No bengaleiro do mercado público
penduraram o coração.
Vestem o fato dos domingos fáceis.
Não têm rosto
têm sorrisos muitos sorrisos
aprendidos no espelho da própria podridão.
Têm palavras como sanguessugas.
Curvam-se muito.
As mãos parecem prostitutas.
Alma não têm. Penduraram a alma.
Por fora parecem homens.
Custam apenas trinta dinheiros.
EM - POESIA VOL. I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
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quarta-feira, 15 de julho de 2015
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Que somos nós - MANUEL ALEGRE
Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?
Que somos nós se não permanecemos
no por nós transformado neste espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos
para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais que
o sol do que fazemos. Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.
EM - POESIA VOL I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?
Que somos nós se não permanecemos
no por nós transformado neste espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos
para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais que
o sol do que fazemos. Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.
EM - POESIA VOL I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
sábado, 26 de abril de 2014
A batalha de Alcácer Quibir - MANUEL ALEGRE
As armas ferem de morte o cavalo branco
e caem as armas do rei no branco areal.
Sob as armas que o ferem o cavalo branco
cai por cima das armas vencidas do rei.
E há uma rosa de sangue no branco areal.
As armas ferem de morte as armas do rei.
Cai o cavalo branco no branco areal.
Sob as armas que as ferem as armas do rei
caem vencidas por baixo do cavalo branco.
E há uma rosa no branco do areal de sangue.
As armas ferem de morte as armas e o branco
do rei do cavalo que caem no branco areal.
Sob as armas que os ferem as armas e o branco
caem vencidos por cima do rei debaixo do cavalo.
E há uma rosa no sangue do areal de branco.
Na rosa de sangue das armas vencidas
que caem no branco do branco areal
sob as armas que ferem é mais do que um rei
quem assim cai. É mais do que um cavalo branco:
quem assim cai vencido é Portugal.
EM - POESIA - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
e caem as armas do rei no branco areal.
Sob as armas que o ferem o cavalo branco
cai por cima das armas vencidas do rei.
E há uma rosa de sangue no branco areal.
As armas ferem de morte as armas do rei.
Cai o cavalo branco no branco areal.
Sob as armas que as ferem as armas do rei
caem vencidas por baixo do cavalo branco.
E há uma rosa no branco do areal de sangue.
As armas ferem de morte as armas e o branco
do rei do cavalo que caem no branco areal.
Sob as armas que os ferem as armas e o branco
caem vencidos por cima do rei debaixo do cavalo.
E há uma rosa no sangue do areal de branco.
Na rosa de sangue das armas vencidas
que caem no branco do branco areal
sob as armas que ferem é mais do que um rei
quem assim cai. É mais do que um cavalo branco:
quem assim cai vencido é Portugal.
EM - POESIA - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Fado - MANUEL ALEGRE
Com que voz nos dirias com que voz
de lira já cansada e enrouquecida?
A gente cega e surda somos nós
o tempo se mudou mas não a vida.
Com que voz nos dirias com que voz?
O tempo se mudou mas não o ser
falas connosco às vezes quase a sós
e o que te dói nos dizes sem doer.
Com que voz de além poema e de além língua?
Quem procura notícias não encontra.
Com que voz? Vai-se a ver e é outra Índia.
Com que voz nos dirias e quem diz
a outra biografia o viver contra?
Com que voz? Vai-se a ver e é um país.
EM - POESIA II - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
de lira já cansada e enrouquecida?
A gente cega e surda somos nós
o tempo se mudou mas não a vida.
Com que voz nos dirias com que voz?
O tempo se mudou mas não o ser
falas connosco às vezes quase a sós
e o que te dói nos dizes sem doer.
Com que voz de além poema e de além língua?
Quem procura notícias não encontra.
Com que voz? Vai-se a ver e é outra Índia.
Com que voz nos dirias e quem diz
a outra biografia o viver contra?
Com que voz? Vai-se a ver e é um país.
EM - POESIA II - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Endechas ou Canção da diferença - MANUEL ALEGRE
De Bárbara outro poema outra palavra
Senhora nossa que não tem senhor
De Bárbara a diferença que faltava
E nunca mais na língua uma só cor
De Bárbara o ser só ela sendo a outra
Senhora nossa santa pretidão
Antes de Bárbara Europa era tão pouca
Cativos somos nós Bárbara não
EM - POESIA II - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
Senhora nossa que não tem senhor
De Bárbara a diferença que faltava
E nunca mais na língua uma só cor
De Bárbara o ser só ela sendo a outra
Senhora nossa santa pretidão
Antes de Bárbara Europa era tão pouca
Cativos somos nós Bárbara não
EM - POESIA II - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Trazias de Lisboa - MANUEL ALEGRE
Trazias de Lisboa o que em Lisboa
é um apelo do mar: um mais além.
