domingo, 31 de julho de 2011

Legenda - DOMINGOS MONTEIRO

A noite é escura e eu sou a noite escura
Espírito que és sombra, que mais queres,
Do que a Dor, o sacrário da amargura,
Se precisas da Dor para viveres?

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM

sábado, 30 de julho de 2011

Cegas luzes... - GASTÃO CRUZ

Cegas luzes conhece de escassez
a nudez que desprende
do corpo devagar a claridade
das chamas desoladas

EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Fuga de Bizâncio - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Não queria nenhum lugar
viajava ao longo dos anos mais para longe
sem nada de muito caro
sem pedidos de socorro
implacável nessa forma de gentileza
tão própria a quem não ousa

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Natureza-morta - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Quem sabe a textura da madeira,
as primícias do fogo,
acordar para uma razia de luz,
na fermentação do barro?

Decifrar a textura da madeira
segreda a primazia do fogo,
o olhar submetido
à revelação das coisas.

Quem sabe o gosto da fruta,
o azul manchado de sombras,
onde os fragmentos do mundo
resistem ao apelo de uma ordem?

EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Aves - JOÃO RUI DE SOUSA

Enlouquecem-se-me as aves
em seu sinal trepidante
como um lume navegante
sobre a leveza da brisa
sobre um ovo triunfante
no peixe que alfim desliza
como um martelo de pranto
a desfazer-se em descida
para o esplendor das vindimas.

EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 26 de julho de 2011

Jogo - LITA LISBOA

Do baralho da vida,
Foste a carta apetecida
Que punha minha alma em fogo...
À minha mão vieste parar...
Não te consegui segurar
Por ter azar ao jogo,
Ou não saber jogar...

E querer jogar,
Eu queria...
Mas bem cedo percebia
Que não iria ganhar.
E havia tantas cartas...
Meu Deus, havia tantas!
Mas nenhuma era a que eu queria,
E desisti de jogar!

EM - FRAGMENTOS DE MIM - LITA LISBOA - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Sonetilho - DOMINGOS DA MOTA

Medo do medo de amar
medo do medo de ser
medo até de se afogar
e com medo perecer

medo de estar e não estar
à beira do desencanto
medo de não se abrigar
de viver sem acalanto

medo de agora perdida
o que outrora foi a vida
e que jamais viverá

medo dos olhos do medo
medo do chão do degredo
mais medos não: oxalá

EM - BOLSA DE VALORES E OUTROS POEMAS - DOMINGOS DA MOTA - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 24 de julho de 2011

Afeto - EDGARDO XAVIER

Recupero-te
na febre do tempo
que arde
como a ternura
mansamente

Na minha boca
a tua sede
incendeia a madrugada

EM - CORPO DE ABRIGO - EDGARDO XAVIER - TEMAS ORIGINAIS

sábado, 23 de julho de 2011

Poema de amor - NATÉRCIA FREIRE

Teu rosto, no meu rosto, descansado.
Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
Bater de asas, tão longe, noutro tempo,
Sem relógio nem espaço proibido.

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,
Nos sorriem, nos dizem: Sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
olham por nós na hora que se esvai!

Que música de prados e de fontes!
Que riso de águas vem para nos levar?
Meu rosto, no teu rosto de horizontes,
Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - NATÉRCIA FREIRE - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Lágrimas ocultas - FLORBELA ESPANCA

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida,,,

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

EM - SONETOS - FLORBELA ESPANCA - BERTRAND

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Hermengarda - DOMINGOS MONTEIRO

Ó Hermengarda, ó pálida donzela,
Ó pálida donzela enlouquecida,
Que à porta da caverna adormecida
Sonhavas com Eurico, à luz da estrela.

Ó Hermengarda, ó pálida donzela,
Rosabranca de luz, emurchecida,
Canção d'amor, triste canção dorida,
Que uma alma santa, um coração, revela.

Amo também a tua sombra altiva,
Amo também essa memória viva
Do teu nome, espalhada em derredor,

E no Além, nas trevas do passado,
Eu vejo ainda o teu olhar velado
Quase a sorrir, enlouquecer d'amor.

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A dor... - GASTÃO CRUZ

A dor com que de sob
os dedos a nudez desaparece
da
boca funesta que te envolve
os dentes
e tens na escuridão
dos dias que
esconder deste fogo da amargura
de junho

EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 19 de julho de 2011

A casa - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Esta casa é a tua casa
quanto ao que permanece
nem sei que dizer
tanto me feriu a
insignificância do mundo
a relativa veracidade concedida aos lírios
minhas habilidades inexperientes

a obscuridade brilha para lá
da própria enseada

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Edvard Munch - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

O grito,
o grito verde, adstringente,

e as raparigas
na ponte,
evitando a repetição
das cores

e o fascínio da água.

Eu que não sei,
que posso aprender?

EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 17 de julho de 2011

Da verdade nunca achada - JOÃO RUI DE SOUSA

O pior é que sabias
quantas mortes transportavas
quantas fronteiras erguias
em ti próprio que afundavas
os vários sóis que trazias
em nebulosas e praias
quantas noites eram dias
piores que as noites mais bravas
de patentes arrelias
(sarrisca e cinza empolgadas)
de saber que dor havia
de saber que havia o nada
o movimento cindido
entre sombra e alvorada:
a falha de um só sentido
- de verdade nunca achada.

EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE

sábado, 16 de julho de 2011

Ser criança - LITA LISBOA

Ser criança é ter amor, ter carinho
Ter alimento na mesa,
Ter o bibe bem limpinho,
Ter cuidados de saúde,
Ter gente em sua defesa!
Ter brinquedos para brincar,
Ter livros para estudar,
Ter agasalho no frio,
Ter quem enxugue uma lágrima,
Quando um joelho esfolar,
E encontrar um sorriso,
Que o incentive a saltar
Ter um abraço
Um beijinho
E ter alguém bem juntinho,
P'ra em calma fantasia
Adormecer e sonhar.

EM - FRAGMENTOS DE MIM - LITA LISBOA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Cantiga - DOMINGOS DA MOTA

Ouço contigas d'amigo,
faço contigas d'amor,
d'água e searas de trigo,
de vinho e pão, do pascigo
fonte de vida: o fulgor

de ver o sol quando a lua
sobre a terra desnudada
e dizeres-me que sou tua
com a ternura mais crua
(sermos assim, tudo ou nada)

Só este amor eu persigo
ora e sempre, lado a lado,
tu comigo, eu contigo
e ambos porto de abrigo
do princípio até ao cabo

EM - BOLSA DE VALORES E OUTROS POEMAS - DOMINGOS DA MOTA - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Terra tua - EDGARDO XAVIER

Veste-me com o aroma da tua boca
e devassa-me
como se fosse terra tua

Ara-me

Que seja eu
o prémio e o castigo
a sede e a água
o fim e a eternidade
consentidos

EM - CORPO DE ABRIGO - EDGARDO XAVIER - TEMAS ORIGINAIS

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Imagem - NATÉRCIA FREIRE

A vida da bem-casada
Está, toda branca, estirada
Sobre a cama
De casal.

A vida da bem-casada
Pulsa dentro da redoma
De cristal.

Em claro sol entornada,
Tem abismos de paisagem
Irreal...

E depois de abandonada,
Parece jazer à espera
Das três pazadas de cal.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - NATÉRCIA FREIRE - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 12 de julho de 2011

Tortura - FLORBELA ESPANCA

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que disseste, a chorar, isto que sinto!!

EM - SONETOS - FLORBELA ESPANCA - BERTRAND