Quem vê, Senhora, claro e manifesto
o lindo ser de vossos olhos belos,
se não perder a vista só em vê-los,
já não paga o que deve a vosso gesto.
Este me parecia preço honesto;
mas eu, por de vantagem merecê-los,
dei mais a vida e alma por querê-los,
donde já me não fica mais de resto.
Assi que a vida e alma e esperança
e tudo quanto tenho, tudo é vosso,
e o proveito disso eu só o levo.
Porque é tamanha bem-aventurança
o dar-vos quanto tenho e quanto posso
que, quanto mais vos pago, mais vos devo.
EM - POESIA LÍRICA - CAMÕES - VERBO CLÁSSICOS
Mostrar mensagens com a etiqueta Luis Vaz de Camões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luis Vaz de Camões. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 29 de março de 2016
domingo, 1 de março de 2015
Aqueles claros olhos... - LUÍS VAZ DE CAMÕES
Aqueles claros olhos que, chorando
ficavam quando deles me partia,
agora que farão? Quem mo diria?
Se porventura estarão em mim cuidando?
Se terão na memória, como ou quando
deles me vim tão longe de alegria?
Ou s'estarão aquele alegre dia
que torne a vê-los, n'alma figurando?
Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão co as aves e cos ventos?
Oh! bem-aventurados fingimentos,
que nesta ausência tão doces enganos
sabeis fazer aos tristes pensamentos!
EM - POESIA LÍRICA - LUÍS VAZ DE CAMÕES - VERBO CLÁSSICOS
ficavam quando deles me partia,
agora que farão? Quem mo diria?
Se porventura estarão em mim cuidando?
Se terão na memória, como ou quando
deles me vim tão longe de alegria?
Ou s'estarão aquele alegre dia
que torne a vê-los, n'alma figurando?
Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão co as aves e cos ventos?
Oh! bem-aventurados fingimentos,
que nesta ausência tão doces enganos
sabeis fazer aos tristes pensamentos!
EM - POESIA LÍRICA - LUÍS VAZ DE CAMÕES - VERBO CLÁSSICOS
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
No tempo que de Amor viver soía - LUIS VAZ DE CAMÕES
No tempo que de Amor soía,
nem sempre andava ao remo ferrolhado;
antes agora livre, agora atado,
em várias flamas variamente ardia.
Que ardesse num só fogo, não queria
o Céu, porque tivesse exprimentado
que nem mudar as causas ao cuidado
mudança na ventura me faria.
E se algum pouco tempo andava isento,
foi como quem co peso descansou,
por tornar a cansar com mais alento.
Louvado seja Amor em meu tormento,
pois para passatempo seu tomou
este meu tão cansado sofrimento!
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO CLÁSSICOS
nem sempre andava ao remo ferrolhado;
antes agora livre, agora atado,
em várias flamas variamente ardia.
Que ardesse num só fogo, não queria
o Céu, porque tivesse exprimentado
que nem mudar as causas ao cuidado
mudança na ventura me faria.
E se algum pouco tempo andava isento,
foi como quem co peso descansou,
por tornar a cansar com mais alento.
Louvado seja Amor em meu tormento,
pois para passatempo seu tomou
este meu tão cansado sofrimento!
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO CLÁSSICOS
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Correm turvas as águas deste rio* - LUIS VAZ DE CAMÕES
Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.
Passou o verão, passou o ardente estio,
uas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.
Passou o verão, passou o ardente estio,
uas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Doces águas... - LUIS VAZ DE CAMÕES
Doces águas e claras do Mondego,
doce repouso de minha lembrança,
onde a comprida e pérfida esperança
longo tempo após si me trouxe cego;
de vós me aparto; mas, porém, não nego
que toda a memória longa, que me alcança,
me não deixa de vós fazer mudança,
mas quanto mais me alongo, mais me achego.
Bem pudera Fortuna este instrumento
d'alma levar por terra nova e estranha,
oferecido ao mar remoto e vento;
mas alma, que de cá vos acompanha,
nas asas do ligeiro pensamento,
para vós, águas, voa, e em vós se banha.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO
doce repouso de minha lembrança,
onde a comprida e pérfida esperança
longo tempo após si me trouxe cego;
de vós me aparto; mas, porém, não nego
que toda a memória longa, que me alcança,
me não deixa de vós fazer mudança,
mas quanto mais me alongo, mais me achego.
Bem pudera Fortuna este instrumento
d'alma levar por terra nova e estranha,
oferecido ao mar remoto e vento;
mas alma, que de cá vos acompanha,
nas asas do ligeiro pensamento,
para vós, águas, voa, e em vós se banha.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO
domingo, 15 de setembro de 2013
Mudam-se os tempos... - LUIS VAZ DE CAMÕES
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança,
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro e doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO CLÁSSICOS
muda-se o ser, muda-se a confiança,
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro e doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO CLÁSSICOS
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Conversação doméstica... - LUIS VAZ DE CAMÕES
Conversação doméstica afeiçoa,
ora em forma de boa e sã vontade,
ora d'uma amorosa piedade,
sem olhar qualidade de pessoa.
