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terça-feira, 1 de março de 2011

Suicídio e paixão - EDUARDA CHIOTE

Metáforas, porquê?
"A definição de um homem
não pertence ao homem"
tal como a do insecto escavador
ao pólen,
meus lábios sem diálogo, meu amuo
tão frágil,
tão menino!
Deixa sobre eles poisar o seio.
A morte.
Deixa, pois, e em silêncio,
a palavra infantil
cumprir
o seu destino.

EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Fim - EDUARDA CHIOTE

Está, então, completo
o instante de serenidade
e de silêncio da
estátua?
Completas as miríades de palavras
sem o corpo
que agora, delas, se demite?
E acaso não se terá demitido sempre
expulsando o espectro
das palavras suaves que não afirmam
nem negam
nem se desacreditam?
Das palavras exaustas
e definitivas?
Repara no que lhes anula
o ímpeto: o vigor da entrega da criança
sozinha e suicida; e diz-me
por que a privaste, paixão perversa,
de cortar a própria língua?

EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O máximo detalhe acerca de... - EDUARDA CHIOTE

Dar-te-ei detalhes minuciosos
do que, e violento, na palavra
a ambos distancia - tu crias, através dela,
a ilusão de que os desacordos são,
meu sabedor de véus e doces lábios,
o que em verdade, ao invés de separar,
nos une.
Dizes amor de cada vez que amor
em pura arte e empenho assim
o enuncias
e sem acreditá-lo e sem mentir o finges.
E sem te aperceberes de como a desmesura
da morte
lhe reduz a chama
até à inerte vibração
das cinzas.

EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Velhice - EDUARDA CHIOTE

Ignorantes
da imaginação dos dedos,
os seus usos
e carnívora voracidade
tecem de fúria
o mais agónico prazer,
toda a aflição vinda do interior
da velhice.
Mês de julho, mês de julho,
mês de corpo: mês de pele - lepra
rente às unhas de apodrecidas
folhas
que só luxúria
de moscas
delicia.

EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Calvário lírico - EDUARDA CHIOTE

Colocas-me, no pescoço, um diagrama
de versos
e as minhas mãos estrangulam uma pérola
mais tumultuosa, aí... claramente... onde a pulsação
desordenada
convoca um perigo dulcíssimo
e nervoso.
Os meus dedos cedem, comprometidos.
Descem, procurando-me
um seio.
Resvalam sobre o ventre liso
até à lâmina de uma artéria ofegante. De noite.
São dedos masculinos, íntegros,
de uma pilhagem e beleza
fulgurantes.
A princípio indecisos, movem-se agora
precipitando a escrita
ébria de prazer. As mãos da escrita
matam... morrem.
Matam... impedindo o esperma da sua asfixia,
morrem... no desejo morto da palavra
morte.

EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC

sábado, 8 de janeiro de 2011

Libido - EDUARDA CHIOTE

Legaste-me
a insegurança vegetal
da floresta
e o segredo do seu fêmeo
e ardente
sono
- e a este enegrecer de sangue
puro
adicionaste ácido,
fogo, esperma...
em névoa funda
e osso.
A pele
do insecto
que voa apenas
de noite
- solta da posse e do penhor
dos lobos.

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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O sexo do texto - EDUARDA CHIOTE


Espero-te
esmagada de fúria.
Se vieres, com a descarnada
volúpia de um tigre, acenderás de novo
o meu desejo.
Uma brasa! uma brasa!
me queimará o pêlo. Não o desviarei.
Redondo é o calor e o sexo
deste texto. A ele me acolho,
desprotegida.
A nudez é rugido. Minhas... as garras: o verde
brilho enrijecendo no que faz explodir
o olhar do gato
aninhado em teu peito.

in... Não me morras - EDUARDA CHIOTE - &etc

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