Trazias índias e naufrágios. Fado e Madragoa.
E o cheiro a sul que só Lisboa tem.
Trazias de Lisboa a velha nau
que nos fez e desfez (em Lisboa por fazer).
Trazias a saudade e o escravo Jau
pedindo por Camões (em Lisboa a morrer).
Trazias de Lisboa a nossa vida
parada no Rossio: nau partida
em Lisboa a partir. (Ó glória vã
não mais não mais que uma bandeira rota).
Trazias de Lisboa uma gaivota.
E era manhã.
EM - POESIA VOL I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Redondilha - MANUEL ALEGRE
Por baixo da superfície
lisa de cada palavra
por dentro da fenda sísmica
da gramática onde fulgura
o magma (sintaxe mágica)
da Babilónia a Sião.
Entre o étimo e o sintagma
no avesso desse centro
onde há uma estrela caída
para dentro do oculto
relação irrevelada
entre o corpo e a palavra.
Onde o invisível tremor
da terra percorre o sangue
e então de súbito a flauta
onde só Camões é quem
sobre esses rios que vão
entre ninguém e ninguém.
EM - POESIA II - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
lisa de cada palavra
por dentro da fenda sísmica
da gramática onde fulgura
o magma (sintaxe mágica)
da Babilónia a Sião.
Entre o étimo e o sintagma
no avesso desse centro
onde há uma estrela caída
para dentro do oculto
relação irrevelada
entre o corpo e a palavra.
Onde o invisível tremor
da terra percorre o sangue
e então de súbito a flauta
onde só Camões é quem
sobre esses rios que vão
entre ninguém e ninguém.
EM - POESIA II - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
domingo, 25 de março de 2012
Lágrimas azuis - MANUEL ALEGRE
Fecha os teus olhos que me fazem mal.
Que por vê-los me nasce aquela mágoa
feita de sal e mar que não é água
senão a dor azul de Portugal.
Que por vê-los as pérolas de sal
dos teus olhos são lágrimas que provo
que por vê-los eu vi chorar meu povo
as lágrimas azuis de Portugal.
Fecha os teus olhos que em Paris não cabe
todo o luar que tem essa tristeza
que nos teus olhos voa e não é ave
nem vento ou flor. Só lágrimas de sal.
Que são frutos da terra portuguesa
teus olhos: lágrimas de Portugal.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
Que por vê-los me nasce aquela mágoa
feita de sal e mar que não é água
senão a dor azul de Portugal.
Que por vê-los as pérolas de sal
dos teus olhos são lágrimas que provo
que por vê-los eu vi chorar meu povo
as lágrimas azuis de Portugal.
Fecha os teus olhos que em Paris não cabe
todo o luar que tem essa tristeza
que nos teus olhos voa e não é ave
nem vento ou flor. Só lágrimas de sal.
Que são frutos da terra portuguesa
teus olhos: lágrimas de Portugal.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
quinta-feira, 15 de março de 2012
É preciso um país - MANUEL ALEGRE
Não mais Alcácer-Quibir.
É preciso voltar a ter uma raiz
um chão para lavrar
um chão para florir.
É preciso um país.
Não mais navios a partir
para o país da ausência.
É preciso voltar ao ponto de partida
é preciso ficar e descobrir
a pátria onde foi traída
não só a independência
mas a vida.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
É preciso voltar a ter uma raiz
um chão para lavrar
um chão para florir.
É preciso um país.
Não mais navios a partir
para o país da ausência.
É preciso voltar ao ponto de partida
é preciso ficar e descobrir
a pátria onde foi traída
não só a independência
mas a vida.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
segunda-feira, 5 de março de 2012
E o bosque se fez barco - MANUEL ALEGRE
Já meu país foi uma flor de verde pinho.
País em terra. (E semeá-lo uma aventura).
Depois abriu-se o mar como um caminho.
Depois o bosque se fez barco e o barco arado
dessa nova e fatal agricultura:
colher no mar o fruto nunca semeado.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
País em terra. (E semeá-lo uma aventura).
