Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
NESTE MOMENTO O TOCA A ESCREVER É PATROCINADO POR ALGUMAS EDITORAS E AUTORES QUE OFERECEM LIVROS DE POESIA.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Vamos comprar a consciência - FLORBELA DE OLIVEIRA

Vamos comprar o sol e a lua,
se pudessemos comprávamos as estrelas.
Vamos, vamos comprar palavras bonitas.
Palavras onde só coisas boas saem.
Vamos comprar as flores todas do mundo
e oferecê-las aos céus.
Vamos comprar amor.
Vamos comprar a paz no mundo!
Vamos comprar as alegrias.
Vamos comprar a verdade, comprar a vida.
Vamos também comprar a delicadeza
e construir semáforos de rótulos,
para sabermos onde se situam as coisas...
Onde se situam os sentimentos.
Onde se situam as rochas da brutalidade do ser humano.
Ai como é bom sonhar, e acordar, com a sensação que o
mundo se transformou em tudo de bom.
A ilusão da pobre mentira, vestida de tentativas de verdade...
Vamos comprar, comprar a consciência e sermos pessoas
melhores!

EM - NUVENS DE UM PASSADO - FLORBELA DE OLIVEIRA - UNIVERSUS

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Na desesperação já repousava* - LUIS VAZ DE CAMÔES

Na desesperação já repousava
o peito longamente magoado,
e, com seu dano eterno concertado,
já não temia, já não desejava;

Quando ua sombra vã me assegurava
que algum bem me podia estar guardado
em tão fermosa imagem, que o treslado
n'alma ficou, que nela se enlevava.

Que crédito que dá tão facilmente
o coração àquilo que deseja,
quando lhe esquece o fero seu destino!

Oh! deixem-me enganar, que eu sou contente;
que, posto que maior meu dano seja,
fica-me a glória já do que imagino.

EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO

* escolhi o 1º verso como titulo por questões logísticas
** o poema tem a grafia que aparece no livro

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Procelária - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me prece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo

Em - MAR - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - CAMINHO

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Papoilas - DOMINGOS MONTEIRO

Tuas pétalas vermelhas
Parecem sangue vertido,
Prenda que te hão concedido,
E em que inda hoje te espelhas.

Essa tua haste, tão leve
Que faz meneios à brisa,
Tem movimentos de neve,
Que a ti própria sintetiza.

Quando morre na quebrada
O sol, e vai de langada,
Inda mais olho, mais vejo,

Com teus requebros, vaidosa,
Que te quer's fazer formosa,
Que és a virgem do desejo.

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM

domingo, 24 de fevereiro de 2013

um gato de lisboa - VASCO GRAÇA MOURA

gato manso das velhotas
de alfama e da madragoa
dormitas sem cambalhotas
e nunca leste o pessoa.

quando ronronas não notas
tanto espreitar da patroa
nem quer's saber das gaivotas
voando no céu à toa.

dos peixes só vês as rotas
pela espinha ou quando ecoa
o pregão com cheiro às lotas
onde os despeja a canoa.

és livre e nisso te esgotas
sem remorso que te doa,
e ao peitoril não desbotas
e esta luz não te magoa,

nem vês corvos nem gaivotas
empoleirados na proa,
mas de corvos e gaivotas
faz-se o brasão de lisboa.

EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Rasgos sem rima - CRISTINA FERNANDES

chegas num gesto abraçado
trazes nas Mãos o pó aceso das estrelas
e o brilho do negrume precipitado
dum outro Mar...
 
a luz eleva-se no culminar do entardecer
tocas as Margens na abrangência dos teus braços,
demoves o Manto bordado a pérolas negras
onde um dia me perdi
 
a luz regressa na transparência da noite,
como uma confissão silenciada...
 
EM - POETAR CONTEMPORÂNEO VOL.I - ANTOLOGIA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Era de manhã - LILI LARANJO

Era de manhã, manhã de Inverno...
Era de manhã, mas mesmo de Inverno...
O Sol irradiava por montes e vales
E enchia a planície de luz.

Aqui e ali o branco do orvalho da noite...
Orvalho com a forma de neve
Que o sol veio beijar e docemente...
Transformou em água e depois...
Com mais calor transformou em Amor.

Aqui o rodopiar e o baile da vida...
Da vida que hoje é melhor que foi ontem
Que amanhã poderá ainda ser melhor...
Mas que sabemos que será sempre o segredo da vida!

Esperamos que o tempo...
Seja o marco para que este segredo
Se desvende sem mistério e nos mostre
Que é apenas preciso dar tempo ao tempo!

EM - RETICÊNCIAS APENAS!... - LILI LARANJO - ED. AUTOR

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Corrosão - JOÃO CARLOS ESTEVES

Gastei as memórias de ti
em palavras murmuradas
e vertidas no papel

Minhas mágoas afogadas
em feérica ascensão
de mortalhas enredadas
nas palavras encastradas
neste pedaço de tempo

Fuga final sem refúgio
doce loucura venenosa
corroeste a minha alma
assassinaste o meu sentir

Gastei as memórias de ti
nestas palavras sem nexo

EM - GOTAS DE SILÊNCIO - JOÃO CARLOS ESTEVES - TEMAS ORIGINAIS

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Divina comédia - ANTERO DE QUENTAL

Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: - «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
Num turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz 'inda mais triste,
Dizem: - «Homens! Porque é que nos criastes?»

EM - SONETOS - ANTERO DE QUENTAL - ULMEIRO

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sou leve e vil de mais - MÁRIO SAA

Sou leve e vil de mais, quando procuro
Pôr por ela, tão alta, o ardor e o zelo,
Cruzar as mãos no seu cabelo escuro
Ruminar-lhe as madeixas do cabelo.

Sou leve e vil de mais quando procuro
Cair tonto, a bailar, nos braços dela,
Lançar um coração terreno e impuro
No imaculado rastro duma estrela.

Sou leve e vil de mais! Mas pouco importa;
No seu palácio d'oiro abriu-me a porta,
E foi ela que me ungiu nalgum momento,

Por esta propriedade que aos feios pertence
De vencerem às vezes a mulher que os vence
Entre as mais lindas deusas do seu tempo.

EM - POESIA E ALGUMA PROSA - MÁRIO SAA - INCM

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O soneto do ponto final desta entrada - ANTÓNIO BOTTO


Eu sou quem sou. O resto não interessa.
Que me importa que falem do que faço
Porque quero fazer sem o embaraço
Daquele que só quer viver depressa?
Porque não falo dizem que é cansaço
De acreditar no fumo da promessa
Que não teve princípio nem começa,
Para mim que sou Alma a andar no espaço?
Coitado do que sabe dizer tudo
Sem noção da ignorância que mostrou,
- Não gosto de enganar e não iludo.
Devolvo à humanidade o que Ela faz
Condenando a moral que Ela inventou
Para dar todo o mal de que é capaz.

EM - CANÇÕES E OUTROS POEMAS - ANTÓNIO BOTTO - QUASI

domingo, 17 de fevereiro de 2013

À sombra de uma nuvem - HENRIQUE PEDRO


Adormeço
Prostrado
À sombra de uma nuvem
Cansado
De um pensamento mais denso

Embalado
Por uma aragem de espírito
Que me refrigera o corpo
Do sopro ardente da Terra
Envolta em guerra

Acordo
De madrugada
Na frialdade da noite iluminada
Pela luz cósmica das estrelas
Que espargem espiritualidade

A geada
Prateada
Da verdade
Não me deixa dormir

Flutuo no nada
Demente que estou
Com a mente perturbada

Que virá
A seguir?

EM - ANGÚSTIA, RAZÃO E NADA - HENRIQUE PEDRO - TEMAS ORIGINAIS

sábado, 16 de fevereiro de 2013

E por vezes - DAVID MOURÃO-FERREIRA


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites  não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

EM - MATURA IDADE - DAVID MOURÃO-FERREIRA - ARCÁDIA

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ouve, vê e cala - D. JOÃO MANUEL

Detalhes do LivroAntologia Do Cancioneiro Geral
Ouve, vê e cala,
e viverás vida folgada:
tua porta cerrarás,
teu vizinho louvarás,
quanto podes não farás,
quanto sabes não dirás,
quanto vês não julgarás,
quanto ouves não crerás,
se quiseres viver em paz.
Seis cousas sempre vê
quando falares, te mando:
de quem falas, onde e quê,
e a quem, como e quando;
nunca fies nem perfies
nem a outro injuries;
não estês muito na praça
nem te rias de quem passa;
seja teu tudo o que vestes,
a ribaldos não doestes;
não cavalgarás em potro,
nem ta mulher gabes a outro;
não cures de ser picão
nem travar contra razão.
Assi lograrás tas cãs
com tuas queixadas sãs.

EM - CANCIONEIRO GERAL - ANTOLOGIA - VERBO

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Tão perto e tão longe - SÃO REIS


Tão perto de mim
Tão longe de mim
Tão perto do meu coração
Tão perto do meu sentir
Tão longe da minha vista
Tão longe do meu sorrir

Tão perto e tão longe de mim...

Tão perto dos meus olhos
e no entanto tão longe do que vejo
Tão perto da minha boca
Mas tão longe dos meus lábios

Tão perto e tão longe de mim...

Tão perto dos meus passos
tão longe do meu silêncio
Tão perto da tua ausência
tão longe do meu corpo
Tão cheia da tua saudade
Tão vazia de ti
Tão perto e tão longe de mim
Tu estás
tu és
tu ficas e permaneces
Tão longe que até te esqueces
que eu fiquei aqui
deste lado
do lado de cá do muro
Esperando apenas por ti

Tão longe e tão perto de mim...

EM - 1ª ANTOLOGIA UNIVERSUS - VÁRIOS - UNIVERSUS

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Tantas mortes que nem sei - JOSÉ JORGE LETRIA

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Já morri em tantas mortes que nem sei
como tenho ainda cara para aparecer
a mim próprio com fingimentos
de assombro, eu que perco todos os dias
as chaves de vidro com que me abro
e fecho por dentro, tão bem fechado
que esqueço até a liberdade mínima
de um grito ou de uma queixa,
a inocência branca de uma pétala
à deriva no mar morno dos teus lábios.

EM - POESIA ESCOLHIDA - JOSÉ JORGE LETRIA - IUC

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Vazio no meio do mar - ARMANDO SILVA CARVALHO


Quem ama o tempo como eu nesta manhã de ruídos
que se afastam de mim e me fazem sentir
vazio no meio do mar?
Quem devora este ar tão benfazejo à boca
e ao replicar das ondas
nos ouvidos como sinos de água?

Um tempo que se curva,
com o início nos joelhos dobrados na infância,
na mãe obsessiva,
e vem,
como de onda em onda,
transportando as dores, até este rochedo
que me suga os anos
e morde, devagar, a memória
da vida.

EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Torre - RAQUEL NAVEIRA


Subo o cilindro das escadas,
Isolo-me na torre mais alta do castelo,
Aqui coloquei a roca,
O alaúde,
Os livros;
Com dedos trémulos
Ora segurando o fuso
E as pastas de algodão,
Ora toco as músicas dos jograis,
Ora leio histórias e poemas.

Às vezes tanto tremo
Que tudo cai no chão
Sobre o tapete de cânhamo.

Na torre,
Tramo,
Horas a fio
Olhando o céu.

EM - SENHORA - RAQUEL NAVEIRA - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Súbita e clara - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO


A lua poucas vezes tem manchado
este rectângulo branco. Agora
é alvinitente. talvez sedosa
se se pudesse tocar com a polpa
dos dedos o alto monte.

Estremece quando as árvores
a prendem. Quando se afasta
do mar sereno brilha
sobre as terras agitadas.

No fim do atalho ela é a
ideia mais súbita e mais clara
que eu conheço. Está a estender
as linhas brancas do seu rasto.

EM - ÂMAGO - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A traço grosso - DOMINGOS DA MOTA


Pontilho a tinta-da-china,
por vezes a traço grosso,
a palavra que rumina
e recurva o pescoço,

pois se deve rebelar
e ao sacudir a cerviz
vê o lume a crepitar
desde a copa à raiz

Mais vale a fogueira acesa
(ou as cinzas apagadas)
do que uma vida represa
sob botas apertadas:

contracorrente e maré,
pinto a palavra de pé

EM - BOLSA DE VALORES E OUTROS POEMAS - DOMINGOS DA MOTA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Durante o debate da lei contra o alcoolismo - NATÁLIA CORREIA


Num país de beberrões
Em que reina o velho Baco
Se nos tiram os canjirões
Ficamos feitos num caco.

E querem os deputados
Com um ar de beatério
Que fiquemos desmamados
Quais anjos num baptistério.

