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quinta-feira, 26 de março de 2020

O carnal VII - ANTÓNIO SILVA MELO

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Invoco-te por entre o prazer
Na mesma bravura
Das amarras nos oceanos.

É tão digna a tua carne como a minha.
Velada à nascença
As duas uma e longa.

És agora um braço do mundo
E sinto o pecado por fraqueza.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

sábado, 21 de março de 2020

O carnal VI - ANTÓNIO SILVA MELO

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Peço-te que me desrespeites e não olhes para a doutrina normal
das formas.
Peço-te que olhes não mais que a atenção
A minha face de púrpura no desejo por dentro.
Peço-te que me peças que te dispa
E seja livre toda a garganta.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

segunda-feira, 16 de março de 2020

O carnal V - ANTÓNIO SILVA MELO

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É por ti que faço as guerras nas estranhas manhãs.
As línguas com cio
O rosto ávido que procrio
Os fios nos dedos na tua ausência.
E por ti criei o instinto
De uma perfeita inocência
Nos bicos do teu peito arqueado.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

quarta-feira, 11 de março de 2020

O carnal IV - ANTÓNIO SILVA MELO

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Uma mulher é agora um soneto
Fino e claro por decifrar.
De lilás se mostra ao ar
Acordado ao ciúme
Devagarinho nas dobras da seda.
Mulher ou soneto
Desce um fecundo calor
E a mão alínea por alínea descobre.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

sexta-feira, 6 de março de 2020

O carnal III - ANTÓNIO SILVA MELO

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Pareces-me bela ao sair da cama
Só porque te olho nua.
Percorro as excitações de um corpo humano
A ferocidade de todos os sentidos.
O corpo.
Sempre será o corpo.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

domingo, 1 de março de 2020

O carnal II - ANTÓNIO SILVA MELO

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De olhos fechados mesmo
Nunca serão horas de dormir.
Não. E tu sabes de alma na almofada
Isto das irreversíveis decisões
Da linguagem do sangue inquieto.

A parceria sem cérebro de um plasma numa cama.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Poemacto I - ANTÓNIO SILVA MELO

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Digo no cansaço a verdade de mim
E é sempre egoísta fazê-lo
É sempre árduo cantar a humildade
Contar as vezes desse ofício.

É enorme ser só para nós.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O poema II - ANTÓNIO SILVA MELO

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A palavra nasce debaixo da trave seca
Do minúsculo corpo que berra
Da artéria vazia já de ar.

Palavra ignóbil
De cinzas com sangue coalhado
De fumos por estudar
De graça na pose teatral.

Palavra de rasto sangrento
Nas grutas da carne insolente
Ou da meia volúpia
Na busca da idade evitada.

Palavra
Sim a palavra amputada
De nervo maleável
Do dizer nos minutos mortos.

A palavra na distância aberta
Como víscera no porão transportada.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

sábado, 15 de fevereiro de 2020

O poema I - ANTÓNIO SILVA MELO

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Um poema suicida-se lentamente
Na confusão da carne.
Desce ainda sem luto
Só brancura e força. Só dardo
Sem lástima nem pudor.

De fora está o mundo. A grata violência
No sangue que vem de dentro
Na primeira das sagradas coisas
Das coisas inalteráveis
E da paz exterior dos rios abençoados.

E o poema mata-se de cabeça
Na fonte do seu regaço.

E já nenhuma palavra pode salvar o poema
Ele é o cair absoluto
A suprema postura de uma sombra
Bélica e destrutível
A revolta passiva do tempo.

Perplexa espera na harmoniosa matéria.

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Depois dos dias II - ANTÓNIO SILVA MELO

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Seguem para lá dos muros
Os homens nas estradas do mundo
Desfraldados de silêncio na ponta do limite
Arcaico tempo feito de mudos
Nas curvas das tréguas

Para lá e não para cá dos muros
E à punhada dirão às trevas
De que passos se fizeram
Em hora clara e estonteante

Marcha eterna que a terra falará
Aos filhos dos filhos à boca do fogo
À infinita imperfeição da criação humana
Devagar. Demorada. Incerta
Sem estrutura para história

Que um frio único os proteja
E toda a vida se confesse mesmo desfeita
Na sombra da paisagem sem fé

E as folhas caem entre o sacrifício
Dos homens nas estradas do mundo

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O carnal I - ANTÓNIO SILVA MELO

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A minha mão atravessa o carnal
E por ti adentro me adivinhas
Por entre o orifício te marco e selo
Tão aguda acção. Bruta e soberana.

E só eu sei quanto depressa duro.

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sábado, 1 de fevereiro de 2020

Poemacto II - ANTÓNIO SILVA MELO

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Penso duplamente na brutalidade das coisas
Na grandeza exata dos sentidos. Se o são.
Na combustão das ideias nos homens.

A terra é redonda
E ninguém cai pela cabeça
Pelo juízo falível dos movimentos.

É fácil acordar da nesga que sou
E grito aos outros
De crânios virados do avesso.

Nada percebo e o medo é puro
Nos rancos metódicos do poema.

E é morosa a treva no dia.

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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Desassossego I - ANTÓNIO SILVA MELO

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É tanta a idade que me separa das coisas. De não estar na beira
de nada. Dessa razão que ordena fazer em nome dos iguais
a mim.
Oh verdade que não existes. Malabarismo da humanidade
onde o corpo se mexe por destino ou açoite.
E mando apagar o eu no tudo que se veja, porque o direito
ainda está do lado de quem respira.
E esses que pensam pelo que sou, que ocupem as sepulturas
que construí.

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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O corpo - ANTÓNIO SILVA MELO

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O corpo é o luxo incessante
O lugar viciante dos oprimidos
Da obra feita e realizada.

Corpo de mãos entre a cabeça
Na cara onde cresce o poder
E os nós de sangue respiram.

Corpo de voz rebentada
De graça e de ferida
De órgãos baralhados
Volume de reza e de massacre.

Corpo de ângulos novos
Monte deprimente voltado
Ao som da terra como artéria
Na ressaca dos poros
Da oficial claridade.

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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Depois do dilúvio III - ANTÓNIO SILVA MELO

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O Poeta é agora um anónimo vidente
Segue destroçado com as ruínas às costas e estremecido
até às entranhas
Sangra-lhe o nome cegamente e o deitar do cansaço é enorme
É enorme estar ali
Existir por fora e cantar nas próprias veias.

Passam barcas desmaiadas
Saídas das portas por onde atravessou a loucura
E o Poeta encosta-se à dureza molhada e grita quente
Enquanto se desfaz no coração da visão
Como se fosse o interior da terra
O interior da sua própria maldição.

Só um canto
Só um canto pode atravessar o mundo
Porque a morte fala depressa.

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domingo, 12 de janeiro de 2020

Depois dos dias I - ANTÓNIO SILVA MELO

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O suar dos dias é agora lento
Não assertivo como uma eira de mentes
Célebres e aliviadas com o sono.

Das febres foragidas não se quer memória
Esqueceu-se a assinatura seca
Assinalando as cabeças como prémios
Iluminados. Nunca breves.

Cai a veia grossa
Vida vasta. Espasmo comprido
Agora ao medo corpo estendido
Nome vivo dentro do nome
Amor antigo.

É sempre grande pertencer ali
Ser dos outros sem escolher
Ser sangue na mesma mais contido
E abrir os ossos no interior da queda.

A fotografia é morta
Cor sem sede no último dedo
Descida benevolente na margem órfã
A cova descoberta na labuta
A extrema rudeza do ar selada

O afastamento das leis nos ouvidos.

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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Versos íntimos - ANTÓNIO SILVA MELO

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Por sob a alegria me desconheço
De sobre o chão me chamas
Se quanto menos enlouqueço
Só quanto menos me amas

Digo fogo terra marcada
E digo minhas cruzes cerradas
Areias e mares para nada
Nem de vós céleres madrugadas

Já nem os olhos desviados
E da vida entre a vida
No teu cheiro a verde paz
Na minha e tua sentida

Canto funesto ópio duro
Que cansas e me matas
A desgraça dos nós nos ramos
Das raras mãos a desatas

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Desassossego II - ANTÓNIO SILVA MELO

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Às vezes penso não pertencer ao mundo dos vivos.
Dou-me a conversar com tudo menos gente corrida e já não
suporto a pressa ofegante, o olhar inclinado do suposto amigo
de lareira. E o que dizem já é veneno cuspido, à espreita de
presa adormecida. Não, já nada disto me consome ou distrai
para o tempo que o Salvador me assinalou. Já é imerecida toda
a santa luta que do corpo sai gratuitamente. São somente ecos
que alastram e só eles escutam e riem.
Sim eles os mortos que nunca deixei.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

sábado, 28 de dezembro de 2019

Amor e desencanto III - ANTÓNIO SILVA MELO

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Trouxeste a imensidão em ventos graves
E a sede entre a boca e a água.
O que está escrito nos livros do mundo
A teu lado está de joelhos
E desce nas curvas da matéria
E nela sobretudo respira o brilho.

Súbito é tudo que vem desde a lua
E no teu pasmo se acomoda sem regras de obediência.

De nada me serve qualquer facto
Sem essa certeza
Esse palato na textura que enche as formas.

A toda a largura de ti a necessidade de tudo.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Amor e desencanto II - ANTÓNIO SILVA MELO

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O que está agora por cima é a tarde
Verde e sentada na pele da seiva e das serpentes.
Tu e eu não temos nomes ao sol
Somente uma loucura de algodão
Esbatida no ouro da terra feita.

Só os olhos decidem a vida ou a morte
Todo o fogo é incompleto como os poemas
Que na carne começam pelo fim.

Ah paraíso onde se morre com as mãos apertadas.
No todo fica um jardim quase fechado.
Os teus braços no meu sono.

EM - POESIA SUBMERSA - ANTÓNIO SILVA MELO - IN-FINITA