domingo, 12 de março de 2023

Afirmação - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Relâmpagos que nos trespassam.
Trovoadas que nos despertam.
Noites escuras de gambuzinos mortos.
Luz que nos afaga.
Sois com braços que nos assam.
Promontórios, pesqueiros de chuvas de prata
e níquel de borda oxidada.
Mais um dia passou e tanta gente esperando
temperada água que alimente as suas fontes.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

sábado, 11 de março de 2023

Cântico - CONCEIÇÃO FERREIRA

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Leve e longa a voz da brisa
Num sopro me canta a vida,
Mas é da água, que desliza
Embranquecida de frenesim,
Que nasce o som das palavras
Que vou descobrindo em mim.

Não sei quem escreve
Não sei quem sente
Se tal simbiose é breve…
Sei que seguro entre os dedos
Toda a luz dessa paisagem
Que me desvenda segredos.

EM - OLHAR A ESCRITA - CONCEIÇÃO FERREIRA - IN-FINITA

Fado da roda - CELSO CORDEIRO

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A roda da vida insiste parar
ou teimosamente decide girar
apenas ao invés do sentido
que não no sentido devido,

malgrado o esforço despendido
a tentar redefinir-lhe o sentido
se já com forças a escassear
a roda teima em não rodar,

ou que nem uma roda dentada
e em total desajuste arbitrário
não engrena a roda em nada.

A roda teima rodar ao contrário
e em livre-arbítrio desorientada
é já um fado, e eu destinatário.

EM - CADERNOS DE ENSAIOS EM VERSO - CELSO CORDEIRO - IN-FINITA

sexta-feira, 10 de março de 2023

Seguindo em frente - VIEIRINHA VIEIRA

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O caminho se faz caminhando
e cada dia que passa melhor é o caminhante
e o próprio caminho.

Caminho por entre ideias,
imaginação, fantasia.
Coloco cada pé na realidade
e sem vaidade sigo em frente.
Contente com o caminho,
mais adiante de olho sorridente.

Mais dente menos dente
mas contente, por seguir em frente.
Realizando o destino!
O verdadeiro propósito.

E a propósito!?
É para mim indiferente
O pensamento de gente
Que nunca pensou em mim
Como gente que sou,
Vou…quem sabe um dia eu volto.

Ainda mais alegre,
Feliz e contente.
Por ser diferente
Apesar de igual a toda a gente.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 9 de março de 2023

Somos oásis e desertos - VERA SILVA

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Somos oásis
Águas claras, cristalinas
Mente zen, centramento
Horizonte azul
Paz e esperança!

Somos desertos
Inquietude, insegurança, introspecção
Pensamentos que vagueiam
Insistentes, persistentes
Mas ora vibrantes e alegres
Cheiros de sonhos, planos, propósitos
Crentes no amor apesar da dor

Assim é que em qualquer fase da vida
Nos empoderamos e energizamos
Somos protagonistas e florescemos!
Mente aberta, mente sã...

Continuemos apostando no amanhã
Apesar das incertezas
E mesmo sem garantias
Cultivemos em cada amanhecer
A crença no VIVER e no PORVIR
Sem perder o foco e o prazer
De simplesmente viver plenamente o AGORA
CARPE VITAE!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Ao meu alcance - ROSA MORENA

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Todos os traços do meu rosto
As saliências, as asperezas
Os truques do sorriso
Tudo, ou quase tudo
Enxerga minha emoção
Preparada que estou
Para o prazer
Dos
Teus
Lábios.

EM - NA FUNDURA DA PELE - ROSA MORENA - IN-FINITA

quarta-feira, 8 de março de 2023

Súplica - VENTOS SÁBIOS

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Vento que vens dos quatros cantos
que sopras e levantas terras, poeiras
Vento que chegas, sopras força, vendavais
que viras e reviras, revolucionas, renovas
e fazes no meu caminho o remoinho
coluna de ar que me abre caminho
Tu que me empurras, sustentas, me guias
Vento que és movimento e mudança
Pujança dos tempos e eras sem fim
que trazes nas asas sementes de sonhos

Vento!... Vento!... Vento!

Traz-me a semente de quem fui e sou
traz-me a terra onde eu fui plantada
para que eu possa de novo brotar
exalar os perfumes do meu passado
das raízes que um dia se firmaram
e me ensinaram o caminho da luz
da paz, do amor, do dar e receber
Tu que me ouves os gritos, gemidos
escuta atento a este meu pedido
faz-me vencer, quem me quer prender!