Depois abriu-se o mar como um caminho.
Depois o bosque se fez barco e o barco arado
dessa nova e fatal agricultura:
colher no mar o fruto nunca semeado.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Estou triste - MANUEL ALEGRE
Eu tinha grandes coisas para vos dizer.
Porém não tenho tempo. Vou-me embora. Deixo-vos
com a vossa tristeza
mergulhada no vinho quieta envilecida.
Minha tristeza é mais pura
não se esconde no vinho não se esconde.
Precisa
de grandes gritos ao ar livre. De
partir à pedrada o corpo
onde a vossa tristeza apodrece.
Precisa de correr. Apertar muitas mãos
encher as ruas de muita gente.
Precisa de batalhas.
Precisa de cantar.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
Porém não tenho tempo. Vou-me embora. Deixo-vos
com a vossa tristeza
mergulhada no vinho quieta envilecida.
Minha tristeza é mais pura
não se esconde no vinho não se esconde.
Precisa
de grandes gritos ao ar livre. De
partir à pedrada o corpo
onde a vossa tristeza apodrece.
Precisa de correr. Apertar muitas mãos
encher as ruas de muita gente.
Precisa de batalhas.
Precisa de cantar.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Com letras de sangue - MANUEL ALEGRE
De súbito três tiros na memória.
Apagaram-se as luzes. Noite. Noite.
De súbito três tiros nas palavras
um poeta calou-se apagou-se a canção.
De súbito um poema foi bombardeado
um poeta fechou-se nas vogais
cercado por consoantes que talvez
caminhassem cantando para um verso.
Eram granadas? Eram sílabas de fogo?
E de súbito a guerra. Noite. Noite. E um poeta
escreveu no chão: porquê?
E eram as letras do seu próprio sangue.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
Apagaram-se as luzes. Noite. Noite.
De súbito três tiros nas palavras
um poeta calou-se apagou-se a canção.
De súbito um poema foi bombardeado
um poeta fechou-se nas vogais
cercado por consoantes que talvez
caminhassem cantando para um verso.
Eram granadas? Eram sílabas de fogo?
E de súbito a guerra. Noite. Noite. E um poeta
escreveu no chão: porquê?
E eram as letras do seu próprio sangue.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Sobre um mote de Camões - MANUEL ALEGRE
Se me desta terra for
eu vos levarei amor.
Nem amor deixo na terra
que deixando levarei.
Deixo a dor de te deixar
na terra onde amor não vive
na que levar levarei
amor onde só dor tive.
Nem amor pode ser livre
se não há na terra amor.
Deixo a dor de não levar
a dor de onde amor não vive.
E levo a terra que deixo
onde deixo a dor que tive.
Na que levar levarei
este amor que é livre livre.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
eu vos levarei amor.
Nem amor deixo na terra
que deixando levarei.
Deixo a dor de te deixar
na terra onde amor não vive
na que levar levarei
amor onde só dor tive.
Nem amor pode ser livre
se não há na terra amor.
Deixo a dor de não levar
a dor de onde amor não vive.
E levo a terra que deixo
onde deixo a dor que tive.
Na que levar levarei
este amor que é livre livre.
EM - POESIA I - MANUEL ALEGRE - DOM QUIXOTE
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
E alegre se fez triste - MANUEL ALEGRE
Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto.
Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.
in... Poesia vol. I - MANUEL ALEGRE - Dom Quixote
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sexta-feira, 26 de março de 2010
Soneto do soneto - MANUEL ALEGRE
Desata-se-me o verso no primeiro
no segundo de vento vai vestido
no terceiro de mar e marinheiro
no quarto está perdido está perdido
Recupero-o no quinto sem sentido
no sexto deito-o à sombra de um sobreiro.
No sétimo com Dante digo: «Guido
sê tu no oitavo verso o companheiro»
Porque não espero de voltar ao nono
leva-me O'Neill no décimo a um terceto
que aponte já no onze o sul e o sal.
Ao décimo segundo chega o sono.
No treze está a chave do soneto
mas nem sempre o catorze é o final.
in... Poesia vol II - MANUEL ALEGRE - Dom Quixote
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quarta-feira, 17 de março de 2010
Abril de Abril - MANUEL ALEGRE
Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.
Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.
Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.
Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril de acto
em mil novecentos e setenta e quatro.
Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.
Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.
in... Poesia vol I - MANUEL ALEGRE - Dom Quixote
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