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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Quase agora - NIC CARDEAL

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Depois a gente esfrega o chão,
recolhe os tapetes,
ergue os varais com as toalhas e os lençóis,
corta a grama que já extrapolou os limites,
abre as persianas e deixa chegar outro sol.

Depois a gente corta o fio,
afia a navalha,
estende o cordão entre as paredes,
pendura as fotografias que sobrarem no baú
– precisaremos afinar o olhar
[o jeito certo de olhar]
para não perder nenhuma palavra desviada
daqueles olhares estancados da vida
como meros ingredientes do nada –.

Depois a gente chora,
enxuga o leite derramado,
diz o amor engolido a sete chaves,
corre o risco de perder a hora,
o trem,
a viagem depois do fim,
e recolhe cada um dos abraços deixados de lado,
na cama, na poltrona,
na cadeira da cozinha,
sobre o armário,
empilha um por um,
dobrados e cobrados,
nunca dados,
os beijos desejados.

Por ora,
resta-nos a máscara,
o lábio amargo,
a garganta seca,
luvas guardando dedos sem anéis
em mãos mil vezes lavadas em água, sabão e desespero.

Por ora,
já é quase agora,
essa pobre senhora desconhecida,
estendida no varal entre razões escusas:
a vida – por um fio.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Epílogo - NIC CARDEAL

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Quando esta casa for desocupada
este corpo – minha casa de guardar a alma
quando perdido o ‘habite-se’
despejo previamente marcado
hora e data no calendário
não me queiram mal depois do final
nem bem
não terei mais a quem
nem ninguém
nem me convém
honrada lápide ou epitáfio
só quero uma labareda a cremar os ossos
desta casa de guardar a alma

as cinzas?
um sopro basta
estarei distante, longe
na vastidão do fundo ou alto
um tudo de novas argamassas
ou nada

no céu da minha boca
um planeta em extinção.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Liquidação anatômica - NIC CARDEAL

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Vendo coração descompassado
válvula mitral em estado literal
artéria aorta no caminho de volta.
Faço escambo
sem nenhum problema de veia entupida
– estúpida é a vida
que se esquece de estancar minhas feridas.
Faço descontos
invento contos
refaço uns pontos
também concedo alguns versos
como brinde ao universo
– liquidação anatômica
no anátema da tua presença
com possibilidade de paraísos –
meus infernos internos tão inteiros
serão doados aos pedaços.
Alugo coração acelerado
válvula de escape
em caso de choque
– faço escândalo em miúdos gemidos
se me trouxeres alguma novidade sobre a vida.
Pago recompensa
acaso te demores
a contar lentamente
minhas batidas cardíacas.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

terça-feira, 23 de outubro de 2018

N(ave) mar - NIC CARDEAL

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É certo que as ondas irão dar na praia.
Também seguem mar adentro,
conforme o vento.
Somos águas revoltas,
somos águas profundas
em constante movimento,
até que a eternidade desponte
bem na linha do horizonte
revirando-nos ao avesso do mundo.

Por certo que o oceano sou eu,
teus mares irão adentrar aos meus
- dois mares raros - tempestades conjugadas
reverberando grandes trovoadas
e um Piloto que abandonou o navio.

Decerto é insensato
que mares raros sejam inocentados
bem certo que depois da calmaria
pagaremos o preço
ainda que o bom Piloto volte ao navio
jogando âncoras de aportar ao cais.

Sinto muito desde antes do mundo
sou oceano a beber dos teus mares
em goles de causar tempestades.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS II - ANTOLOGIA - IN-FINITA

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Síria - NIC CARDEAL

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De que me adianta a poesia,
a casa cheia de lembranças,
a vida no centro - em ordem - na desordem
entre pensamentos adjacentes,
a panela esquentando a comida,
o domingo com vistas para a alegria,
a calçada larga pra tantos passos,
um sorvete de creme escorrendo entre os dentes?
De que me adianta a roupa lavada
entre chuvas largas em revoada,
e um colibri fazendo ninho em frente à casa,
se nada posso dizer ou fazer que me salve
de não ver ou sentir ou sofrer
a dor lancinante - dilacerante - horripilante -
desses absurdos artifícios
nessa guerra sem sentido
- tão vazia e sem medida
– que vai e vem e nunca acaba?
De que me adianta a palavra
se não cicatriza nenhuma ferida,
nem ressuscita mortos entre rasuras, escombros
e restos?
De que me adianta eu tão pouca,
sofrendo de utopias
nesse verbo ser tão imperfeito,
nessa vida assim tão louca,
tentando esquecer o lamentável,
o insustentável presente do indicativo,
quando é urgente e imperativo
o cessar das armas?
De que me adianta a palavra
calculando distâncias imprevisíveis, impassíveis e
impossíveis
entre um simples fim de domingo
e milhares de crianças feridas e mortas,
vidas tortas, tão remotas
- quando o dia nem importa – logo ali?
De que me adianta ser alma,
se nada me salva
desses nossos (des)humanos gestos?

