quarta-feira, 20 de julho de 2016

Sombras - ANA MATIAS

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Sombras que escondem no rio
Correntes adormecidas,
Ora revoltas...

Vagens que se quedam
De vidas...

Cinzas de permeio
Como se o leito cheio
Adivinhasse premente

O rasgar de caminhos
Na pedra batida,
Moldasse os destinos,
Traçasse sentidos.

Vimes debruçados
Ventos enfurecidos
Sonetos cantados
Em sons perdidos.

Sombras...

EM - ECOS DE APOLO - ANTOLOGIA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

terça-feira, 19 de julho de 2016

Miragens - PINHO NENO

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Luta à mentira... Guerra à tirania...
Há neve escura no sopé da serra...
Abaixo a injustiça, abaixo a guerra...
De ódio que mata nasce amor que cria...

Paz! Liberdade! Amor! Democracia!
O céu troveja... O Sol encharca a Terra...
Paira na luz escuridão que cerra,
Na luz da noite que pariu o dia!

Sonho esfumado é sonho de Verdade:
Passa depressa, fica a realidade...
Sucumbe o sonho assim, sucumbe inquieto!

Cravo vermelho cheira a liberdade...
Corpo que fede a podridão invade...
Sabor estranho: o luto cheira a preto!

EM - CHÃO PORTUGUÊS - PINHO NENO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Entre tempos - A. M. GUERREIRO

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Espero uma reunião na sala principal,
Respiro lentamente, mas falta-me luz e ar.
Lá fora o sol ilumina quem o quer ver,
Mas cá dentro a eterna noite teima em permanecer...

Dias cinzentos ou negros, conforme as combinações
Da secretária, dos papéis, do ar condicionado
E claro, das reuniões.
Como um filme desde há muito ultrapassado.

Luz de mim, tédio infinito,
Já fui tudo o que foi dito
Pelas gerações deste cais...
Dai-me agora paz - nada mais.

EM - PAS(S/T)AGENS - A. M. GUERREIRO - CHIADO EDITORA

domingo, 17 de julho de 2016

Choves - JOSÉ ILÍDIO TORRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

finalmente choves

sem dó nem piedade
entranhas-me na pele
choves-me de verdade
sou apenas feito de papel

finalmente choves

não há para onde fugir
um verbo para me abrigar
choves-me no que há-de vir
não tenho mãos para me tapar

finalmente choves

alegra-me e mata-me isso
desconhecido amante ou ópio
uma espécie de amor ou viço
coração visto ao estetoscópio

finalmente choves

e eu quase não dei por ela
mulher maior que a chuva
estreito sentir de uma viela
num calor frenético de vulva

finalmente choves
e eu choro

EM - DISSERTAÇÃO ESCUSADA SOBRE A SOLIDÃO DAS ÁRVORES - JOSÉ ILÍDIO TORRES - LUA DE MARFIM

sábado, 16 de julho de 2016

Quando... - RODRIGO PEDRO

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Quando o céu falava
A flor nascia na liberdade,
A fria neve ainda gelava
E a caridade essa era bondade.

Existia terra, existia sonho
As ondas engoliam o areal,
De tão forte era medonho
Tudo, tudo era real.

Falava o céu, falava o mundo,
Num angustiado oceano profundo
Do desespero para chegar.

Tudo real, tudo são histórias
De tantas outras memórias
De quando havia luar.

EM - ECOS DE APOLO - ANTOLOGIA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Ao Deus Rá - DANIEL CRISTAL

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Ao deus Rá me submeto ante o Sol
impregnado de Nix a deusa grega
para tornar-me bronze na entrega
ou para ser metal em sol bemol

Afastai a história falsa, até fingida
que nos confunde o juízo na estesia
mas saúdo o teu poder na Poesia
que faz da sua pube fonte e vida

Saciai-me deus Sol, até ser Pã
com o seu órgão pleno desse bronze
que muda o rijo pêlo em pura lã

Abri corolas curvas nesse afã
tornando-as luxuosas na entrega
e o egípcio seja a grega na trasfega.

EM - SONETOS HODIERNOS - DANIEL CRISTAL - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Anestesia - PINHO NENO

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Anestésico, o euro, sub-reptício,
Agindo com notável persistência,
Vem toldando do Povo a consciência,
Mui bem desempenhando o seu ofício...

Na verdade, ele existe forte indício
De estar fragilizada a resistência
Do Povo, que com grande imprevidência
Se deixa aproximar do precipício...

Meu Povo adormecido, vá, desperta...
É preciso acordar, estar alerta,
Muito atento e tomar uma atitude...

O Povo não responde, acomodado...
Contudo, eu acredito, inconformado,
Na firme reacção da Juventude.

EM - CHÃO PORTUGUÊS - PINHO NENO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Mãe - DUARTE MORENO

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Um céu azul,
amplo,
como um regaço
e as minhas mãos
com que planto
no espaço
um desenho aromático;

A flor
do afecto
em cor de amar,
pendurada
no céu azul,
amplo,
a lua clara
e diurna,
no canto
do teu olhar!

EM - O PÁSSARO NO TRAÇO EM TRONCO NU - DUARTE MORENO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

terça-feira, 12 de julho de 2016

Casa - A. M. GUERREIRO

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A minha casa é onde está o mar
Lá longe, bem longe, lá fundo...
Imenso azul-marinho a refratar
A luz do azul-celeste mais profundo.

A minha casa é onde brinca a calma
Despida de correntes e ambições,
Coabitando com o amor e minha alma
Preenchida de espanto e emoções.

A minha casa é lá no fim dos mundos
Onde as palavras não chegam a tocar,
Onde os gritos e jogos infecundos
Nem memórias ousam ofuscar.

Lá nesse lugar, em minha casa,
Tão tua também, triste sonhador,
Construo as ilusões do meu sorriso.
Sorrio das ilusões de todo o amor.

EM - PAS(S/T)AGENS - A. M. GUERREIRO - CHIADO EDITORA

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sei, de Abril... - ISABEL BRANCO

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Sei, de Abril,
um cravo senil...

Sei, de Abril,
um disco de vinil...

Sei, de Abril,
um belo céu anil...

Sei, de Abril,
um sonho infantil...

Sei, de Abril,
um renascer febril...

Sei, de Abril,
uma asa primaveril...

Sei, de Abril,
uma ilha gentil...

Sei, de Abril,
um amante ardil...

Sei, de Abril,
saudades mil!...

EM - PÁSSAROS SEM NINHO - ISABEL BRANCO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

domingo, 10 de julho de 2016

Coração amarelo - INÁCIO SEMEDO

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De papel, é certo, mas foi-me dado
Foi-me dado um coração...
Amarelo era a sua cor.
Com que propósito me foi dado
O seu olhar não denunciava
Dizem que cada cor tem um significado:
O amarelo,
Juro que não sei o que significa;
O verde, 
Eu prefiro o verde...
Antes fosse um coração incolor
Mas que fosse de verdade!

EM - SEM POEMAS - INÁCIO SEMEDO - CHIADO EDITORA

sábado, 9 de julho de 2016

Quem te avisa! - PINHO NENO

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Estão aí de novo as eleições...
Autárquicas, agora. Os candidatos,
- Nomes sonantes, cidadãos pacatos
Ou arrivistas - tornam posições:

Proclamam objectivos e razões;
Planificam visitas e contactos;
Seduzem brancos, pretos e mulatos,
Receptivos às próprias sugestões...

Um ou outro, avisado, prevenido
E sem pruridos, muda de partido
No jeito de quem muda de camisa...

Meu povo, tem cautela, sê prudente.
Reflecte, pensa, escuta e tem presente
Que é mesmo teu amigo quem te avisa.

EM - CHÃO PORTUGUÊS - PINHO NENO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Palavra vagabunda...* - MARIETE LISBOA GUERRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Palavra vagabunda apregoada
num mundo de transeuntes alheios, serás guia
Palavra mímica de olhos fechados e de ninguéns
de segredos perdidos em feixes de lembranças
Palavra adormecida na metáfora de cometa
na água sonora que borbulha
fervendo amores e emoções
Palavras lançadas sem rasura por ler,
soltas pelas bocas de poetas
numa natureza fria e seca de lua
noite em que te vi pela última vez.

EM - UM DIA HOUVE POESIA - MARIETE LISBOA GUERRA - EDITORIAL MINERVA

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Não há amor - DANIEL CRISTAL

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E vós dizeis: viver é um acaso,
É um salve-se quem puder,
Dente por dente, dê por onde der,
A guerra traz a Paz, a dado prazo!

Nascer, viver, morrer a curto prazo,
Prazo que o deus da guerra determina
- Sinto a agonia dos mortos com má sina,
Um choro de inocentes neste caso...

E não enxergo o fim para a desgraça,
Valas comuns de mortos nossos mártires
Que amanhã são vingados pela raça.

E no amanhã sucede tudo igual:
De vingança em vingança se constrói
Um mundo sem Amor, que nos destrói.

EM - SONETOS HODIERNOS - DANIEL CRISTAL - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

quarta-feira, 6 de julho de 2016

3 quadras - PINHO NENO

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II
25
Poderei, como exemplo, recordar
As guerras sem cartel que Dom Dinis
Teve contra-vontade de travar
Por razões tão mesquinhas quanto vis.

26
Primeiro foi Afonso, seu irmão,
A reclamar que lhe era preferido
Por motivo da não validação
Do noivado dos pais, quando nascido,

27
Após o que, doloso, a sangue frio,
Passou a fomentar rebeliões
Nas vilas de seu próprio senhorio
Por força de insanáveis frustrações.

EM - ACORDA, PORTUGAL - PINHO NENO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

terça-feira, 5 de julho de 2016

Carnaval - DUARTE MORENO

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Finge ser tudo;
Aquele que chora e aquele que ri.

Aquele que grita
o grito mudo.

Finge
com esse teu corpo vestido
nu.

Vá,
finge,
anda lá;

É o entrudo!

Agora,
tu és tudo em ti.

Tu.

EM - O PÁSSARO NO TRAÇO EM TRONCO NU - DUARTE MORENO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Viagens - A. M. GUERREIRO

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Apaguem as luzes. Destruam o mundo.
Não ousem vivê-lo nem mais um segundo.
Vistam-se de luto... e juntem-se a nós.
Morreu a nossa Guia. Ficámos tão sós...

Acendamos velas à volta do mundo.
Não vamos parar nem por um segundo
Tornando-o humilde - essência de nós...
Nasceu novo anjo. Não estamos mais sós!

EM - PAS(S/T)AGENS - A. M. GUERREIRO - CHIADO EDITORA

domingo, 3 de julho de 2016

A lágrima - FERNANDO JORGE BENEVIDES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELAS EDIÇÕES OZ

Hoje o dia acordou sem madrugada
o sol ocultou-se enfadonho
sem brilho sem encanto

Será saudade?

Ou apenas sente o silêncio
na tristeza do trilho amarrotado
Pela Lua que caiu
e se esvaiu...
no pranto da lágrima derramada

EM - PENAS SOLTAS - FERNANDO JORGE BENEVIDES - EDIÇÕES OZ

sábado, 2 de julho de 2016

Cansaço - ISABEL BRANCO

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Há lá dor maior que o real...
Há lá cansaço maior que o havido...
Não fora o poeta e todo o cansaço
seria intolerável.
Incomensurável...
A agitação, o estardalhaço
o pecado cometido...
Tudo tão mero e banal...

EM - PÁSSAROS SEM NINHO - ISABEL BRANCO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Passado doloroso - INÁCIO SEMEDO

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Acertar contas a troco do resgate,
Sequestro angustiado não pago em moedas;
No pé assado por uma mente descontente,
Mágoa servida no trilho do aprendiz,
Sabor a dor, preço a trauma
Pagamento injusto àquele em disputa...
Por cada enterro, uma vida nova,
Passo em frente e foco no dia.
O calor das pazes às tristezas derrete
E as cinzas de memórias, por muito que se espalhem pelo caminho,
Não devem ofuscar, no querer,
A conquista da felicidade no amanhã.

EM - SEM POEMAS - INÁCIO SEMEDO - CHIADO EDITORA