quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

O tempero do seu pecado era eu - NICOLETA PECELI

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Uma ambição carente alimentou o seu fogo de imediato,
Subjugando-o às minhas fantasias.
A visão do meu corpo fê-lo ajoelhar-se, desejando tanto
tocar-me.
– Afinal consegues obedecer – murmurei, sentindo-lhe
a excitação a crescer.
– É o que parece – instigou-me, mostrando a exigência
do seu delírio.
Rendi-me à sua voz provocante, desviando ligeiramente
o olhar.
O corpete preto, as sandálias de salto de agulha,
davam-me uma ligeira sensação de liderança,
sentindo-me dona não só dos meus desejos, como dos dele.
Delicadamente, as mãos começaram a acariciar o seu cabelo,
Enquanto os lábios consumavam a sua derrota.
Olhava-o com uma expressão de adoração,
Sentindo-me, por breves instantes, capaz de conquistar
o seu mundo.
Tirei-lhe o casaco e de seguida a camisa,
Encostando-me bem junto ao seu corpo, sentindo-o.
– Nada me agrada mais do que o calor do teu corpo
– confessou,
Deslizando as mãos pelas minhas pernas afastando-me
lentamente os joelhos.
Inclinei as ancas conduzindo-o à fonte dos meus desejos,
Exigindo um preenchimento total.
Consumido pela minha sede, castigo a loucura que nele habita
E, em gestos lentos, prolongo o que em mim tenho
de mais atrevido.
Afinal, o tempero do seu pecado era eu.

EM - (E)TERNA SENSUALIDADE - NICOLETA PECELI - IN-FINITA

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Rumos - JORGE GASPAR

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Mede-se o tempo. Insanável.
Buscam-se memórias vividas. Projetadas em ausências.
Viaja-se. Ampara-se a luz da paciência.
E o Rumo?

Abraça-se a esperança.
Orientação. Impronunciável.
Crença. Irrealizável?
Sem dúvida a solidão.

Realidades desconectadas.
Como não desconhecer a reflexão?

Inacessível a chama do diagnóstico.
A vulnerabilidade da identificação.

Louca avalanche de sonhos improváveis.
Sem saída os voos. Aprisionados.
A desventura. Conceito selado.
De que é feito o frenesim?

Horizontes sem repetição.
A comunicação e a solidão.
O tempo ilude aprendizagens.
E o Rumo?

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

No meio do meu jardim - CARLA SANTOS

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No meio do meu jardim
Tenho escorregas e baloiços
Árvores e relva para mim
E na minha casinha,
Sabem o que descobri?
Que as folhas onde escrevi
Veio a família Caracolixa
E comeu-as como ervinhas
Mas que engraçada é a vidinha
Deixem-se por aí ficar
Que engordem a valer
Mais tarde vou-vos apanhar
E no prato vos comer...
Muitos não vão gostar
Mas são tão saborosos.
A minha tia vem cozinhar
E ficam apetitosos.

Vamo-nos lambuzar!

EM - TROLARÓ - CARLA SANTOS - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Marulhar - CELSO CORDEIRO

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Apetecia-me ser onda do mar
que na rebentação se espraia
e nesse harmonioso marulhar
revolve e envolve na areia da praia…

Seria teu mar… e tu o meu areal…

Pudesses ao mar te entregar
e degustares o sabor a sal
sem o receio de naufragar…

EM - CADERNOS DE ENSAIOS EM VERSO - CELSO CORDEIRO - IN-FINITA

Fique em silêncio - JOEMA CARVALHO

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fique em silêncio
escute a verdade da pulsação

fique em silêncio
perceba o seu gesto
seu cheiro e prazer

fique em silêncio
descubra o óbvio
o segredo do que se vê
do que está refletido em tudo
no si mesmo

fique em silêncio
para os pássaros trazerem a hora certa
no néctar da flor, beija-flor

fique em silêncio
para a poesia penetrar nos teus espaços vazios
fazer o trabalho do vento

fique em silêncio, mais uma vez
sem ter que tentar
não pense pelo menos um pouco
encoste a cabeça no ferro velho
e seja sua própria vontade

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Eu hoje fui ver o mar - LUÍSA GALVÃO

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Eu hoje fui ver o mar.
Estavam calmas as marés,
muito perto fui chegar,
para não me descalçar
molhei as mãos, não os pés.
Na areia minhas pegadas
Marcavam minha presença
Aquela areia molhada
Que com minhas mãos pegava
Deslizava com jeitinho, ficando
Pelo caminho, fazendo então uma
Estrada.
Tinha saudades do mar, de ver
Conchinhas, dos limos
Ver crianças a brincar, as meninas
Os meninos.
Vou voltar p'ra ver as ondas
Adoro seu vai e vem!
Quando voltar outro dia
Molharei meus pés também.

EM - MEMÓRIAS DE UM ROUXINOL - LUÍSA GALVÃO - VENTOS SÁBIOS/RUTH COLLAÇO/IN-FINITA

Claridades - CONCEIÇÃO FERREIRA

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Abraçada ao silêncio do olhar
Que goteja sobre o horizonte
Ondulo um coração estremecido
Nas vagas que o vêm beijar.
Não há névoas nem sombras
Nem véus a esvoaçar…
Sobram os caminhos da vida
Um sussurro calado e comovido
Um sorriso no rosto a aflorar
Um brilho na singular janela
Cercada pelo rendilhado das ondas.
Conchas, que prendo nas mãos,
Faíscam ao sol brilhante
E exaltam a cor do mar.
Agradeço, de forma sentida,
A luz que escorre defronte
A transparência que há nela
Os gestos que põe a bailar.

EM - OLHAR A ESCRITA - CONCEIÇÃO FERREIRA - IN-FINITA

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Alentejo - JOAQUINA RAIMUNDO

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Adoro-te meu lindo Alentejo amado,
Oiço a tua voz dorida, a cada momento,
Dos teus horizontes ecoa o brado,
Um misto de desabafo e sofrimento.

Dos teus grandes e rudes braços
Um querer emerge de suor e mágoas
E escondem as dores e as lágrimas.
Vontades que criam fortes abraços.

Na tua cara vermelha e dourada
Que o abrasador sol queima, fere e arde,
O suor quente abre caminhos e estradas.

Mas quando um dia te fizeres ouvir
Num grito forte que bem longe brade
Mais ninguém, Alentejo, te fará cair!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 4 de fevereiro de 2023

No traço que em ti desenho - JOÃO VIDEIRA SANTOS

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No traço que em ti desenho
libertando minha mão,
dou voz ao despertar,
caminho à emoção...

...e então desenhada,
em traços de nudez,
libertas mistérios,
tudo
duma só vez.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Em plena claridade - ROSA MORENA

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Uma parte de ti
Ao meio dia
Pensamento, ironia
Precisando te esquecer.

EM - NA FUNDURA DA PELE - ROSA MORENA - IN-FINITA

Eu nua na palavra - SUSANA NUNES

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Consinto-me inteira na palavra fluida,
na coragem grada de a ter aberta,
de a quer extensa e esdrúxula,
de a enrolar no bulício da língua,
para que ela me ronde o tempo,
e o preveja longo

Preciso-me inteira na palavra ampla,
na onda de a ousar espumada,
de a querer desconcertada,
de a brotar de labareda pelo fundo da boca,
para que ímpar me apanhe o gosto,
e o augure agridoce

Expulso-me nua na palavra contínua,
antes mesmo de a saber placenta,
antes até de a fazer nascer,
porque sempre a quero de água,
porque a desejo no coito corrente,
espraiada,
despida,
sexuada,
porque é assim que eu acho e sinto,
que a vida deve ser

EM - SEMPRE PLANTO OÁSIS NAS PALAVRAS - SUSANA NUNES - IN-FINITA

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

O erro - RUTH COLLAÇO

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Comete o erro de a olhar
de a querer e sonhar
tanto se foge desta dor
que ela o acaba por encontrar
matreira espreita a cada esquina
aproxima-se como bailarina
rodopia e o desnorteia
só para o ver rendido.
E daí ela o ergue, lhe eleva o sentimento
mal sabe ele a rasteira
que o destino lhe prepara.
Ela é doce, a saudade
ela é meiga, a ternura
ela é fera quando o ama
e o abraça em quentes chamas!
Lambe-o em labaredas
Consome-lhe a carne em desejo
e mesmo antes que desfaleça
Ela pede..."faz-me sofrer..."
e ele geme,
com esforço se ergue e se entrega
e juntos dois troncos à lareira
ardem, queimam, viram fumo
loucos sobem a lareira
e se perdem no luar.

EM - PÉ DE CARVÃO E POEMAS NA PALMA DA MÃO - RUTH COLLAÇO - VENTOS SÁBIOS/RUTH COLLAÇO/IN-FINITA

Tâmaras - JACKMICHEL

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Tâmaras, já provei algum dia
Lá pelos lados de Alexandria.

Havia templos divinos, profanos,
De culto à mitos desumanos.

Quantas tamareiras de grande porte,
Sopradas ao vento norte!

Todos bebiam do seu suco
Ou comiam do seu fruto.

Sua sombra protegia do calor...
Do escravo, ao nobre senhor!

Da Ásia e África tinham vindo
Num tempo que, agora, é findo!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Chamas-me meu anjo - NICOLETA PECELI

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Chamas-me meu anjo, enquanto a outra doçura desejas sentir.
Nos lábios trago o veneno abençoado e no peito carrego
desejos sem fim.
Chamas-me meu anjo e gosto de sentir a tua voz,
De abraçar-te forte, deixando-te em pedaços
para depois voltar a construir-te.
Adivinho o brilho dos teus olhos, antes de olhares para mim,
Os meus sentidos são gulosos e sinto a tua meiguice
esfomeada nos gemidos sublimes.
Num momento de perfeita euforia ensinar-te-ei a rezar.
E, na cadência ritmada dos meus beijos,
a prece do êxtase sentirás.
Esta noite escolhi cuidar de ti, brincar com o amor
que nunca te ofereci.
E por fim vou deixar-te seduzir-me com as mesmas palavras:
- Meu anjo, eu gosto de ti.

EM - (E)TERNA SENSUALIDADE - NICOLETA PECELI - IN-FINITA

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

O Embalar - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD

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O embalar do corpo dela é como uma manhã quente de outono
Pé ante pé, dança ao ritmo do coração grande que tem
O embalar é tisnado de cores saturadas de amores perfumados
Pé ante pé, sente o calor do homem dela que se aproxima vindo de longe
O embalar agora tem olhares de ternura, sorrisos
e a expectativa de um beijo ardente
Pé ante pé finge que tudo está presente,
e que não passa de um sonho

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O cão zurra baixinho - CARLA SANTOS

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O cão zurra baixinho
O gato ladra para o ar
O burro mia devagarinho
A vaca mia sem parar...
Vai uma enorme confusão
Na quinta da tia Anica...
Será do zurrar do cão
Ou da falta de genica...
A galinha sabichona
É que não para de cacarejar
E a cabrita saltitona
Imita-a sempre a piar...
Que se pode então fazer
Nesta quinta toda trocada?
Ninguém encontra a solução
Que todos se possam entender...
Ladra o gato e zurra o cão
E por aqui o tradutor fica
Na quinta da tia Anica.

EM - TROLARÓ - CARLA SANTOS - IN-FINITA

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

A caminho do vazio - CELSO CORDEIRO

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Num misto de inocuidade e vazio,
pouco mais sou que um placebo
aguardando que mais um dia passe
e o fim-de-semana se acabe,
a caminho não sei bem de quê,
quiçá do vazio que se segue…

O tempo passa a dias arrastados
por entre os vazios da tua ausência
e os sinais da minha incoerência
na escolha entre opções de vida.

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Erva princesa com rosas - ISA PATRÍCIO

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Que riqueza existencial sem distinção,
Clara geração, força criadora nos exercícios milenares,
Correspondendo a um amadurecimento de revolução.
Que sentimentos consolidam nova matriz
Sem sobressaltos para consubstanciar prática aprendiz!
Um saber feito de experiências sentidas com evidente expressão.
Modelo hindu ao serviço da arte vera, ameno, terapêutico,
Chás naturais das escrituras sagradas com aroma fitoterapêutico.
Assim, dançais entre cinco estrelas uma valsa mandada
Aonde as flores vos beijam tal acatamento.
Graça doce, rebeldia como mestra e senhora
Costurais tecidos orgânicos, sedas doiradas… tão dedicada.
Desenhais figuras anatómicas perante expansivo reconhecimento.
Digo-vos que a tendência para a harmonização é a autonomia unificada,
Visão além das significações, ciência sincrónica de comunicação.
No campo consciencial exerceis flamas divinas, leve fulgor…
Quanta natureza tradicional num misto de irreverência,
Sabedes semear silêncios entre malmequeres no acto de decifrar,
Erva princesa com cheiros de rosa amor com um único toque maravilhar.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Uma palavra, uma flor - LUÍSA GALVÃO

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Hoje apanhei esta rosa.
É uma rosa encarnada
Pensei em cortar uma flor
Dá-la a quem não tem nada.
Embrulhei-a dei-lhe um beijo
Vou dá-la a quem estiver triste
Não suporto ver tristeza
Mas a tristeza existe
Vou passear a um jardim
Ver crianças a brincar
Velhinhos sentados sós
Não têm com quem falar.
Vou sentar-me junto a eles
Precisam de conversar
Dar-lhe a rosa que apanhei
Ver os seus olhos brilhar.
Ah que alegria que sinto
Fiz o que devia ter feito
Conversar um bocadinho
Pôr-lhe uma flor ao peito.

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Estio - CONCEIÇÃO FERREIRA

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Estamos no início do estio.
De forma veloz percorro os campos!
Meus olhos giram como pás de moinho
Olham em frente, para trás, ao lado, o céu,
Bordam na mente a imensidão da planície.

Tinjo os bordados com cores de alegria
O céu é azul, as flores amarelas, o trigo dourado,
Brancas as margaridas que ladeiam o caminho.
Nada no meu campo é taciturno ou sombrio
Impera a limpidez e um brilho arrebatado.

De forma simples o campo convive comigo
Ensina-me a bailar e a sorrir da sua magia.
À noite, quando deito a cabeça no solo,
Vem tranquilo afagar-me o corpo, a testa
E sussurrar-me histórias da minha infância.

EM - OLHAR A ESCRITA - CONCEIÇÃO FERREIRA - IN-FINITA