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domingo, 26 de fevereiro de 2017

e se um livro morresse? - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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e se um livro morresse? se por doença
dos textos apenas restasse uma sombra?

preocupa-me pois a fisiologia dos livros
como a saúde de uma verdadeira amizade

apercebo-me disto ao ver as teias sanguíneas
nos objectos contíguos à personalidade

porque ler é dar força à árvore, veias
como páginas vivas rentes ao fazer

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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

de volta ao lugar...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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de volta ao lugar que acerta o relógio
um funil do tempo [centro do tapete]
perigoso relógio cardíaco perto do barro seco
com a sombra de vento antigo

pudesse explicá-lo por escatologia
referindo a dobragem argilosa de casas timbradas
no varão pobre

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

saúdo o íntimo...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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saúdo o íntimo esqueleto da aurora
reverberando erradas cartilagens por selos

nada a confessar ou a sujar neste lugar
antes infinita espera de consoantes e vogais cruas

de cor e silêncio este refúgio

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sábado, 28 de janeiro de 2017

temo a urgência...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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temo a urgência de escutar no lúmen do vazio
- a casa respira pelo mofo tecidular
expande-se de sobressalto e subtrai-se pelo medo
que a humidade fala, incendeia vida nos quartos
e corredores

alguns livros espreitam, os mais musculosos
com sonâmbulos dentro -

a zona : ruídos empalidecem paredes
ficam translúcidas e vulneráveis

ninguém está preparado para receber o estertor
duma casa, paralelepípedo exaltado
ideia-origami na incerteza da geografia
continuamente adulterada pelo fantasma

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

o céu quebrou...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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o céu quebrou -

chuva a ferros de desenterrar fotografias
a terra contente, a família fendida

verificam-se outros anos de poda genealógica
lê-se o espelho-de-sonhos ao sofá amordaçado

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domingo, 8 de janeiro de 2017

doem-me sílabas...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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doem-me sílabas algures na espinha
indago se não foi dito em círculo impróprio
sílabas a não remumurar, azedo de almofada
pelo menos até a noite me engolir
- só quando sentir crescer as ervas em redor
ver livre o cavalo branco
e baralhar os limites à terra, ao mar e ao céu

as palavras inteiras perderam todo o sentido
somente as sílabas internas magoam e cintilam

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

arame de anjo...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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arame de anjo, domínio-alvo de glória religiosa
tremendamente nocivo pensar
com ovas estragadas no céu da boca

descendência peculiar - quem estava de saída
reentrou

a biologia é de chorar na despensa, agora se sabe
sobre o remorso linguístico altamente casuístico

[castiçais, muros argilosos refinados]

ó alma - o anjo, apesar da fama, anda perdido
perdido

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

a pétala nox...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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a pétala nox
tangência do sangue liberto
porque selo fictício e moeda dos sonhos
envereda pela estrada de sal
acima de qualquer amplitude das mãos

força de género inclassificável
terreno fértil à bizarria de loucos desidratados
e ao passeio da frase-faca pelos corredores

«amar o falso pólen»

pólen - mais tóxico que o ouro
sabe-o o exagerado pé caminhante
na noite que se avizinha

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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

funcionando como um vitral...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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funcionando como um vitral a noite
com luz e contraste folheia a brisa da manhã
como amêndoa suave das horas em que se ama
sem entidade, identidade ou rosto -

um agosto primaveril, foz de tumulto onírico
foz respirante dos seres mais frágeis
que pela lua azul tornar-se-ão habitantes
do coral branco, prisão humana

[água vazia no escuro, peixes tremeluzentes]

sob o prisma do vitral nocturno
a linguagem lenta das estrelas

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terça-feira, 22 de novembro de 2016

toque de cerâmica...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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toque de cerâmica, os olhos
segunda pessoa -

vagão rápido para o eremitério
livros e terra, confissão e bafo
esperamos como se houvesse
um entrecruzamento de essências
passeando o cristalino dos olhos
na cumplicidade do café

mas a espera, mero luto da ignorância entediante
na tarde traz papel e caneta ao pretexto
- já não há lugar físico nem tão-pouco café
apenas quem escreve e quem lê
agora

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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

incomoda-me a sombra...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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incomoda-me a sombra invisível do vidro
dividendos do fantasma da geografia

talvez, uma soma estranha
números alquímicos numa voz que se entranha
nas vísceras - o almoço trouxe clarões
próprios da angústia feliz das pequenas coisas
incessante, acrílica, sem olor e
por vezes aflitiva: é-me dado a entrever
combates entre polímeros, selvajaria orgânica

a invisibilidade da sombra ligada ao vidro
estremece qualquer probabilidade de recomeço
no assinado vazio deste momento
uma espécie de mancha biológica rude, patológica
prejudicial na leitura de mapas consanguíneos
diadema de febre propenso ao desequilíbrio
- uma voz a descer, a visitar os órgãos um a um

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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

a bruma não percebe...* - PORFÍRIO AL BRANDÃO

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a bruma não percebe o brilho metálico do século
mas o nervo estala -

de que serve o braço ao poeta
se na imagem desmembrado se espelha?

e ele voa, o braço
apartado da anatomia castradora
voa no papel a decantar depressa
o vinho das lágrimas
o sémen estragado das plantas e dos animais
para deixar de ser braço

- um ramo, vinho e alguma água -

nenhum altar

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