Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
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sábado, 31 de dezembro de 2011

Lacrimatória 46 - JAIME ROCHA

O homem lembra-se de antigas caçadas em que se
degolavam os animais com os dentes e as mulheres
corriam à frente dos cavalos até aos caniçais. Era
o tempo da tortura, da glorificação, das raposas. O
tempo em que as cobras invadiam os festins, assobiando
pelas mesas. Um marinheiro procura em vão a sua
casa nas terras dos Feaces após os naufrágios. Entra
pelo rio do inferno e em todos os lugares habitados por
monstros. É invencível apesar de desfeito pelo sal.
Quando surge na praia é como um barco
encostado a um pontão, petrificado pelos limos.
Como se um deus o tivesse transformado numa ilha
e nela habitasse uma jovem mulher, a grega, a das
vestes brilhantes.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Magnólia - MIGUEL TORGA

Uma flor.
Uma cor
Acordada.
Uma vida feliz,
Que o diz
Numa voz perfumada.

EM - POESIA COMPLETA VOL. I - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Paz - NATÁLIA CORREIA

Irreprimível natureza
exacta medida do sem-fim
não atinjas outras distâncias
que existem dentro de mim.

Que os meus outros rostos não sejam
o instável pretexto da minha essência.
Possam meus rios confluir
para o mar duma só consciência.

Quero que suba à minha fronte
a serenidade desta condição:
harmonia exterior à estátua
que sabe que não tem coração.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Penetrações - JORGE SOUSA BRAGA

Constatou-se a existência de mil e
Trezentas e quinze fendas

Na observação de seiscentos e setenta
E cinco hímenes de tipo semilunar

Isoladas na sua maioria e apenas
Num caso interessando a fossa navicular

EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A quarta porta - MANUEL ANTÓNIO PINA

É a solidão
o que o coração procura,
como poderei não
saber o que não sei?

Estou cada vez mais longe de qualquer coisa,
regressarei alguma vez
a tudo o que há-de vir?
O que está atrás de ti

é a imagem
que o Futuro persegue.
Este é um lado de tudo
e o outro é o mesmo e o outro.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

29 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Ver tamanha beleza na flacidez das carnes,
nos pedúnculos dos braços,
ó doente acamada,
mas tão desenvolta em orquestrar as arestas diárias,
o curso metabólico do sangue,
atenta aos ruídos mínimos desse exercício
invasor, pesado, progressivo,
labareda da dor, matéria infatigável
do cansaço.

EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 25 de dezembro de 2011

O teu nome - ALEXANDRE O'NEILL

Flor de acaso ou ave deslumbrante,
Palavra tremendo nas redes da poesia,
O teu nome, como o destino, chega,
O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo
De todas as cores do dia!

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 24 de dezembro de 2011

XIX - MÁRIO CESARINY

Muito acima das nuvens seja o centro
das nossas misteriosas poéticas
o irresistível anseio de viajar
um só momento trabalhado à mão
nos ermos mais altos
mais desaparecidos

EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um campo aleatório - ANA HATHERLY

Seda vítrea
luz de neve

Frio agudo
alto céu
veludo e véu

Cintilação de Vida
construção
em si mesma infinita

A língua:
              um campo aleatório

EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Depois de tantos anos* - LUÍS FALCÃO

Depois de tantos anos
                    ver-te
Queimando incenso num templo

Finjo não entender
O desaparecimento da luz
Que me era destinada
E regresso a casa por outro caminho.

EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Lacrimatória 50 - JAIME ROCHA

É ela, a mulher, roçando pela areia, desfazendo
a seda do casulo, lentamente, como se os seus
cabelos saíssem daquele livro, onde tudo está
inscrito, a paixão derradeira e os objectos
musicais. O seu corpo é um lírio fortalecido pelos
cavalos. Os seus dedos cruzam-se com a morte
dos pássaros. Lizzie anda pela humidade com as
veias expostas ao calor. Arruína a ilha com o sangue,
dissolve-se na erva. Depois, vem a escuridão e um
sorriso coberto de veneno. Já não traz óleo sobre a
pele, nem os corvos se atiram contra o perfume dos
vestidos. A agonia devora o nevoeiro e nada mais
existe do que uma sombra, o fim.

É esta a fala do homem, antes da morte.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Convalescença - MIGUEL TORGA

Hora a hora,
Nasce outra vez em mim a vida.
Devagar,
Como um gomo de vide a rebentar,
Cobre de verde a cepa ressequida.

É um fruto que acena?
É uma flor que há-de ser?
- Fui eu que disse que valia a pena
Viver!

EM - POESIA COMPLETA VOL. I - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Intoxicação - NATÁLIA CORREIA

Poetas do mar vinde trazer-me as vossas ondas.
Sou cidade. Onde bichos e anjos se devoram
por uma côdea de imortalidade.

Vinde trazer-me a espuma onde as auroras
balbuciam o princípio dum segredo
guardado pelas bocas luminosas
que a noite fende nos últimos rochedos.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

domingo, 18 de dezembro de 2011

Canção - JORGE SOUSA BRAGA

Este esperma é puro
Como a água de um iceberg

Colhido por masturbação
Centrifugado   capacitado...

Bebe deste esperma   simples
Ou com gelo e limão

Só assim conseguirás
A redenção

EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 17 de dezembro de 2011

A pura falta - MANUEL ANTÓNIO PINA

Tudo é sabido onde
alguma coisa fala de si própria
e de falar de isso
e de falar de falar.

Aquilo que está cada vez mais longe,
a pura falta de coisa nenhuma,
é o que Conhece e É
a sua indizível inexistência.

Nós, os maus, onde
é fora de fora de tudo,
eternamente regressamos
ao sítio de onde nunca saímos.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

25 - ARMANDO SILVA CARVALHO

A tua efígie foge-me, deixaste-a
adormecer sobre a almofada das tardes
últimas de maio
até chegar o dia dos teus anos.
Mas ela, ao acordar, entre as tuas amigas,
ficou junto de mim,
presa às fotografias moribundas.

EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Os amantes de Novembro - ALEXANDRE O'NEILL

Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

XVI - MÁRIO CESARINY

A vida
às portas da vida

e o azul masculino de um rio

Amor Ardente
de forma distinta

EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A alta pirâmide da fala II - ANA HATHERLY

Falar é
um saber amplo e profundo
indício
duma obsessão incurável

Os pontos ágeis da petulante fala
dobro
como se fossem uma súbita esquina

É uma longa caminhada
no sentido do outro
buscando
a esquiva consonância do encontro

EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Queria erguer-te... - LUÍS FALCÃO

Queria erguer-te um cântico
Que ressoasse entre os cânticos

Noite fora persegui uma palavra
Um diamante de fogo e silêncio

O amor permanece uma língua bárbara.

EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 11 de dezembro de 2011

Lacrimatória 21 - JAIME ROCHA

Mas o rosto dela está definitivamente gravado
no corpo do homem, solidificado nos seus olhos,
como um banco de coral. As suas lágrimas caem
na pedra, fabricando novos rochedos. É nessa visão
que os pássaros suspendem o voo, nesse enigma. A
figura de branco mistura-se com a ninfa amortalhada
e esta olha para a remadora como se habitassem num
vaso grego, num outro mausoléu esquecido nas
masmorras da ilha. ouve-se um grito, o som de um
suplício, e os ciprestes fecham-se tomando a forma
de uma árvore de fruto. Uma única árvore que cresce
subitamente ao lado do túmulo, escondendo o homem
dentro do tronco para que os outros não vejam a
imensidão da dor.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

sábado, 10 de dezembro de 2011

Testamento - MIGUEL TORGA

Na taça que eu lavrei quero que bebas
O segredo profundo dos meus dias;
E, dona do que é meu, de mim recebas
Toda a riqueza que não conhecias.

A taça é branca como um véu sem cor,
E o segredo nimbado de vazio;
Quero que a veja pois o teu amor,
E bebas só dum trago o luar frio.

Quero, depois, que quebres o cristal
De encontro à fraga dura da lembrança
Do Poeta que fui ao natural
Junto de ti a trabalhar na herança.

EM - POESIA COMPLETA VOL. I - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A exaltação da pele - NATÁLIA CORREIA

Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem o gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a selva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Laboratório - JORGE SOUSA BRAGA

Tinham quatro células os embriões
Observados assim ao microscópio

Pareciam pães de Padronelo
Polvilhados de branca farinha

EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Antes do princípio - MANUEL ANTÓNIO PINA

Este é o traidor, o filho
os seus puros olhos param
debaixo da cabeça,
em silêncio percorrem a Morte,

o passado, as palavras omitidas.
Só aquele através de cujo horror
a Literatura escrever
se tornam faladores.

aqui está a calúnia, o silêncio,
aquilo que não tem nada para dizer,
eu morro debaixo de isto e de tudo
e tudo isto é sabido para mim.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

20 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Não revolvam as casas
nesse escoar das águas de lavagens
que te entopem os nervos, ao contemplares o lixo,
acamado, vivo, no canto mais infeliz
da garganta e da sala.

EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Poesia e propaganda - ALEXANDRE O'NEILL

Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
Pelo pequeno avião da propaganda
E no céu inocente de Lisboa,
Um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 4 de dezembro de 2011

V - MÁRIO CESARINY

Katyn?
Grande Descoberta!

O homem encontra
com tão pouco esforço
o pus o sangue
a peste a guerra

EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 3 de dezembro de 2011

A alta pirâmide da fala I - ANA HATHERLY

A alta pirâmide da fala
o que é?
o que é que realmente expressa?

Uma efémera aliança
se esconde no enigma do sentido
no mistério do acidente

Tudo são zonas de silêncio
e intervalo

Um emaranhado só

EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Só os corvos... - LUÍS FALCÃO

Só os corvos e um monge
Procuravam abrigo no claustro
Perante o ícone seu corpo tremia
E subitamente
                       A neve
O mundo inteiro irreconhecível
o amor a arder por entre as rosas.

EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Lacrimatória 17 - JAIME ROCHA

O homem vê um barco aproximar-se. Um
destroço errante que navega à deriva, sem mestre,
trazendo três figuras conhecidas, aprisionadas no
convés, o cavaleiro, o homem da montanha e o
guerreiro. Um anjo negro recolhe-os, ajudado pela
figura de branco. Vêm amarrados por cabos de aço,
como destroçados, como se saíssem de um desastre.
Procuram uma última morada junto do túmulo da
mulher. O pedreiro finge que não os vê, empenhado
que está na reconstrução da ilha. Mas um corpo
vermelho surgido de uma das fendas da muralha
trá-los para o presente. Os olhos deles ficam
devorados por um turbilhão de luz como se
olhassem para uma cidade incendiada.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA