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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

36 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Meu Deus, a natureza é branca.
E envolve as massas de barreiras sonoras
que a boca tenta soerguer num compasso de guia
pelos caminhos do texto:
a cada palavra o seu sinal de cor,
a triste magia de buracos e dedos, de flautas
e serpentes.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Vazio no meio do mar - ARMANDO SILVA CARVALHO


Quem ama o tempo como eu nesta manhã de ruídos
que se afastam de mim e me fazem sentir
vazio no meio do mar?
Quem devora este ar tão benfazejo à boca
e ao replicar das ondas
nos ouvidos como sinos de água?

Um tempo que se curva,
com o início nos joelhos dobrados na infância,
na mãe obsessiva,
e vem,
como de onda em onda,
transportando as dores, até este rochedo
que me suga os anos
e morde, devagar, a memória
da vida.

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

29 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Ver tamanha beleza na flacidez das carnes,
nos pedúnculos dos braços,
ó doente acamada,
mas tão desenvolta em orquestrar as arestas diárias,
o curso metabólico do sangue,
atenta aos ruídos mínimos desse exercício
invasor, pesado, progressivo,
labareda da dor, matéria infatigável
do cansaço.

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

25 - ARMANDO SILVA CARVALHO

A tua efígie foge-me, deixaste-a
adormecer sobre a almofada das tardes
últimas de maio
até chegar o dia dos teus anos.
Mas ela, ao acordar, entre as tuas amigas,
ficou junto de mim,
presa às fotografias moribundas.

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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

20 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Não revolvam as casas
nesse escoar das águas de lavagens
que te entopem os nervos, ao contemplares o lixo,
acamado, vivo, no canto mais infeliz
da garganta e da sala.

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sábado, 26 de novembro de 2011

18 - ARMANDO SILVA CARVALHO

As falas não sossegam, nem mesmo
as do poema,
estão todas amarradas pela sua voz gritante
que não desaparece e foge,
de sala em sala, mas tão transfigurada,
a reclamar uma justiça feita à sua medida,
pela sobrevivência.

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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

16 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Às vezes na cozinha,
entre a loiça suja e o metal já frio
dos talheres diários,
um sopro de súbito leva-te a pensar
que ela está a chegar, tão quente e tão diligentemente
dona do trabalho, do valor do uso,
senhora do lugar.

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domingo, 6 de novembro de 2011

14 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Deves caminhar a memória
para alicerces firmes e não exaltar o pranto
corrompido por imagens remotas, pelo espanto oculto
nas palavras soltas pelos corredores.
Tinhas só uma certeza: a morte dava os seus passos seguros
naquele corpo acossado, cada vez mais só,
e que já não te via nem ouvia.

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sábado, 29 de outubro de 2011

10 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Deixa crescer estes rolos de filmes
corridos pelos olhos cavados na infância
e depois pela cinza
que a vida foi deixando nos teus passos miúdos,
atravessando hotéis como monitora
de serviçais solícitas,
ou ludibriando amores em todos os semáforos
dos teus itinerários.

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

7 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Por isso eu desfolho o testamento
da que irá renascer após estas palavras.
Palavras ou rebanhos soltos, carne de morrer
em sacrifício,
inocente prosa que mal se desenvencilha
da roupa pegajosa
onde deixaste dormir os insectos
nascidos na pungência
das horas,
no calor dos casulos da dor,
da paciência.

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domingo, 9 de outubro de 2011

6 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Este amor está preso aos pés da terra,
o seu caule é de ferro,
cresce na minha boca, estremece e resiste
nas frágeis construções
da nossa antiga, privada, fiel
arquitectura.

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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

5 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Mas eu hei-de soltar-te e tornar-te a criança
que se vê no mundo,
só,
com a sua bola de sonhar,
a sua rosa simples,
o seu vestido às bolas, assim, sozinha e solta,
no lugar mais ermo que te cabe
no alto do infinito.

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terça-feira, 13 de setembro de 2011

4 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Parece mais solene e menos verdadeiro
aos que nunca o viveram
o frémito das veias
com o estranho estrondo desse aparelho
a refulgir em sangue.
E o corpo nele erguendo-se depois no mais negro
silêncio, tenso animal dorido,
aceso em vela.

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