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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A luz do chão - Eugénio de Andrade

Sem nenhuma razão a voz rompia,
a rasteirinha voz tão rente à vida
que se confunde com a luz do chão,
a luz de março rastejando ainda.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 16 de agosto de 2026

O sorriso - Eugénio de Andrade

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 27 de julho de 2026

A caminho das dunas - Eugénio de Andrade

Há um barco,
há um homem nas areias.
Obscuramente aprende
a morrer onde as águas são mais duras.
Sei que é verão pelo hálito da loucura,
o brilho em declínio das giestas
a caminho das dunas.
O homem adormecido
e o mar eram de vidro.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Mediterrâneo - Eugénio de Andrade

Como no poema de Whitman um rapazito
aproximou-se e perguntou-me: O que é a erva?
Entre o seu olhar e o meu o ar doía.
À sombra doutras tardes eu falava-lhe
das abelhas e dos cardos rente à terra.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
 

terça-feira, 7 de julho de 2026

Lisboa - Eugénio de Andrade

Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 30 de maio de 2026

Que voz lunar - Eugénio de Andrade

Que voz lunar insinua
o que não pode ter voz?

Que rosto entorna na noite
todo o azul da manhã?

Que beijo de oiro procura
uns lábios de brisa e água?

Que branca mão devagar
quebra os ramos do silêncio?

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Arte de navegar - Eugénio de Andrade

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Ruptura - Eugénio de Andrade

A noite fende -
o silêncio
escorre do muro.

De quanto os dedos
lembram ainda,
só o vento respira.

Já a minúscula
língua da erva
chama pela neve.

O silêncio
é o meu domínio:
a terra é leve.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Sobre um corpo - Eugénio de Andrade

Sobre o teu corpo caio
daquele modo que o verão tem de espalhar os cabelos
na água esparsa dos dias
e faz das peónias uma chuva de oiro
ou a mais incestuosa das carícias.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 10 de maio de 2026

Em cada folha - Eugénio de Andrade

Esta inocência de água
pede-te ardor

mais verde em cada folha

brancura
onda a onda quebrada

vertigem nua.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
 

terça-feira, 5 de maio de 2026

É um dizer - Eugénio de Andrade

Estende um pouco mais a mão
recolhe um a um os sinais do desejo

fogo de abelhas o sexo
espera a insurreição da cal

a espessa ondulação do vento
é sobre o corpo a própria exaltação

morrer nos flancos do amor é um dizer
repara como brilham os limoeiros

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 29 de abril de 2026

O livro aberto... - Eugénio de Andrade

O livro aberto esquecido na relva,
o sol mordido das amoras bravas,
a voz húmida e lenta dos rapazes,
os degraus por onde a sombra desce.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Como esse olhar... - Eugénio de Andrade

Como esse olhar que prolonga a mão
as coisas que fazem a nossa alegria
brilham
ao sol ainda de cintura fresca.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 19 de abril de 2026

Como saber... - Eugénio de Andrade

Como saber de que matéria
é feito o olhar?
Acaba aqui
a luz gémea da tua boca
mas assim
vê-se melhor a espuma do crepúsculo.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 14 de abril de 2026

O corpo sabe... - Eugénio de Andrade

O corpo sabe: do chão
ao azul o seu trabalho é arder.
Corpo com sede ainda: branco
pano de sangue. No topo do silêncio.
Como se nem lábios houvera
nem ouvidos para escutá-lo.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Chego à janela... - Eugénio de Andrade

Chego à janela para olhar os cedros
pela última vez nesse verão;
tu dormes ainda; amanhece
no rumor distante das esquilas;
estão mais próximas as veredas
lentas do outono,
os lenços de névoa,
o céu turvo rente às colinas.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 26 de abril de 2016

Serenata - EUGÉNIO DE ANDRADE

Venho ao teu encontro a procurar
bondade, um céu de camponeses,
altas árvores onde o sol e a chuva
adormecem na mesma folha.

Não posso amar-te mais,
luz madura, espaço aberto.
Não posso dar-te mais do que te dou:
sangue, insónias, telegramas, dedos.

Aqui estou, fronte pura, rodeado
de sombra, de soluços, de perguntas.
Aceita esta ternura surda,
este jasmim aprisionado.

Nos meus lábios, melhor: no fogo,
talvez no pão, talvez na água,
para lá dos suplícios e do medo,
tu continuas: matinalmente.

EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM 

quarta-feira, 16 de março de 2016

Metamorfoses da palavra - EUGÉNIO DE ANDRADE

A palavra nasceu:
nos lábios cintila.

Carícia ou aroma,
mal pousa nos dedos.

De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.

A morte não existe:
tudo é canto ou chama.

EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 23 de junho de 2015

Post scriptum - EUGÉNIO DE ANDRADE

Agora regresso à tua claridade.
Reconheço o teu corpo, arquitectura
de terra ardente e lua inviolada,
flutuando sem limite na esperança
da noite cheirando a madrugada.

Acordaste na aurora, a boca rumorosa
de um desejo confuso de açucenas;
rosa aberta na brisa ou nas areias,
alta e branca, branca apenas,
e mar ao fundo, o mar das minhas veias.

Estás de pé na orla dos meus versos
ainda quente dos beijos que te dei;
tão jovem, e mais que jovem, sem mágoa
- como no tempo em que tinha medo
que tropeçasses numa gota de água.

EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Frente a frente - EUGÉNIO DE ANDRADE

Nada poderia contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma
contra a luz, nada podeis.

podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.

EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM