sábado, 7 de maio de 2022

Cicatriz - CRISTIANO CONSTANTINO

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como eram muitas
de formatos e tamanhos distintos
sem qualquer repulsa, toquei-as
e ao percorrer meia dúzia delas
pude sentir a dor da sobrevivência
que oscilava entre o romântico e o profano
numa espécie de caos contido
buscando na autodestruição algum sentido

EM - CAUSOS DE QUARENTENA (OR QUARANTINE POEMS) - CRISTIANO CONSTANTINO - IN-FINITA

O novo - LIÈGE DE MELO

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Hoje não é dia de choro, mesmo para acalmar dor.
A alegria propõe um acordo:
que tal conhecer um novo amor?

Ele pode estar por perto, tente apurar o olhar -
em um recanto da vida, espera você chegar.

Abandone a velha tristeza, ria dela, a deixe partir.
O fluxo que lhe rodeia está preso, quer emergir.

Siga firme, com leveza, deguste do mundo rara beleza.

O amor por certo, sem estardalhaço, cortará espinhos, abrirá espaço.
Buscará você, tocará você, tal sussurro de vento que não se pode conter.

Colará coração, limpará pensamentos,
com esperança, brio e encantamentos.

Mostrará que é possível ganhar flores e afagos diversos
Fazer parte do equilíbrio, que permeia o universo.

EM - INTUIÇÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

Lágrima Oculta - RAQUEL LOPES

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Conheço o som da fala
contudo não vejo

Ouço seus pensamentos
através do véu
prisão de tecido preto

Os olhos escondem-se
a textura do pano

Seus gestos sem planos
não contam o tempo

Encobrem-se por medo

Menina oculta
a lágrima permanece escura
cai no chão árido
seco
formando o desenho de uma semifusa.

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Para o teu amor (líquido) - LETÍCIA CORDEIRO

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Você sempre foi de construir rápido demais:
Paredes fracas, desequilíbrios, “eu te amo”
antes do “eu te gosto”.

Prefiro construir devagar:
Muros altos, te espio de vez em quando,
às vezes desço do salto.

Somos diferentes demais no jeito de amar:
Escrevo antes de desejar.

Por isso, não damos certo.

EM - INTUIÇÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

Vento no roçado - PETRUCIA CAMELO

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O vento quente sopra, junta, espalha
varrendo o terreiro coalhado de folhas mortas
que correm dispersas no ímpeto do vento forte
que cavalga como se cavalo fosse em disparada.
O trabalhador da roça chega do tratar da terra
suado, cansado, vindo lá das bandas do riachão
de onde vinga alvissareiro o verde das plantações.

O vento sopra sussurrando sobre as plantações,
como se estivesse a perguntar, quem vingará?
E os dias e as noites chuvosas abastecem os brotos
fortalecendo os caules, pra não morrerem de inanição.
E lá vem a colheita enchendo peneiras, sacos e caixotes
Frutos, legumes e leguminosas... caiem nas mãos,
e o homem da roça fica feliz, então, adeus precisão!

E o chapéu de palha, escuro de suor do trabalhador
é retirado e sacudido pelas mãos fortes calejadas
do homem plantando a terra, no meio da caboclada
e no fim da tarde fecha a porteira, encosta a enxada
senta no terreiro, acende o cigarro de fumo de corda
e nem ver a fumaça, pois os olhos caçam as feridas
acometidas nas topadas das pedras das estradas.

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

A mãe que pouco foi - ANA MENDES

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Puxa, empurra, estica o braço,
arranha, torce, bate inclemente,
Encolhe, esquiva, reflete, aceita e chora o laço
Sente na carne o que não entra na mente
e perdoa, esquece e em silêncio ama.
Perde o fôlego, engole a dor, respira e agradece,
por ainda entender esse injusto amor
Mas um dia o ar não entrou, a voz não saiu
naquele mundo sem prece o coração parou.
A entrega inocente e estranha
como o amor na cama
Fez esquecer que a vida precisa de um carinho
e um abraço, sussurros baixinho
Não de solidão, isolamento e pavor.
Ficaram bocas inocentes clamando
pela mãe que pouco foi, por tanta dor...

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Culpa - LENITA STARK

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A mulher nasceu culpada
À espera da liberdade
No trabalho sempre ocupada

Para construir sua história
Dentro de si mesma desbrava
Da ancestralidade à memória

Quer ser visível à sociedade
Suas fraquezas ninguém percebe
Esconde de todos sua fragilidade

Carrega consigo sopros de vida
Herança dos antepassados
Uma alma ferida

EM - INTUIÇÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

Céu limpo - PETRUCIA CAMELO

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Lá em cima, as nuvens branquinhas como algodão
se estendem longe espraiando-se, mostrando-se
como se fosse um lençol azul, pintado da cor do céu,
forrado sobre a cama, onde deito num fofo colchão.
Não, nem sinal de chuva, não, não vem não, não vem!
Nem para molhar os cabelos secos sob o pino do sol, 
somente o pano sobre a cabeça molha, mas é de suor.

