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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

74 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
Saibam sobre o autor neste link

Pelo pouco tempo no qual sempre me desconheço
Pelo pouco que foi dito em todas as palavras ressentidas
Por aí a vagar como um louco, cabeça contra o poste na esquina do infinito
Em todas as coisas vãs no absurdo à beira de lugar algum
Jamais assim estive a procurar o que achava
As palavras jorravam de minha alma como um ninguém
Perco diariamente o rumo ao saber de meu desterro
Meu caminho é a incerteza da chuva como se esta fosse uma questão de segundos.

Pelo pouco em pouco quase mesmo coisa alguma
Estes restos de pão bolorento umedecido por minha saliva inútil
Conjugo verbos homicidas por desejo de estar como uma besta
Enfurecida frente ao portão do inferno a ponto de cuspir o horror das horas mortas
As horas tais de profunda angústia que se arrastam como estas correntes em minha alma
No frio hostil de uma masmorra imunda em sua permanência cruciante
Gritos ensurdecedores atormentam minha mente tarde da noite quando então já estou

Com a mente vazia e os pés descalços prestes a abrir a porta do fim do mundo

EM - POEMAS ESCUROS - JOÃO AYRES - ARMAZÉM DE QUINQUILHARIAS E UTOPIAS

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

69 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
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Conheço o pouco de quase nada.
Vago em ninguém o faz por aí como uma alma esquecida
Há algum tempo os nomes jamais respondiam
Pelas coisas que rasgavam como um susto o além.

Palavras distantes me habitam virulentas
Nas noites de sentidos que se ocultam no abandono da memória
Trago ao mundo o que não mais resta deste nada
O frio que corrói os ossos no silêncio de um quarto vazio.

EM - POEMAS ESCUROS - JOÃO AYRES - ARMAZÉM DE QUINQUILHARIAS E UTOPIAS

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

55 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
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Para onde caminha o que não é,
O impensável em pausa, vírgula, dois pontos ou reticências,
Para onde caminha o que não vejo, 
O que não é e nem poderia ser,
Para onde caminha o impensável,
Esta angústia, esta imprecisão de formas,
Estes contornos que se insinuam como uma noite avassaladora em minha alma...

Para onde, indago mais uma vez, repito, insisto,
Para onde caminha o que não é
Para onde caminha o impensável em pausa, vírgula, ponto ou reticências.


Para onde caminha o que não é?

EM - POEMAS ESCUROS - JOÃO AYRES - ARMAZÉM DE QUINQUILHARIAS E UTOPIAS

sábado, 25 de novembro de 2017

49 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
Saibam sobre o autor neste link

Por que a pausa
Por que a vírgula
Por que a pausa maior do que a vírgula
Por que a pausa menor do que o ponto
Por que a pausa maior do que a vírgula e menor do que o ponto
Por que a pausa
A vírgula
O ponto?

Por que não o correr por aí simplesmente
Sem pausa/sem vírgula/sem ponto
Por que a vírgula
Por que a pausa maior do que a vírgula
Por que a pausa menor do que o ponto
Por que o parágrafo ao mudar de assunto
Por que o abre e fecha aspas quando da citação qualquer
Por que não reticências e mais reticências e mais reticências...

Por que a vírgula
Por que a pausa maior do que a vírgula
Por que a pausa menor do que o ponto
Por que não exclamações e mais exclamações e mais exclamações
Por que não o interrogar indefinidamente
Por que a pausa
Por que a vírgula
A pausa
A vírgula

     O ponto?

EM - POEMAS ESCUROS - JOÃO AYRES - ARMAZÉM DE QUINQUILHARIAS E UTOPIAS

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

48 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
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De tudo que sobrou os restos dos restos estão aqui
Por sobre a mesa como um tanto de qualquer coisa
Farelos de pão, restos de comida fria, restos de bebida no copo
Os restos destes restos nestas moscas e neste cão faminto e nesta casa e nestes escombros em carne e osso
O final neste final tão sem sentido como estas palavras frias e cambaleantes
O final nestes corpos cansados em final de noite
Neste silêncio de quem morre por motivo ignorado
Neste jeito de ócio no cheiro de gordura de uma panela secular
Neste desejo de matar o que quer que seja por motivo ignorado
Nesta sede inexplicável no deserto inóspito de uma alma atormentada.
  
De tudo que sobrou os restos dos restos estão aqui
Como uma saga maldita que se arrasta por anos a fio
Quando sinto esta ânsia de vômito naquele odor de desinfetante de cozinha
Naquele nada adiposo que esbravejava como um cão sem dono
Em alguém que tinha o hábito de ir de um cômodo a outro a contar as horas de seu exílio
No tal relógio preciso na angústia de tardes inteiras em perpétuo abandono
Nestes restos, neste ponto final na mobília empoeirada e no mofo das paredes vazias
Nestes restos dos restos dos restos e nada mais
Dos restos e de tudo que sobrou e que está aqui
No registro deste veneno ordinário que peleja em minhas veias

Neste mal qualquer enraizado em meus dias de extrema sevícia

EM - POEMAS ESCUROS - JOÃO AYRES - ARMAZÉM DE QUINQUILHARIAS E UTOPIAS

domingo, 5 de novembro de 2017

42 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
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Nunca tive idade para fazer coisa alguma.
Aprendo a morrer diariamente na estranheza do além.
Vejo o invisível quando estou como estou:
Sem nada na alma como um bolso ou caixa vazia.

