Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
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sábado, 30 de abril de 2011

Que ri por último - TERESA M. G. JARDIM

Conversas inacabadas atraem outras conversas,
os lábios contraídos escondem
os meus dentes postiços de cão-que-morde.

Sorrio com os olhos, seduzo-te, apanho-te
como um cão-que-morde.

Depois exponho os dentes-do-riso e rio muito.

EM - JOGOS RADICAIS - TERESA M. G. JARDIM - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 29 de abril de 2011

As sementes 2 - CASIMIRO DE BRITO

Falo de sementes ou antes
de transitórios bichos verdes.
Um barco, vestígios de sangue alongando-se
nos corpos mais simples. Verdes
metamorfoses
de guerra
neste jardim mecânico
de terra
queimada.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 28 de abril de 2011

para uma colecção de bonecas - VASCO GRAÇA MOURA

guarda a infância num armário
para que o tempo vá brincando.
depois, se vês que é necessário
tira-a de lá de vez em quando.

EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL

quarta-feira, 27 de abril de 2011

É na rua - TOMAZ KIM

É na rua
que nós, os tristes, choramos
ao vermo-nos passar
nas faces dos que passam.

É nos olhos vazios dos que passam,
nos olhos sem fundo
que nos vemos,
meninos que trouxemos
uma colher de prata na boca.

É na rua
que nós, os tristes, choramos.

EM - OBRA POÉTICA - TOMAZ KIM - INCM

terça-feira, 26 de abril de 2011

As estátuas - JAIME CORTESÃO

Meunier ou Rodin...'Sculpir, que belo!
Roubar o duro mármore às montanhas
E zás... à voz febril do camartelo
Brota-lhe a vida eterna das entranhas!...

Também um Verbo escultural anelo;
Quero às ideias dar, as mais estranhas,
Aquele estilo bárbaro e singelo
E transformar em deuses, brutas penhas.

Poeta, adoro as sóbrias esculturas;
Se encarno o pensamento em forma viva,
Talho as palavras como pedras duras;

Quebro, amacio, alteio, ali rebato-as,
Até lhes dar uma nudez altiva
- Que os grandes versos são como as estátuas.

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Daquele lugar...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Daquele lugar onde a sombra é lisa
desmoronado respiro
as pétalas de argila Abro-me
à concavidade do início
na lenta consciência das plantas
Pelas janelas de sombra se alonga a inocência
Tudo se salva no animal mais flexível
de ribeiros frágeis se forma um caudal brando
E a brisa pára sobre a água imóvel
e o reconhecimento é a expansão propícia
que reúne a concha à espiral da sombra
e as idades mistura na fábula do presente

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

domingo, 24 de abril de 2011

A batalha de Okinawa - ANTÓNIO MEGA FERREIRA

Entre os corais
mansos
vogam peixes.
às vezes, dilata-se o olhar,
cintila no fundo
a sombra de outro
peixe,
uma moeda,
um rasto, um brilho
de metal.
Movem-se num ápice,
sem outro destino
que a luz e a água.

Esse golpe de luz
é um estilhaço.

EM - O TEMPO QUE NOS CABE - ANTÓNIO MEGA FERREIRA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 23 de abril de 2011

Gramática: o verbo - NUNO JÚDICE

Principal ou auxiliar, é o verbo que faz mover
o discurso, dando à existência a sua qualidade
activa, e transformando-a no ser idêntico
que reúne em cada um sujeito e estado, sem
distinguir uma ideia de outra. Porém, a
conjugação dos tempos e modos multiplica
o que dizemos por nós, por vós e por eles,
desde o passado ao futuro; e no presente
em que o enunciamos, o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cuidados intensivos - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Para quê este trabalho sem guarda,
solitário como vício (alguém o disse)
a que não se foge, como do destino,
e não protege ninguém da morte?

EM - NADA TÃO IMPORTANTE, QUE NÃO POSSA SER DITO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O meu corpo* - ALEXANDRINA PEREIRA

O meu corpo
insubmisso
é grito
dissonante do prazer.

Loucura assimétrica
intemporal
que me veste de cetim
quando me liberta.

É quando me torno
cavalo à solta
nas mãos do Universo.

EM - INSUBMISSÃO DOS SENTIDOS - ALEXANDRINA PEREIRA - TEMAS ORIGINAIS

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Caixa de fósforos - TERESA M. G. JARDIM

Disseste: «O amor é
uma caixa de fósforos».
Eu disse: «O tempo promete chuva.»
Concluíste (em voz baixa, num tom de aviso):
«A cedência às estratégias da escrita
pode sair cara, neste lugar onde
ninguém dá nada a ninguém
sem algo em troca.»

EM - JOGOS RADICAIS - TERESA M. G. JARDIM - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 19 de abril de 2011

As sementes 1 - CASIMIRO DE BRITO

Esta viagem é de lâmina
começá-la. A terra nua, o corpo intranquilo
e por vezes um naufrágio
de pupilas diluídas, de-
formadas
em sua impossível geometria.

Esta lâmina é de louco
percorrê-la.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 18 de abril de 2011

meu amor, meu quente marulhar - VASCO GRAÇA MOURA

meu amor, meu quente marulhar das águas ancestrais,
meu alvoroço terno das manhãs, há um vaporzinho no ar,
percorro a linha fina do teu corpo, o seu desenho ainda ensonado,
e és para mim toda a realidade nesse instante.
há roupas, sim, roupas que vais vestindo, algum creme que pões,
uma cama desfeita, um leve baloiçar das árvores lá fora
e o sol de inverno a alastrar nas vinhas.

EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL

domingo, 17 de abril de 2011

E um dia - TOMAZ KIM

E um dia,
os exilados nos próprios lares
empunharão violinos:
os inermes e castrados de sonho
não serão mais.

E um dia,
virá o anjo no cavalo branco:
ergueremos
cálidas alcovas de riso brando
e música.

E um dia beberemos estrelas e chagas!
E um dia o sonho desflorado triunfará!

EM - OBRA POÉTICA - TOMAZ KIM - INCM

sábado, 16 de abril de 2011

Andorinhas - JAIME CORTESÃO

Voa a andorinha, d'asa em foice aguda,
Corta o ar, sobe ao Céu, e vai e volta;
Não sei de ímpeto audaz que não lhe acuda
No delírio sublime, em que anda envolta.

Juntam-se às vezes numa coorte muda,
E, a um sinal, que uma andorinha solta,
Partem, povo liberto que sacuda
Asas, bandeiras negras de revolta.

- Eh! lá! eh! lá! Oh! andorinha espera,
Pára: que eu vou também, quero emigrar,
Tenho saudades duma nova esfera.

Agora, vá... largai! que além do mar
Abre o seio e sorri a Primavera...
Eia! andorinhas, é voar,,, voar...!

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Era um fosso...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Era um fosso talvez com flores e urtigas
e toda a paciência minuciosa do mundo
Havia no fundo a estática transparência
que se dourava num tranquilo azul
A ausência era visível como uma torre invertida
Ó subterrâneo perfume entre o zumbir de abelhas!
Pertencíamos ao tempo e às cisternas do silêncio
Estávamos ali misteriosamente densos
numa residência sem pena no absoluto
de um redondo sossego enamorado

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ele (Anna Akhmatova) - ANTÓNIO MEGA FERREIRA

Tanto deviam doer as noites,
e o frio nos nós
dos dedos -
o estilhaçar do vento nas vidraças
a arder de gelo -
que da noite fizeste a luz
de toda a noite:
Ele, o que veio de sempre
para ser o antes e o depois
da tua história,
o olhar que te viu
num retrato de Modigliani,
o ouvido atento
que te serviu de manto
e encobriu a tua tão frágil
nudez.

EM - O TEMPO QUE NOS CABE - ANTÓNIO MEGA FERREIRA - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O silêncio - NUNO JÚDICE

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

terça-feira, 12 de abril de 2011

Guia de perplexos - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Tenho-me conformado
à dita
destes poemas:
convencido da sinceridade
dos espelhos,
tenho deixado
que a perturbação
dos dias
se resigne a frases
de pouco empenho.

EM - NADA TÃO IMPORTANTE, QUE NÃO POSSA SER DITO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O líquido rio* - ALEXANDRINA PEREIRA

O líquido rio
que aqui nasceu
e que em sigilo
namorava a margem
... morreu.

Chora agora
a velha azenha
a dor póstuma
na inutilidade do tempo.

Verteu mágoa
em cada gota de água
enquanto espera
o despertar
da consciência do Homem.

EM - INSUBMISSÃO DOS SENTIDOS - ALEXANDRINA PEREIRA - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 10 de abril de 2011

Na minha idade - TERESA M. G. JARDIM

Vivo ilegalmente
na minha idade: falhei alguns aniversários.
Caminhei até onde o medo permitiu,
à beira das levadas de rega.

O meu primeiro amor foi um gafanhoto
verde, depois outros bichos pequenos.