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS II - ANTOLOGIA - IN-FINITA

domingo, 21 de outubro de 2018

Manifesto - NIC CARDEAL

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Se tu me escreves,
não te enganes,
não te pertenço.
Faço das entrelinhas
o meu pouso
ou o meu abandono.
E me liberto
do teu manifesto
ao desenredo do mundo.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS II - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sábado, 20 de outubro de 2018

Depois de abril - NIC CARDEAL

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Abril que já se fecha a olhos vistos
depois de uma Lua rosa
e um coração vermelho resistindo.
Abril que já finda sem recomeços
e nossas mãos vazias
já não têm peso e nem medida.
Abril que floriu tanto desespero
mas também pariu esperança
outra vez que nem criança.
Não me negue esse adeus
depois da minha lágrima
estancar tua ferida, triste abril,
traga-me outra chance
meio a meio,
meio a maio,
um mês inteiro,
como um grande canteiro
de semear novos tempos,
novos sonhos,
- mas não tarda -
acende logo
luz acesa no meu peito
uma estrela bem brilhante
nos meus olhos d’água.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS II - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Aos meios - NIC CARDEAL

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Quero luz pousada
no fundo da alma
um silêncio profundo
de ouvir as margens
réstias de mim
inteiros de mim
metades
pedaços
uns traços
aos seus fins
ou meios
sem receios.
Quem me garante
a plenitude da chegada
depois dessa (louca) travessia?
Viver
será mesmo assim?

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS II - ANTOLOGIA - IN-FINITA

domingo, 1 de julho de 2018

Poema nosso de cada dia - NIC CARDEAL

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Poesia nossa que estás na margem,
santificada seja a tua estrofe,
venha a nós o teu infinito verbo,
seja feita a tua rima
assim na mente
como no cérebro,
levando-nos em direção
à alma da utopia,
na exata medida da nossa necessidade.

O poema nosso de cada dia dá-nos hoje,
perdoa nossa falta de palavras, de sonhos,
de alegrias e escrituras,
assim como nós perdoamos
aqueles versos
que nos têm preterido
na exata dimensão
da nossa vã filosofia.
Não nos deixes
cair na aflição
da palavra vazia,
sem contorno ou fantasia.
Livra-nos, enfim,
da realidade nua e crua.
Amém.


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sábado, 30 de junho de 2018

Lavras - NIC CARDEAL

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As palavras lavram a folha no arado da linha.
Às vezes despencam parágrafos abaixo e,
machucadas,
erguem-se ainda tontas,
dançando versos soltos
num sopro de vento.
As palavras nem dormem
- conversam entre si
no travesseiro do pensamento.
As palavras – essas bailarinas da alma!


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sexta-feira, 29 de junho de 2018

Dissecação - NIC CARDEAL

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Por baixo da pele
tenho carne,
tenho ossos,
veias feito rios
de águas vermelhas.

Por baixo da voz
guardo silêncios,
gritos adormecidos,
verbos a conjugar,
palavras nunca ditas.

Por baixo de mim
sou infinitos,
caminhos oblíquos,
sonhos longínquos.

Quando de mim nada restar,
lembra que esse sonho
é mesmo assim:
depois do começo,
depois do fim,
a gente desperta
na outra face
da mesma moeda.


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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Dentro de mim - NIC CARDEAL

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Dentro de mim um barco.
Águas revoltas, águas profundas, águas paradas.
Às vezes rasas, às vezes fecundas.
Mares raros, rios secos, fontes salinas.
Barco vazio, barco repleto,
às vezes escasso, às vezes completo.

Dentro de mim o oceano,
dores escusas,
sabores amargos,
doces lembranças.

Dentro de mim a gota,
a sombra, a letra,
o verbo solto, sem verso,
eco preso à garganta
no reverso da mesma estrutura.

Dentro de mim um grito.
Sou toda ouvidos,
o som do mundo.

Dentro de mim um barco,
um rasgo mais que perfeito,
uma gota: o oceano em si.


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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Das entranhas - NIC CARDEAL

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Não sou das letras.
Sou das veias.
Aquelas que nascem
entre coração e mundo de fora
entre alma e mundo de dentro
deixando escapar
rios de sentir.

Não ocupo nenhuma cadeira.
Sou caseira.
Meu ofício é artesão:
faço das tripas coração para traduzir-me em palavras
ainda que sejam rasas
servem-me sobremaneira
na medida propícia
para o entendimento de mundo.

Não sou das beiras.
Sou das profundezas.
Das entranhas sem artimanhas.
Faço das tripas coração para virar-me do avesso
quem sabe assim pagarei o preço
na soma exata da palavra dita.
Por isso escrevo
e me atrevo.

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terça-feira, 26 de junho de 2018

Alinhavos - NIC CARDEAL

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Minha carne é fraca
- sou tecida
em curtos pavios –
o fogo arde
a água invade
a beira é rasa
o tempo é breve.
De que me serve
vento sem folha
terra sem ventre
escuro sem lume?
Quero um pouco mais de improviso
nesse riso guardado em estoques.
Busco a alma escondida na gaveta
onde guardo tantos medos desde sempre.
Desalinhei minhas simetrias
descosturei minhas mãos
e libertei meus receios do blecaute.
Hoje adormeço mais contente:
tenho um sonho iluminando meus escuros
e uma alma germinada pra semente.


EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS - ANTOLOGIA - IN-FINITA