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sábado, 17 de junho de 2023

Há-de chover, meu amor, há-de chover - ANTÓNIO MOTA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Quando chove, meu amor, é deus que chove.
É deus que chove abraçado, meu amor, à terra amada,
e, por isso, quando chove, meu amor, é amor que chove.
Do céu chove sobre a terra, meu amor, a água viva.
Há-de chover, meu amor, há-de chover.
Quando chove, meu amor, é deus que chove.
É deus que chove copiosa a sua água sobre a terra ressequida,
de sede a arder. E, por isso, quando chove, meu amor,
bebem-se tão completamente os amantes de sede.
Há-de chover, meu amor, há-de chover.
Vai chover, meu amor, abre as janelas. Deixa ver
como a água pinga e cai, e de contente
desce e entra, nos segredos fundos,
com ternura lenta nas fontes do mundo.
Há-de chover, meu amor, há-de chover.
Nas entranhas das fontes do mundo deixou deus
misterioso magma a arder. E de novo a sede
haverá de crescer. E de novo na terra haverá de chover.
Que da água deriva, e do fogo, a vida.
Há-de chover, meu amor, há-de chover.
Quando chove, meu amor, é deus que chove;
ou é amor, ou é água, ou é fogo, ou é magma.
Quando chove meu amor abre as janelas e anda ver
Do fogo e da água a arder, meu amor, a vida a nascer.
Há-de chover, meu amor, há-de chover.

EM - AMANTES DA POESIA E DAS ARTES - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 8 de março de 2022

O que é que recordamos - ANTÓNIO MOTA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

1.
O que é que recordamos de cada dia em cada ano?
Não é a vida feita de anos, mas de fiapos do tempo que
lembramos. São as memórias assim. Não as há contínuas,
sequenciadas, unas. Afloram submersas, sempre quando
querem, donde não se sabe, nem como.
2.
Da sombra das lembranças retalhadas vimos. São
remendos as memórias, presumíveis pequenas bóias, que
ficaram de naufrágios esquecidos, âncoras que saltam
do abismo e do apagamento de navios. Somos o que da
sombra nos fazemos ser.
3.
É imenso muito mais o que esquecemos que o que
sabemos. A memória, se a temos, é uma manta de retalhos
pequenos, que urdimos e tecemos. Não é a vida feita
de anos, mas de fiapos apenas do tempo que lembramos.
O que é que recordamos de cada dia em cada ano?

EM - ECOS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

A bailarina - ANTÓNIO MOTA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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1.
Na Babilónia, a melhor de todas, era adivinhada, por
figuras gráceis, de leveza e luz, uma bailarina. Só de arte o
corpo, seda em movimento, de saber o espírito, fulgurante
e vivo. Emergira, um dia, dum tempo antigo, deitado
no leito da vida. E enquanto emergia dançava e escrevia,
esplêndidas, a força, a beleza e a sabedoria, que trazia
consigo. Era ela a sacerdotisa suprema das artes sagradas
da escrita e da dança nas águas do rio.
2.
Em todas as eras, hordas de bárbaros vieram arrasar
a cidade. Violaram tudo o que mais valia, excepto a
bailarina. Assim, a sua vitória não podia nunca ser
consumada e reconhecida. Ignaros, não entendiam os
bárbaros que um corpo, só de arte feito, e do espírito,
é inalcançável. Mas não desistem. Ainda a perseguem,
e aos filhos dela, porque ela ensina a força, a beleza e a
sabedoria, nas artes sagradas da escrita e da dança nas
águas do rio.
3.
Em vagas sequentes, vieram e vieram, uns e outros,
e insistiram. Por várias vezes, destruíram a cidade, e
pilharam tudo. Mas a bailarina nunca apanharam, que
ela é a arte personificada e o espírito. Doce e delicada,
mesmo perseguida, sedutora e culta, ela resiste, e não será
vencida. Muralha invicta, contra a barbárie, ela vencerá.
Indestrutível é a força, a beleza e a sabedoria gravadas nas
artes sagradas da escrita e da dança nas águas do rio.

EM - ECOS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Hades ou Olimpo - ANTÓNIO MOTA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto Conexões Atlânticas neste link
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Persiste em cada um de nós e resiste
uma incipiente luz cadente
que de longe nos acena e chama.
Do deserto vem. E eu ouço e vou.

Eremita apaixonado escavo
com os dedos no chão negro
das cavernas o fogo das palavras
apagadas e a vontade de novo

Ardem-me as mãos nas chamas
ensanguentadas das arestas afiadas
que são facas. Dói-me de estalado
o coração e a mente de cansada.

Pesa tanto suster a imaterial
pequenina luz intermitente
do pirilampo solitário que das trevas
anuncia o precipício à nossa frente.

Mas esse é o caminho.
Hades ou Olimpo é o meu destino.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VI - COLECTÂNEA - IN-FINITA