Nunca me apaixonei no cinema
como as outras raparigas: apaixonei-me
pelo cinema.

EM - JOGOS RADICAIS - TERESA M. G. JARDIM - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 9 de abril de 2011

O fogo - CASIMIRO DE BRITO

Desço ao centro do fogo,
ao diamante dos rios, à tempestade
luminosa do orvalho.

Sorvo esta luta de gigantes
com os olhos queimados de água,
lavados de lava.

Desço ao centro do fogo e da água,
a campos de batalhas, às cores insaciáveis
que me dividem ao longo da viagem.

Na memória, nos escombros da terra
levanta-se o sol, o fulgor da manhã.

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 8 de abril de 2011

o busto do vate - VASCO GRAÇA MOURA

o olho num ponto, a linha
a meio das feições
a gola lechugiña
a síntese: camões

EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Esta pergunta - TOMAZ KIM

Esta pergunta obsecante,
torturando,
deixando
          os nervos em chama;
esta pergunta -
          o nosso fim.

Esta pergunta obsecante,
lacerando,
deixando
          o cérebro febril;
esta pergunta -
          a nossa cruz.

esta pergunta obsecante,
fustigando,
deixando
          a alma doente;
esta pergunta -
          o nosso X.

Esta pergunta obsecante,
queimando...
Esta pergunta -
          de onde, para onde?

EM - OBRA POÉTICA - TOMAZ KIM - INCM

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Diálogo voluptuoso - JAIME CORTESÃO

Ninfas do Céu, as nuvens vêm do Mar
De encher as fundas ânforas redondas,
E em musicais, em voluptuosas rondas
Seus brandos pés de sonho pisam o ar.

- Quem nos estanca as sedes hediondas? -
Dizem ervas sequinhas, a mirrar,
- Nuvens piedosas, fontes a voar,
Entornai sobre nós as frescas ondas. -

Volvem-lhe as nuvens, cheias de bondade,
Na queda d'água múrmura: - À vontade;
Bebei, inchai as sôfregas raízes. -

Ouvindo esse piedoso, húmido som,
Árvores, ervas, frescas  e felizes,
Dizem baixinho: - Ah!... que bom, que bom!...

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM

terça-feira, 5 de abril de 2011

Pela graça...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Pela graça que tem tão subtil
vê-la é ver o branco iluminar o tema
que não havia nem latente nem abstracto
como se apenas se abrisse o leque
da página que em si subisse a uma alta estância
E quanto se diz é produzir o acto iluminante
que faz ser visto o movimento de estar vendo
a animação silenciosa de um vazio navio
que é só feito do vento de não haver mais nada
do que o estremecimento do silêncio na palavar

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Niemandsrose - ANTÓNIO MEGA FERREIRA

Gás-de pensar ter encontrado
a rosa, hás-de gritar
esta é a rosa;
à tua volta todos
ouvirão, suspensos,
e, na rosa,
hão-de ver apenas o rumor
da tua boca
incendiada pelo verão.

EM - O TEMPO QUE NOS CABE - ANTÓNIO MEGA FERREIRA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 3 de abril de 2011

Poema - NUNO JÚDICE

Se o sol se atravessa no caminho de um homem,
a luz pode empurrá-lo para o sonho. Então, fecha
os olhos; espera que as imagens se apaguem
do seu horizonte; e entra no vazio que a treva
lhe oferece. O sol, porém, continua
a brilhar. E ele insiste em manter os olhos
fechados. Anda, com passos hesitantes, num
caminho de luz; as mãos procuram um apoio
na sombra que não encontra. E quando volta
a abrir os olhos, os sonhos continuam à sua
frente, como se fizessem parte do seu destino.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

sábado, 2 de abril de 2011

Beatitude - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Assim, bento de ignorância
e desleixo, deslizo
pelo cano dos dias
- projectos? - todos grandes
e muito,
certo de que o tempo
os vai gastando,
ao ritmo a que se amontoam
as beatas no cinzeiro
e com o mesmo cheiro.

EM - NADA TÃO IMPORTANTE, QUE NÃO POSSA SER DITO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Não sei a quem pertenço* - ALEXANDRINA PEREIRA

Não sei a quem pertenço...

Se à nudez do meu ser

Se à matéria

Se ao velho sonho
de morar na Lua.

Não sei a quem pertenço...

Mas no pássaro azul
que criou raízes no céu
(porque com ele se confunde)
mora a névoa
que me impede de ver
... que sou feliz!

EM - INSUBMISSÃO DOS SENTIDOS - ALEXANDRINA PEREIRA - TEMAS ORIGINAIS