O pássaro esvoaça depois num
redemoinho silencioso vindo de uma
zona intercalar e seca. Quer tomar o vértice
da cidade. Mas enlouquece dentro do fogo,
atravessado por uma última miragem.
O homem foge tiranizado por um pensamento
redondo. procura por fim encontrar uma rua
estreita, um degrau, mas o seu andar transforma-se
num utensílio de cristal.
EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
domingo, 18 de setembro de 2011
Às vezes... - GASTÃO CRUZ
Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste
Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida
É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto
Com os dedos no crânio despedimo-nos
EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste
Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida
É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto
Com os dedos no crânio despedimo-nos
EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM
Pois a cidade... - GASTÃO CRUZ
Pois a cidade já nos desconhece
à luz de cinzas a que vê
o meu corpo e tu morreste
a essa luz de fogo morto
não pode à luz do fogo nenhum corpo
ver a cinza da luz dum corpo morto
EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM
à luz de cinzas a que vê
o meu corpo e tu morreste
a essa luz de fogo morto
não pode à luz do fogo nenhum corpo
ver a cinza da luz dum corpo morto
EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM
sábado, 17 de setembro de 2011
Esplanadas - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde:
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo
por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria
EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde:
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo
por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria
EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
V. S. - ALBERTO DE LACERDA
Maga
Adivinhavas
Nas cidades
O centro
Maga
Comunicavas
Decifravas
O labirinto
EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM
Adivinhavas
Nas cidades
O centro
Maga
Comunicavas
Decifravas
O labirinto
EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Homenagem a Cesário Verde - MÁRIO CESARINY
Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas
Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!
EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas
Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!
EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Se falo - MANUEL ANTÓNIO PINA
Se falo falta-me um
silêncio rápido no papel: entre as pernas.
Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso
do corpo, aqui é a cama, o congresso.
Venais movimentos do corpo na cama; o peso.
Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.
Breve morte que sobre o coração
páras tua mortal perversão, tua morte,
falta-me subitamente com a tua
mão e que eu morra como um corpo
dentro do coração da luz do silêncio
que me cale que não viva nem esteja morto.
EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM
silêncio rápido no papel: entre as pernas.
Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso
do corpo, aqui é a cama, o congresso.
Venais movimentos do corpo na cama; o peso.
Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.
Breve morte que sobre o coração
páras tua mortal perversão, tua morte,
falta-me subitamente com a tua
mão e que eu morra como um corpo
dentro do coração da luz do silêncio
que me cale que não viva nem esteja morto.
EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 13 de setembro de 2011
4 - ARMANDO SILVA CARVALHO
Parece mais solene e menos verdadeiro
aos que nunca o viveram
o frémito das veias
com o estranho estrondo desse aparelho
a refulgir em sangue.
E o corpo nele erguendo-se depois no mais negro
silêncio, tenso animal dorido,
aceso em vela.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
aos que nunca o viveram
o frémito das veias
com o estranho estrondo desse aparelho
a refulgir em sangue.
E o corpo nele erguendo-se depois no mais negro
silêncio, tenso animal dorido,
aceso em vela.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
As lágrimas do poeta - ANA HATHERLY
Um poeta barroco disse:
as palavras são
as línguas dos olhos
Mas o que é um poema
senão
um telescópio do desejo
fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
as altas onda do mar
a calmaria do vento:
Tudo
tudo cabe dentro das palavras
e o poeta que vê
chora lágrimas de tinta.
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
as palavras são
as línguas dos olhos
Mas o que é um poema
senão
um telescópio do desejo
fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
as altas onda do mar
a calmaria do vento:
Tudo
tudo cabe dentro das palavras
e o poeta que vê
chora lágrimas de tinta.
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
domingo, 11 de setembro de 2011
Um dia...* - LUÍS FALCÃO
Um dia hei-de pensar no teu rosto
Com um dedo que feche pálpebras
E direi
Extinguiu-se a minha adoração
E nunca mais procurarei
Os vestígios dos teus passos no mundo.
EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM
Com um dedo que feche pálpebras
E direi
Extinguiu-se a minha adoração
E nunca mais procurarei
Os vestígios dos teus passos no mundo.
EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM
sábado, 10 de setembro de 2011
Via láctea - JORGE SOUSA BRAGA
Segundo dados da organização Mundial
De Saúde praticam-se diariamente
Cem milhões de cópulas em todo
O mundo das quais resultam
Mais ou menos trezentos mil
Litros de esperma isto sem
Contar com a produto das actividades
solitárias e das poluções nocturnas
EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM
De Saúde praticam-se diariamente
Cem milhões de cópulas em todo
O mundo das quais resultam
Mais ou menos trezentos mil
Litros de esperma isto sem
Contar com a produto das actividades
solitárias e das poluções nocturnas
EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
4 - JAIME ROCHA
Existir nesse pássaro, nesse espelho
que reflecte os rios, deixar que os seus
crimes se instalem como um risco
cruzado numa folha de papel. E suportar
o choro gravado junto a uma janela, tremer,
sabendo que não é possível voar sem ter
conhecido a água que corre dentro da alma.
EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
que reflecte os rios, deixar que os seus
crimes se instalem como um risco
cruzado numa folha de papel. E suportar
o choro gravado junto a uma janela, tremer,
sabendo que não é possível voar sem ter
conhecido a água que corre dentro da alma.
EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Poderosa luz morta... - GASTÃO CRUZ
Poderosa luz morta te despedes
da poderosa luz tu me despeço
da poderosa luz morta te peço
recomeço da morte o que me pedes
Corpo da morte certo não pertence
este consumo te da morte e esse
da morte poderoso fogo imenso
desoladora boca mas pertence-te
esta separação corpo deserto
EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM
da poderosa luz tu me despeço
da poderosa luz morta te peço
recomeço da morte o que me pedes
Corpo da morte certo não pertence
este consumo te da morte e esse
da morte poderoso fogo imenso
desoladora boca mas pertence-te
esta separação corpo deserto
EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Fogueiras e gelos - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Contra o coração
abraçava ramos de flores magras e azuis
sentimentos muito triviais
e por vezes a maior escuridão
perseguis sem cessar certos gestos
que na paz
seriam seus
EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM
abraçava ramos de flores magras e azuis
sentimentos muito triviais
e por vezes a maior escuridão
perseguis sem cessar certos gestos
que na paz
seriam seus
EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 6 de setembro de 2011
O refúgio... - ALBERTO DE LACERDA
O refúgio
o claustro
Invisível
Onde a alma
Refulge
O segredo
Que não sabe sequer
Que é segredo
Certos portais
Escrupulosamente
Cerrados
EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM
o claustro
Invisível
Onde a alma
Refulge
O segredo
Que não sabe sequer
Que é segredo
Certos portais
Escrupulosamente
Cerrados
EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
A viagem - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA
Quando se alcança
o ponto em que não há regresso,
o que se avizinha
é tão insondável
como o que se deixou
- um túnel
no coração da máquina,
um segredo que se descobre
banal, ou não se descobre,
entre a resignação e o remorso.
EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM
o ponto em que não há regresso,
o que se avizinha
é tão insondável
como o que se deixou
- um túnel
no coração da máquina,
um segredo que se descobre
banal, ou não se descobre,
entre a resignação e o remorso.
EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM
domingo, 4 de setembro de 2011
Límpidas palavras - JOÃO RUI DE SOUSA
Eram límpidas palavras:
eram insectos perfeitos
que não passavam por larvas;
eram águas em corrente
fruídas logo à nascença
no entremeio das fragas;
eram jovens diligentes
que sabiam como os lábios
ardiam antes da fala.
EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE
eram insectos perfeitos
que não passavam por larvas;
eram águas em corrente
fruídas logo à nascença
no entremeio das fragas;
eram jovens diligentes
que sabiam como os lábios
ardiam antes da fala.
EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE
sábado, 3 de setembro de 2011
A noite - DOMINGOS DA MOTA
Perpassa, rasga a noite siderante
um ar de desvario cego, vário,
em busca do acaso incendiário,
no dorso da loucura delirante,
em busca do vazio, o chão errante
à beira do abismo solidário,
em busca, eu sei lá, do santuário
aceso do pecado inebriante,
em busca do queimor, dessa fogueira
que sobe, sobe a prumo, nos abeira
da febre galopante da paixão:
perpassa, morde a pele: e até a lua,
fremente como o sol, se perde e estua
nos braços alongados do verão
EM - BOLSA DE VALORES E OUTROS POEMAS - DOMINGOS DA MOTA - TEMAS ORIGINAIS
um ar de desvario cego, vário,
em busca do acaso incendiário,
no dorso da loucura delirante,
em busca do vazio, o chão errante
à beira do abismo solidário,
em busca, eu sei lá, do santuário
aceso do pecado inebriante,
em busca do queimor, dessa fogueira
que sobe, sobe a prumo, nos abeira
da febre galopante da paixão:
perpassa, morde a pele: e até a lua,
fremente como o sol, se perde e estua
nos braços alongados do verão
EM - BOLSA DE VALORES E OUTROS POEMAS - DOMINGOS DA MOTA - TEMAS ORIGINAIS
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Vazio - EDGARDO XAVIER
O deserto que habita nos teus olhos
soa no azul parado das melancolias
E a noite que vejo é a mesma que trazias
nos caudais do pranto ainda sem voz
O meu corpo é um mar na tua sede
E eu a sombra da tua solidão
EM - CORPO DE ABRIGO - EDGARDO XAVIER - TEMAS ORIGINAIS
soa no azul parado das melancolias
E a noite que vejo é a mesma que trazias
nos caudais do pranto ainda sem voz
O meu corpo é um mar na tua sede
E eu a sombra da tua solidão
EM - CORPO DE ABRIGO - EDGARDO XAVIER - TEMAS ORIGINAIS
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
As minhas mortes - NATÉRCIA FREIRE
Atravessam as frinchas das janelas.
Espreitam na sombra. Esgueiram-se velozes,
Abutres a irromper dos ventres delas.
Delas, as loucas, minhas, várias mortes.
Situam-se entre os vermes e as estrelas
E não há solidão que as não conforte
Pois não há casamento para elas
Que são espectros de luz e fluido porte.
E como silvam nas canções das velas
Entre os vergames seculares da Sorte.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - NATÉRCIA FREIRE - ASSÍRIO & ALVIM
Espreitam na sombra. Esgueiram-se velozes,
Abutres a irromper dos ventres delas.
Delas, as loucas, minhas, várias mortes.
Situam-se entre os vermes e as estrelas
E não há solidão que as não conforte
Pois não há casamento para elas
Que são espectros de luz e fluido porte.
E como silvam nas canções das velas
Entre os vergames seculares da Sorte.
EM - ANTOLOGIA POÉTICA - NATÉRCIA FREIRE - ASSÍRIO & ALVIM
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