domingo, 10 de julho de 2011

Junho é um mês funesto - GASTÃO CRUZ

Junho é um mês funesto
com o céu coberto
de armas

Da secura de junho
ninguém ainda morre
em cada corpo a boca
envolve os dentes mansos

EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 9 de julho de 2011

Calle Principe, 25 - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Perdemos repetidamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Interior - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Caminhadas pelo Outono, junto
à fronteira. Rochas e mato.
A preocupação de manter a correspondência
em dia. Pedacinhos de tristeza:
era quase uma melodia.

Revejo os pinhais, ou soutos, a madeira
com que fazem os barcos e os caixões.
Desciam pelos últimos meses,
com os sapatos na mão, para não fazerem
barulho. Ao jantar, uma sopa
de beldroegas.

Encostado à aridez, caminhando sobre
folhas castanhas, dentro de dias cinzentos,
com o coração nublado.
Sem remorso, juro-o.

EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Camuflagem - JOÃO RUI DE SOUSA

A emalar a desgraça
a guardar todo o recheio
de tapetes e espingardas
enferrujadas e veios
onde a corrente não passa
onde o suspiro é o meio
de dizer que tudo cansa
ou que parar é o primeiro
movimento de quem junta
a solidão ao recreio
- lá vou seguindo na marcha
com minha trompa e pandeiro
a esconder nódoas e facas
a tapar as rotas velas
do meu secreto veleiro;
lá vou seguindo na praça
como quem vai em recreio
da telha ao piso da casa
do gelo ao rio que disfarça
a dureza do terreiro.

EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Incongruências - LITA LISBOA

Influências
De negligências,
Que não querem
Advertências,
Dão
Consequências,
E nefastas
Absorvências,
Em vivências,
Cheias de
Inconsequências,
Pelas
Dependências!

São
Incongruências!

EM - FRAGMENTOS DE MIM - LITA LISBOA - TEMAS ORIGINAIS

terça-feira, 5 de julho de 2011

Icebergue talvez - DOMINGOS DA MOTA

Prego os olhos em ti: são como as aves
a tentar debicar-se lentamente:
ante a sede e a fome dos meus lábios
com desejos de voar sinto as retinas:

voo então sobre ti, pássaro errante
em busca de alimento na seara
pra ver-te distraída (se distante)
icebergue talvez e tão avara

No voo secante dos meus olhos,
levado pela urgência, queimo os lábios
e atravesso-te o corpo, a contra-pêlo:

e perante a nudez fresca dos poros
sei da porta aberta a sete chaves
entregue à fusão do quebra-gelo

EM - BOLSA DE VALORES E OUTROS POEMAS - DOMINGOS DA MOTA - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Tempo raso - EDGARDO XAVIER

Da boca ao peito
do ventre à aventura
é nos meus dedos que nasces
e no meu mar que navegas
à bolina do espanto

Em ti é que trago o tempo
varo a noite
bebo auroras
e sou
na agonia do nada
o tudo que me justifica

EM - CORPO DE ABRIGO - EDGARDO XAVIER - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 3 de julho de 2011

Descontente - NATÉRCIA FREIRE

Abafada, afogada no Tejo,
Tristemente esquecida no fundo.
É só água que vejo! E não vejo
As janelas abertas do mundo!

Tristemente esquecida na sala.
Descontente, em ninguém deixou pena...
Na pequena moldura não fala,
No pequeno retrato é serena.

É só água que vejo. Talvez
Os meus braços se alonguem para o cais.
Mas o mar que me bate nos pés
Rasga um som de cristais... de cristais...

Às janelas do mundo, ninguém.
Sobre o cume das serras, a Lua.
Pelo frio da noite que vem,
Sou de pedra, no fundo, e estou nua.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - NATÉRCIA FREIRE - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 2 de julho de 2011

Castelã da tristeza - FLORBELA ESPANCA

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor.
Passa por ele a luz de todo o amor...
E nunca em meu castelo entrou alguém.

Castelã da Tristeza, vês?... A quem?...
- E o meu olhar é interrogador -
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio... nada... ninguém vem...

Castelã da Tristeza, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais?...

À noite, debruçada, plas ameias,
Porque rezas baixinho?... Porque anseias?...
Que sonho afagam tuas mãos reais?

EM - SONETOS - FLORBELA ESPANCA - BERTRAND

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Velas I - DOMINGOS MONTEIRO

Velas brancas, tão brancas que parecem
Todas feitas d'alvíssimo luar;
Tais frémitos de sol que esmorecessem
Na mansidão da luz crepuscular.

Desejos alongados amanhecem
No vento que vos leva sobre o mar;
Almas de sonho e almas que padecem
Num lento, doloroso agonizar.

Asa num voo aberta; como é lindo,
Por sobre as vagas que se vão florindo
Como flocos de neve, uma por uma,

Sentir poisar o vosso dorso d'ave,
Num cântico de luz triste e suave,
Numa alvorada d'hálitos de espuma.

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Terraços - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Éramos adolescentes e nem notávamos
preocupados ainda em estar junto dos outros
o primeiro amor fazia-nos sofrer
como não supúnhamos possível
enchíamos os terraços de gambiarras
ou armávamos fogueiras enormes na praia
e dançávamos todo o verão
quase sem tempo para mais

por cima de todos os meses
a morte tomava tais proporções

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Seus passos... - ALBERTO DE LACERDA

Seus passos na nave interminável
Enaltecem os vitrais
Prolongam a luz coada
No mármore

EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 28 de junho de 2011

A literatura - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Cultivam-se virtudes raras: a bonomia,
o encanto, a mediocridade. Queimado
o acessório, que fica? O sal na água,
eis o espírito. E eis esse alferes que,
louco, enforcou os cães e o outro pequeno
oficial, que apaixonadamente conduziu
um pelotão à chacina. Ébrio, empunhando
o revólver até à morte. O cinismo
progredia. Ao fim de tudo,
uma bala perdida levou-lhe um olho.

Escreviam-se cartas à hora de almoço
e à hora do chá: o expatriado
e a florista. Essas pequenas vilas,
de escassa ribeira, onde é aprazível
deixar correr o tempo. A literatura.

EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Se não faleço... - JOÃO RUI DE SOUSA

Se não faleço faleço
ao meio dum deus e da lama
entre a rã e a estratosfera
entre um pássaro e o balanco
no circular desta chama
que sempre em luz me redime
e no sumir-se derrama
a água que escreve o pranto.

Com o torpor do relento
com chuvas de desencanto
nos algerozes da alma
correm gotas de tormento
corre o minaz duma lágrima
que só eu vejo - bem dentro.

EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE

domingo, 26 de junho de 2011

Dor - LITA LISBOA

Os flagelos são contidos em murmúrios...
A dor, em múltiplas resiliências...
Este Mundo está repleto de infortúnios...
E transbordando de incoerências!
Os desenganos não têm interrupção...
Em cada olhar há gritos lancinantes!

Até quando esta forma obscura de viver,
Que golpeia inexoravelmente o nosso ser?

EM - FRAGMENTOS DE MIM - LITA LISBOA - TEMAS ORIGINAIS

sábado, 25 de junho de 2011

Arte poética - DOMINGOS DA MOTA

Um poema tomara: e que fosse
à raiz das raízes ou mais alto,
temporão ou serôdio: e se precoce
que andasse por aí em sobressalto

a abalar, a criar desassossego
mesmo á beira da fonte d'água pura,
desvelasse o mais íntimo do ego
e mostrasse o porquê da abrasadura

que ferra este pobre zé-ninguém
pois em busca de rumo perde o passo
(com a perna mais curta vai além
do que pode o seu pé e o seu braço):

um poema tomara eu fazer
que fosse ao coração do próprio ser.

EM - BOLSA DE VALORES E OUTROS POEMAS - DOMINGOS DA MOTA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Difusa claridade - EDGARDO XAVIER

Uma luz doce desce
pelo teu ventre até à sombra
onde vibram os medos
e a boca mergulha como ave silenciosa

Carmim é a febre das sedas
no devassar dos segredos
e o corpo a voz sedenta
do infinito partilhado

EM - CORPO DE ABRIGO - EDGARDO XAVIER - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O que partiu de mim - NATÉRCIA FREIRE

Foi qualquer coisa que partiu de mim,
Num declínio de luz, de lentidão,
Como a hora em que a vida chega ao fim.
Partiu de mim a alma? O coração?

Um mundo de existências prolongadas,
Cansadas, bem sofridas, abafadas,
Partiu de mim, da minha reclusão.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - NATÉRCIA FREIRE - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Eu - FLORBELA ESPANCA

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem nome,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

EM - SONETOS - FLORBELA ESPANCA - BERTRAND

terça-feira, 21 de junho de 2011

Para o além - DOMINGOS MONTEIRO

Pálida e linda, como um lírio doce
Partiste um dia, e eu nem sei sequer...
Talvez, talvez contigo também fosse
Esta minha alma em corpo de mulher.

Pálida e linda, como um lírio doce,
Olhos tristes, magoados de sofrer...
Ainda estou a ouvir a tua tosse
Dizer por ti, como quem 'stá a dizer:

Sou um lírio dorido do sol-posto,
E dum país de lenda este meu rosto,
Este corpinho, magro e delicado...

Eu vou partir; não chorem, avezinhas,
Como partem, sorrindo, as andorinhas,
Quando chega o Outono amargurado.

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM