Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Pousa devagar... - VERA L. T. SANTOS

Pousa devagar o coração.
Não vês?
Meu corpo sóbrio a desenhar-te o dia em movimento.
És tu o sangue e o mar sobre os meus olhos.

EM - CARDIO.GRAFIA - VERA L. T. SANTOS - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Agonia do mundo - DINIS H. G. NUNES

a qualquer hora
em qualquer parte
há tanta gente a sofrer à toa

e nós nada

nada temos a ver
sacudimos a água do capote
um dia essa agonia há-de entrar sem bater
e talvez percebas
que todos na desventura somos irmãos
e na aventura camaradas.

EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Reescrita - INÊS LOURENÇO

Fender os versos
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema cravar
o sabre rente às vísceras dos verbos,
à linfa de adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue. Romper
a velha epiderme.

EM - COISAS QUE NUNCA - INÊS LOURENÇO - &ETC

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ilusão... - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO


No dia a dia que passa,
Vivemos a ilusão
De que tudo tenha graça!
Talvez sim... ou talvez não...

Para fora da carapaça,
Deste nosso coração,
O que quer que a gente faça
Não passa de uma ilusão...

O que talvez possa ser,
É porém, bem mais profundo,
Porque todos julgam ser

Eles, o centro do "mundo".
Enganados estão, porém,
Para seu mal e desdém...

Em - CEM POEMAS... DIVERSOS - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Constrói a paz - EDUARDO ALEIXO

Constrói a paz
Para que tenham
Sentido as flores
E se diga aos que nascem
A razão das dores.

EM - AS PALAVRAS SÃO DE ÁGUA - EDUARDO ALEIXO - CHIADO EDITORA

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

9 - GLEIDSTON CÉSAR

No luar que aqui
Encontro
Revivo teu amor
No seio do sublime
Ser contempla, aqui,
A tua formosura
O amanhecer em ti.
Me encanto em teu
Ser
Manhãs e noites em
Teu seio
Revigorado sobre
Tua graça
Sinto-me livre.
Livre sobrevivo
Nesse amor.

EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

São objectos da noite...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

São objectos da noite nos limites da luz
Sombras e palavras em confusas massas
areias ervas ondas e números sementes
alfabetos e entre os cabelos flutuantes
uma cabeça verde Uma espécie de pele
forma um volume azul de contornos negros
Mas o cego que gira no centro de uma roda
restabelece o vazio e a brancura perfeita
Aí se concentram todos os fios da trama
e nela o tranquilo sono de uma estrela

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

das coisas velhas e novas - GONÇALO B. DE SOUSA

já agora, fiquem os meus afectos antigos
junto com as folhas secas, entre páginas,
de velhos livros de poesia.

todo o poema relido é triste; cor e perfume,
só na planta que cresce, à beira do regato,
água viva a caminho do mar.

vinho quero-o no copo, à minha frente;
o teu beijo, agora; e o poema a crescer
na folha branca, sobre a mesa.

estas coisas do presente, meus amigos,
são a nossa eternidade.

EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Fim - EDUARDA CHIOTE

Está, então, completo
o instante de serenidade
e de silêncio da
estátua?
Completas as miríades de palavras
sem o corpo
que agora, delas, se demite?
E acaso não se terá demitido sempre
expulsando o espectro
das palavras suaves que não afirmam
nem negam
nem se desacreditam?
Das palavras exaustas
e definitivas?
Repara no que lhes anula
o ímpeto: o vigor da entrega da criança
sozinha e suicida; e diz-me
por que a privaste, paixão perversa,
de cortar a própria língua?

EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Postal alentejano - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

A planura pode ser a montanha
da grande solidão de ervas amargas
- figo doce, castanha, vinho novo.

Anta, cromeleque, fogo de freira
sem cavaleiro, brasa prisioneira
ardendo sem se ver nem deitar fumo.

Infância, adolescência - e velhice:
o que depois e antes mesmo já
tresanda pela boca da macaca.

EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &ETC

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Pudesse o meu corpo... - VERA L. T. SANTOS

Pudesse o meu corpo cantar o mundo
ou as janelas dos teus seios
entreabertos para a rua.
Pudesse o meu corpo cantar o mundo
e, talvez,
dentro de mim se desprendessem as aves
tão vivas
como flores que se abrigam no teu rosto.

EM - CARDIO.GRAFIA - VERA L. T. SANTOS - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Na linha de Céline - DINIS H. G. NUNES

atravessei-me nas travessias da noite e não estou arrependido
porque vim ao mundo para me perder e aos meus sentidos
deste mundo surdo cego mudo frio e cru
simulo a morte para que um dia não a estranhe
e a receba em minha casa

porque quem fez da vida repartição pública
e nunca desejou ter alma de convento
passou por cá mas não soube
o terreno sacro que estava a pisar, inadvertidamente.

EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sala provisória - INÊS LOURENÇO

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
peça última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

EM - COISAS QUE NUNCA - INÊS LOURENÇO - &ETC

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

E os anos passam... - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO

Aos dez anos és um garoto,
Ainda em casa dos pais,
Mas aos quinze, seu maroto,
Já pensas em coisas tais...

Quando aos vinte mais afoito
Pensas saber para onde vais,
Aos trinta; trinta e oito,
Aos cinquenta muito mais.

Aos sessenta te reformas,
E aos setenta já não tornas
A fazer grandes planos,

E se aos oitenta chegares,
Já com poucos dos teus pares,
Tu serás um veterano...

Em - CEM POEMAS... DIVERSOS - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A respiração das pedras - EDUARDO ALEIXO

Há o momento
Do rasgão aberto
Na saia do tempo
Em que disponíveis
Sem o sabermos
Sentimos a respiração das pedras
E as carícias do vento...
São as musas?!
Eu diria:
- Não sei o que aconteceu!
Só sei que as velhas palavras
Cantam de um modo diferente
Como se dissessem
Coisas novas!...

EM - AS PALAVRAS SÃO DE ÁGUA - EDUARDO ALEIXO - CHIADO EDITORA

domingo, 13 de fevereiro de 2011

5 - GLEIDSTON CÉSAR

No indelével da vida nada mais podemos fazer
Seguir é o provável. Perdoar será sagrado
Para viver liberto de todos os caminhos falhados
Na falha, no insucesso e perdas, o que
Vale é que amanhã tudo pode ser
Vitoria se errar é poder acertar
Que amanhã eu seja o sucesso
Das minhas filhas.

EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS

sábado, 12 de fevereiro de 2011

nem sempre resiste a chama ao vento - GONÇALO B. DE SOUSA

nem sempre resiste a chama ao vento
e, de súbito, apaga-se,
deixando-nos os sentidos mergulhados
na treva primordial, terrível,
nesse intervalo em que a dor é tão grande,
que nem a luz a suporta.

EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Agreste eclosão...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Agreste eclosão entre os órgãos de argila
e os navios brancos de inércia deambulante
à luz da pedra vêem-se os rumores
e o ouro e o verde da serena fluidez
Sem pálpebras é o alvo na longínqua paisagem
A palavra segue a sombra cintilante
da serva das serpentes. O insignificante
é o repouso insular nas toalhas do vento

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O máximo detalhe acerca de... - EDUARDA CHIOTE

Dar-te-ei detalhes minuciosos
do que, e violento, na palavra
a ambos distancia - tu crias, através dela,
a ilusão de que os desacordos são,
meu sabedor de véus e doces lábios,
o que em verdade, ao invés de separar,
nos une.
Dizes amor de cada vez que amor
em pura arte e empenho assim
o enuncias
e sem acreditá-lo e sem mentir o finges.
E sem te aperceberes de como a desmesura
da morte
lhe reduz a chama
até à inerte vibração
das cinzas.

EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A palavra - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

Mastiga a palavra da vergonha:
faz do fel compota de morango.

O segredo branco e vermelho,
grita nu por cima do telhado.

Das vogais e consoantes faz
o fio de prumo da tua vida.

EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &ETC

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Quando tu partires - VERA L. T. SANTOS

Quando tu partires
devolve-me,
sem pressa,
o meu regresso
o cheiro a menta fresca das manhãs
a dor de todas as coisas
secretamente vivas.

EM - CARDIO.GRAFIA - VERA L. T. SANTOS - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Improvável poeta - DINIS H. G. NUNES

não tenho sono mas insónia de morte
não quero ser apanhado à toa
sem b.i., salvo-conduto ou passaporte
e depois, como faço a última viagem indocumentado?

quero passar-te uma procuração irrevogável para a vida
com reserva de usufruto para a eternidade:
creio ser poeta por desventura, importas-te?

EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Arte de não ser - INÊS LOURENÇO

A extinta arte de ser rosa,
a inútil arte de ser cardo, ou
numa espécie de dúbia liberdade, a
difícil arte de não-ser, nem
umas coisas nem outras.

EM - COISAS QUE NUNCA - INÊS LOURENÇO - &ETC

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Desilusão... - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO

Não... não me queixo da vida,
Pudera eu voltar atrás,
Para à mesma dar guarida
De forma mais eficaz.

certas coisas, à partida
Que importância já não dás.
Coisas e causas perdidas,
Foram feitas, já não faz...

É qu'em certas circunstâncias
Certas coisas de importância,
Da importância que já tive...

Vem depois desilusão...
Com razão ou sem razão,
Por ter sido tão "naíve"...

Em - CEM POEMAS... DIVERSOS - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Eternamente sábios - EDUARDO ALEIXO

Há homens e mulheres que bebem
A eternidade dos momentos.
Têm os olhos abertos
E atentos.
Vivem encantados,
Sorriem
E choram
Com a mesma facilidade.
Eternamente crianças,
São os únicos adultos sábios.

EM - AS PALAVRAS SÃO DE ÁGUA - EDUARDO ALEIXO - CHIADO EDITORA

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

4 - GLEIDSTON CÉSAR

Passos certeiros ainda perdidos
Vida vivida sem um vintém
Olhos inundados e infância perdida
Sou meu maior fracasso diante da maior
Perda de mim. Mesmo os caminhos que se
Cruzam a seguir são meus, teus, nossos e
Vossos
Na perda dos encontros, tudo que não se perde
É o que melhor se ganha, sem nenhuma pretensão
Ou todos os passos seriam sucesso.

EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Despondency - ANTERO DE QUENTAL

Deixá-la ir, a ave a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram...

Deixá-la ir a vela, que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa...

Deixá-la ir, a nota desprendida
Dum canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!

EM - SONETOS - ANTERO DE QUENTAL - ULMEIRO

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

da canção da terra - GONÇALO B. DE SOUSA

o perfume da flor suplanta a semente
- morta esta, mas não o sonho tecido de azul e ouro.
da clausura da terra ergue-se a esperança nova.
não cuides que caíste:
Deus prepara o teu maior triunfo,
e tu não sabes.

EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS