A ausência medida neste rosto humano,
a boca desampara o segredo de um desejo,
que o olhar nega; noites rasuradas,
aflitas e sem partilha, no pendor torpe
que as coisas desejaram, por fora do lugar
comporem outra ordem, que tememos.
EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM
sábado, 30 de maio de 2015
sexta-feira, 29 de maio de 2015
Bola de sabão - ALEXANDRE CARVALHO
LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR
Sentimento é paixão
um sabor a batom
apaixonado é sentir o bem
é o calor da conexão
estado de espírito bom
que pensamentos não proíbem.
Viver o que ele nos oferece
pensar em ti com paixão
faz com que tudo recomece.
Sinto ver bolinha de sabão
fragilidade imprevisível
multicolor, impenetrável
não tem filamento de fusível
o desejo não é interminável
como o reflexo duma paixão.
EM - AGUARELA DE POESIA - ALEXANDRE CARVALHO - CHIADO EDITORA
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Lição - NOÉMIA DE SOUSA
Ensinaram-lhe na missão,
quando era pequenino:
"Somos todos filhos de Deus; cada Homem
é irmão doutro Homem!"
Disseram-lhe isto na missão,
quando era pequenino.
Naturalmente,
ele não ficou sempre menino:
cresceu, aprendeu a contar e a ler
e começou a conhecer
melhor essa mulher vendida
- que é a vida
de todos os desgraçados.
E então, uma vez, inocentemente,
olhou para um Homem e disse "Irmão..."
Mas o Homem pálido fulminou-o duramente
com seus olhos cheios de ódio
e respondeu-lhe: "Negro".
EM - SANGUE NEGRO - NOÉMIA DE SOUSA - MARIMBIQUE
quando era pequenino:
"Somos todos filhos de Deus; cada Homem
é irmão doutro Homem!"
Disseram-lhe isto na missão,
quando era pequenino.
Naturalmente,
ele não ficou sempre menino:
cresceu, aprendeu a contar e a ler
e começou a conhecer
melhor essa mulher vendida
- que é a vida
de todos os desgraçados.
E então, uma vez, inocentemente,
olhou para um Homem e disse "Irmão..."
Mas o Homem pálido fulminou-o duramente
com seus olhos cheios de ódio
e respondeu-lhe: "Negro".
EM - SANGUE NEGRO - NOÉMIA DE SOUSA - MARIMBIQUE
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Teu beijo é um poema - AMÉRICA ROLDÃO
LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA
Pensava que era tudo igual
até te provar...
não... tu és sublime
tua boca é poderosa
teus lábios macios e húmidos
transportam-me para outro mundo
num tocar tão profundo
a tua língua... ah essa língua!
penetra em mim voraz e eu... incapaz
de lutar entrego-me... sem forças
o teu beijo tão... especial
como especial é tudo em ti...
EM - AMANTES DA POESIA - ANTOLOGIA - UNIVERSUS
terça-feira, 26 de maio de 2015
Lembrando: Cesário Verde - VÍTOR CINTRA
Se a voz do sentimento não se mede
Na rima do poema, que se escreve,
Jamais poderá ter significado
Fazer da poesia enorme brado.
Mas ver e perceber a realidade,
Permite à poesia que a verdade
Transforme cada verso em mais-valia,
Capaz de dar sentido ao dia a dia.
Em versos de sabor alexandrino
Soubeste pôr rigor no realismo,
Deixando transbordar o romantismo.
E só o fim precoce, por destino,
Que cedo nos calou o teu talento
Tornou cada poema num lamento.
EM - NAS MARGENS DO ESQUECIMENTO - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM
Na rima do poema, que se escreve,
Jamais poderá ter significado
Fazer da poesia enorme brado.
Mas ver e perceber a realidade,
Permite à poesia que a verdade
Transforme cada verso em mais-valia,
Capaz de dar sentido ao dia a dia.
Em versos de sabor alexandrino
Soubeste pôr rigor no realismo,
Deixando transbordar o romantismo.
E só o fim precoce, por destino,
Que cedo nos calou o teu talento
Tornou cada poema num lamento.
EM - NAS MARGENS DO ESQUECIMENTO - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Navio naufragado - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Vinha dum mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.
É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez veias
E uma medusa em vez de coração.
EM seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.
E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves de cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos dos videntes.
