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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Lacrimatória 7 - JAIME ROCHA

Mas é nas tábuas de um corredor que cresce uma rosa vermelha. Ali está a sua sombra e a música e também o espaço que o homem encontra para respirar. Lá fora, em frente de uma cancela, uma outra mulher com um rosto de morta esconde as mãos entre o musgo que ocupa a madeira. Atrás de si, uma janela anuncia a presença de um corpo. É o terror que persegue o homem, uma imagem que se cola aos pulsos e o faz cortar-se com uma navalha. Não há consolo nem artifícios que consigam findar a agonia. O seu peito curva-se para dentro e quase lhe esmaga o coração. O homem inicia então o caminho da água e do sangue. Vai pelo mar, pelos rochedos, pisando todas as saliências que lhe cortam os pés.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

18 - JAIME ROCHA

As árvores secaram. Um uivo colorido
atravessa uma alameda. É o rasto de uma águia
que destrói os carros e cospe para as pedras.
Alguém corre debaixo de arcadas de madeira mas
os seus pés tornam-se pesados quando tocam no
cimento. A águia volta depois com um manto
vermelho sobre as asas e engole os restos de carne.

EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

29 - JAIME ROCHA

É uma prisão com um estábulo
e nesse espaço há uma torneira
de onde sai uma água verde. Um dia,
nasceram rãs e os cães ladraram até ao
amanhecer. E a seguir às rãs surgiram
pássaros e outros seres cada vez mais
distantes do homem. Viscosos, com
grandes mandíbulas invisíveis. Todos
pensaram que uma nova era havia
chegado, mas a prisão permaneceu
intacta e sólida como um túmulo.

EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

43 - JAIME ROCHA

Quase no fim, numa pequena nuvem de água,
os corvos dançam e vomitam um besouro
gigante. Todos os homens se ajoelham numa
longa noite. Todos se defrontam com um
último olhar do pássaro. E depois existe
um poço com uma tampa ondeada que ferve
ao sol e envia uma luz cinzenta para o céu.
Dessa água nasce um novo ser que se dispersa
pelos terrenos escolhidos para o centeio.

EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

quinta-feira, 29 de março de 2012

Poema sete no Anfiteatro - JAIME ROCHA

A árvore, o cão, a pedra, um triângulo de ódio
saído de uma fogueira. Os homens estão vendados,
os dedos metidos em barras de ferro. Têm a carne
exposta para os muros, enquanto um leão se solta
e os persegue ao apelo de um grito. Há um homem
que aplaude vestido de vermelho. Quando ele
acena, os dedos saltam-lhe das mãos como se
fossem minúsculas bolas de bilhar espalhando-se
pela arena. O anfiteatro vive então os primeiros
dias incandescentes, sem tréguas, esmagando
cada gesto com um capacete. Ao fim de cada dia,
uma mulher com uma lâmina apanha
silenciosamente os fragmentos do cérebro e nesse
repasto o cão preto uiva enchendo-se de água.

EM - OS QUE VÃO MORRER - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

segunda-feira, 19 de março de 2012

Visão trinta e cinco - JAIME ROCHA

Desapareceria por detrás dos legumes
como um pássaro inventado pelo pedreiro,
já sem asas, mas com um fôlego de ave,
capaz de tapar o universo com o bico
e de engolir todo o pensamento conseguido
até hoje pelos homens. Uma mulher com
uma guilhotina no berço e um choro próprio,
esperando que os construtores do mundo
saíssem da terra para conquistar a água
e o fogo e fazerem da peste um outro
modo de resistir ao tempo.

EM - OS QUE VÃO MORRER - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

sexta-feira, 9 de março de 2012

Visão trinta e quatro - JAIME ROCHA

Um mar onde os monstros se fossem desfazendo
e, depois, no meio dos barcos, renascessem com
uma outra luz, respondendo a um sinal. Nesse
momento o homem cortaria as mãos, logo após
ter serrado minuciosamente o corpo de centenas
de gaivotas, deitadas sobre a praia,
presas por um fio a uma âncora. A mulher
dançaria nas muralhas de um farol no centro
desse foco luminoso, espalharia as roupas
pela água ou desapareceria no vento.

