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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Hora - José Saramago

Vou no caminho esparso, à luz difusa
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Minha água lustral - José Saramago

Minha água lustral, meu claro rio,
Minha barca de sonhos e verdades,
Minha pedra de céu e rocha-mãe,
Meu regaço de azul no fim da tarde.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Não há mais horizonte - José Saramago

Não há mais horizonte. Outro passo que desse,
Se o limite não fosse esta rutura,
Era em falso que o dava:
Numa baça cortina indivisível
De espaço e duração.
Aqui se juntarão as paralelas,
E as parábolas em retas se rebatem.
Não há mais horizonte. O silêncio responde.
É Deus que se enganou e o confessa.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

terça-feira, 21 de julho de 2026

Orgulho de D. João no Inferno - José Saramago

Bem sei que para sempre: onde caí
Não há perdão ou letra de resgate.
Mas fui, quando vivi, o sal da terra,
A flor azul, o cetro de escarlate.
Aqui, se condenado, não esqueci,
Nem morto estou sequer: torno a ser eu
No sangue da mulher que, acesa, pede
Aquele modo de amar que foi o meu.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

sábado, 11 de julho de 2026

Compensação - José Saramago

Caminho de palavras vou abrindo,
Ao coração das coisas apontado.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Já do coração das coisas afastado,
Mover um coração, se valho tanto.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

quarta-feira, 1 de julho de 2026

No silêncio dos olhos - José Saramago

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Enigma - José Saramago

Um novo ser me nasce em cada hora
O que fui, já esqueci. O que serei
Não guardará do ser que sou agora
Senão o cumprimento do que sei.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Opção - José Saramago

Antes arder ao vento como archote
Num deserto de sombras e de medos,
Que ser dócil rima do teu mote,
Um morrão de cigarro nos teus dedos.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Viajo no teu corpo - José Saramago

Viajo no teu corpo. Só teu corpo?
Mas quão breve seria essa viagem
Se no limite dela a alma nua
Não me desse do corpo a certa imagem.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 31 de janeiro de 2026

Signo de escorpião - José Saramago

Para ti, saberás, não há descanso,
A paz não é contigo nem fortuna:
O signo assim ordena.
Pagam-te os astros bem por essa guerra:
Por mais curta que a vida for contada,
Não a terás pequena.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - ASSÍRIO & ALVIM

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Testamento romântico - José Saramago

A versos eu, convoco quantas vozes
Em gargantas humanas já passaram
Desde o grito, primeiro articulado.

Quando a voz pessoal se vai calar,
Tome lugar o coro no vazio
Da ausência do homem, assinado.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - ASSÍRIO & ALVIM
 

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Nave - José Saramago

Do granito do chão rompem colunas,
Harpa de pedra rude e natural
Entre a laje e o teto retesada,
São os dorsos curvados como dunas,
Sob o vento calado e musical
Que varre a nave toda para o nada.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - ASSÍRIO & ALVIM

 

domingo, 31 de agosto de 2025

Um zumbido, apenas - José Saramago


Cai a mosca na teia. As finas patas
Da aranha recolhida se distendem,
E nos palpos gulosos, entre os fios,
O zumbido enrouquece, e para, cerce.

O que viveu, morreu. Abandonado
Ao balouço do vento, o corpo seco
Bate a conta do tempo que me rola
Num casulo de estrelas sufocado.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Meias-solas - José Saramago


Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.

Talvez parado as botas me durassem
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 19 de junho de 2010

Retrato do poeta quando jovem - JOSÉ SARAMAGO


Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do Sol no sítio errado,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

in... Cem poemas portugueses do Adeus e da Saudade - Antologia - Terramar