Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
NESTE MOMENTO O TOCA A ESCREVER É PATROCINADO POR ALGUMAS EDITORAS E AUTORES QUE OFERECEM LIVROS DE POESIA.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Naveguei* - ALEXANDRINA PEREIRA

Naveguei
na suave brisa
do Oceano sem fim
até te encontrar.

Como loucos amantes
vislumbrámos o céu
por entre algas e anémonas
que os peixes ofertaram.

Ignorámos
o chamamento
dos Homens
e... alcançámos o Paraíso.

EM - INSUBMISSÃO DOS SENTIDOS - ALEXANDRINA PEREIRA - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Vertigem - TERESA M. G. JARDIM

Acima do chão
volta e meia
tomo chá com um anjo.

Não perdi ainda as vertigens
mas ganhei o hábito
de manter as costas direitas
à mesa; a capacidade de ouvir
e conversar, demoradamente, já a tinha.

EM - JOGOS RADICAIS - TERESA M. G. JARDIM . ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 29 de maio de 2011

O fruto 1 - CASIMIRO DE BRITO

O fruto rasgado pela recuso
do amor
encostado ao vento
- arco-íris queimado
por dentro

A fronteira do fruto
as balas a criaram

Mas não destruíram
a primeira haste

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 28 de maio de 2011

o decassílabo - VASCO GRAÇA MOURA

o decassílabo menos ouvido
na quarta e sétima leva o acento:
possível é, todavia é fodido
em português ir-lhe dando andamento.
com solidão, natural sentimento,
fica erodido, doído, delido:
entre silêncio e ruído é roído
e um solavanco lhe dá o sustento.

EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Deve e haver - TOMAZ KIM

Que rosto procuramos no papel pautado
Enquanto o aparo range na tarde sem fim
E as moscas zumbem e a modorra cai;

Que corpo procuramos no escuro da noite
Envolvendo o silêncio do quarto alugado
E na repulsa de um leito solitário;

Que voz procuramos ouvir dia após noite
Nas ruas e casa e becos e praças e jardins...
Não sabemos,
Senão depois de os termos ignorado.

EM - OBRA POÉTICA - TOMAZ KIM - INCM

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Melodia nocturna - JAIME CORTESÃO

Pudessem minhas lágrimas caindo,
Quando a minha Alma no silêncio chora
E enquanto, meu Amor, estás dormindo,
Dar-te um sonho tranquilo, noite fora;

Pudesse eu ir chorando e tu sorrindo,
Toda a noite eu chorava até à hora,
Em que, o exausto corpo descaindo,
Meu rosto desmaiasse à luz da Aurora.

Secara então as lágrimas... só quando
Se apagam as estrelas moribundas,
A voz dos rouxinóis vai desmaiando,

- Já o nocturno encanto se desfez -
E as almas silenciosas e profundas
Voltam à melindrosa timidez...

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Alvorada II - DOMINGOS MONTEIRO

Vai para os campos, para trabalhar,
Que já nasceu o dia, o cavador,
Levando n'alma a mansidão do lar,
Da madrugada ao cândido palor.

A luz parece um trémulo luar
De beleza balsâmica e d'amor.
E ao longe os pinheirais a murmurar
Soltam cantigas d'amargura e dor.

Pla estrada coleante, de longada,
Uns bois vão a passar, com a carrada,
Num clamoroso anunciar da vida.

E no cimo do monte verdejante,
Num lampejo de luz, esfuziante,
A branquejar ao sol, vê-se uma ermida.

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM

terça-feira, 24 de maio de 2011

Pé-de-vento - ANTÓNIO MEGA FERREIRA

De vez em quando, o vento finge
que não está; amaina, dizem
os cegos, e fica-se sem saber
o que mais dói, se a gelada
combustão dos dedos,
se os lábios despedaçados
no recorre
da manhã. O vento
retoma então o seu mistério,
as dunas engolem os presságios,
como as casas as suas sombras,
cada coisa deposita
a sua lágrima de sono
na memória cintilante da noite.
De súbito, o vento reaparece:
é como se a luz
ardesse no olhar dos cegos,
ou alguma criança
morresse
nos braços da manhã.

EM - O TEMPO QUE NOS CABE - ANTÓNIO MEGA FERREIRA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Fruta de verão - NUNO JÚDICE

No pequeno campo, de laranjas maduras
caídas por terra, os que preferem os insectos
afastam as folhas, por entre as ervas,
e procuram o mais pequeno dos movimentos.

No entanto, é na matéria podre, por dentro
do fruto, que as lavras se agitam, num trabalho
incessante que não convém interromper,
sobretudo quando a tarde começa a cair.

E se ouvimos, à noite, um eco de gestos
no interior da memória, talvez possamos pensar
que a cabeça pousada no travesseiro se
confunde, por instantes, com a laranja caída.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

domingo, 22 de maio de 2011

A lei de Lavoisier - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Visitei a casa onde,
segundo a versão
mais verídica,
deixei as quatro
cavidades do coração
e o princípio do fim
de vários brônquios.
Cheirava a couves de véspera,
a papéis velhos,
a mijo de gatos.

EM - NADA TÃO IMPORTANTE QUE NÃO POSSA SER DITO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 21 de maio de 2011

Quando a noite* - ALEXANDRINA PEREIRA

Quando a noite
entrelaça o dia
surge a madrugada
repleta de sons.

Quimera da vida
ao alvorecer.

Subtilezas ausentes
para quem dorme
não raro imerecido sono
perdendo
como borboleta
sem asas
o beijo da madrugada
... por um sonho.

EM - INSUBMISSÃO DOS SENTIDOS - ALEXANDRINA PEREIRA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Pão para a boca - TERESA M. G. JARDIM

Livros
e doce de amora - o teu pão
para a boca,
não é o meu:
o meu pão é seco,
soco,
na cara
as palavras
escritas, um pouco antes.

EM - JOGOS RADICAIS - TERESA M. G. JARDIM - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A terra - CASIMIRO DE BRITO

A terra
na guerra
é nossa
- do povo.

Na paz
a terra
é vossa.
E o povo?

Na terra jaz
nas grades
do ovo -

sem guerra,
nem paz
nem renovo.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 18 de maio de 2011

fragmento - VASCO GRAÇA MOURA

são asas de alvoroço ou são sinais?
são sombras agitadas na descida?
são palavras aladas junto ao cais?

são um rumor no vento? ou repetida
animação do instante nas manhãs
quando ao passar da gente passa a vida

e alguém espera olhando as horas vãs?

EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL

terça-feira, 17 de maio de 2011

Dedicatória - TOMAZ KIM

Quem és tu,
tu que sinto no meu sangue
lamentando o que reneguei!'

Quem és tu,
tu que me deste estas mãos
escrevas de tudo que me fere!?

Tu que és tudo e eco!
Tu, tu que me trouxeste
a bíblica nostalgia
do que jamais alcancei!...
Tu que és tudo e eco,
responde:
          «Agora que estou só,
para onde corre o meu sangue!?»

EM - OBRA POÉTICA - TOMAZ KIM - INCM

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Pérolas ocultas - JAIME CORTESÃO

Eu distingo na forma a oculta graça,
No lábio mudo e frémito do amor;
Para mim a crisálida esvoaça,
O gomo é árvore e o botão é flor.

Sei que há em tudo vida interior,
Que há fontes vivas numa rocha escassa,
Que a treva vai fundir-se no esplendor
E o riso já exulta na desgraça.

Assim, eu, através da ganga escura
Virgem de todo o olhar,
Fitei o diamante que fulgura;

E, em certas conchas que há sepultas
No túmulo do mar,
Vi o raiar das pérolas ocultas.

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM

domingo, 15 de maio de 2011

Alvorada I - DOMINGOS MONTEIRO

Quando rompe a manhã, a cotovia,
Alma de luz, d'amor extasiada,
Vai pelos ares a anunciar o dia
Numa oração de crente afervorada.

Tão linda, a estrela d'alva inda alumia,
Com luz suave, a lânguida balada,
Tristíssima, cantante litania
Na grande paz risonha d'alvorada.

Nasceu agora o sol - moeda d'oiro,
Senhor Deus, do enormíssimo tesoiro
Que vós acumulastes, lentamente.

Agora a cotovia já não canta;
Mas de todas as coisas se alevanta
Um cântico d'hossana, docemente.

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM

sábado, 14 de maio de 2011

Na palma da mãos - ANTÓNIO MEGA FERREIRA

Abro as mãos; nelas
podes ver
o que quiseres: apenas
o teu rosto
se não quiseres olhar
para as minhas
mãos
ou as rugas, pregas
finas
nos meus dedos,
outros sinais do tempo
que não foi teu.
Abro as mãos; repara
nelas, deita-lhes ao menos
um olhar
agora que uma estrela
rompeu os céus
no céu de Praga
e as minhas mãos já não cantam
nos teus lábios
para sempre rendidos
ao rasto da estrela
e à luz nocturna
do cristal.

EM - O TEMPO QUE NOS CABE - ANTÓNIO MEGA FERREIRA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Colheita - NUNO JÚDICE

Juntei laranjas e limões no mesmo saco,
e o amarelo e o laranja juntaram-se sobre
o verde da erva. A primavera chega com
estas cores, diz o pássaro que se cruzou
com a pedra que a criança atirou para
acertar no céu; e a infância cai do outro
lado da estrada, onde começam as casa,
para dizer ao pássaro que o seu lugar
é onde fica a primavera, e não onde
falta o campo verde que as laranjas
e os limões pintam de amarelo e laranja.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Mercado negro - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Entro em casa.
Os animais estão inquietos.
Verifico: têm água,
comida. Deito-me
no chão, ouvindo
o rumor do mundo,
a máquina do silêncio
a mastigar a terra.

EM - NADA TÃO IMPORTANTE QUE NÃO POSSA SER DITO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A minha recusa* - ALEXANDRINA PEREIRA

A minha recusa
está vestida
de cumplicidades.

De poemas
manuscritos
com tempestades
inúteis
de versos extraviados
de quadros por pintar
e fonéticas distorcidas.

Recuso-me a um mundo
com os dias submersos.

EM - INSUBMISSÃO DOS SENTIDOS - ALEXANDRINA PEREIRA - TEMAS ORIGINAIS

terça-feira, 10 de maio de 2011

Poema sem sal - TERESA M. G. JARDIM

Sempre que faço limpezas profundas no armário
da cozinha, estragam-se coisas; de mal arrumados
parti alguns pratos, não faz mal, neles não comerei
mais sopa, só, sem som, sem sal, sem sentido.

EM - JOGOS RADICAIS - TERESA M. G. JARDIM - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 9 de maio de 2011

As sementes 3 - CASIMIRO DE BRITO

Terra desprendida, terra vermelha
mas não
morta: música rudimentar da
memória. Essa coisa viva de que falo,
esse rosto constelado
de frutos deformados (agudos). Terra
de fósseis, terra violenta
onde pousa o sangue, onde os dentes ouvem
o país da fábula. A
máquina.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 8 de maio de 2011

alexandra-anita brauner - VASCO GRAÇA MOURA

com pedaços de fita adesiva, cola-se
ao tapume este retrato de menina,
de luz contente nos olhos, quente enlevo
do afago dos pais, sorriso de olhar barcos
e de brincar na areia, ao sol, entre as palmeiras
balouçando ao vento. escrito à mão: "o
corpo foi encontrado." inútil
continuar a procurar alexandra-anita brauner.
menina e moça a levaram, de casa de seus pais,
para longes águas.

EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL

sábado, 7 de maio de 2011

Num bago de romã... - TOMAZ KIM

Num bago de romã
morre
um fogo-fátuo errante,
furando a rocha
à luz duma tocha
fumegante...

Num bago de romã
vejo macabras ortigas
de mim,
uma vez loiras espigas:
sombras de mim
e do que serei...

Um bago de romã encerra
tudo que na terra
semeei...

EM - OBRA POÉTICA - TOMAZ KIM - INCM

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A beleza oculta - JAIME CORTESÃO

Eu distingo na forma a oculta graça,
No lábio mudo, o frémito do Amor;
Para mim a crisálida esvoaça,
O gomo é árvore e o botão é flor.

Sei que há em tudo vida interior,
Que há fontes vivas numa rocha escassa,
Que a treva vai remir-se no esplendor,
E já o riso exulta na desgraça.

Assim, o meu olhar abre as sepultas
Conchas no fundo Mar, e eis que uma Aurora
Se vê luzir das pérolas ocultas;

Raiam, à minha voz, milhões de sóis
E ouvem-se em todo o Mundo e a toda a hora
Cantar, ébrios de Amor, os rouxinóis!

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A ti, lírio divino - DOMINGOS MONTEIRO

A ti, lírio divino do meu seio,
Hóstia de luz, d'amor doirado e lindo!
A ti, sagrada voz donde me veio
O sorriso de fé, que estou sorrindo;

A ti, profundo e doloroso anseio,
Alma e doçura lânguida florindo...
Meu livro pobrezinho; abençoei-o
Co'a tua graça sobre mim caindo.

Guarda-o na paz oculta do teu peito,
Virgem dorida, coração eleito,
Na sombra divinal dos olhos tristes.

E nunca o esqueças, nunca, meu amor,
Pois ele é o teu perfil talhado em dor;
Nele vives chorando, nele existes.

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Glosas - ANTÓNIO MEGA FERREIRA

Traz-me um colar de jasmim
pra pôr à volta da alma,
flor imensa, imóvel e atenta,
que recolhe dos teus dedos
a gota de água
lenta.

Traz-me um colar de jasmim
pra enfeitar o coração,
água clara, rio clamor
que traz nos seus braços
prisioneiro
o teu rubor.

Dou-te um colar de jasmim
para te velar o olhar,
luz exausta, dor coberta,
que revela nos teus braços
a alma (inteira)
aberta.

EM - O TEMPO QUE NOS CABE - ANTÓNIO MEGA FERREIRA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 3 de maio de 2011

Enigma ornitológico - NUNO JÚDICE

Um pássaro entrou numa nuvem.
Uma nuvem entrou num pássaro.
«Qual a verdade?», perguntou
o homem. «Está no pássaro? ou
está na nuvem?» E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A rota da seda - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Se deixares cair uma pedra,
num tanque,
numa noite de inverno,
em que o frio desenha
a lua
(um cão ladra)
é como se alguém partisse:
o som que mergulha
são os passos
de quem não olha para trás.

EM - NADA TÃO IMPORTANTE QUE NÃO POSSA SER DITO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 1 de maio de 2011

Com que raiva* - ALEXANDRINA PEREIRA

Com que raiva
quebro as grades
que do mundo
me separam..

Com que infindáveis preces
me lamento.

As minhas euforias
são círculos
que me enlouquecem
como sílabas
a dançarem
no fulgor
de cada instante.

EM - INSUBMISSÃO DOS SENTIDOS - ALEXANDRINA PEREIRA - TEMAS ORIGINAIS