Mostrar mensagens com a etiqueta Casimiro de Brito. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Casimiro de Brito. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 19 de abril de 2016

Insistência - CASIMIRO DE BRITO

Inútil de músculos
vivo a esperar-te
tu-que-não-sei-quem-és

Mas quando vieres
se acaso vieres
o meu corpo cobrirá o teu corpo
e serás o hálito que me falta
o suicídio
a luz

E talvez te diga: Amanhece
tu-que-não-sei-como-és
mas a quem chamo

liberdade

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 13 de abril de 2016

54 - CASIMIRO DE BRITO

Há muito que não me lavo em águas limpas,
Diz o mestre; por mais barro que tragam
Do vento e da montanha
As águas são mais puras mais perfumadas
Longe dos homens. Observo-as
No chão - observo a virtude bem
Cultivada. Não preciso de ver o mar vinhoso
A pata do lobo as nuvens do outono
Para saber o peso dos pensamentos
Urbanos. Afasto-me e celebro
O culto antepassado: o fulgor
Das águas a cal rumorosa o pó das viagens
Sem regresso.

EM - NA VIA DO MESTRE - CASIMIRO DE BRITO - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

4 haicu - CASIMIRO DE BRITO

37

Sei tanto dela
como ela de mim. Entramos,
cegos, um no outro

73

Nasço de novo.
O teu amor expulsa-me
para o outro mundo

137

Em ti me debruço
e ardo. Qual de nós, amor,
pegou fogo ao outro

173

Se tanto me amas
derrama-te, meu amor,
no meu corpo em chamas

EM - EROS MÍNIMO - CASIMIRO DE BRITO - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 17 de julho de 2015

4 haicu - CASIMIRO DE BRITO

160

Num vibrante músculo
me transformas. Tudo é simples
e azul. Bebo o mar

190

As tuas cuecas,
oh, deslizam pelas pernas!
meus dentes ajudam

195

Asa efusiva
teu corpo no meu plantado
a árvore da vida

271

Poderás dizer-me
como rolam as lágrimas?
- Bebe-as, saberás

EM - EROS MÍNIMO - CASIMIRO DE BRITO - LUA DE MARFIM

terça-feira, 12 de maio de 2015

4 haicu - CASIMIRO DE BRITO

10
Amo-te mas não digas
a ninguém: o mar sabe
as estrelas também

70
Se nos fascinamos
e tanto nos desejamos
qual de nós é quem?

97
A luz débil da lua.
Até pensámos que tínhamos
luz própria

290
Na barca do sono
me deito. Tu, a meu lado...
O amor é perfeito

EM - EROS MÍNIMO - CASIMIRO DE BRITO - LUA DE MARFIM


quarta-feira, 29 de abril de 2015

4 haicu - CASIMIRO DE BRITO

1

Entro no teu corpo
como quem entra no centro
da terra-mãe

7

Assim gozo a vida
do momento que passa -
amor para sempre

29

Doce o meu destino -
rezar a vida inteira
no altar do teu corpo

43

Deixas-me voltar
às tuas coxas? Voltear
por dentro de ti

EM - EROS MÍNIMO - CASIMIRO DE BRITO - LUA DE MARFIM

segunda-feira, 2 de março de 2015

4 haicu - CASIMIRO DE BRITO

51
A sede que tenho
do licor dos teus lábios;
o meu corpo treme

100
Bebo um vinho fino - 
eu que só queria beber
na tua fonte íntima

163
Cabelos em cascata
sobre mim derramada -
começa a cantata

233
Levo a Primavera
no meu coração: entro em ti,
chegou o Verão

EM - EROS MÍNIMO - CASIMIRO DE BRITO - LUA DE MARFIM


segunda-feira, 22 de julho de 2013

HAIKUS - CASIMIRO DE BRITO

98
Mãos vegetais -
raízes de árvores invisíveis
trepando nas veias

99

Hotel de cinco estrelas.
À noite, no meu terraço,
contemplo as outras

100

Lágrimas que são
cascata pura. Outras vezes
avalanche mortal

EM - A BOCA NA FONTE - CASIMIRO DE BRITO - LUA DE MARFIM

domingo, 5 de maio de 2013

58 - CASIMIRO DE BRITO

Atravesso a fronteira sob o céu
Complacente: as árvores as pedras o rio
Falam a mesma língua. Os homens
Desamados por governos intransigentes
Interpretam as sílabas da lei.
Atravesso complacente a fronteira.
No leito desta casa sem portas nem
Muros as águas correm mas ignoram
A dialéctica do caminho: bebem o chão
E basta. Senta-te na relva, diz o mestre -
Descansa um pouco; essa é a via mais breve.

EM - NA VIA DO MESTRE - CASIMIRO DE BRITO - TEMAS ORIGINAIS

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

5 Haiku - CASIMIRO DE BRITO

 
1
Não separes a água
da sua espuma -
a vida é só uma
 
 
4
Em tudo há velhice
e nascimento - um pé repousa,
outro caminha
 
 
10
Um filho nasce.
Núpcia da suprema dor
com a maior alegria
 
41
Pesa-me nos ombros
o pó dos caminhos
que não percorri
 
70
Poeta audacioso -
ousa decifrar as sombras
da luz original
 
EM - A BOCA NA FONTE - CASIMIRO DE BRITO - LUA DE MARFIM
 
 


domingo, 29 de maio de 2011

O fruto 1 - CASIMIRO DE BRITO

O fruto rasgado pela recuso
do amor
encostado ao vento
- arco-íris queimado
por dentro

A fronteira do fruto
as balas a criaram

Mas não destruíram
a primeira haste

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A terra - CASIMIRO DE BRITO

A terra
na guerra
é nossa
- do povo.

Na paz
a terra
é vossa.
E o povo?

Na terra jaz
nas grades
do ovo -

sem guerra,
nem paz
nem renovo.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 9 de maio de 2011

As sementes 3 - CASIMIRO DE BRITO

Terra desprendida, terra vermelha
mas não
morta: música rudimentar da
memória. Essa coisa viva de que falo,
esse rosto constelado
de frutos deformados (agudos). Terra
de fósseis, terra violenta
onde pousa o sangue, onde os dentes ouvem
o país da fábula. A
máquina.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 29 de abril de 2011

As sementes 2 - CASIMIRO DE BRITO

Falo de sementes ou antes
de transitórios bichos verdes.
Um barco, vestígios de sangue alongando-se
nos corpos mais simples. Verdes
metamorfoses
de guerra
neste jardim mecânico
de terra
queimada.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 19 de abril de 2011

As sementes 1 - CASIMIRO DE BRITO

Esta viagem é de lâmina
começá-la. A terra nua, o corpo intranquilo
e por vezes um naufrágio
de pupilas diluídas, de-
formadas
em sua impossível geometria.

Esta lâmina é de louco
percorrê-la.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 9 de abril de 2011

O fogo - CASIMIRO DE BRITO

Desço ao centro do fogo,
ao diamante dos rios, à tempestade
luminosa do orvalho.

Sorvo esta luta de gigantes
com os olhos queimados de água,
lavados de lava.

Desço ao centro do fogo e da água,
a campos de batalhas, às cores insaciáveis
que me dividem ao longo da viagem.

Na memória, nos escombros da terra
levanta-se o sol, o fulgor da manhã.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 29 de março de 2011

Liberdade - CASIMIRO DE BRITO

Como se de asas se tratasse
invoco teu nome liberdade.

Procuro nos teus seios de lava
palavras nuas à beira da morte.

Âncoras de sol,
frutos indistintos que prometam
um porto com a forma do corpo.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 19 de março de 2011

O ofício - CASIMIRO DE BRITO

Escrevo para sentir nas veias
o voo da pedra.

Antecipação da paz
neste país de granadas
moldadas
no silêncio dos frutos.

Escrevo como quem escava
no bojo da sombra
um mar de claridade.

Pedras vivas de possibilidade,
as palavras levantam
o crime, os pássaros do pântano.

Escrevo
no grande espaço obscuro
que somos e nos inunda.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 9 de março de 2011

A palavra - CASIMIRO DE BRITO

Mordo a palavra e dispo-a
de pó. Sorvo seus rios de sangue
e nela me reclino, e nela se demora
o azul do sol, os dedos submissos
da lama, a luz, o perfil silencioso
de um pequeno animal
parindo, na relva, quase desfeito.

A palavra bebo, a palavra equilibro
no vinho dos olhos, na húmida
cadência da noite. E outras cores
se abrem. E outros sons amanhecem.
E o poema se desprende, vivo e aberto.
Inviolado.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Apenas um bago - CASIMIRO DE BRITO



Às vezes sou visitado por um enxame
de ruídos, ou apenas
um bago, e tenho medo
medo porque não sei o segredo
não conheço a fenda
por onde se passa para o país
dos ruídos: é preciso
respirar sem ruído
para ouvir por exemplo o diálogo da água
e do vento: o desenrolar
dos seus pensamentos
de prata.
Outras vezes sou visitado
pelo rumor do teu dorso
a meu lado: água
um pouco mais compacta.

in... Animal volátil - CASIMIRO DE BRITO/ ROSA ALICE BRANCO - Edições Afrontamento

Site da editora aqui