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sexta-feira, 25 de março de 2016

A pedra de toque - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Isto que se pensa
isto que se diz
é o toque da pedra
o milagre do giz.

É o deslumbramento
de se poder gravar
na ardósia do momento
o grifo do mal estar.

É o pressentimento
de se poder somar
o riso com o risco
o rictus com o mar.

É possuir-se o lento
tempo de calar
(mui leal conselheiro
dos que sabem cantar).

É esperar-se por dentro
o que nos vem de fora
e atirar a pedra
nos homens e na hora.

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

As férias - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Era uma rosa azul de água amarrada
um palácio de cheiros   um terraço
e uma jarra de amigos derramada
da casa até ao mar   como um abraço.

Era a intensa e clara madrugada
com cigarras dormindo no regaço
e a ampulheta do sono defraudada
no tempo cada dia mais escasso.

Era um país de urzes e lilases
de tardes sonolentas espreguiçando
um aroma de nardos pelo chão

e bandos de meninas e rapazes
correndo   amando   rindo e adiando
a minha inexorável solidão.

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

sábado, 23 de maio de 2015

O revólver - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Quando nos disparamos do que somos
quando nos encantamos e seguimos
o contido estampido do silêncio
que nos rebenta dentro dos ouvidos
a corola pistola   o suspiro do tiro
já não nos basta a bala da palavra
o gatilho dos dedos
o alvo do sentido.

Trincamos uma pétala de cor
e matamos no cheiro duma flor
cinco sentidos unidos.

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

sábado, 21 de março de 2015

O sangue das palavras I - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

O poeta que nasce é uma criança
parida pela água torturada
uma nave que surge   uma nuvem que dança
ao mesmo tempo livre e condensada.

O poeta que nasce é a matança
da palavra demente e enjeitada
que o chicote do poema torna mansa
depois de possuída e mal amada.

Quando o poeta nasce   a madrugada
aperta os versos num abraço rouco
até que a noite fique esvaziada.

E enquanto das palavras   pouco a pouco
surge a forma perfeita ou agitada
no mundo morre um deus   ou nasce um louco.

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A chegada dos navios - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Chegam heróis e jovens de mãos dadas.
Chegam rapazes loiros como o estio
E partem as palavras censuradas
No penacho de fumo do navio.

Em que a aventura nos embosca o cio
Chegam esperanças, medos e ciladas
E partem as angústias, exiladas,
No penacho de fumo do navio.

Ao ritmo dos guindastes estremecemos
Portos abertos ao que nos deslumbra,
Barcos chamando o sexo com um grito!

Piratas da abordagem que trazemos
A rebentar nas veias: que se cumpra
Nosso destino esplêndido e maldito!

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A fábrica - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Da alavanca ao tear   da roda ao torno
da linha de montagem ao cadinho
do aço incandescente a entrar no forno
à agulha a trabalhar devagarinho.

Da prensa que se fez para esmagar
à tupia no corpo da madeira
do formão que nasceu a golpear
à força bruta duma britadeira.

Do ferro e do cimento até ao molde
que é quase um esgar de plástico sereno
do maçarico humano que nos solde
à luz da luta e não do acetileno

nasce este canto imenso e universal
sincopado  enérgico  fabril
sereia que soou em Portugal
à hora de pegarmos por Abril.

Transformar a matéria é transformar
a própria sociedade que nós fomos
ser operário é apenas saber dar
mais um pouco de nós ao que nós somos.

Um braço é muito mas por si só não chega
por trás da nossa mão há uma razão
que faz de cada gesto sempre a entrega
de um pouco mais de força. De mais pão.

Estamos todos num único universo
e não há uns abaixo outros acima
pois se um poema é uma obra em verso
um parafuso é uma obra-prima.

Operários das palavras ou do aço
da terra  do minério  do cimento
em cada um de nós há um pedaço
da força que só tem o sofrimento.

Vamos cavá-la com a pá das mãos
provar que em cada um nós somos mil
é tempo de alegria meus irmãos
é tempo de pegarmos por Abril.

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

sábado, 7 de dezembro de 2013

O relógio - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Pára-me um tempo por dentro
passa-me um tempo por fora.

O tempo que foi constante
no meu contratempo estar
passa-me agora adiante
como se fosse parar.
Por cada relógio certo
no tempo que sou agora
há um tempo descoberto
no tempo que se demora.

Fica-me o tempo por dentro
passa-me o tempo por fora.

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Na mesa do Santo Ofício - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

sábado, 29 de junho de 2013

Catinga de inimigo - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Minha senhora da cruz vermelha
crucificada na cruz gamada
trazeis-me novas da minha orelha?
 
Ai é cortada!
 
Minha senhora visitadora
da minha vida o desairada
trazeis-me novas da minha cova?
 
Ai é cavada!
 
Minha senhora retardadora
desta vingança sempre adiada
trazeis-me novas da minha hora?
 
Ai é suada!

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - AVANTE

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sonata de Outono - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Inverno não ainda mas Outono
a sonata que bate no meu peito
poeta distraído  cão sem dono
até na própria cama em que me deito.

Acordar é a forma de ter sono
o presente o pretérito imperfeito
mesmo eu de mim próprio me abandono
se o rigor que me devo não respeito.

Morro de pé, mas morro devagar.
A vida é afinal o meu lugar
e só acaba quando eu quiser.

Não me deixo ficar. Não pode ser.
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
pois viver é também acontecer.

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

sábado, 3 de julho de 2010

Retrato de amigo - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS


Por ti falo. E ninguém sabe.  Mas eu digo
meu irmão  minha amêndoa  meu amigo
meu torpel de ternura  minha casa
meu jardim de carência  minha asa.

Por ti morro  e ninguém pensa.  Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeada de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo  minha essência
meu lume  minha lava  meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?

in...  Obra poética - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - Edições avante

sábado, 1 de maio de 2010

Soneto do trabalho - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS


Das prensas  dos martelos  das bigornas
das foices  dos arados  das charruas
das alfaias  dos cascos  e das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.

Um povo não é livre em águas mornas
não se abre a liberdade com gazuas
à força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas.

Abre os olhos e vê. Sê vigilante
a reacção não passará diante
do teu punho fechado contra o medo.

Levanta-te meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta  é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.

in... Obra poética - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - Edições Avante

terça-feira, 16 de março de 2010

Poeta castrado, não! - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS



Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo  drumedário
fogueira de exibição
teorema  corolário
poema de mão em mão
lãnzudo   publicitário
malabarista   cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado   não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura   como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que   se partisse
me alagaria de pena;
e também de alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo   mau profeta
falso médico   ladrão
prostituta   proxeneta
espoleta   televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado   não!

in... Obra poética - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - Edições Avante