EM - ANTOLOGIA MAR - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - CAMINHO
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.
É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez veias
E uma medusa em vez de coração.
EM seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.
E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves de cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos dos videntes.
EM - ANTOLOGIA MAR - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - CAMINHO
domingo, 24 de maio de 2015
Soneto da rosa - VINICIUS DE MORAES
Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.
E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, agora.
Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude
Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.
E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, agora.
Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude
Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE
sábado, 23 de maio de 2015
O revólver - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS
Quando nos disparamos do que somos
quando nos encantamos e seguimos
o contido estampido do silêncio
que nos rebenta dentro dos ouvidos
a corola pistola o suspiro do tiro
já não nos basta a bala da palavra
o gatilho dos dedos
o alvo do sentido.
Trincamos uma pétala de cor
e matamos no cheiro duma flor
cinco sentidos unidos.
EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE
quando nos encantamos e seguimos
o contido estampido do silêncio
que nos rebenta dentro dos ouvidos
a corola pistola o suspiro do tiro
já não nos basta a bala da palavra
o gatilho dos dedos
o alvo do sentido.
Trincamos uma pétala de cor
e matamos no cheiro duma flor
cinco sentidos unidos.
EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Voz que se cala - FLORBELA ESPANCA
Amo as palavras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.
Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.
Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!
Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...
EM - FLORBELA ESPANCA - SONETOS - BERTRAND
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.
Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.
Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!
Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...
EM - FLORBELA ESPANCA - SONETOS - BERTRAND
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Conto II - CORSINO FORTES
A minha mãe vendia pão ao luar
E mel às crianças da beira-mar
Pagavam moeda
Moeda de carvão
E marulho da moeda
no mergulho do mar alto
E por vezes
A fidúcia do rosto
sem timbre de selo branco
EM - A CABEÇA CALVA DE DEUS... - CORSINO FORTES - DOM QUIXOTE
E mel às crianças da beira-mar
Pagavam moeda
Moeda de carvão
E marulho da moeda
no mergulho do mar alto
E por vezes
A fidúcia do rosto
sem timbre de selo branco
EM - A CABEÇA CALVA DE DEUS... - CORSINO FORTES - DOM QUIXOTE
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Escrita literária - ANTÓNIO MR MARTINS
na prateleira as lombadas
entre os livros empilhados,
pelas folhas encadernadas
de conteúdos misturados.
Vendo as fotos dos autores
tanta diferença além sexo,
leitura de muitos sabores
tendo seus textos em anexo.
Tanto se escreve da morte
da palavra que não se cala
na esperança que é sorte.
O romance que não abala
e no verso perde seu norte,
pela literatura embala.
EM - MARGEM DO SER - ANTÓNIO MR MARTINS - TEMAS ORIGINAIS
entre os livros empilhados,
pelas folhas encadernadas
de conteúdos misturados.
Vendo as fotos dos autores
tanta diferença além sexo,
leitura de muitos sabores
tendo seus textos em anexo.
Tanto se escreve da morte
da palavra que não se cala
na esperança que é sorte.
O romance que não abala
e no verso perde seu norte,
pela literatura embala.
EM - MARGEM DO SER - ANTÓNIO MR MARTINS - TEMAS ORIGINAIS
terça-feira, 19 de maio de 2015
Nocturno - NATÁLIA CORREIA
Ó noite! Mãe dos lírios e das feras
Tu que deleites e delírios geras
E as almas soltas do carnal degredo,
Dá a beber no último cansaço
De seu rosto perdido no meu berço
À sede do que sou, o teu segredo.
EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE
Tu que deleites e delírios geras
E as almas soltas do carnal degredo,
Dá a beber no último cansaço
De seu rosto perdido no meu berço
À sede do que sou, o teu segredo.
EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Esperança - RUI CORREIA
No ar sente-se a tristeza
originada pela incerteza.
Já nada é certo
tudo é errado
mas haverá sempre esperança
enquanto no rosto de uma criança
existir um sorriso
inocente e bondoso.
EM - POETAS DA LUA - ANTOLOGIA - LUA DE MARFIM
originada pela incerteza.
Já nada é certo
tudo é errado
mas haverá sempre esperança
enquanto no rosto de uma criança
existir um sorriso
inocente e bondoso.
EM - POETAS DA LUA - ANTOLOGIA - LUA DE MARFIM
domingo, 17 de maio de 2015
Infinito amor - ANA COELHO
LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
Desliza a madrugada
embalada na doce canção
das tuas palavras...
O meu peito suspira
soluços embriagados
no infinito amor
da primavera dos teus lábios,
o verão que trazes nas mãos
os meus cabelos de luz
alvorada de emoções...
Teus olhos negros espelham paixão
o sonho em que te encontrei
quando o teu olhar me procurava.
A minha alma estremece
na imensidão do amor
que escorre em seiva suave,
de quem ama e é amado...
EM - NUANCES DE UM SILÊNCIO A DOIS - ANA COELHO/ JOSÉ ANTUNES - EDIÇÃO DE AUTOR
sábado, 16 de maio de 2015
No verão... - GRAÇA PIRES
LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
No verão, as mulheres caiam as casas e as memórias.
De branco: como as estevas e a lua cheia.
Os seus anseios se espalham, com a brisa,
na quentura das noites.
Por isso, conservam no olhar uma inesperada tristeza.
EM - POEMAS ESCOLHIDOS - GRAÇA PIRES - EDIÇÃO DE AUTOR
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Vácuo - VERA SOUSA SILVA
Ficou tudo lá atrás
arrumado num cofre sem chave
e num lugar recôndito
sem luz. As traças
já comeram o conteúdo
derrotadas pela natureza
que as persegue, sofrida.
Lá atrás havia um cofre
sem chave. Havia uma caixa
sem luz.
Vazia.
EM - ATÉ AMANHÃ - VERA SOUSA SILVA - LUA DE MARFIM
arrumado num cofre sem chave
e num lugar recôndito
sem luz. As traças
já comeram o conteúdo
derrotadas pela natureza
que as persegue, sofrida.
Lá atrás havia um cofre
sem chave. Havia uma caixa
sem luz.
Vazia.
EM - ATÉ AMANHÃ - VERA SOUSA SILVA - LUA DE MARFIM
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Insano - ÂNGEL MAGALHÃES
LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA
Quero escutar os teus gemidos
quero-os gritos de prazer insano
quero-os com cheiro a amor profano
onde provo do teu orgasmo escaldante,
teu cheiro intenso de amor assassino da saudade imensa
fazes-me febril e a minha mente já não pensa
deixa-me arder por completo com a tua chama
deixa-me sentir o teu amor que em mim entranha
vem, minha louca sensação
entra devagarinho e desperta-me em minha cama
meu antro de perdição.
EM - PECADOS - NAS ASAS DO DESEJO - ÂNGEL MAGALHÃES - EDIÇÕES OZ
quarta-feira, 13 de maio de 2015
Frente a frente - EUGÉNIO DE ANDRADE
Nada poderia contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma
contra a luz, nada podeis.
podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.
EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma
contra a luz, nada podeis.
podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.
EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 12 de maio de 2015
4 haicu - CASIMIRO DE BRITO
10
Amo-te mas não digas
a ninguém: o mar sabe
as estrelas também
70
Se nos fascinamos
e tanto nos desejamos
qual de nós é quem?
97
A luz débil da lua.
Até pensámos que tínhamos
luz própria
290
Na barca do sono
me deito. Tu, a meu lado...
O amor é perfeito
EM - EROS MÍNIMO - CASIMIRO DE BRITO - LUA DE MARFIM
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Quando, ao cair da noite... - PEDRO TAMEN
Quando, ao cair da noite,
zumbe lá fora algo que não conheço,
será talvez o roçagar das nuvens
ou o ar agitado por um aceno
que me chama para longe deste banco.
E de repente choro
tentando não molhar a paz evanescente
que as minhas mãos seguram incompleta
e que um dia, perfeita, falará
ela própria comigo, meu destino.
EM - O LIVRO DO SAPATEIRO - PEDRO TAMEN - DOM QUIXOTE
zumbe lá fora algo que não conheço,
será talvez o roçagar das nuvens
ou o ar agitado por um aceno
que me chama para longe deste banco.
E de repente choro
tentando não molhar a paz evanescente
que as minhas mãos seguram incompleta
e que um dia, perfeita, falará
ela própria comigo, meu destino.
EM - O LIVRO DO SAPATEIRO - PEDRO TAMEN - DOM QUIXOTE
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