Lá vão os gentios em fila indiana, sobre as cabeças a lata,
o pote, vão longe no açude buscar água da cor do lodo,
da lama, e a volta, então, descem encostas, sobem encostas
há de chegarem em casa, nem que seja com a metade da 
lata d’água na cabeça e botar pra ferver e fazer a refeição.
E o gado, o que dizer então, olhar as costelas sob o couro
e vê-lo enterrar as pontas no chão duro de barro e morrer.

Chega a noite o pão de milho sobre a mesa faz a refeição
quando tem bode comes, quando tem leite a nata molha.
E as histórias contadas sentados no oitão, em meio
a fumaça, do cachimbo, do cigarro, do fogo aceso no terreiro.
E na manhã seguinte o sol a pino, tudo recomeça, seco, 
verde, florido, se trabalhar e Deus ajudar, vive-se no torrão

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Numa vigília onírica - MARIA FRATERNA

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Por onde o horizonte toca o mar
E o mar se quer tocar
Numa vigília onírica
Onde os corvos são apóstolos
E escutam
As extravagantes searas
Que ondulam
E se refugiam no vislumbre etéreo
Dos campos
D’outros arquipélagos.

No seio das espigas colhidas
As severas despedidas do sol
Que de soslaio querem revelar
Outro arrepio no voo
Perdido numa monocromia inatingível
Caída bem perto do céu
Lugar que é cansaço e frio
Quase o último e por um fio
Numa ideia intensa de saudade
A vibrar horas e horas no tempo.
Numa vigília onírica

EM - DE DENTRO PARA FORA - MARIA FRATERNA - IN-FINITA

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Desaguar - JEANE TERTULIANO

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Quando falo, silêncios me invadem.
Nesses momentos lutuosos,
eu sinto o toque gélido do passado
percorrer penosamente a derme
que estremece, inalando o vão;
murmurando sons mudos,
reflexos doridos do não
ouvido incessantemente.
Os ecos pretéritos destoam o agora
fazendo-me exaurir sem demora
aquela querença esperançosa
de conjugar o verbo amar
de unir-me ao mar
de mim mesma
e desaguar
o ar.

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Ritual de fogueira doce - PAULA ÉRICA

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Minha poesia queima...

Entre tantas fogueiras,
trafego nos braços
das minhas bruxas mulheres
renasço, queimo, viro cinza,
amanheço ensolarada...

Quiseram-me pó, virei luz,
fagulha ardente, lampejo de noite.
Traduzo minha dor em cântico,
não caio à toa não.

Me rasga mortalho todo dia,
singro na beira de mar,
sangro meu orvalho pulsante
e faço da dor uma prece.

Quem insistirá em queimar o que é chama viva?

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 3 de maio de 2022

A Cortina de Anne Frank - JACKMICHEL

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Homenagem à Anne Frank, jovem judia vítima do nazismo,
que escreveu o famoso diário que levou seu nome

Vivendo escondida com a família,
Anne Frank, adolescente, se misturava à mobília...

Em cômodos com sentidos sentimentos,
Ela embarcava em silenciosos momentos...

Fingia abrir uma cortina para entrar luz e ar,
Talvez visse o azul do céu ou um rouxinol a cantar...

Pensava estar na perfumadíssima primavera,
Assim seria se brotassem jasmins naquela Era...

Imaginava uma praia com areia branquinha,
Onde foram quando ela era pequenininha...

Ideava enorme mesa com torta Sacher, até vinho,
Quem sabe tocassem música, e ela, vestisse linho...

Supunha ter amigos invisíveis todos alegres, felizes,
Que estavam ali ao seu lado feito mansos perdizes...

Cismava numa ventura perfeita, constante,
Havia eternidade naquele instante restante...

Um dia sua cortina fechou-se, porém...
Em Bergen-Belsen plantaram flores, mas quem?

EM - INTUIÇÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

Palco - PAULA ÉRICA

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Sonorizo!

Ultrapasso luzes,
reinvento vozes,
umedeço tessituras.

Sobrevivente avoadora,
habito cavernas pedregosas,
cascaviando fundo
meu subterrâneo.

Cordão umbilical
de terra sangrosa,
minha voz é pó
parindo
em verso e prosa.

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

A bicicleta - FERNANDO VASCONCELOS

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Bicicleta
Nesta bicicleta velhinha,
Hoje em dia enferrujada,
Por intempéries de tempo surgidas...
Existem porém, muitas histórias minhas,
Que ela por si, não pode contar!...
Foi nela que aprendi a pedalar...

Por essa estrada fora,
Outrora desenhada,
De inocência perdida,
Se falasse…
Muitas histórias, poderia ela divulgar!...
Custou somente vinte escudos,
Sem pneus corrente e câmaras de ar!

EM - A SEMENTE - FERNANDO VASCONCELOS - IN-FINITA

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Estações - ISABELLE PIRES

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Os rasgos das linhas
que tomam meus versos
são reversos doridos.
Avessas linhas
que segregam afluxos
como dias
sem cores,
Casas-ruínas,
Jardins sem flores,
tempo sem sorriso.

Recolher os cálices,
abrigar a jaez,
seguir no caminho
sabendo que a vida são estações.
Tudo é necessário à alma.
Amar nunca será reter,
mas doar.

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Oportunidade - PAULA ANIAS

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Vejo em teus cansados olhos o lamento triste
Do corpo pelejado da labuta da caatinga
Seca, mandacaru, tronco retorcido, rastro de pó na beira da estrada
Casa de adobe caiada para disfarçar rachaduras do tempo,
Na sua face se confundem com suas rugas
Água de açude para matar sede de moça bonita da cidade,
Que nem sabe o que é sofrer de dificuldade nessas terras sem fim
Suas calejadas mãos falam, marcas de trabalho de enxada de arar a terra
Que quase nada dar palma para o gado magro na beira
da estrada alimentar
Tua melanina traduz o sofrimento refletido no espelho
de velho moço
Que juventude perdeu destocando pasto, caçando, armando moco no mato para fome matar
Fazendo pega de gado, cenário de pobreza e falta
de fartura, vida dura
De quem nunca conheceu o significado da palavra oportunidade

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Vermelho cor de sangue - CRISTIANO CONSTANTINO

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na falta de lágrimas
deita suor pelos olhos
enquanto reflete no espelho
sua versão menos invejável

o vermelho das mãos
é o mesmo que percorre suas veias
e artérias e capilares:
vermelho cor de sangue

é difícil seguir em frente
quando o passado pesa o presente
na intensidade que só ele sente
e ninguém mais

em recusa ao sofrimento
de bom grado aceita a sina;
como ousara a solidão
ser sua pior e melhor amiga

EM - CAUSOS DE QUARENTENA (OR QUARANTINE POEMS) - CRISTIANO CONSTANTINO - IN-FINITA

domingo, 1 de maio de 2022

Falo-vos de mim… - ISABEL BASTOS NUNES

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Venho do outro lado
Daquele lado em que as coisas estranhas acontecem.

Venho saída das grutas de um mar severo
Onde fiquei anos adormecida.

Venho coberta com as algas de cor prateada
Aquecida pelas passagens luminosas do sol
Entre as grutas de águas azuis
Tendo apenas por companhia
As areias prateadas estendidas como lençol.

Falo-vos de mim
E trago-vos o cheiro da maresia.

O corpo molhado
E o olhar à procura de um farol
Que me possa guiar
Até ao melhor porto de abrigo
Onde eu me possa aportar.

À minha volta
Sempre tive o mar vitorioso
Vagas mansas que me adormeciam
Estrelas-do-mar que me acariciavam
Acabei por não querer mais nada
Tal era a serenidade em que me envolviam.

Um dia falei-lhes de ti
Contos amargos
Alegrias breves

Dores e abraços
Sonhos perdidos
Mágoas…

As águas estremeceram
Taparam-me e defenderam-me dessas lembranças

Vestiram-me de rendas amarelas de espuma
Decoraram-me com conchas madrepérola
E fizeram um festim só para mim.

Não me deixaram partir
Quiseram que eu enterrasse o passado
No lugar mais fundo do mar…

Não consegui.

Um dia
A maré subiu rápida
O mar encapelou pelos ventos frios da maré
E tornou-se em grandes vagas desesperado.

Tudo aconteceu depressa
O mundo redondo deu a volta.

Perdi-me do meu refúgio consagrado
E sem saber
Vim aportar onde os rios se cruzam
Quando correm em direcção ao mar…

Uma luz rasgava o céu
O vento acalmava o mar
O ar gritava ao sol
E o silêncio pesou
Parecendo embalar todas as dores do mundo.

Nessa altura…
Eu própria soube
Que nunca mais ia voltar.

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Natureza animal - PAULA ANIAS

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Poética fauna sertaneja, exuberância da natureza
Sua diversidade me encanta, inspiração social, popular
e cultural
No meu sertão de tudo há
Exótico camaleão, entrelaça-se com a cascavel,
dentre todas as serpentes, majestade
Cactos, espinhos, flor de mandacaru na primavera
da Gavião ave de rapina, carcara, no céu voam imponentes em busca das suas presas
A águia esplendorosa, dentre as aves, a rainha
Cabras, bodes e seus filhotes, admiráveis animais,
Corujas, lagartos, doceis e cheios de encanto
Tatu, ararinha, asa-branca, bonitos e cheios de graça
Onça-pintada, jaguatirica, tamanduás, temidos são
Todos sob ameaça e perigos do homem e das queimadas
A natureza é assim, imutável, selvagem, exuberante e bela,
Equação imperfeita, a fauna sertaneja inocente criança
e o homem tentando dominá-la.

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Da dor à alegria - ANA MENDES

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Levantei o olhar ao céu
Suspirei pela dor minha que reclamava
Enxuguei o rosto ao véu
Que do vento me abrigava.
Nuvens cinza piscaram-me um olho
Em desafio às minhas preces
Ele vire-voltava da saia o folho
Ela molhando-me as vestes.
Refrescou-me por inteiro
lavou-me as mágoas da vida
Embalando no coração companheiro
A voz e a alma com alegria.

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA