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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Postal alentejano - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

A planura pode ser a montanha
da grande solidão de ervas amargas
- figo doce, castanha, vinho novo.

Anta, cromeleque, fogo de freira
sem cavaleiro, brasa prisioneira
ardendo sem se ver nem deitar fumo.

Infância, adolescência - e velhice:
o que depois e antes mesmo já
tresanda pela boca da macaca.

EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &ETC

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A palavra - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

Mastiga a palavra da vergonha:
faz do fel compota de morango.

O segredo branco e vermelho,
grita nu por cima do telhado.

Das vogais e consoantes faz
o fio de prumo da tua vida.

EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &ETC

sábado, 29 de janeiro de 2011

Se - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

todas as copas das árvores
hão-de ladrar aos meus pés.

Até a lua por certo
com veneno cor do leite

à socapa vem morder-me
na ponta do calcanhar.

Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

as ervas hão-de ceifar-me
antes mesmo de morrer.

EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &ETC

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Resposta a fala comum - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

Não, ninguém sabe, talvez
só o corvo que na torre

do relógio mora sempre,
quantos dias são precisos

para esquecer uma noite.
Da amêndoa dessa noite

outra noite há-de brotar
- mais amarga de esquecer

do que essa noite primeira.
A segunda pode em treva

tornar de luz a de origem.
Mas já no branco da lua

vem caminhando no céu
a noite número três.

EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &ETC

domingo, 9 de janeiro de 2011

Treva - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

Amor cercado de urtiga,
olho não de corvo sábio
mas de coruja vizinha

na treva remanescente
do recanto da província
- entre cheiro de hortelã,

passa às vezes um efebo
como raro pé de trevo
de quatro folhas da sorte.

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Obsessão - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

Numa só coisa porfio:
outra vez ver o teu corpo
na minha cama despido,

de livro folhas abertas
com os dois braços cruzados
atrás do rosto de efebo

- devorando cada letra
em meu quarto no segredo.
De noite o membro de nácar

sempre com donaire erguido
acróstico no teu peito
começado sem ter fim.

EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA -&ETC

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A um poeta - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA


Trata bem o bebé da casa, mil
cuidados deves ter com essa válvula,

o louco mecanismo que respira
perigoso na cama do teu cérebro:

a síndroma da noite e da raposa
- o teu bebé, a imaginação.

in... Obsessão - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &etc

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