe da memória
Com imprecisão
lançamos a nossa rede de ideias
o nosso turbilhão friável de palavras
Como se o tempo fosse um mar
com suas vagas alisadas pelo vento
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Um rio de luzes - ANA HATHERLY
Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca
No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta
Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca
No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta
Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
As lágrimas do poeta - ANA HATHERLY
Um poeta barroco disse:
as palavras são
as línguas dos olhos
Mas o que é um poema
senão
um telescópio do desejo
fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
as altas onda do mar
a calmaria do vento:
Tudo
tudo cabe dentro das palavras
e o poeta que vê
chora lágrimas de tinta.
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
as palavras são
as línguas dos olhos
Mas o que é um poema
senão
um telescópio do desejo
fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
as altas onda do mar
a calmaria do vento:
Tudo
tudo cabe dentro das palavras
e o poeta que vê
chora lágrimas de tinta.
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 19 de abril de 2010
De que falamos? - ANA HATHERLY
De que falamos
quando falamos das palavras
senão do tempo
que corre-escorre
por entre as malhas da voz?
Faladas
as palavras
são um combate encenado
uma insónia pessoal
Escritas
são reféns do olhar
No espaço da página
deslizam altivas como icebergues
ou então soçobram
desconhecidamente
no lado sombrio do funesto olvido
in... O pavão negro - ANA HATHERLY - Assírio & Alvim
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