Vento que é forte
é vento chicote!
Vento Espada
na mão trago erguida!
Vento que é brisa
Sossega-me a alma!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Os lábios - SUSANA NUNES

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Gretados ficam os lábios
pela erosão agreste do tempo,
pela secura areada dos beijos,
pelo baixo relevo da língua

Enrolam-se para dentro,
definham-se pálidos,
enrugados,
incolores,
jazem sós,
inexistentes
e a saudade
de os ter carnudos,
e a vontade
de os ter vermelhos,
a ser sombra
na boca encolhida,
e a esperança
de os ter de novo,
a ver-se perdida

EM - SEMPRE PLANTO OÁSIS NAS PALAVRAS - SUSANA NUNES - IN-FINITA

terça-feira, 7 de março de 2023

Sou dona - TITA LEAL

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Sou dona dos meus sonhos
E dos que me restam
Herdeira dos que construí
Formada nas primaveras
Em que tantas
e tantas vezes deles me vesti

Sou dona dos meus sonhos
Os que arrastei pela estrada da vida
Pronta para deixar
Nas páginas dos livros que irão desfolhar
Depois da hora da minha partida

Em folhas de papel deixarei
Tantos outros sonhos secretos guardados
No banco do tempo repousarão
Os que na minha vida comigo andaram acordados

Sou dona dos meus sonhos
Mesmo depois da luz apagada
E de toda a saudade
Saudade que por mim, será deixada

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Pontífice de ventre - SUSANA PIRES

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Engulo o suco da imagem

Num debate de olhos grandes e interiores

A sala velha pintada de paredes verdes

Confunde - se com o cheiro a curvas

 

Artérias . Pulsam no

 

  - ventre da liberdade -

 

Concubinas de janelas entreabertas à mudança

O sopro do vento veste os sentidos nas ilhas das amarras

Segredando ao espaço a fantasmagórica

 

  - feminilidade-

 

Mentes. De mundos

Resguardam as energias feiticeiras

E os espelhos das almas tombam no chão solto do prefácio

Estilhaçando

Todos e quaisquer reflexos

 

    -MULHER-


EM - O PRÉDIO - SUSANA PIRES - IN-FINITA

Recuso - ANTÓNIO CAPELLA

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Nesta vidraça fosca de desalento, deixo que nelas escorram
lágrimas prenhes de arrependimentos e vadiagens por acabar.

Neste atravessar, tenho medo dos tempos escuros e vou sentindo
a luz, que alguém está a abafar.

Assim neste lusco-fusco, ao rugoso chão criarei raízes,
até que o verde e o mar me venham buscar.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de março de 2023

Ataúde da alma - CELSO CORDEIRO

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O cansaço corrói e desgasta-nos por dentro
e quando já cansados do próprio cansaço
descobrimos em nós demasiado espaço
cheio do nada, vazio, além do cansaço…

Vemo-nos já como seres quase inertes
e mesmo que ainda pulse o coração
somos capazes de renegar a paixão
num cansaço que conduz à negação…

Revemo-nos num corpo que é pouco mais
que o ataúde da alma em decomposição
quando o abandono e a prostração
nos rouba já o sonho e a ilusão…

EM - CADERNOS DE ENSAIOS EM VERSO - CELSO CORDEIRO - IN-FINITA

Último embalo T. M. GRACE

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Quantas memórias olfativas
Me traz a brisa das cerejeiras em flor.
Na ténue rugosidade do seu tronco,
Sinto a seiva pulsar nas suas veias,
Entre os seus ramos, algumas teias.
O duelo entre a minha sombra
E as flores salpicadas de branco e rosa, começa
Sob o olhar atento da lua...
Pensamentos saltitantes de uma alma dispersa,
Embalada sob um céu de diamantes,
Que tenta despertar
Ao som do zumbido do bater de asas
De um casal de beija-flores.
O meu rosto sorve sôfrego algumas gotas de água,
Talvez sejam lágrimas derramadas pelos meus amores.
Mais um embalo agitado, me sacode com violência,
Eu inquieto-me com este insólito embalar,
Engulo em seco numa amarga sofrência
Num derradeiro e último esforço, abro os olhos
E realizo que sou uma náufraga em alto mar...

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Ressonância - CONCEIÇÃO FERREIRA

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Quando sinto nos ombros uma carícia
E, longamente, o corpo me estremece
Está poisada em mim a mão da tarde,
Aquela mão que anima e engrandece
O fulgor da vida que em mim arde.
É tempo de morar entre verdades
É tempo de acordar a ressonância
Que enobrece e mitiga as saudades
De toda a minha amada infância.

Acordar em mim essas lembranças
É escutar palavras que já não são ditas
Sentir abraços que já não são dados
Resgatar presenças e etapas benditas
Reacender caminhos já passados.
É como olhar para mim à transparência
Registar, em paz, a minha biografia
Aquietar a pungente dor de ausência
E exaltar a vida numa qualquer filosofia.

EM - OLHAR A ESCRITA - CONCEIÇÃO FERREIRA - IN-FINITA

domingo, 5 de março de 2023

Glaciais Correntes d’água - TECA MASCARENHAS

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GLACIAIS CORRENTES D’ÁGUA
represadas no fugidio tempo das entremarés
agora me percorrem as finas veias
e circum-navegam minhas lacunas
transportam barcos fantasmas carregados de crepúsculos
e semiesquecidos tesouros ofuscados pelo tempo
fios de pérolas enredados nas velas controlam os ventos
enquanto a cintilância das algas esboça o caminho

ainda que a memória persiga brisa suave e complacente
pelo bem-querer à poesia da calmaria
eternas ondas insistem na inesgotável revinda
a um outrora de desenlaces e nostalgia

ainda que a lembrança teime em atrair sons de oboé
estão cegas as janelas
e nenhuma escuta nutre esse desejo
oxidado num espelho que reflete o inapagável

mas a alma permanece em vigília a esperar consolação
e o caudal entorpecido desagua turvo em minhas retinas
já cansadas de tanta singradura

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 4 de março de 2023

Leven* - SÍLVIA SILVA

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Cada dia é uma homenagem a ti
E cada um é uma pérola
Um experienciar
E um aprendizado.

Cada dia é um mistério
É névoa
Um desvendar
E um merecimento.

Cada dia é cumplicidade
E cada um é um laço novo
Ou reafirmar de ligações antigas...

Cada dia é uma oportunidade
Um saborear
E poder abrir os olhos
Para uma panorâmica
De garridas cores...

(Vida, devo-te imenso
Que dê de volta para os outros também)

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Encontro - ROSA MORENA

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Apuro o olhar
Vejo você pela fresta da janela
Entre damas da noite e o luar
Sua pupila me desconfia

A campainha quebrou
E aprofundou os silêncios
Mas seu olhar
Acionou o meu desejo de proximidade.

EM - NA FUNDURA DA PELE - ROSA MORENA - IN-FINITA

sexta-feira, 3 de março de 2023

Sombra mecânica - SARA TIMÓTEO

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sou a sombra
de um devir percetível
sob estas vozes:

Coro: quem é a mais bela?

Respondo-lhe: ninguém,
a mentira mecânica
proferida pelo meu coração

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Digo - SUSANA NUNES

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Digo Água
como digo Vida
como digo Vento
como digo Chuva
como digo Madrugada

Balanço-me nas palavras
transmuto-as nas veias
e descanso

Acordo nelas orvalhada
quando por mim passam nuas
quando as palpo quentes
quando as procuro virgens
e quando em mim, as sinto ímpares
sou-lhes rio
e barco

Digo Beijo
como digo Líbido
como digo Cama
como digo Coito
como digo Gozo

Estico-me nas palavras
bamboleio-as nas ancas
e danço
E quando de ti as oiço
iguais às minhas
sou-lhes mar
e sargaço

EM - SEMPRE PLANTO OÁSIS NAS PALAVRAS - SUSANA NUNES - IN-FINITA

quinta-feira, 2 de março de 2023

O Deus da Guerra - ROSALINA VAQUEIRO

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Trazia uma espada
Feita de brinquedo partido
Um prato na mão não armada
Casaco de mãe vestido
Roçando p’lo tornozelo
Chapéu de pai torcido
Com um ar de desmazelo

Ia atacar a valer
Um Deus da guerra
Precisa de pelejar
Não se pode ceder
Não se pode parar
Mas no virar da alegria
Dos pulos e traquinices
Com um corte de energia
Tudo fica no escuro
Com um sussurro e soluço também
Uma voz soou dos brinquedos
Ávida de colo de mãe
O Deus da guerra tem medos!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA