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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A miséria deste tempo - JOSÉ JORGE LETRIA

Os jornais gostam de sangue,
de uma forma excessiva e obscena,
porque sabem que as pessoas também gostam
e que mesmo quando fingem tapar os olhos,
por repugnância ou por pudor,
é sempre e só isso que querem ver,
matreiramente perseguindo
o líquido fio vermelho que brota
da ferida, da boca entreaberta, da cratera
escancarada pelo ferro ou pela queda.

Os jornais, todos os jornais
de uma maneira ou de outra,
trabalham hoje para o consumo,
para o gosto rafeiro da maioria
que compra, que paga, que se vende,
que apodrece no lamaçal do óbvio.

Eis a miséria moral do nosso tempo,
correndo atrás da própria cauda,
em intermináveis círculos,
enquanto alguns poetas, sempre os mesmos,
continuam a escrever defronte do espelho
só para se lembrarem de quem amam.

EM - NÃO HÁ POETAS FELIZES - JOSÉ JORGE LETRIA - INDÍCIOS DE OIRO

domingo, 27 de outubro de 2013

Quando o poeta muda de ramo - JOSÉ JORGE LETRIA

Há poucos retratos de Rimbaud.
Nos da adolescência assemelha-se a um anjo
extasiado com o timbre das palavras.
Nos do fim da vida tem o olhar
de um condenado que a febre e a dor
não queriam nem podiam poupar.
Entre um tempo e o outro
ficou, como uma cratera de som,
como uma calamidade, o vazio da poesia.
Não foi Rimbaud que abandonou a poesia,
nem foi esta que o abandonou a ele.
Limitaram-se a seguir os seus caminhos,
sem compromissos nem estéreis cumplicidades,
sem depósitos a prazo na conta do futuro:
cada um para seu lado, e foi tudo.
O tempo da poesia foi também
o tempo da aflição, da morte ameaçadora
em cada esquina do amor impossível.
Ao menos entre negreiros e contrabandistas
de álcool e de armas, de corpos e luas,
ninguém lhe perguntava o que estava a escrever
e o que achava da última crítica a um livro seu.
Deixando a poesia, foi como se tivesse
mudado de ramo. Fechou a loja dos versos
e pediu alvará urgente para o esquecimento.

EM - NÃO HÁ POETAS FELIZES - JOSÉ JORGE LETRIA - INDÍCIOS DE OIRO

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A actriz incendiada - JOSÉ JORGE LETRIA

Desaparece, como puderes, no meio
dos sobressaltos do vento e da espuma
e, se tiveres uma visão, que seja
a das sombras amotinando-se
contra a mitigada luz que as mantém
cativas e ténues. Liberta-te da chuva, agora,
das suas estrias húmidas, da sua geometria
lisa e límpida, e proclama  sem medo
o prodígio do sol sobre as areias,
no grande palco do silêncio das vozes,
actriz incendiada pela volúpia do estio.

EM - POESIA ESCOLHIDA - JOSÉ JORGE LETRIA - UC

domingo, 19 de maio de 2013

Quem morre no que diz - JOSÉ JORGE LETRIA

Sou o que me persegue e me envenena,
pois tudo começa e acaba
no círculo avassalador em que me movo.
Avizinho-me com lentidão felina
dos lugares onde se morre e se renasce
e transformo-me em palco de lumes,
na ficção última que me é dado representar.
Andam vozes lá fora a incendiar
os terraços largos do Verão,
e eu fico entontecido pela fúria da água
pelo desvelo das mãos que me alisam
os cabelos e as roupas num afago materno.
Tudo é fictício menos esta complacência
que me faz suportar o medo
quando só a última coragem
pode ser esperada de quem morre no que diz.

EM - POESIA ESCOLHIDA - JOSÉ JORGE LETRIA - INC

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Tantas mortes que nem sei - JOSÉ JORGE LETRIA

57714
Já morri em tantas mortes que nem sei
como tenho ainda cara para aparecer
a mim próprio com fingimentos
de assombro, eu que perco todos os dias
as chaves de vidro com que me abro
e fecho por dentro, tão bem fechado
que esqueço até a liberdade mínima
de um grito ou de uma queixa,
a inocência branca de uma pétala
à deriva no mar morno dos teus lábios.

EM - POESIA ESCOLHIDA - JOSÉ JORGE LETRIA - IUC

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Se alguém me pudesse amar - JOSÉ JORGE LETRIA


Se alguém me pudesse amar
tanto como eu gostava de ser amado,
se alguém me pudesse amar
e eu consentisse em ser amado,
talvez com a intensidade animal e ferina
das entregas incondicionais,
talvez o mundo se vestisse de azul
e pusesse uma camélia na lapela,
como o Cesário quando ainda tinha saúde,
talvez as cidades não fossem tão hostis
e os medos não fossem tão devastadores,
talvez as noites tivessem o perfume
das paixões primordiais e únicas
e os dias não acabassem sempre
com o som de sirenes e insultos.
Se alguém me pudesse amar
tanto como eu gostava de ser amado,
talvez este livro não chegasse a existir
e eu fechasse dentro de uma lágrima,
ampola de orvalho e sal,
só para a transformar em gota de riso
deslizando pelo rosto da alegria junto a mim.

in... Não há poetas felizes - JOSÉ JORGE LETRIA - Indícios de oiro