Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
NESTE MOMENTO O TOCA A ESCREVER É PATROCINADO POR ALGUMAS EDITORAS E AUTORES QUE OFERECEM LIVROS DE POESIA.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Turbilhão - MARIZA SORRISO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

É a vida que transborda
Sinto o peito borbulhar
A sede de muito escrever
Vontade de declamar

A arte imita a vida
A minha a arte a ensinar
Se dispara o coração
Pelo amor ou pela dor
É a hora de compor
Tá na hora de plantar

EM - DAS RAÍZES DO CORAÇÃO - MARIZA SORRISO - SAPERE EDITORA

quarta-feira, 30 de março de 2016

Ironia - ANTÓNIO BOTTO

Se a noite fosse mais negra,
- Quero dizer, mais sombria,
Agora que me encontraste
E que me dás o teu braço
Para falarmos, de novo,
No que dissemos, um dia!
Se a noite fosse mais negra,
E se as estrelas brilhassem
Com menos intensidade,
Sim, não duvides, eu diria...
- Mas não me fites assim!
Diria que és o meu sonho
E a minha realidade!
Mas esta luz que se entorna
Intimida o meu sentir
E fico, mudo, a sofrer...
- Também a gente nunca sabe
Se a verdade no amor
Se deve calar ou dizer.

EM - CANÇÕES E OUTROS POEMAS - ANTÓNIO BOTTO - EDIÇÕES QUASI

terça-feira, 29 de março de 2016

Quem vê, Senhora, claro e manifesto* - LUIS VAZ DE CAMÕES

Quem vê, Senhora, claro e manifesto
o lindo ser de vossos olhos belos,
se não perder a vista só em vê-los,
já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
mas eu, por de vantagem merecê-los,
dei mais a vida e alma por querê-los,
donde já me não fica mais de resto.

Assi que a vida e alma e esperança
e tudo quanto tenho, tudo é vosso,
e o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
o dar-vos quanto tenho e quanto posso
que, quanto mais vos pago, mais vos devo.

EM - POESIA LÍRICA - CAMÕES - VERBO CLÁSSICOS

segunda-feira, 28 de março de 2016

Abrigo - DOMINGOS MONTEIRO

Longe de quanto eu amo, neste imenso
Deserto povoado onde ora eu vivo,
E aonde, por meu mal, fiquei cativo
Mais adentro que fora do que penso...

Teu carinho, criança, e o teu esquivo,
Doce riso, divino como o insenso,
São a fonte de graça, o lenitivo,
Pra todo o mal por sobre mim suspenso.

Se o teu olhar eu fito, e ainda hesitante
A tua voz mansinho vem e embala
Meu pobre coração, minh'alma errante...

- Humilde flor que um tal perfume exala! -
Fico a pensar se vem do céu distante,
Ou se é já céu distante, a tua fala.

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM

domingo, 27 de março de 2016

Coração partido - MARIA TERESA HORTA

Dizer da paixão mais do que o sangue
mais do que o fogo
trazido ao coração

Mais do que o golpe furtivo já ardendo
revolvendo na sede
a ponta de um arpão

Dizer da febre sem fé
do animal feroz
dos líquenes abertos e dos lírios

Dizer desassossego
sem razão
da raiva silvando no delírio

Dizer do prazer o meu gemido
no quanto é ambígua esta prisão
a deixar-me livre no que sinto
e logo envenenada à tua mão

EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE

sábado, 26 de março de 2016

Poética postúltima - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

A glicínia é amada vorazmente
pela abelha. Num círculo
fez-se o espaço do silêncio.
No centro o castanho sedoso vo
látil transmuta-se num ponto
lilás na escadaria lilás.
Fascina-me também a deli
cada suspensão daqueles cachos.
Por mim amar a glicínia com a sua
amante alada é dar-me a este transe
devorador mágico. Des
crever a libidinosa abelha
minha amante que pela glicí
nia minha figura me atraiçoa.

EM - ÂMAGO - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 25 de março de 2016

A pedra de toque - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Isto que se pensa
isto que se diz
é o toque da pedra
o milagre do giz.

É o deslumbramento
de se poder gravar
na ardósia do momento
o grifo do mal estar.

É o pressentimento
de se poder somar
o riso com o risco
o rictus com o mar.

É possuir-se o lento
tempo de calar
(mui leal conselheiro
dos que sabem cantar).

É esperar-se por dentro
o que nos vem de fora
e atirar a pedra
nos homens e na hora.

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

quinta-feira, 24 de março de 2016

O lord - MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Lord que eu fui de Escócias doutra vida
Hoje arrasta por esta a sua decadência,
Sem brilho e equipagens.
Milord reduzido a viver de imagens,
Pára às montras de jóias de opulência
Num desejo brumoso - em dúvida iludida...
(- Por isso a minha raiva mal contida,
- Por isso a minha eterna impaciência.)

Olha as Praças, rodeia-as...
Quem sabe se ele outrora
Teve Praças, como esta, e palácios e colunas -
Longas terras, quintas cheias,
Iates pelo mar fora,
Montanhas e lagos, florestas e dunas...

(- Por isso a sensação em mim fincada há tanto
Dum grande património algures haver perdido;
Por isso o meu desejo astral de luxo desmedido -
E a Cor na minha Obra o que ficou do encanto...)

EM - POESIAS - MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO - VERBO CLÁSSICOS

quarta-feira, 23 de março de 2016

Tempo de amor - TOMAZ KIM

Devagar

Devagar, sem pudor nem malícia,
Peça a peça tombando a teus pés,
Bem-me-quer, bem-me-quer,
Muito!

Bem-me-quer, nua e breve,
Um momento, na penumbra,
Como traço de farol
No leito,
Riscando o lençol.

EM - OBRA POÉTICA - TOMAZ KIM - INCM

terça-feira, 22 de março de 2016

Auto-retrato - RUY BELO

Estado civil casado
nacionalidade portuguesa
triste se alegre e sorridente quando triste
muito mais egoísta se se veste de altruísta
chefe só de família olhar cansado
calva prometedora e tendência obesa
à beira dos quarenta anos de idade
e ajoujado ao peso de vários passados
tímido e trágico e capaz de crueldade
tanta quão tamanho o arrependimento
temendo hoje não tanto já fazer o mal
como fazer algumas ou pior uma só vítima
incoerente e instável ora dado a bons bocados
como logo açoitado pelos ventos dos cuidados
poeta para mais por condição
homem que só pensar sabe afinal fazer
que vive a arte o amor a vida até como destruição
digam vossas mercês como devia ele ser
pois sempre assim seria inútil mesmo renascer

EM - TODOS OS POEMAS III - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 21 de março de 2016

Sacrilégio - ANTÓNIO GEDEÃO

Fomos os dois à terra preciosa
tão celebrada e nunca bem descrita
onde Flora se veste caprichosa
e Bernardim cantou sua desdita.

Enquanto Amor na ameia pedregosa
de lado põe as setas e dormita,
a sua branda fala, caudalosa,
em espanto e comoção se precipita.

Ouvindo elogiar Amor acorda.
Quer ver também. E à denegrida borda
ligeiro trepa sem que alguém o note.

Olha, sorri-se com supremo enfado
e vai pôr-se a espreitar, todo enlevado,
pelo teu pequeno, triangular decote.

EM - OBRA COMPLETA - ANTÓNIO GEDEÃO - RELÓGIO D'ÁGUA

domingo, 20 de março de 2016

Epigrama XIX - MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE

Quis inda fresca viúva
Casar, mas tinha esquecido
No alfarrábio dos enterros
Pôr o enterro do marido.

«Leve este papel ao Cura»
(Lhe aconselha um maganão),
Era excelente receita
Das que importam num milhão.

«Padre (diz ela, entregando
O papel, que se lhe deu),
O meu homem tomou isto...»
Torna o Cura: «Então morreu!»

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - BOCAGE - VERBO CLÁSSICOS

sábado, 19 de março de 2016

Sopro divino - JAIME CORTESÃO

És uma chama de ternura,
Uma brisa carregada de pétalas,
Um luaceiro de estrelas
Numa noite de Estio:

És o sopro de Deus
Que faz florir os mundos
E traz em si o gérmen
De todas as promessas criadoras.

Tens a virtude oculta que redime;
Podes moldar a vida à tua imagem.
Bendita aquela hora em que poisaste
Os olhos sobre mim!

No rasto desse olhar,
Refluo sobre o tempo,
Regresso ao Caos vivo e originário,
E, entre o não ser e o ser,
Pairo sobre os abismos constelados
Como um clarão crepuscular:
Sou êxtase,
Espírito,
Luar...

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM

sexta-feira, 18 de março de 2016

Passagem a limpo - MÁRIO CESARINY

O navio morto
que sobe a corrente
de que velho porto
era o adolescente?

Cingiam-lhe a boca
água e nevoeiro?
Tinha muita, pouca
falta de dinheiro?

Bom barco, subido
aos da mor igualha,
tens o ombro ferido
até à fornalha

E puxado a cabos
- este rei de oceanos! -
por ginasticados
loiros namorados
a diesel e canos

Foi-lhe a estrela má.
- E se recomeça?
- Vamos daqui já
enterrá-lo depressa.

EM - UMA GRANDE RAZÃO - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 17 de março de 2016

Espera... - FLORBELA ESPANCA

Não me digas adeus, sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paixão antiga,
Dos nossos bons e cândidos abraços!

Sou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços...
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera... espera... ó minha sombra amada...
Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!...

EM - SONETOS - FLORBELA ESPANCA - BERTRAND EDITORA

quarta-feira, 16 de março de 2016

Metamorfoses da palavra - EUGÉNIO DE ANDRADE

A palavra nasceu:
nos lábios cintila.

Carícia ou aroma,
mal pousa nos dedos.

De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.

A morte não existe:
tudo é canto ou chama.

EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 15 de março de 2016

madrigal - VASCO GRAÇA MOURA

ao ser dito vacila
o mundo na palavra
que ao nomeá-lo enquanto
o dá o falsifica

e enquanto perseguimos
o falso? o verdadeiro?
há sempre mais daquilo
que vamos desdizendo

no acto de o dizer
sobre a fronteira estranha
que restitui o mundo
assim precariamente

por exemplo, ao tocar
nas tuas mãos é falso
que não estejas aqui
mas porque estás ausente?

EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL EDITORES

segunda-feira, 14 de março de 2016

O saboroso passeio - MÁRIO SAA

O saboroso passeio que agora faço
Não é saboroso passeio, é cansaço,
Vinte anos depois, como no cinema.
Minha vida tem a figura dos idos,
Passeio de saudade à borda de Esquecidos
Vinte anos depois, como no cinema.
Ardoroso calor do fim da tarde
Que traz por fora uma figura pequena,
Por dentro um coração tamanho da Música.

EM - POESIA E ALGUMA PROSA - MÁRIO SAA - INCM

domingo, 13 de março de 2016

Serenidade - ANTÓNIO BOTTO

Tanto amor, tanta paixão,
Para cairmos neste abandono banal!

Quis que fosses diferente,
Aureolei-te de luz,
Sofri públicas injúrias,
E não te modifiquei!...

Mas, a culpa, só é minha:
- Antes de tu me beijares
Já sabia o que hoje sei.

EM - CANÇÕES E OUTROS POEMAS - ANTÓNIO BOTTO - EDIÇÕES QUASI

sábado, 12 de março de 2016

A lágrima - LITA LISBOA

O prazer duma lágrima
em majestosa tristeza...
ou infindável júbilo
transformando em pérolas
que os lábios sugam
como chuva de verão?

Será por este incontrolável deslize
que os rios correm para o mar?

EM - NUANCES POÉTICAS - LITA LISBOA - CHIADO EDITORA

sexta-feira, 11 de março de 2016

Ontem... ainda - LEYLA LOBO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA POETA MARIZA SORRISO

Se a angústia do silêncio te tortura,
eu sofrerei por ti.
Se o pranto é longo e abafado,
eu chorarei por ti.

Se o amor imenso te confunde,
eu amarei por ti.

Se a vida é beleza infinita,
eu viverei em ti.

EM - ENTRE O SAMBA, O FADO E A POESIA - ANTOLOGIA - DOWSLLEY EDITORA

quinta-feira, 10 de março de 2016

Poema de amor à vida - JACQUELINE AISENMAN

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Há sementes no jardim
espalhadas
pelo vento quente.
A chuva abençoou-as
com suas lágrimas,
e em breve elas serão verdes, amarelas, vermelhas, lilases...
Serão flores, serão árvores.
E tudo porque o céu e a terra fazem amor constantemente
para dar luz à vida.

EM - PINTURA INGÉNUA - JACQUELINE AISENMAN - DESIGN EDITORA

quarta-feira, 9 de março de 2016

O sol projecta o voo* - ALVARO GIESTA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

O sol projecta o voo
glaciar
das aves sobre as encostas
do sonho;

já não penumbra a voz
nas margens
do corpo do silêncio;

escarpada,
a luz
escapa-se para a lonjura
das quebradas
onde o grito ganha eco;

dardeja o sonho neste
transbordar do rio as margens

O vazio
na fome de dizer
já não sustém o grito!

EM - UM ARBUSTO NO OLHAR - ALVARO GIESTA - CALÇADA DAS LETRAS

terça-feira, 8 de março de 2016

O poeta - LEANDRO ERVILHA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA POETA MARIZA SORRISO

Da poesia eu arranco a minha alma.
Da minha alma eu arranco as palavras.
Com as palavras eu dito meus pensamentos.
O poeta é um pouco louco
mas sente na carne a vida
que pode ser vivida
sem que se perceba sua essência.
Mas o poeta escolhe sentir.
Mergulhar em suas emoções.
É um caminho sem volta.
Sem rumo.
Das palavras se constrói o mar,
da caneta se faz um remo e
do papel uma embarcação.
Seguindo em direcção ao horizonte
em busca da catarse.

EM - ENTRE O SAMBA, O FADO E A POESIA - ANTOLOGIA - DOWSLLEY EDITORA

segunda-feira, 7 de março de 2016

Os namorados lisboetas - NATÁLIA CORREIA

Entre o olival e a vinha
o Tejo líquido jumento
sua solar viola afina
a todo o azul do seu comprimento

tendo por lânguida bainha
barcaças de bacia larga
que possessas de ócio animam
o sol a possuí-las de ilharga.

Sua lata de branca tinta
vai derramando um vapor
precisando a tela marinha
debuxada com os lápis de cor

da liberdade de sermos dois
a máquina de fazer púrpura
que em todas as coisas fermenta
seu tácito sumo de uva.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

domingo, 6 de março de 2016

Quero... - TELMA ESTEVÃO

Quero tudo o que vem do além
Quero todas as suas consequências
Quero provar todas as palavras
E a doçura contida noutros beijos
Quero entregar-me profundamente.

Meu querer não lamenta
Se vier vou sentir
Quero viver com alegria
O que resta deste
Meu querer e da minha vida.

Quero da sua presença
Os sabores doces da sua pele
Quero sentir sem pensar
O serpentear do seu olhar.

Quero perder-me num
Arrepio dançante em seu corpo
Quero nesta minha secura
Beber suspiros de prazer
Até matar a minha sede.

EM - PALAVRAS - TELMA ESTEVÃO - LUA DE MARFIM

sábado, 5 de março de 2016

Analogias - NUNO JÚDICE

No dia de sol em que as árvores parecem
saídas de um postal turístico, fecho os olhos
para sonhar que é um dia de chuva. Como resultado,
a água que escorre das folhas transforma-se
num verso que se estende
até ao chão, onde se formam charcos
que reflectem as folhas presas
aos ramos. Cada uma delas é uma pequena
metáfora. Aquilo que representam tem a ver
com uma vida natural que se prolonga no inverno,
e este pensamento transporta-me de novo
para o dia de sol. Estas árvores, sem chuva,
não me dizem nada; mas quando me aproximo
da sua sombra, vejo a luz do sol escorrer por entre
as folhas, como se fosse água, e cair sobre
a sombra, formando charcos de luz. E ponho
o poema do verão ao lado do poema
do inverno, como se fossem ramos, as metáforas
que atiro para o chão do poema
como se fossem folhas.

EM - GUIA DE CONCEITOS BÁSICOS - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 4 de março de 2016

Volúpia - RUTH CÂNDIDO

Aquela margem ficou
tal filme encravado no cinema
os meus lábios molhou
centrados só numa cena.

Acariciando sem tocar
parte húmida e sensível
com um fogo por apagar
num corpo apetecível.

Num relâmpago de olhar
e um boxers pelo meio
sou a espuma do mar
a deslizar nesse anseio.

Vou rebolando, esfregando
vou mexendo sem tocar
e ansiosa vou esperando
a onda por rebentar.

EM - UM SOPRO NO DESTINO - RUTH CÂNDIDO - LUA DE MARFIM

quinta-feira, 3 de março de 2016

Aguardando! - LITA LISBOA

O sol, de doces cantos,
vai-se afastando moribundo,
oferecendo-nos a melancolia do crepúsculo.

Sorriso amargo no rosto,
silêncio na voz,
lanço dados à centelha de vida,
ainda fulgente,
na esperança de que a luz não se anule
nas estrelas, que serenas, rasgam o céu
e iluminam o meu mundo de memórias.

Numa transição inusitada,
que a sinfonia da terra me provoca,
solto o cantar da noite
e numa viagem pelas margens de ternura,
olho, na parede branca,
o bailar da minha sombra nua
que aguarda o renascer dum novo dia.

EM - NUANCES POÉTICAS - LITA LISBOA - CHIADO EDITORA

quarta-feira, 2 de março de 2016

Uma pequena luz - PEDRO MEXIA

Bruxuleante, como a luz do Sena,
a esperança é uma vela de emergência,
coto colorido, quando a electricidade
falha. Lembrar a vela, procurá-la,
depois os fósforos, o trabalho patético
de a acender, reacender, firmar a base
e depois cinco segundos bruxuleantes,
a esperança, e a luz (eléctrica) voltou.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 1 de março de 2016

Normal é a dor...* - CARLOS TEIXEIRA LUIS

Normal é a dor a solidão o verve da violência
e o cuspo do despreza Normal é a gorjeta
e o desdém o chuto no vagabundo
e o taipal colorido contra a rua pobre
Loucos são os poetas que dizem e
tornam a dizer o indizível são loucos
porque inventam novas palavras para a
palavra amor que ainda seja amor
Loucos os poetas criam novas metáforas
para a expressão quero-te que ainda seja
desejo-te Normal é o dia igual a todos os
dias até uma nova noite fria e madura

EM - HOMEM-ÁRVORE - CARLOS TEIXEIRA LUIS - LUA DE MARFIM