Tenho pouco em tudo que não seja o que é.
Gosto destes sustos que me levam ao lugar de meu desterro.
As palavras em mim espocam no escuro.
Bebo mais quando o pensamento se atira contra a parede.
Ressurjo sempre no amanhã, inexpugnável como uma sombra.

O sangue é a minha matéria que escorre
Sempre quando ouso procurar o indecifrável
Nada mais resta senão esta ausência que roça a alma dos mortos
Dos mortos que aqui estão a se esgueirar por sobre o nada.

EM -  POEMAS ESCUROS - JOÃO AYRES - ARMAZÉM DE QUINQUILHARIAS E UTOPIAS

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

37 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
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Tudo se perde no caos
Tudo que se vai e se perde em lugar algum
Tudo se perde no caos, na inexorável direção do fim
Estranhamente como um breve suspiro
Como uma maneira inusitada de se morrer num dia sem iguais
Como um fechar de olhos, como uma pausa agonizante no escuro
Como um frio intermitente em qualquer idioma benfazejo
Como o sangue que circula da carótida até o cérebro e que reluta a meio caminho.
         
Tudo se perde no caos,
Na noite qualquer na qual tudo nasce e cresce e deixa de existir e morre
Tudo se perde como uma dinastia no correr dos séculos
Tudo se perde como um barco vazio na imensidão dos oceanos
Como o vento e as tempestades imprevistas, tudo se perde no caos,
Nas horas e no tempo emudecido
No abandono dos dias cinzentos
No caos e tão somente no caos
Na inexorável direção do fim.

EM - POEMAS ESCUROS - JOÃO AYRES - ARMAZÉM DE QUINQUILHARIAS E UTOPIAS

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

34 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
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Gosto da desordem
De um tanto incomensurável de caos em qualquer lugar.
Gosto de nomear aleatoriamente coisas sem nexo:
De atirar com meu revólver imaginário num campo repleto de verdes misteriosos.

Gosto de tirar o sentido das coisas
De devolver as mesmas ao seu lugar escuro.

Gosto de tirar a roupa e andar pela casa como se houvesse me despido dos símbolos
Gosto de murmurar o ininteligível para aprender a não decifrar os arredores do que vejo.

Gosto destas manhãs com jeito de morte por asfixia:
Estrangulado nas coisas poucas como uma espinha de peixe.

Gosto de estar assim sem jeito algum frente ao espelho
Gosto de não ver a minha face refletida quando lavo as mãos.

Gosto da desordem
Gosto de desarrumar o quarto e procurar aquilo que sempre esteve à minha frente.

Gosto da falta de qualquer coisa
De buracos ou fossas ou grutas ou cavernas distantes do contato humano.

Gosto de estar quente ou frio como o sol ou as águas que escorrem em meu desterro.

Gosto da desordem seja ela de que natureza for.

Gosto definitivamente do abandono e do caos:

Do silêncio mais profundo quando a noite vem.

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terça-feira, 3 de outubro de 2017

33 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
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Uma dor vazia me dilacera
Tira-me do prumo quando me mostra paredões inexpugnáveis
Não consigo retirar o que quer que seja de lugar algum
Quando o mal percorre minhas veias como um fantasma que vem para o jantar.

Estou feito de nada quando assim me encontro
Como um resto de comida fria no final de um dia qualquer
Meus membros rijos estão prestes a verter o que não mais resta de mim
Longe de minhas entranhas posso ver um espectro que definha.

As horas consomem este meu espírito atormentado
E sombras gigantescas me arrastam para a inquietude de luzes que desmaiam
Abro portas e janelas como se decididamente não mais fosse
Nem sequer um tanto de algo derramado no chão hostil.

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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

27 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
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Eu sonho com noites escuras
E meu corpo procura abrigo
Tão vazio me perco em palavras
Que me levam para longe de mim.

Já não sei onde estou quando estou
Enredado na teia das horas
Quando assim me calo sozinho
Quando a chuva lá fora se estende.

Eu sonho com noites escuras
E meu corpo estremece de medo
Tão intensa esta dor que eu sinto

Que me leva ao começo do fim.

EM - POEMAS ESCUROS - JOÃO AYRES - ARMAZÉM DE QUINQUILHARIAS E UTOPIAS

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

24 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
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Já não mais vivo a febre de meus dias
Palavras distantes tomam agora o que resta de minha angústia
Fecho os olhos quando estou ainda mais insignificante do que os insetos
Estas manhãs senis que corroem minha alma em pouco a pouco.

Arrasto-me de um cômodo a outro com este jeito de morto-vivo
Afrontando a existência com o tênue fio do abandono
Estou ninguém sentado no escuro desta hora que me dilacera
Como uma porta entreaberta no infinito das vertigens.

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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

6 - JOÃO AYRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
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Saio chutando coisas por desejo de desejo
Saio por aí chutando latas ou ratos ou cães ou qualquer
Estendo minhas mãos ao infinito quando escarro
Quando quero servir a esta angústia que me devora
Numa mesa farta de festa de vila no dia mesmo de Ação de Graças.

De uma ou duas peças de carne vermelha, talvez, precise,
Que não seja bem digerida e que me faça pesar indefinidamente
Quero agora estar tão obeso como qualquer rei enlouquecido
Gargalhando freneticamente para o caos que me rodeia
Eu venho de um tempo, eis o mesmo que se entreolha

E se pergunta em quanto tempo quanto tempo em qualquer um.

EM - POEMAS ESCUROS - JOÃO AYRES - ARMAZÉM DE QUINQUILHARIAS E UTOPIAS