segunda-feira, 19 de setembro de 2011

5 - JAIME ROCHA

O pássaro esvoaça depois num
redemoinho silencioso vindo de uma
zona intercalar e seca. Quer tomar o vértice
da cidade. Mas enlouquece dentro do fogo,
atravessado por uma última miragem.
O homem foge tiranizado por um pensamento
redondo. procura por fim encontrar uma rua
estreita, um degrau, mas o seu andar transforma-se
num utensílio de cristal.

EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

domingo, 18 de setembro de 2011

Às vezes... - GASTÃO CRUZ

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos

EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM

Pois a cidade... - GASTÃO CRUZ

Pois a cidade já nos desconhece
à luz de cinzas a que vê
o meu corpo e tu morreste
a essa luz de fogo morto
não pode à luz do fogo nenhum corpo
ver a cinza da luz dum corpo morto

EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 17 de setembro de 2011

Esplanadas - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde:
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo

por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

V. S. - ALBERTO DE LACERDA

Maga
Adivinhavas
Nas cidades
O centro

Maga
Comunicavas

Decifravas
O labirinto

EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Homenagem a Cesário Verde - MÁRIO CESARINY

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!

EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Se falo - MANUEL ANTÓNIO PINA

Se falo falta-me um
silêncio rápido no papel: entre as pernas.
Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso
do corpo, aqui é a cama, o congresso.

Venais movimentos do corpo na cama; o peso.
Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.
Breve morte que sobre o coração
páras tua mortal perversão, tua morte,

falta-me subitamente com a tua
mão e que eu morra como um corpo
dentro do coração da luz do silêncio
que me cale que não viva nem esteja morto.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 13 de setembro de 2011

4 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Parece mais solene e menos verdadeiro
aos que nunca o viveram
o frémito das veias
com o estranho estrondo desse aparelho
a refulgir em sangue.
E o corpo nele erguendo-se depois no mais negro
silêncio, tenso animal dorido,
aceso em vela.

EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

As lágrimas do poeta - ANA HATHERLY

Um poeta barroco disse:
as palavras são
as línguas dos olhos

Mas o que é um poema
senão
um telescópio do desejo
fixado pela língua?

O voo sinuoso das aves
as altas onda do mar
a calmaria do vento:
Tudo
tudo cabe dentro das palavras
e o poeta que vê
chora lágrimas de tinta.

EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 11 de setembro de 2011

Um dia...* - LUÍS FALCÃO

Um dia hei-de pensar no teu rosto
Com um dedo que feche pálpebras
E direi
          Extinguiu-se a minha adoração
E nunca mais procurarei
Os vestígios dos teus passos no mundo.

EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 10 de setembro de 2011

Via láctea - JORGE SOUSA BRAGA

Segundo dados da organização Mundial
De Saúde   praticam-se diariamente

Cem milhões de cópulas em todo
O mundo   das quais resultam

Mais ou menos trezentos mil
Litros de esperma   isto sem

Contar com a produto das actividades
solitárias e das poluções nocturnas

EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

4 - JAIME ROCHA

Existir nesse pássaro, nesse espelho
que reflecte os rios, deixar que os seus
crimes se instalem como um risco
cruzado numa folha de papel. E suportar
o choro gravado junto a uma janela, tremer,
sabendo que não é possível voar sem ter
conhecido a água que corre dentro da alma.

EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Poderosa luz morta... - GASTÃO CRUZ

Poderosa luz morta te despedes
da poderosa luz tu   me despeço
da poderosa luz morta te peço
recomeço da morte o   que me pedes

Corpo da morte certo não pertence
este consumo te da morte e esse
da morte poderoso fogo imenso
desoladora boca mas pertence-te

esta separação corpo deserto

EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Fogueiras e gelos - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Contra o coração
abraçava ramos de flores magras e azuis
sentimentos muito triviais
e por vezes a maior escuridão

perseguis sem cessar certos gestos
que na paz
seriam seus

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O refúgio... - ALBERTO DE LACERDA

O refúgio
                    o claustro
Invisível
Onde a alma
Refulge

O segredo
Que não sabe sequer
Que é segredo

Certos portais
Escrupulosamente
Cerrados

EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A viagem - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Quando se alcança
o ponto em que não há regresso,
o que se avizinha
é tão insondável
como o que se deixou
- um túnel
no coração da máquina,
um segredo que se descobre
banal, ou não se descobre,
entre a resignação e o remorso.

EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 4 de setembro de 2011

Límpidas palavras - JOÃO RUI DE SOUSA

Eram límpidas palavras:

eram insectos perfeitos
que não passavam por larvas;

eram águas em corrente
fruídas logo à nascença
no entremeio das fragas;

eram jovens diligentes
que sabiam como os lábios
ardiam antes da fala.

EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE

sábado, 3 de setembro de 2011

A noite - DOMINGOS DA MOTA

Perpassa, rasga a noite siderante
um ar de desvario cego, vário,
em busca do acaso incendiário,
no dorso da loucura delirante,

em busca do vazio, o chão errante
à beira do abismo solidário,
em busca, eu sei lá, do santuário
aceso do pecado inebriante,

em busca do queimor, dessa fogueira
que sobe, sobe a prumo, nos abeira
da febre galopante da paixão:

perpassa, morde a pele: e até a lua,
fremente como o sol, se perde e estua
nos braços alongados do verão

EM - BOLSA DE VALORES E OUTROS POEMAS - DOMINGOS DA MOTA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Vazio - EDGARDO XAVIER

O deserto que habita nos teus olhos
soa no azul parado das melancolias
E a noite que vejo é a mesma que trazias
nos caudais do pranto ainda sem voz
O meu corpo é um mar na tua sede
E eu a sombra da tua solidão

EM - CORPO DE ABRIGO - EDGARDO XAVIER - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

As minhas mortes - NATÉRCIA FREIRE

Atravessam as frinchas das janelas.
Espreitam na sombra. Esgueiram-se velozes,
Abutres a irromper dos ventres delas.
Delas, as loucas, minhas, várias mortes.

Situam-se entre os vermes e as estrelas
E não há solidão que as não conforte
Pois não há casamento para elas
Que são espectros de luz e fluido porte.

E como silvam nas canções das velas
Entre os vergames seculares da Sorte.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - NATÉRCIA FREIRE - ASSÍRIO & ALVIM