EM - OS QUE VÃO MORRER - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Poema três no Anfiteatro - JAIME ROCHA

Um homem espreita por uma muralha e vê um
vulto a debater-se com a morte. Existe um pacto
entre ele e esse fosso misterioso por onde corre
um rio encarnado. Um leão caminha de rastos
à procura de uma saída. Vai ferido a uivar no
meio das pedras. O homem esconde-se numa gruta.
A sua espada reflecte uma luz solar, Corta-se num braço,
enterrando a lâmina devagar. Tudo à sua volta se
levanta e o abençoa. O céu tapa-se respondendo ao seu
apelo, definindo-lhe uma alma e um corpo vitorioso.

EM - OS QUE VÃO MORRER - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Visão doze - JAIME ROCHA

mas o pedreiro afirmava que se temia
essa verdade como se ela pudesse
fulminar o anjo. Porque tudo se passa
afinal nesse dólmen e é lá que estão escritos
os nomes das árvores e dos venenos.
Quando a maré encheu, o homem reparou
a muralha com as mãos de quem edifica
o paraíso. Porque ali poisavam
os cabelos e as saias da mulher e era ali
que o seu corpo haveria de ser tomado
pelas forças da rocha.

EM - OS QUE VÃO MORRER - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Visão onze - JAIME ROCHA

A mulher voltara para se vingar.
Conseguira convencer o anjo
de que não haveria a esperar das mãos
do homem mais do que uma maldição.
E foi por isso que o musgo das criaturas
desapareceu engolido pelo dólmen.
Contou o pedreiro que se sentia o mastigar
demorado da pedra, o triturar dos ossos
por finas mandíbulas. E toda a gente sabia
como eram os sacrifícios dos cordeiros,
o cheiro do sangue e as plantações.

EM - OS QUE VÃO MORRER - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Visão dez - JAIME ROCHA

Já não era exactamente um anjo aquilo
que se via acenando na falésia e também
não se parecia com um monstro de um só olho.
Os pássaros haviam regressado antes da maré
e depararam com um velho sacerdote,
uma figura do tamanho de um dólmen
com uma asa entre as omoplatas e duas
hienas sobre os pés. Para o homem, aquilo
era o outro lado do anjo preto, porque à sua
volta ouvia-se o mesmo choro, seguido do
mesmo grito, a mesma assombração.

EM - OS QUE VÃO MORRER - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

sábado, 21 de janeiro de 2012

Visão sete - JAIME ROCHA

O homem parou quando lhe viu o seu único
seio e vingou-se. Alguém, antes dele, a decepara.
As costas nuas tinham o tamanho do mármore,
riscadas por um ancinho. O sangue era morno,
caindo, como uma serpente. O seu rasto deixava
atrás de si um muro pequeno que se solidificava
com a respiração das aves. O homem quase perdeu
o medo, porque o que ele fazia era explicar-lhe
as diversas formas de morrer antes do amor.

EM - OS QUE VÃO MORRER - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Visão seis - JAIME ROCHA

Quando o sol nasceu no dia seguinte
trazia um sinal dourado numa das
pontas e um anel de prata onde
estavam gravadas todas as palavras.
Tratava-se de uma morte esperada,
decidida há muito entre os homens.
Era uma mulher que havia ressuscitado
do mar e a ele regressava com o corpo
mutilado. Sempre que a sua imagem
surgia de dentro de um rochedo,
a terra sucumbia e as algas secavam
fascinadas pela luta.

EM - OS QUE VÃO MORRER - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

domingo, 1 de janeiro de 2012

Visão quatro - JAIME ROCHA

Depois, pela madrugada, nasceu um monstro
com uma só asa e nela, totalmente roxo,
poisava um corpo de mulher. O homem
decidiu que incendiaria a água, mas não o
conseguiu.Por isso edificou uma muralha
onde colocou lâminas e pequenos orifícios.
Era um velho pedreiro. Naquele lugar havia
um túmulo e, a seus pés, uma argola de ferro.

EM - OS QUE VÃO MORRER - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

sábado, 31 de dezembro de 2011

Lacrimatória 46 - JAIME ROCHA

O homem lembra-se de antigas caçadas em que se
degolavam os animais com os dentes e as mulheres
corriam à frente dos cavalos até aos caniçais. Era
o tempo da tortura, da glorificação, das raposas. O
tempo em que as cobras invadiam os festins, assobiando
pelas mesas. Um marinheiro procura em vão a sua
casa nas terras dos Feaces após os naufrágios. Entra
pelo rio do inferno e em todos os lugares habitados por
monstros. É invencível apesar de desfeito pelo sal.
Quando surge na praia é como um barco
encostado a um pontão, petrificado pelos limos.
Como se um deus o tivesse transformado numa ilha
e nela habitasse uma jovem mulher, a grega, a das
vestes brilhantes.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Lacrimatória 50 - JAIME ROCHA

É ela, a mulher, roçando pela areia, desfazendo
a seda do casulo, lentamente, como se os seus
cabelos saíssem daquele livro, onde tudo está
inscrito, a paixão derradeira e os objectos
musicais. O seu corpo é um lírio fortalecido pelos
cavalos. Os seus dedos cruzam-se com a morte
dos pássaros. Lizzie anda pela humidade com as
veias expostas ao calor. Arruína a ilha com o sangue,
dissolve-se na erva. Depois, vem a escuridão e um
sorriso coberto de veneno. Já não traz óleo sobre a
pele, nem os corvos se atiram contra o perfume dos
vestidos. A agonia devora o nevoeiro e nada mais
existe do que uma sombra, o fim.

É esta a fala do homem, antes da morte.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

domingo, 11 de dezembro de 2011

Lacrimatória 21 - JAIME ROCHA

Mas o rosto dela está definitivamente gravado
no corpo do homem, solidificado nos seus olhos,
como um banco de coral. As suas lágrimas caem
na pedra, fabricando novos rochedos. É nessa visão
que os pássaros suspendem o voo, nesse enigma. A
figura de branco mistura-se com a ninfa amortalhada
e esta olha para a remadora como se habitassem num
vaso grego, num outro mausoléu esquecido nas
masmorras da ilha. ouve-se um grito, o som de um
suplício, e os ciprestes fecham-se tomando a forma
de uma árvore de fruto. Uma única árvore que cresce
subitamente ao lado do túmulo, escondendo o homem
dentro do tronco para que os outros não vejam a
imensidão da dor.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Lacrimatória 17 - JAIME ROCHA

O homem vê um barco aproximar-se. Um
destroço errante que navega à deriva, sem mestre,
trazendo três figuras conhecidas, aprisionadas no
convés, o cavaleiro, o homem da montanha e o
guerreiro. Um anjo negro recolhe-os, ajudado pela
figura de branco. Vêm amarrados por cabos de aço,
como destroçados, como se saíssem de um desastre.
Procuram uma última morada junto do túmulo da
mulher. O pedreiro finge que não os vê, empenhado
que está na reconstrução da ilha. Mas um corpo
vermelho surgido de uma das fendas da muralha
trá-los para o presente. Os olhos deles ficam
devorados por um turbilhão de luz como se
olhassem para uma cidade incendiada.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Lacrimatória 14 - JAIME ROCHA

A ilha torna-se ainda mais clara aos olhos do
homem. Aquilo que parecia um círculo de pedra
em torno dos ciprestes é agora uma plataforma
de relva estendida na água como se se tivesse
transformado subitamente num pequeno navio
petrificado, como se o castigo de um deus tivesse
caído sobre ela e a devolvesse a um espaço parado.
Apenas os corvos e as garças mostram, com os
bicos, restos de bois que velhos marinheiros ali
tinham devorado, escondidos do sol e da tempestade.
Ao contornar os rochedos, ele descobre os vestígios
de uma muralha, uma linha de terra dura, de ferrugem
e de toros com enormes pregos espetados e cruzadas
entre si.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Lacrimatória 9 - JAIME ROCHA

Puxa-a pelos braços enquanto um cão vigia o
caminho. A folhagem desprende-se com o
movimento e a nudez espalha-se pela erva
anunciando um momento de loucura. Um outro
cão surge do mato com uma perdiz na boca e os
dois ficam  a olhá-la enquanto uivam. O homem
cobre-a de seda encarnada, deixando que o peito
toque no chão e desse lugar se soltem dois corvos
bravos. Há um cisne que procura chegar-se à água
e garças que aguardam as migalhas deixadas pelos
peixes. Tudo se concretiza dentro de uma zona escura,
de uma rede, perto de um precipício, mas o homem
não consegue sequer levantar o rosto com os dedos.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA