Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
NESTE MOMENTO O TOCA A ESCREVER É PATROCINADO POR ALGUMAS EDITORAS E AUTORES QUE OFERECEM LIVROS DE POESIA.

sábado, 31 de outubro de 2015

Amantes da poesia - PAULA DELGADO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

A minha vida é uma peça
encenada num palco de poesia
onde me deleito virtualmente
com os poemas que inspiram o meu viver
dia após dia!
Sou amante de poesia
nela absorvo todos os sentidos
entre o respirar e o suspirar
de um coração que nasceu com arte para amar!
Na transparência do meu sentir
amo a poesia,
amo as letras,
amo a natureza
e tudo o que é simples e de rara beleza!
Amo a amizade quando ela é verdadeira
e consegue permanecer, para além do tempo,
da distância, ou da idade
uma vida inteira!
Aos amantes da poesia
um convite tenho a fazer
vamos seguir felizes por trilhos salpicados de amor
e com olhares salpicados de luz e esperança
que se possam reflectir na poesia que ousamos escrever
na magia de cada novo dia que temos para viver!

EM - AMANTES DA POESIA - ANTOLOGIA - UNIVERSUS

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Maiombulismos II - MANUEL C. AMOR

Crianças fluíram
em danças
atravessadas por luares
que existem em todos nós.

Foi então
que dei comigo a romper
as barreiras do sono e remover remorsos
          E pus-me a cantar

EM - CANTO DE DIÁSPORA - MANUEL C. AMOR - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A casa - SOFIA BARROS

Deixa-me chorar-te e rasgar, lentamente, a pele
com gemidos agudos de frio e de saudade
voltarei a chorar-te sempre e enquanto houver
olhos e dor e peito. E vontade.

Deixa-me chorar-te, obrigando-me a viver
com a mágoa da perda, do fracasso
do elo que criei, nunca o querendo perder
que desagua num rio que é o meu regaço.

Deixa-me chorar-te e uivar até morrer
e depois olhar-te ao longe, sabendo que não voltas.
Deixa-me rever-te no passado, nas paredes
que me acolheram lágrimas, filhos e revoltas.

EM - ANTES DE SERMOS DIA - SOFIA BARROS - LUA DE MARFIM

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Amar - MILA LOPES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Quando a gente olha
E vê quem nos olha
Quando a gente ama
Com loucura e doçura
O que nós sentimos
Vai além do corpo
Vai além de nós
Quando nos lançamos
Nos braços um do outro
Quando intensidade de amar
Nos leva além dos sentidos
Sabemos o doce sabor
De amar.

EM - O BEIJO DA ALMA - MILA LOPES - EDIÇÕES OZ

terça-feira, 27 de outubro de 2015

À beira do açude - GONÇALO B. DE SOUSA

plantarei uma árvore à beira do açude,
a sombra celebrando a mão, esquecido o nome.

não preciso de lembrar o vosso rosto, avós,
ele emerge do meu espelho, todos os dias.

as letras apagar-se-ão de todo o mármore,
mas a sombra no açude há-de perpetuar-se
no sangue das águas.

EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Amor - PAULO AFONSO RAMOS

Não quero escrever sobre o amor
aquele amor interminável
que se confunde com o sonho
e nos faz ansiar

não quero
ter uma alma
encostada ao desnorteio
e de permeio
um coração em sobressalto

e assim
não vou escrever
o que se confunde com a dor

amor

EM - PASSOS ESPALHADOS PELO CHÃO - PAULO AFONSO RAMOS - LUA DE MARFIM

domingo, 25 de outubro de 2015

Humana - MARIETE LISBOA GUERRA

Procuro-te,
no reflexo do lago
cristalino,
no vidro de uma janela
na pele sardenta de uma criança,
na surpresa dos teus desenhos
na forma de uma nuvem
no écran plano de um computador.
Corpo nu visto ao espelho,
numa fotografia desconhecida,
perdida no tempo.

Todos os traços desse rosto
são familiares
e ao mesmo tempo
tão desconhecidos

Vontade
de minha exigência
surgiu sem adição

Meramente humana!

EM - LÓTUS JASMIM LADO A LADO - MARIETE LISBOA GUERRA - EDIÇÕES OZ

sábado, 24 de outubro de 2015

Peito em arco - MARIA ADELINA VIEIRA

O que quer ser herói domina o ventre
Porque no ventre se concentra o medo
No ovóide ventre onde se gera o ser.

O que escolhe ser herói atesta o seu corpo
num passo em frente flectido firme
num pé extenso e fixo atrás desperto
nas mãos distintas apontando o céu
num peito em arco sempre sol aberto
num interno olhar posto só búzio seu.

Jura amar a luta como a rosa a alvorada
embainhar no ventre o fio da sua espada.

Enconchado no seu ser como um molusco do mar
ouve um galope morrer das batalhas por travar.

EM - DO TEMPO QUE TUDO MEDE - MARIA ADELINA VIEIRA - AUTORES DE BRAGA

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Soneto encantado - FERNANDA ESTEVES

No bosque encantado da imaginação
Passeio meus sonhos em voos de condor
Soltos e libertos em asas de amor
Esvoaçam ao ritmo do meu coração.

Descubro magias perdidas no tempo
Duende encerrado em fórmula de alquimia
Em Wiccas sagradas de sabedoria
Música intemporal trazida p'lo vento.

Vi danças de insectos com abas de grilo
Fiquei estupefacta, prometi sigilo
Vou ficar calada, nem vos vou contar.

A floresta vive a festa da flor
Celebra-se a vida em todo o esplendor
E eu fui coroada rainha da esperança.

EM - CANTEIROS DE ESPERANÇA - FERNANDA ESTEVES - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A ti pertenço - NANDA ROCHA

É por vezes no meio do meu silêncio
Que me encontro sem ti
E é na tua ausência
Que te sinto mais presente em mim
É na tua imensa falta
Que eu entendo a plenitude do teu abraço
E é na tua imagem
Que eu sou do espelho a miragem
É no teu semblante
Que eu eternizo cada instante
É assim perdida no meu tempo
Que te espero a todo o momento
E é no teu peito palpitante
Que eu me encontro vibrante
E simplesmente tudo esqueço
A dor a saudade e a ti pertenço!

EM - NA LINHA DO HORIZONTE - NANDA ROCHA - ESFERA DO CAOS

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A Beira Alta em Campolide - ANTÓNIO ALVES MARTINS

Eu nunca sonhei tanto como agora!
E que ventura, para quem está preso,
Por momentos deitar isto ao desprezo;
Dentro da noite imaginar a aurora!

Sonhar! Sonhar! A gente sonha - embora;
Das celas de prisão é grande peso...
Pode abrandá-lo qualquer sonho aceso,
Mas sempre, na alma, qualquer coisa chora!

Hoje, mal acordei, ouvi, distante,
Um gemido tão áspero e cortante
Que me parecia quase não ter fim...

- Carro de bois! - pensei. E vi a serra,
E vi a Beira Alta, a minha Terra,
Em Campolide - a soluçar por mim!

EM - A POESIA DAS BEIRAS - ANTOLOGIA - CAIXOTIM

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Sou vida - MARIA GOMES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Não sou letrada, nem contrária
Mas dalgum talento já me vejo
Sou, utopia na frustração diária
Que faz o meu furor no desejo.

Não sou doutora, nem falsária
Mas dalgum alento me protejo
Quanta fantasia, imaginária
Me sucede quando me revejo.

Não sou legada e nem por magia
Mas dalguma forma com vontade
Sou estrofes dadas nesta poesia.

Não sou leiga, nem analfabeta
Mas dalguma coisa sem vaidade
Eu sei que sou, mais que poeta.

EM - O MELHOR DE MARIA GOMES - MARIA GOMES - SINAPIS

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Morro em todas as horas - JOSÉ ILÍDIO TORRES

Acordei morto e nada tinha mudado
Fazia-se a guerra a meus pés
Ninguém sabia quem me tinha matado

Ainda perguntei se não seria o caso
De ser eu mais um soldado desconhecido
Na árvore do destino um fruto do acaso

Mas ninguém me respondeu
Nem o homem que penso que sou
Nem aquele que em mim morreu

Por isso cultivo palavras como punhais
E trago o léxico todo esventrado
De histórias que me são letais

Morto vivo noutro alojado em mim
Amanhã não acordarei, já decidi
E um eu verdadeiro nascerá por fim

EM - OS POEMAS NÃO SE SERVEM FRIOS - JOSÉ ILÍDIO TORRES - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 18 de outubro de 2015

Alma triste - JOAQUIM MARQUES

Oh! Alma triste, como tarde fria!
Pareces nuvem cinzenta, céu sem luz...
Ou sombra projectada, duma cruz...
Quando a luz do luar a alumia.

Oh! Alma triste, nebulosa carente
De Luz Divina, pra que possas brilhar...
Na noite escura, possas mais clarear...
Essa falta de nitidez, em ti latente.

Tens sonhos, mas depressa os esqueces!
Falta-te coragem, pra os realizar...
Melhor fora que nunca os tivesses.

Deixa de viver nessa melancolia!
Que bom seria, se isso fizesses!...
Vive teus sonhos... Mas com alegria!

EM - POETAR CONTEMPORÂNEO VOL I - ANTOLOGIA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sábado, 17 de outubro de 2015

A força do amor - LUIS DA MOTA FILIPE

Outrora recebeste-me, vindo do nada,
Agora deixa-me mostrar-te toda a felicidade
Quero que te sintas a pessoa mais amada
Não como num sonho, mas na realidade.

Quero dar-te o sol e oferecer-te as estrelas
Não te quero mais infeliz nessa escuridão
Quero mostrar-te que a vida tem coisas belas
E que todos se alcançam se me deres a mão.

Não quero pensar em deixar-te fugir
Mas fazer-te feliz e ver-te sorrir
Sem ponta de qualquer mágoa ou dor.

Não te quero entre lugares acorrentados
Mas somente onde nos sintamos amados
E contigo nossa vida seja guiada pelo amor.

EM - SENTIMENTO MAIOR - LUIS DA MOTA FILIPE - CHIADO EDITORA

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Soneto da mulher inútil - VINICIUS DE MORAES

De tanta graça e de leveza tanta
Que quando sobre mim, como a teu jeito
Eu tão de leve sinto-te no peito
Que o meu próprio suspiro te levanta.

Tu, contra quem me esbato liquefeito
Rocha branca! brancura que me espanta
Brancos seios azuis, nívea garganta
Branco pássaro fiel com que me deito.

Mulher inútil, quando nas nocturnas
Celebrações, náufrago em teus delírios
Tenho-te toda, branca, envolta em brumas.

São teus seios tão tristes como urnas
São teus braços tão finos como lírios
É teu corpo tão leve como plumas.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A alma ao vento - GILBERTO RUSSA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Quem nunca sentiu o sopro
Da tempestade dos ventos?
Coros... cães...
Em tese amarela das areias
Lambendo a face do rosto
Em alma,
Numa jangada de pedra.

Levanta-te, espírito de pele salgada
Por um Sol já gelado
Em tempo seco de Inverno.

Ouçam, ouçam o ganido dos cães
No pressentir a tempestade.
Ondulados de medos,
Que ergue e se afasta
No tempo que consome
A jangada de pedra
Da tempestade dos ventos.

EM - PRINCÍPIO DE UM VAZIO - GILBERTO RUSSA - UNIVERSUS

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

55 - RICARDO REIS

Quero versos que sejam como jóias
Para que durem no porvir extenso
          E os não macule a morte
          Que em cada cousa a espreita,
Versos onde se esquece o duro e triste
Lapso curto dos dias e se volve
          À antiga liberdade
          Que talvez nunca houvemos.
Aqui, nestas amigas sombras postas
Longe, onde menos nos conhece a história
          Lembro os que urdem, cuidados,
          Seus descuidados versos.
E mais que a todos te lembrando, screvo
Sob o vedado sol, e, te lembrando,
          Bebo, imortal Horácio,
          Supérfluo, à tua glória...

EM - POESIA - RICARDO REIS - ASSÍRIO & ALVIM 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Face oculta - ANA ALMEIDA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

No centro da alma resguardo o meu ser...
Essa essência matéria que, em vida, se mostra,
E no mundo se expõe aos olhos de quem vê...
E humilde se convence da pureza que se acha
Na alma de quem esconde a vergonha de ser criança
E a luz do olhar se apaga!...
Esse brilho que se afirma como um sorriso espontâneo
E devolve aos outros a confiança perdida!...

EM - DE-LÍRIOS - ANA ALMEIDA - CHIADO EDITORA

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O teu poder sobre mim - VICTOR MENDES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Desnuda-me a alma
e verás a sinceridade que há em mim

Desnuda-me o coração
e terás uma bondade sem fim

Desnuda-me dos segredos
e libertarás meus degredos

Desnuda-me das saudades
e eliminarás minhas fragilidades

Desnuda-me da dor da ausência
e verás a minha eloquência

Desnuda-me desta tristeza
e verás meu amor com toda a clareza

EM - RIMAS DO CORAÇÃO - VICTOR MENDES - EDIÇÕES OZ

domingo, 11 de outubro de 2015

A nudez do canto - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Não me peças poemas quando tenho canções presas na garganta. Canções que adormecem como as estrelas, ou como os pássaros que deglutem os frutos maduros. Se me cansares, partirei, como cheguei, como uma asa, sem códigos etéreos, sem sombras libertadas pelas colinas do planisfério. Nunca estás quando o vento muda de quadrante, quando o destino é outro, quando a minha alma gela de frio. Sim, esta é uma introspecção cantada nas horas vadias, sem encantamentos, sem rios, sem as horas percorridas por juras. Deixa-me cantar estes pequenos pedaços. Sim, pedaços de poemas incompletos.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

sábado, 10 de outubro de 2015

Momento num café - RUY CINATTI

As mãos lindas que vi deixam-me absorto:
compridos dedos, polegares de espátula,
um dedilhar de flores em jardins ociosos,
só comparável a conversa amena
de duas mulheres simples debruçadas
sobre o tampo liso de uma mesa.

A riqueza da vida reside nisto:
um leve toque no ombro do próximo...
uma cortina de chuva vedando a verdade
olhos indiferentes, indiscretos...
e um ar de encanto, um fácil soluço
ouvido longe, como que em segredo.

EM - 56 POEMAS - RUY CINATTI - RELÓGIO D'ÁGUA

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Esta minha voz grita - JOEL LIRA

Mesmo se fosse vilão, criminoso,
bandido, marginal, fora da lei,
ou mesmo um assassino rancoroso
nunca teria amor vindo de alguém?

Se fosse mesmo um patife, um sacana?
Melhor, um pulha dos bem ordinários.
Teria a voz meiga duma "fulana",
dando-me apoios extraordinários!?

Mas tu chegada ao meu céu tão aflita,
pois de braços caídos te entregaste,
me deste vida, e logo me mataste?

E sem um adeus para me dizer...
Fugiste de mim. Porquê esconder?
P'ra não ouvires esta voz que grita!?

EM - POESIA AO VENTO - JOEL LIRA - LUA DE MARFIM

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Lua sorrindo - MARIZA SORRISO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

A lua hoje sorriu pra mim
Não dava pra ver sua face
Não se lhes viam os olhos
Mas os lábios, esses sim
Se mostravam de todo faceiros
Como quem encontra
O amor primeiro
Nos finais das tardes de outono

A lua hoje está sorrindo
Festeja o nosso encontro lindo
E seus lábios como os teus
Formam uma curva pra cima
Parece boca de menino
Satisfeito...
Com amor
A transbordar-lhe o peito

EM - NA FLOR DA PAIXÃO - MARIZA SORRISO - EDIÇÕES OZ

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Essência dos dias - JOSÉ GIL

com fios de seda,
um elemento fértil
une o triângulo

a alma justa
no céu justo

um dia é a essência
sem suporte e sem rede
com fios de seda

entre escutar e falar,
há uma mesa de pausa
sem perfil

liberta
a onda dos sentimentos
a mesa de madeira
a caneta clara
na aérea luz
em que o sol
une as alegrias
comuns

EM - FRACTURA POSSÍVEL - JOSÉ GIL - EDIUM EDITORES

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Forma de protesto - ANA CASANOVA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

São versos indignados
Os que escrevo
Não uso armas
Uso poemas como forma de protesto
Falo dos marginalizados, dos explorados
Da miséria humana e da dor.
Os que fazem a guerra e usam armas
São imunes às palavras.

EM - TERRA VERMELHA - ANA CASANOVA - EDIÇÃO DE AUTOR

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Perenidade - JOSÉ AUGUSTO DE CARVALHO

Não são lendários os fantasmas de ontem,
que assombram os castelos em ruínas...
Qualquer que seja o tempo a que remontem,
és sempre tu que em nós te determinas.

No pó que sob as pedras arrefece
e é cinza na lembrança que perdura,
germina a claridade que nos tece
nas sombras frias desta noite escura.

No todo somos tempo em movimento.
A rotação da Terra gera os dias,
a translação da Terra gera os anos...

Nas ânsias, nas angústias, o memento
cavalga no silvar das ventanias
e irrompe p'los recônditos arcanos.

EM - DA CONDIÇÃO HUMANA - JOSÉ AUGUSTO DE CARVALHO - EDIUM EDITORES

domingo, 4 de outubro de 2015

O poema morreu - NUNO GUIMARÃES

hoje o poema morreu,
sangrando estrofes numa morte lenta
derrotado
abandonado
praticamente esmagado
por palavras duplicadas
casualmente encontradas
nesse canto apaixonado

hoje em procura desesperada
o poema descobriu-te enamorada
e lembrou-se, de repente
do que te ouviu dizer
de um modo convincente
do que sentiu ao te ler
tornando-se teu confidente
do que te viu escrever
desse jeito tão ardente

hoje o poema morreu
nos teus braços
de forma tranquila e calma.
paz à sua alma!

EM - SOLIDÃO - NUNO GUIMARÃES - NAUJOJI ROMUVA

sábado, 3 de outubro de 2015

Vendo-se encarcerado e solitário - MANUEL MARIS BARBOSA DU BOCAGE

Aqui, onde arquejando estou curvado
À lei, pesada lei, que me agrilhoa,
De lúgubres ideias se povoa
Meu triste pensamento horrorizado:

Aqui não brama o Noto anuviado,
O Zéfiro macio aqui não voa,
Nem zune insecto alígero, nem soa
Ave de canto alegre, ou agourado;

Expeliu-me de si a humanidade,
Tu, astro benfeitor da redondeza
Não despendes comigo a claridade:

Só me cercam fantasmas da tristeza:
Que silêncio! Que horror! Que escuridade!
Parece muda, ou morta a natureza.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - BOCAGE - VERBO CLÁSSICOS

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Tornado - JACQUELINE AISENMAN

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

A telha
sobre o telhado
está.
Mas a casa
que sob ela
havia,
não mais há.
Onde foi parar
tudo o que
deixei
entre o
céu e a terra
na última
vez
em que
adormeci?

EM - POESIA NOS BOLSOS - JACQUELINE AISENMAN - DESIGN EDITORA

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Fino manto - ANA COELHO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Nas asas de um anjo
que me guia no sonho
imagem nobre bordada
no mar em chamas frias
baloiçar nos teus braços
que as ondas cobrem
em manto fino irrefutável.

Estremeço nas teias
de rendas em lua e estrelas
que incutem nos meus olhos vivacidade
lapidados no cristal dos teus afagos
em brandura morna e terna.

Nas nuvens desenhos de luz
reflexos do teu rosto
pintados na quimera
que me cega o olhar
mudo em gemidos eloquentes.

EM - NUANCES DE UM SILÊNCIO A DOIS - ANA COELHO/JOSÉ ANTUNES - EDITA-ME