Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
NESTE MOMENTO O TOCA A ESCREVER É PATROCINADO POR ALGUMAS EDITORAS E AUTORES QUE OFERECEM LIVROS DE POESIA.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Chuva inglesa - NUNO JÚDICE


Quando vou a Inglaterra, não sei
o que fazer quando chove gatos e cães. Se
os apanho com o guarda-chuva, os gatos
assanham-se contra os cães, e os cães
mordem os gatos; se não o abro,
caem-me gatos na cabeça e cães ao colo,
e não os posso atirar ao chão
para não ficar arranhado nem
mordido.

Em Inglaterra, quando chove, preciso
de andar com casotas para os cães e com
cestos para os gatos. Mas se não chove, e
me virem na rua com as casotas e os cestos,
olham para mim como se eu não soubesse
ler o boletim meteorológico, onde
anunciavam que não ia chover gatos
nem cães, e só as bruxas se iriam
pentear.

Se o soubesse, teria levado vassouras
para dar às bruxas, e se as bruxas não se
penteassem poderia usá-las para varrer
da cabeça todos os gatos e cães
que chovessem, para me livrar
das casotas e dos cestos.

in... Guia de conceitos básicos - NUNO JÚDICE - Dom Quixote

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terça-feira, 29 de junho de 2010

Aleph - JACOB KRUZ


Perdi um beijo em Jenin
e em Belém um abraço.

Há medo e silêncio no caminho.

No muro, um choro.

Uma litania ecoa e prolonga
a voz do muezim.

Estão desertas as ruas de Deus.

in... Breviário lamentoso - JACOB KRUZ - Temas Originais

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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Lisboa - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Digo:
«Lisboa»
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meadros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruemente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

in... Navegações - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - Caminho

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domingo, 27 de junho de 2010

V - EDUARDO MONTEPUEZ


Fujo das ondas de um mar alto e de outras imagens
Que avivam a minha memória perdida
De azuis palidos e verdes ondulados
Que cobrem a maresia do meu corpo
Como regaços, rios ou planícies do tempo
Esquecido. Deito-me no acreditar - estímulo em dó maior
Das músicas de utras vozes - trovas amadurecidas.
Fujo dos nadas, que construí
Com uma barca; hei-de cruzar as impetuosidades
Do mar supremo; como ninguém
Conseguirá. E nas músicas da vida
Tocarei sete instrumentos. Pedirei alentos,
Às nuvens e aos ventos
Que no mistério do deserto
Guardarão segredos nunca pensados
Entre sábios prosadores. Cantarei sôfrego. Escutarás-me
Gaivota solitária, nos céus e nas montanhas.

in...Metamorfose do corpo - EDUARDO MONTEPUEZ - Temas Originais

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sábado, 26 de junho de 2010

Detalhes da vida de um escritor - ANTÓNIO MR MARTINS


Um passo dado
Um caminho a percorrer
Um percurso falhado
Uma queda por amortecer
Um gato escaldado
Um significado por entender
Um verso reprovado
Uma nota de prazer
Um texto filtrado
Um poeta a padecer

Foi lido o comunicado

Acabou de falecer

in... Foz sentida - ANTÓNIO MR MARTINS - Temas Originais

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sexta-feira, 25 de junho de 2010

D. Sebastião (1557 - 1578) - VÍTOR CINTRA


Dum tempo, sem presente nem passado,
Sabendo que a fortuna estava morta,
Restaram, numa lenda, O Desejado
E a fé do povo humilde, que a suporta.

Manhã de nevoeiro, no porvir,
Traria de regresso o rei menino,
Voltando dessa Alcácer, a Quibir,
Ao reino, abandonado ao seu destino.

Loucuras de grandeza, sem suporte,
Lançadas na batalha, por má sorte,
Num sonho sem futuro, nem razão;

Sem que o temor de morte, prematura,
Fizessem demover dessa aventura
El-rei, p'ra desespero da nação.

in... Dinastias - VÍTOR CINTRA - Temas Originais

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quinta-feira, 24 de junho de 2010

O recreio - MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO


Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma veza folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...

In... Poesias - MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO - Verbo

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

12 - ANTÓNIO FERREIRA


Rei bem-venturado, este é o dia,
Que catorze anos há, que o mundo espera
Desde o teu Tejo, à Oriental esfera,
E da Zona torrada, à Zona fria;

Quando outra vez luz, nova alegria,
Qual no teu nascimento o Sol já dera,
Veremos na dourada, e ditosa era,
Da tua tão esperada Monarquia.

Benigno o Céu te está, obediente a terra,
Abraçam-te entre si Justiça, e Paz,
Que a ti, buscando abrigo, vem fugindo.

Erguendo a Cristã Fé, que fraca jaz,
Aos teus igual justiça repartindo,
Terás sempre paz santa, ou santa guerra.

in... Castro e poemas lusitanos - ANTÓNIO FERREIRA - Verbo

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terça-feira, 22 de junho de 2010

Homenagem - VÍTOR CINTRA


Se aqui, nesta homenagem que se presta,
Se fala, só, de tempos já passados,
É porque, no presente que nos resta,
Nos calam nomes nobres de soldados.

Aqueles que tombaram, no seu posto,
Ficaram em sepulcros, noutro chão,
Por lá!... Heróis sem nome e já sem rosto,
Varridos da memória da Nação.

Justiça se fará, talvez um dia,
Se o tempo, de quem fez da cobardia
A honra, num passado bem recente.

Deixar que o epitáfio dessas vidas
Se cumpra, pois jamais serão esquecidas
Na alma e no fervor da nossa gente.

in... Dinastias - VÍTOR CINTRA - Temas Originais

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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Canção do oboé - ANTÓNIO GEDEÃO


Habita no meu sangue como um solo de oboé.
Inexistente e imaginada
é toda feita de nada
mas necessária como o ar que não se vê.

Com os pés alados das semicolcheias
que estravasam da pauta,
baila no estrado olímpico das veias,
descontraída, turbulenta, incauta.

Oiço-a acordado e sinto-a adormecido
nas ondas largas que no sangue vão
como o transístor que se encosta ao ouvido
e apenas ouve quem o tem à mão.

in... Obra completa - ANTÓNIO GEDEÃO - Relógio D'água

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domingo, 20 de junho de 2010

Retrato próprio - MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE


Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

in...  Antologia poética - MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE - Verbo

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sábado, 19 de junho de 2010

Retrato do poeta quando jovem - JOSÉ SARAMAGO


Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do Sol no sítio errado,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

in... Cem poemas portugueses do Adeus e da Saudade - Antologia - Terramar

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Emigrante - VÍTOR CINTRA



Deixas a terra que te viu nascer,
Partindo em busca da felicidade;
Como bagagem levas a saudade
E o forte empenho de sobreviver.

Se um bom carácter te moldou o ser,
Fortaleceu-te na tenacidade
A tua vida, cheia de vontade
De trabalhar, de ser alguém, vencer.

Emigras hoje, porque te consome
Ver só migalhas, p'ra matar a fome,
Sem um lampejo de prosperidade,

Para que os filhos tenham, cada dia,
Mais farto o pão, a paz e alegria
E um futuro de tranquilidade.

in... Entre o longe e o distante - VÍTOR CINTRA - Temas Originais

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O autor VÍTOR CINTRA e a TEMAS ORIGINAIS têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de apresentação do livro "DINASTIAS" a ter lugar no Auditório do Campo Grande, 56, em Lisboa, no próximo dia 19 de Junho, pelas 19.00
Obra e autor serão apresentados pelo poeta XAVIER ZARCO

A entrada é livre

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A gota e o som - ROBERTO DURÃO


Caiu uma gota de água;
Nem a vi e o som ficou...
É assim a minha mágoa:
Que importa a gota? Secou.

Gota que nunca hei-de ver,
Teu som que belo é escutar.
Porque há-de esse som morrer
Quando eu te vou procurar?

Amor, és gota perdida,
Só teu som me faz sonhar.
Prefiro o prazer de ouvir-te
Do que a dor de te encontrar.

A sorte que o mundo dá
Que não a queira ninguém:
É mais feliz o «sem sorte»
Do que o «feliz porque a tem»

Amar não é procurar
Um amor que possa haver:
É ter algo a desejar
E desejar mais que ter!

in... Trovas do meu pensar e do meu sentir - ROBERTO DURÃO - Editorial Minerva

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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Quadras - ANTÓNIO ALEIXO


A arte é dom de quem cria;
Portanto não é artista
Aquele que só copia
As coisas que tem à vista

A arte em nós se revela
Sempre de forma diferente:
Cai no papel ou na tela
Conforme o artista sente

Há quem suba de repente,
P'ra de repente cair;
Já me não sinto contente
Com o meu modo de subir

Se o meu livro se consome,
Pode-me cobrir de glória,
Mas, depois, a minha história
Dirá que morri de fome

in... Este livro que vos deixo vol I - ANTÓNIO ALEIXO - Casa da letras

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terça-feira, 15 de junho de 2010

Homo - ANTERO DE QUENTAL


Nenhum de vós ao certo me conhece,
Astros do espaço, ramos do arvoredo,
Nenhum adivinhou o meu segredo,
Nenhum interpretou a minha prece...

Ninguém sabe quem sou... e mais, parece
Que há dez mil anos já, neste degredo,
Me vê passar o mar, vê-me o rochedo
E me contempla a aurora que alvorece...

Sou um parto da Terra monstruoso;
Do húmus primitivo e tenebroso
Geração casual, sem pai nem mãe...

Misto infeliz de trevas e de brilho,
Sou talvez Satanás - talvez um filho
Bastardo de Jeová - talvez ninguém!

in... Cem sonetos portugueses - ANTOLOGIA - Terramar

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Cinismos - CESÁRIO VERDE


Eu hei-de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso,

Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, então, soltar uma risada...

in... Obra completa - CESÁRIO VERDE - Livros Horizonte

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domingo, 13 de junho de 2010

Mensagem - MIGUEL TORGA


Vinde à terra do vinho, deuses novos!
Vinde, porque é de mosto
O sorriso dos deuses e dos povos
Quando a verdade lhes deslumbra o rosto.

Houve Olimpos onde houve mar e montes.
Onde a flor da amargura deu perfume.
Onde a concha da mão tirou das fontes
Uma frescura que sabia a lume.

Vinde, amados senhores da juventude!
Tendes aqui o louro da virtude,
A oliveira da paz e o lírio agreste...

E carvalhos, e velhos castanheiros,
A cuja sombra um dormitar celeste
Pode tornar os sonhos verdadeiros.

in... Poesia completa vol.I - MIGUEL TORGA- Dom Quixote

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sábado, 12 de junho de 2010

DESENGANO - VÍTOR CINTRA


Vivendo só de sonhos se perdeu
A força que, trazida por Perseu,
Chegou, um dia, à terra lusitana;
E, sem pensar que a sorte era madrasta,
Julgando que Fortuna não se gasta
Agimos da maneira mais insana.

O Pégaso, que Ulisses cavalgou,
Que o mar em caravela transformou,
Connosco a percorrer os oceanos,
Deixou-nos, indo em busca doutro deus,
Dispondo-se a servir somente Zeus,
Ao ver que apenas éramos humanos.

in... Entre o longe e o distante - VÍTOR CINTRA - Temas Originais

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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Obituário - NUNO JÚDICE


Um pinochet de lápis-lazúli
um estaline de âmbar,
um franco de sevilhana,
um hitler de bola de berlim,
um mussolini de esparguete,
um sortido de ceausescu,
e um salazar de santa comba;

são os santos deste altar
onde já ninguém quer rezar.

in... A matéria o poema - NUNO JÚDICE - Dom Quixote

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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Proposição das ritmas do poeta - MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE


Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas, e amores;
Notai dos males seus a imensdade,
A curta duração dos seus favores:

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

in... Antologia poética -  BOCAGE - Verbo

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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Quando entoar começo com voz branda* - ANTÓNIO FERREIRA


Quando entoar começo com voz branda
Vosso nome de amor, doce, e suave,
A terra, o mar, vento, água, flor, folhas, ave
Ao brando som se alegra, move, e abranda.

Nem nuvem cobre o céu, nem na gente anda
Trabalhoso cuidado, ou peso grave,
Nova cor toma o Sol, ou se erga, ou lave
No claro Tejo, e nova luz nos manda.

Tudo se ri, se alegra, e reverdece.
Todo mundo parece que renova.
Nem há triste planeta, ou dura sorte.

A minh'alma só chora, e se entristece,
Maravilha de Amor cruel, e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.

in... Castro e poemas lusitanos - ANTÓNIO FERREIRA - Editorial Verbo

* Este soneto não tem titulo. Usei o 1º verso como titulo por questões logísticas.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Pela vida fora - EUFRÁZIO FILIPE



Estava em desassossego
a despertar o timbre
de outros mares
quando lançaste uma flor para o palco

Uma flor vermelha
de lábios doces
que recolhi pétala a pétala

Nunca soube quem és
muito menos do teu jardim

mas sei que me acordaste
pela vida fora

in... Para lá do azul - EUFRÁZIO FILIPE - Temas Originais

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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Seios - MARIA PAULA RAPOSO


Planta-me os seios,
cultiva meu campo
verticalmente,
fertiliza-me
como terreno árido,
desenvolve-me
a acidez necessária
para que eu produza
dos seios rígidos,
a grandeza unilateral
de um verbo indecifrável,
de um acto de amor,
a importância de ser eu!

in... Nevou este Verão - MARIA PAULA RAPOSO - Apenas Livros

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domingo, 6 de junho de 2010

Saudade e Ternura - EMÍLIO LIMA


querida Mãe
partiste para o Céu alto
onde os nossos olhos não podem ver
vai mãe  prepare-nos
uma pousada confortável

Mãe
faça da minha aspiração
manifesto dos seus filhos
claro que não guardamos
ódio de ninguém
sabemos que a morte
não é fim da vida
mas sim o início de uma nova vida
sabemos que a vida se passa  Mãe
mas há momentos na vida
que não se passam  transformam-se Mãe

Ó Mãe saiba que revivo profundamente
o seu conselho de que temos que amar...
... saber amar o mundo
amar o irmão como nós mesmos
só quando soubermos amar
é que nos poderemos sentir amados
só quando soubermos perdoar
é que nos poderemos sentir perdoados
só dando é que se recebe do irmão

Mãe vivo a sua saudade
sinto que é saudade
mas não é só saudade
porque vem do fundo do meu ser
meus actos já são guiados
por alguém que já não vejo
as minhas convivências são mais
com silêncio profundo
olhando para ti no Céu alto mãe
protege-nos Mãe

recorda que nós teus filhos
vivemos alimentando da esperança
fomos cavaleiros pobres lentos
corajosos com fraternidade no sofrimento
que é como uma dor profunda
que arde como o fogo purificador
protege-nos Mãe e descansa em paz

in... Notas tortas nas folhas soltas* - EMÍLIO LIMA - Temas Originais

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* A apresentação deste livro teve lugar este sábado, 5 de Junho, em Lisboa.

sábado, 5 de junho de 2010

Dicção - NUNO JÚDICE


Vou falar em português,
com cada vogal no seu lugar, dita
com toda a clareza,
uma de cada vez. Assim,
não comendo os és nem os is,
e pondo cada ó, aberto
ou fechado, dentro da sílaba
que lhe cabe, o português
fica com os pontos nos is,
para que o ouvido perceba
o que é dele,
e quem o escreva saiba
que a letra escrita
não vai ser letra morta
na boca
de quem lhe abra a porta.

in... A matéria do poema - NUNO JÚDICE - Dom Quixote

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ao entardecer, o Guadiana - GONÇALO B. DE SOUSA


o entardecer acende uma estrada na planície
e doira as pedras do chão, em silêncio
- é quando sobe o rumor da água,
a secreta linguagem do rio
que não se desvenda, porém murmura
ao ouvido de quem retarda o passo
a escutá-lo.

in... Canção do exílio - GONÇALO B. DE SOUSA - Temas Originais

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quinta-feira, 3 de junho de 2010

O amor LUIS FERREIRA


Amor,
Ouve o que diz as ondas que o mar traz
Ouve o que diz o murmúrio do vento
Ouve o que diz o canto das aves
Posso não estar ao pé de ti...
Mas mando-te dizer sempre, que te AMO

in... Mar de sonhos - LUIS FERREIRA - Corpos Editora

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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Outra vez criança - ANTÓNIO MR MARTINS


Risco um tempo o meu tempo
Como um desatinar do que acontece
Por entre as arestas do sofrimento
E de tudo o que me entristece
Moldo o olhar ao horizonte
Refugiando-o dos raios solares
E vislumbro mesmo defronte
Um sorriso que reconheço
De outrora num outro tempo
Que atingiu outros patamares
Hoje irradia sua glória
Retorna ao tempo de criança
Envolve-se na sua história
E avança com mais pujança

in... Foz sentida - ANTÓNIO MR MARTINS - Temas Originais

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terça-feira, 1 de junho de 2010

Amor é sexo - LAURO PORTUGAL



Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente,
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
(LUIS de CAMÕES)

Oh, detentor de excelsos dons poéticos
Que alguma vez já teve esta nação!
Hoje existe Prozac p'rá depressão,
E temos para a febre antipiréticos;

Para feridas há os anti-sépticos,
Do corpo falo, não do coração;
Não há, sem sentimento, inspiração,
Nem, sem inspiração, versos patéticos.

Se vivesses, Camões, nos nossos dias,
Em muito boa gente encontrarias
Definição do amor: coisa sem nexo.

Como os tempos mudaram e os valores!
Para quem desatina e tem calores
O diagnóstico é: falta de sexo!

in... Versos inversos - LAURO PORTUGAL - Editora Prefácio