barco que vais ao rio
e vogas sem motor
foge àquele baixio
e não vás lá pôr
o meu amor
ó vento és tão vadio
e roubas ao pastor
ainda um assobio
mas deixa uma flor
ao meu amor
nós vamos ao bugio
a ver do mar a cor
que doce é o desvio
se acaso eu for
com o meu amor
EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL
domingo, 10 de maio de 2015
sábado, 9 de maio de 2015
Mnemónica - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
Na hora do zénite do sol passava
também a carroça do vendedor
de petróleo, na estrada, e agora
na fieira das memórias trazidas até hoje
para a purificação. Enrubesce,
ramo de rosas miúdas escarlates
que tomba sobre o arco do portão.
Floresce e seca, numa só minha pulsação!
Sê breve, eterna matéria, neste poema.
Ao ressoar o zunido das rodas
da carroça. Só as escarlates rosas
que viam o portão entreabrir-se
acompanhem a evocação.
EM - ÂMAGO - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO - ASSÍRIO & ALVIM
também a carroça do vendedor
de petróleo, na estrada, e agora
na fieira das memórias trazidas até hoje
para a purificação. Enrubesce,
ramo de rosas miúdas escarlates
que tomba sobre o arco do portão.
Floresce e seca, numa só minha pulsação!
Sê breve, eterna matéria, neste poema.
Ao ressoar o zunido das rodas
da carroça. Só as escarlates rosas
que viam o portão entreabrir-se
acompanhem a evocação.
EM - ÂMAGO - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO - ASSÍRIO & ALVIM
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Lembrando: José Saramago - VÍTOR CINTRA
Ardem silêncios na imensidão do nada.
O fogo-fátuo da memória
eleva-se, no negrume do esquecimento.
No Além, abrem-se trilhos de aridez
por onde se escoam as vozes caladas,
palmilhando as palavras ocas
em cavalgada mesquinha.
Nas margens do vazio
restam ecos de acordes, aguardando vez.
EM - NAS MARGENS DO ESQUECIMENTO - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM
O fogo-fátuo da memória
eleva-se, no negrume do esquecimento.
No Além, abrem-se trilhos de aridez
por onde se escoam as vozes caladas,
palmilhando as palavras ocas
em cavalgada mesquinha.
Nas margens do vazio
restam ecos de acordes, aguardando vez.
EM - NAS MARGENS DO ESQUECIMENTO - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Autópsia do amor - GOMES LEAL
O Amor - essa paixão romanesca e fagueira -
que os vates têm cantado em bemol comovido,
é, na forma, uma coisa assaz brusca e grosseira,
como o assalto da fera e o ataque do bandido.
Tal e qual como o lobo assalta uma cordeira,
a empolga e lhe crava o colmilho atrevido,
assim ataca o Amor. - São da mesma maneira
o Espasmo, a Fúria, o Uivo, o Estertor, o Rugido.
Nas contorções do Cio e os seus enlaçamentos,
há o ardor da Serpente, a enroscar-se nas preias,
e a estrangular o touro enorme e mugidor.
E quer cheire ao sertão, ou da Lais aos unguentos,
nos rosais, num covil, ou de Nero nas ceias,
- são sempre os mesmos ais, o Pranto, o Espasmo, a Dor.
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
que os vates têm cantado em bemol comovido,
é, na forma, uma coisa assaz brusca e grosseira,
como o assalto da fera e o ataque do bandido.
Tal e qual como o lobo assalta uma cordeira,
a empolga e lhe crava o colmilho atrevido,
assim ataca o Amor. - São da mesma maneira
o Espasmo, a Fúria, o Uivo, o Estertor, o Rugido.
Nas contorções do Cio e os seus enlaçamentos,
há o ardor da Serpente, a enroscar-se nas preias,
e a estrangular o touro enorme e mugidor.
E quer cheire ao sertão, ou da Lais aos unguentos,
nos rosais, num covil, ou de Nero nas ceias,
- são sempre os mesmos ais, o Pranto, o Espasmo, a Dor.
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Placebos - JACQUELINE AISENMAN
LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
Fechei os olhos
e os poros,
me tranquei
de fora
para dentro,
me senti ir.
Plácido
foi o instante
doce da partida,
sob os olhos
da tirana euforia
da volta.
E embora caladas,
anunciadas,
para parecer
reais,
idas e vindas,
vidas,
nada mais foram senão placebos.
EM - POESIA NOS BOLSOS - JACQUELINE AISENMAN - DESIGN EDITORA
terça-feira, 5 de maio de 2015
Da literatura - DAVID MOURÃO-FERREIRA
Os literaduros Os literadonos
Com berros e murros se levam os tolos
Que vento os enfuna Ninguém lhes resiste
Ó literadunas Ó literadiques
Vão vendo alianças entrando em conluios
com literadamas com litaradúbios
Cada vez mais sábios cada vez mais finos
Literadurázios Literadurinhos
Tão literadoces literadurázios
já parecem outros em seus ricos pátios
Tão literadoutos literadurinhos
Coitados de todos literadormindo
EM - MATURA IDADE - DAVID MOURÃO-FERREIRA - ARCÁDIA
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Inacessível - ANA CASANOVA
LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
Tudo absorvo
Tudo me inunda...
Tento dispersar-me
Tentando tornar inacessível
Esta minha alma vagabunda
Mas há quem a encontre
E desse encontro
Apenas nasce o frio
Do nítido vazio
Que provoca uma
Desesperada solidão!
domingo, 3 de maio de 2015
A dor destrói - ALICE SANTOS
LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
A dor destrói,
Mata, é cruel.
Seja de que forma for.
Maldade, ódio, paixão ou amor.
Mata sem dó nem piedade.
Vai sufocando,
Sangra e crava na alma,
Um respirar trôpego,
Consome com calma.
Lenta como a morte
Que nem o tempo apaga,
É implacável, é forte,
Curva como a foice, é veneno e amarga.
Disfarço a minha dor,
Com a máscara que a vida me ofereceu,
E nas manhãs em que acordo amargurada,
Coloco-a para ninguém ver as minhas lágrimas,
Escondidas numa face que sorri, e essa serei eu.
EM - FRUTOS VERMELHOS - ALICE S - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA
sábado, 2 de maio de 2015
Nascimento - MIGUEL TORGA
Nascem os homens como deuses pobres:
Nus e de um ventre que desesperou
De os guardar
Sagrados e secretos no seu lago.
Nascem disformes, sem nenhum afago
Da raiva desabrida que os expulsa
E das mãos aterradas que os recebem.
Bebem
O ar do mundo aos gritos.
Olham sem ver, e são
Surdos e transitórios mitos
Da nossa devoção.
EM - POESIA COMPLETA VOL.II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE
Nus e de um ventre que desesperou
De os guardar
Sagrados e secretos no seu lago.
Nascem disformes, sem nenhum afago
Da raiva desabrida que os expulsa
E das mãos aterradas que os recebem.
Bebem
O ar do mundo aos gritos.
Olham sem ver, e são
Surdos e transitórios mitos
Da nossa devoção.
EM - POESIA COMPLETA VOL.II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE
sexta-feira, 1 de maio de 2015
O poeta, a rosa e o cravo - DALBERTO GOMES
LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA
"O cravo brigou com a rosa"
E foi enfeitar o peito de Maria
Foi embelezar o cano do fuzil do soldado.
"De baixo de uma sacada"
O amor como as revoluções
Acontecem de mansinho
Tendo ideais como espada.
"O cravo saiu ferido e a rosa despedaçada"
O cravo é Símbolo
Como galo de Barcelos
Queridos pelo povo.
Das rosas lusitanas
Das suas pétalas despertas despetaladas
Pelo mundo foram espalhadas
Como alvissareiros poemas
De Camões e Pessoa.
EM - ENTRE O FADO E O SAMBA - COLECTÂNEA - EDIÇÕES OZ
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Retrato - EUGÉNIO DE ANDRADE
Tigre adormecido,
coração do dia.