Se despois, porventura, vos magoa
com desamor e pouca lealdade,
logo vos faz mentira da verdade
e brando Amor, que tudo em si perdoa.
Não são isto que falo conjecturas,
que o pensamento julga na aparência,
por fazer delicadas escrituras.
Metido tenho a mão na consciência,
e não falo senão verdades puras
que m'ensinou a vida experiência.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO
ora em forma de boa e sã vontade,
ora d'uma amorosa piedade,
sem olhar qualidade de pessoa.
Se despois, porventura, vos magoa
com desamor e pouca lealdade,
logo vos faz mentira da verdade
e brando Amor, que tudo em si perdoa.
Não são isto que falo conjecturas,
que o pensamento julga na aparência,
por fazer delicadas escrituras.
Metido tenho a mão na consciência,
e não falo senão verdades puras
que m'ensinou a vida experiência.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Doces lembranças... - LUIS VAZ DE CAMÕES
Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai-me repousar em paz u'hora,
que comigo ganhais pouca vitória.
Impressa tenho n'alma larga história
deste passado beque nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.
Vivo em lembranças, mouro d'esquecido,
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.
Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai-me repousar em paz u'hora,
que comigo ganhais pouca vitória.
Impressa tenho n'alma larga história
deste passado beque nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.
Vivo em lembranças, mouro d'esquecido,
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.
Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Na desesperação já repousava* - LUIS VAZ DE CAMÔES
Na desesperação já repousava
o peito longamente magoado,
e, com seu dano eterno concertado,
já não temia, já não desejava;
Quando ua sombra vã me assegurava
que algum bem me podia estar guardado
em tão fermosa imagem, que o treslado
n'alma ficou, que nela se enlevava.
Que crédito que dá tão facilmente
o coração àquilo que deseja,
quando lhe esquece o fero seu destino!
Oh! deixem-me enganar, que eu sou contente;
que, posto que maior meu dano seja,
fica-me a glória já do que imagino.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO
* escolhi o 1º verso como titulo por questões logísticas
** o poema tem a grafia que aparece no livro
o peito longamente magoado,
e, com seu dano eterno concertado,
já não temia, já não desejava;
Quando ua sombra vã me assegurava
que algum bem me podia estar guardado
em tão fermosa imagem, que o treslado
n'alma ficou, que nela se enlevava.
Que crédito que dá tão facilmente
o coração àquilo que deseja,
quando lhe esquece o fero seu destino!
Oh! deixem-me enganar, que eu sou contente;
que, posto que maior meu dano seja,
fica-me a glória já do que imagino.
EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO
* escolhi o 1º verso como titulo por questões logísticas
** o poema tem a grafia que aparece no livro
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Amor é fogo que arde...* - LUIS VAZ DE CAMÕES
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Alma minha gentil...* - LUIS VAZ DE CAMÕES
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Amor é fogo que arde... - LUÍS VAZ DE CAMÕES
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter, com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode ser favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
EM - POESIA LÍRICA - LUÍS VAZ DE CAMÕES - VERBO
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Transforma-se o amador na cousa amada* - LUIS VAZ DE CAMÕES
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu jeito,
Assim como a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.
in... Poemas de amor - ANTOLOGIA - Dom Quixote
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Em prisões baixas...* - LUIS VAZ DE CAMÕES
Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.
Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me qu'estava assi ordenado.
Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.
Mas minha estrela, que eu já'gora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.
in... Poesia lírica - LUIS DE CAMÕES - Verbo
Site da editora aqui
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Conversação doméstica afeiçoa* - LUIS VAZ DE CAMÔES
Conversação doméstica afeiçoa,
ora em forma de boa a sã vontade,
ora d'ua amorosa piedade,
sem olhar qualidade de pessoa.
Se despois, porventura, vos magoa
com desamor e pouca lealdade,
logo vos faz mentira da verdade
o brando Amor, que tudo em si perdoa.
Não são isto que falo conjecturas,
que o pensamento julga na aparência,
por fazer delicadas escrituras.
Metido tenho a mão na consciência,
e não falo senão verdades puras
que m'ensinou a vida experiência.
in... Poesia lírica - LUIS DE CAMÕES - Verbo
Site da editora aqui.
* os poemas deste livro não são titulados. Usei o primeiro verso como titulo por uma questão logística.
Subscrever:
Mensagens (Atom)