Se o verde e o tinto são
As cores da nossa bandeira,
Ai, lá se vai a nação
Se acabar a bebedeira.

De abstemia não se faça
A lex neste plenário
Que o direito à vinhaça
Esse é consuetudinário.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Amantes - DULCE ANTUNES


Amante, embrenho-me em teus braços,
Soltam-se aromas,
São no ar, essências de rosas.
Corpos abraçados
Carne toca em tua pele, olhos nos olhos,
Profundo toque em tua alma.
Ouço a tua respiração
Suspiros de um amor errante,
Como corpos que se desnudam na areia,
O amor faz-se em cada momento,
Bebendo-se a última gota do cálice,
Como se teu sangue escorresse,
Pelo meu corpo.

EM - POEMA EM TI - DULCE ANTUNES - TEMAS ORIGINAIS

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Contra a impiedade das gerações mais novas - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA


Quem vos pediu que, debaixo
de livros e cadernos, entre
o pó que acamou no fundo do saco,
estivesse a caridade, ou mesmo

essa mistura instantânea
de ternura e egoísmo
que, servida fria, haverá de
parecer a adolescência?

Nesta manhã de Maio, às oito
e trinta, o estrugido das cigarras
está em ebulição perfeita.
Cantam todo o Verão e morrem

imprevidentes, segundo
o fabulista. Um camião
azul, que passou na rua,
intimou as mais próximas,

um pombo julga-se solista.
De quem a culpa que observações
espúricas não possam ser um hino?
Do camião azul? Do que vos espera?

EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Alegre ou triste* - GLEIDSTON CÉSAR


Alegre ou triste,
Magoado ou ferido,
Iludido ou dissimulado,
Com saudade ou ausentado,
Gentil ou imbecil,
Sensível ou invisível,
Carente ou careca,
Rico ou bastardo,
Negro ou branco,
Pardo ou índio,
Casado ou amante,
Namorado ou enrolado
Imaturo ou maduro...
Sou um ser humano em busca dos
Sentidos da vida, do ser, evoluído e se ajustando

EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS
* Os poemas deste livro não são titulados. Usei o 1º verso como título por razões logísticas

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A vocação dos poetas - JOÃO RUI DE SOUSA

Como quem pega na vida
por vezes além da hora,
como que treina o palato
com limões de estranha história,
mas que decorre do acto
de nada deixar de fora,
tal é a voz que é semente
e que é fruto e é fermento
de quem em fogo labora,
de quem em chamas se sente.

Sem pagar juros de mora
cumpre sempre o seu contrato,
o de não esquecer os sonhos
nem omitir qualquer facto.

EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE

domingo, 3 de fevereiro de 2013

As aves de Afrânio - MIA COUTO


Em lugar de livros,
Afrânio levava pássaros para casa.

Corredor adentro,
escapando dos olhares da esposa,
na concha das mãos,
o derradeiro tesouro.

Dona Magriça sossegava os filhos:
vosso pai anda muito aluacinado.

Os meninos se encantavam:
a palavra, aluacinado,
era mais alada que as avezinhas
que o pai contrabandeava.

No final, o pai desvalorizava:
«Triste
é só aqui dentro
haver quentura para ninho»

EM - IDADES CIDADES DIVINDADES - MIA COUTO - CAMINHO

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Sábado - JOÃO LOPES


O peixe grelhado a Mingas é que fez
o vinho fomos comprar no Calemba
o Maninho é a segunda vez que repete
o feijão d'óleo de palma
alguém pede uma canção no Zé Russo
eu olho mesmo só
sem respirar
o corpo de Manana
(uma angústia assombrosa
estremece o meu coração)
o Ju conta mais uma cena
e nós rimos
rimos rimos
como se fossemos os senhores do mundo

EM - CÂNTICO DA TERRA E DOS HOMENS - JOÃO MELO - CAMINHO

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Peixes - PAULA TAVARES


Nem bem peixes são os seres
Que habitam
O nocturno da lagoa
Onde a mãe veio deitar-se para morrer
Doía-lhe a luz do sol
O corpo de vidro
Sonhou os últimos sonhos
Não esqueças o meu rosto
A força das minhas mãos
Fez a passagem devagar.

EM - COMO VEIAS FINAS NA TERRA - PAULA TAVARES - CAMINHO