Rosto semeado
de melancolia.
Noite transparente,
primavera escura.
Sombra rodeada
de mar e brancura.
Tigre adormecido.
Coração do dia.
Puro e violento
incêndio de alegria.
EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
coração do dia.
Rosto semeado
de melancolia.
Noite transparente,
primavera escura.
Sombra rodeada
de mar e brancura.
Tigre adormecido.
Coração do dia.
Puro e violento
incêndio de alegria.
EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
quarta-feira, 29 de abril de 2015
4 haicu - CASIMIRO DE BRITO
1
Entro no teu corpo
como quem entra no centro
da terra-mãe
7
Assim gozo a vida
do momento que passa -
amor para sempre
29
Doce o meu destino -
rezar a vida inteira
no altar do teu corpo
43
Deixas-me voltar
às tuas coxas? Voltear
por dentro de ti
EM - EROS MÍNIMO - CASIMIRO DE BRITO - LUA DE MARFIM
terça-feira, 28 de abril de 2015
144 - ÁLVARO DE CAMPOS
Tenho escrito mais versos que verdade.
Tenho escrito principalmente
Porque outros têm escrito.
Se nunca tivesse havido poetas no mundo,
Seria eu capaz de ser o primeiro?
Nunca!
Seria um indivíduo perfeitamente consentível,
Teria casa própria e moral.
Senhora Gertrudes!
Limpou mal este quarto:
Tire-me essas ideias de aqui!
EM - POESIA - ÁLVARO DE CAMPOS - ASSÍRIO & ALVIM
Tenho escrito principalmente
Porque outros têm escrito.
Se nunca tivesse havido poetas no mundo,
Seria eu capaz de ser o primeiro?
Nunca!
Seria um indivíduo perfeitamente consentível,
Teria casa própria e moral.
Senhora Gertrudes!
Limpou mal este quarto:
Tire-me essas ideias de aqui!
EM - POESIA - ÁLVARO DE CAMPOS - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 27 de abril de 2015
´VII - JESÚS RECIO BLANCO
LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
Tu e eu.
Tu para calçares a sombra
dum território sem barca.
Eu para navegar na minha solidão.
Tu para reconheceres a pegada
duma cobra de lábios pretos.
Eu para rastejar da minha solidão.
Tu para encalçares as ruínas
dum inverno antigo.
Eu para alimentar a minha solidão.
EM - CADENZAS - JESÚS RECIO BLANCO - CHIADO EDITORA
domingo, 26 de abril de 2015
Eternidade - JORGE DE SENA
Vem a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.
Nasceste agora mesmo. Vem comigo.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA IV - JORGE DE SENA - GUIMARÃES
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.
Nasceste agora mesmo. Vem comigo.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA IV - JORGE DE SENA - GUIMARÃES
sábado, 25 de abril de 2015
O tempo e seus suspiros - MIA COUTO
Deito-me
para desinflamar
a angústia.
Aos poucos
meu cansaço
vai perdendo convicção.
A velhice é uma insónia:
deitamo-nos
e quem dorme é a cama.
EM - IDADES, CIDADES, DIVINDADES - MIA COUTO - CAMINHO
para desinflamar
a angústia.
Aos poucos
meu cansaço
vai perdendo convicção.
A velhice é uma insónia:
deitamo-nos
e quem dorme é a cama.
EM - IDADES, CIDADES, DIVINDADES - MIA COUTO - CAMINHO
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Sem apelo nem agravo - ANTÓNIO MR MARTINS
Espremem ilações contidas
num desespero deprimente,
por tantas mentes oprimidas,
latido vincular latente.
Nada espera de bom grado
no teor de cada conversa
e o discurso degradado
se faz pela ordem inversa.
Na penúria contaminada
resvalam os impropérios,
sem ter valor ou fundamentos.
Seja a sorte desvendada
pelos intuitos mais sérios
de que padecem os jumentos.
EM - MARGEM DO SER - ANTÓNIO MR MARTINS - TEMAS ORIGINAIS
num desespero deprimente,
por tantas mentes oprimidas,
latido vincular latente.
Nada espera de bom grado
no teor de cada conversa
e o discurso degradado
se faz pela ordem inversa.
Na penúria contaminada
resvalam os impropérios,
sem ter valor ou fundamentos.
Seja a sorte desvendada
pelos intuitos mais sérios
de que padecem os jumentos.
EM - MARGEM DO SER - ANTÓNIO MR MARTINS - TEMAS ORIGINAIS
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Gente louca - VÍTOR CINTRA
As barcas, açoitadas pelas vagas,
Dançando, na deriva, já sem pano,
Co'os homens, ora em preces, ora em pragas,
Desafiando ainda o oceano.
O mar se encapelou, lançando alto
Rugidos tão horrendos, tão profanos,
Que os homens - corações em sobressalto -
Sentiam-se minúsculos humanos.
E ouviu-se, em voz potente, cava, rouca:
- "Que vindes procurar, ó gente louca?
Por quem vos arriscais a ir ao fundo?"
Responde o timoneiro: - "A gente é pouca,
Mas vamos descobrir o fim do mundo,
Que assim nos manda Dom João Segundo!"
EM - ROMEIROS DOS OCEANOS - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM
Dançando, na deriva, já sem pano,
Co'os homens, ora em preces, ora em pragas,
Desafiando ainda o oceano.
O mar se encapelou, lançando alto
Rugidos tão horrendos, tão profanos,
Que os homens - corações em sobressalto -
Sentiam-se minúsculos humanos.
E ouviu-se, em voz potente, cava, rouca:
- "Que vindes procurar, ó gente louca?
Por quem vos arriscais a ir ao fundo?"
Responde o timoneiro: - "A gente é pouca,
Mas vamos descobrir o fim do mundo,
Que assim nos manda Dom João Segundo!"
EM - ROMEIROS DOS OCEANOS - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM
quarta-feira, 22 de abril de 2015
a vénus ao espelho - VASCO GRAÇA MOURA
se a vénus ao espelho fosse
uma oliveira a arder por dentro
com sua chama de óleo doce
e tudo em brasa desde o centro,
se o seu espelho acaso fosse
embaciado pelo alento
que algum cupido em voo trouxe
entre desejo e atrevimento,
se o ar no quarto depois fosse
feito luz táctil do aposento
e se entranhasse a tomar posse
da nudez rósea no cinzento,
e se velásquez então fosse
pintar-lhe o ensimesmamento
eu te diria: misturou-se
ao próprio instinto o pensamento.
EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL
uma oliveira a arder por dentro
com sua chama de óleo doce
e tudo em brasa desde o centro,
se o seu espelho acaso fosse
embaciado pelo alento
que algum cupido em voo trouxe
entre desejo e atrevimento,
se o ar no quarto depois fosse
feito luz táctil do aposento
e se entranhasse a tomar posse
da nudez rósea no cinzento,
e se velásquez então fosse
pintar-lhe o ensimesmamento
eu te diria: misturou-se
ao próprio instinto o pensamento.
EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL
terça-feira, 21 de abril de 2015
A casa - EDGARDO XAVIER
À falta de um lugar de pedra e cal
foste tu a minha casa.
Vivi em ti o sal da vida
e a procura apetecida
de um outro mar.
Pelos teus olhos via
e pelos teus cabelos brancos
marquei de constância
Maria
a geografia do amor.
EM - SOB EPÍGRAFE: TRIBUTO A JOSÉ CRAVEIRINHA - ANTOLOGIA - TEMAS ORIGINAIS
foste tu a minha casa.
Vivi em ti o sal da vida
e a procura apetecida
de um outro mar.
Pelos teus olhos via
e pelos teus cabelos brancos
marquei de constância
Maria
a geografia do amor.
EM - SOB EPÍGRAFE: TRIBUTO A JOSÉ CRAVEIRINHA - ANTOLOGIA - TEMAS ORIGINAIS
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