Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
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sábado, 20 de julho de 2013

Zombaria - GRAÇA PIRES


Podem zombar de nós aqueles que não gritam nem choram nem imploram à vida a fé que já perderam. Podem inventar teorias sobre a sorte e rezar a um deus qualquer como autómatos da fria engrenagem deste tempo. Podem ostentar nos dedos os anéis da indiferença e usar em pleno peito os adereços inúteis da bondade. Podem zombar de nós. Trazemos a transgressão perto do sangue e um vendaval na voz a bradar o sonho desmedido dos poetas.

EM - CADERNO DE SIGNIFICADOS - GRAÇA PIRES - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 19 de julho de 2013

XLIII - DANIEL AFONSO


disseste que era o findar do dia

é o acordar da noite
como o dia
dorme enquanto a luz incendeia a terra
luz vertical
deslizante
ao fogo crepuscular
vives onde a noite acorda

mar imenso

largo e espumoso
vagueias pelo final da tarde
despedes-te da luz
recebes a noite que acorda do seu silêncio
a noite é uma infinidade de estrelas
astros pendurados nas órbitas celestes

a noite acorda
nascerá o dia pleno

EM - DIAS DE SETEMBRO - DANIEL AFONSO - UNIVERSUS

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Comunhão - ANTERO DE QUENTAL

Reprimirei meu pranto!... Considera
Quantos, minh'alma, antes de nós vagaram,
Quantas as mãos incertas levantaram
Sob este mesmo céu de luz austera!...

- Luz morte! amarga a própria primavera! -
Mas seus pacientes corações lutaram,
Crentes só por instinto, e se apoiaram
Na obscura e heróica fé, que os retempera...

E sou eu mais do que eles? igual fado
Me prende à lei de ignotas multidões. -
Seguirei meu caminho confiado,

Entre esses vultos mudos, mas amigos,
Na humilde fé de obscuras gerações,
Na comunhão dos nossos pais antigos.

EM - SONETOS - ANTERO DE QUENTAL - ULMEIRO

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O ventre - MARIA TERESA HORTA

Repositório do corpo
e taça dos seus líquidos
é o ventre o repouso sobre a cama

Mas é também o acto
e o motivo
ternura lenta que a língua planeia

É a chama do corpo
é o susto   é aquilo
é tudo o que inventar se possa na vontade

Tão depressa mármore
como vidro
tão depressa mar como ansiedade

EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 16 de julho de 2013

Manuscrito de 1978 - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

Acabava o tempo em que os objectos
encontravam um sítio virtual,
que parecia definitivo,
quando percebeu que a miséria
não era apenas dissonância, erro,
umas contas por pagar, peixe frito,
três rodadas de bagaço e um cigarro
esquecido, com o mortão caindo
na folha onde os mesmos objectos
esperavam arrumação,
ainda que efémera, banal,
a que fosse possível.

EM - NADA TÃO IMPORTANTE, QUE NÂO POSSA SER DITO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Amávamos ambos... - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

Amávamos ambos as falésias, o recorte das escarpas,
o desenho irregular dos promontórios; todos os lugares
que, como as ilhas, são agastados pelo mar e pelos ventos.

Não havia neblina nessa noite. Apenas a luz opaca
de um farol atormentando as estrelas. Disseste
quase nada para não ferires um atordoado silêncio
interior. E tocaste-me rimeira vez os seios
como se disso, para sempre, fosses ter medo.

Abandonaste a praia logo que chegou o primeiro pescador:
a primeira lanterna,
a primeira rede.

EM - POESIA REUNIDA - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - QUETZAL

domingo, 14 de julho de 2013

O que fez sentido - GASTÃO CRUZ

Reformulamos o amor porém a fórmula
não existia como repeti-la?

É preciso criar um eco ambíguo
que deixe de ser eco e tome a forma

do que viver possa ter sido:
encontraremos restos do sentido

que num instante incerto alguma coisa fez
e nunca poderá ser repetido

EM - ESCARPAS - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 13 de julho de 2013

Pregadeira - ANA MARQUES GASTÃO

Cozo o botão
a linha de sangue
prego-o à página
cedo à seda.
Semeio outro nó.

Lesto, embalo-o
ao peito, digo:
meu anjo e anseio,
sou uma pregadeira
de aço e pó.

EM - ADORNOS - ANA MARQUES GASTÃO - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Manias - CESÁRIO VERDE

O mundo é velha cena ensanguentada,
coberta de remendos, picaresca;
a vida é chula farsa assobiada,
ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, - hoje uma ossada -,
que amava certa dama pedantesca,
perversíssima, esquálica e chagada,
mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
concedia-lhe o braço, com preguiça,
e o dengue, em atitude receosa,

na sugestão canina mais submissa,
levava na tremente mão nervosa,
o livro com que a amante ia ouvir missa!

EM - OBRA COMPLETA - CESÁRIO VERDE - LIVROS HORIZONTE

quinta-feira, 11 de julho de 2013

As palavras não-amadas - ANA HATHERLY

As palavras não-amadas
desgastam-se
como películas usadas
pela desatenção do tempo

As palavras não-amadas
tornam-se vagas testemunhas
de um esplendor desprezado
vagueiam sem sentido
como solitárias carpas
no aquário do tempo

A marca do vivido
auto-usa-se
quando não acreditamos mais

EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Antes do big-bang - NUNO JÚDICE

No talho, entre as iscas e as galinhas
mortas, os pés e as línguas de vaca, o borrego
e o pato, o homem afiava a lâmina
para cortar a carne. Um som frio atravessou
o ar, e para me distrair peguei num ovo
do campo e pu-lo contra o sol. Um
planeta? Um simples asteróide bem
calibrado? Mas o som parou; e fiquei
com o ovo na mão, pensando que a esfera
do universo é frágil quando o silêncio
a envolve, e a génese depende do instante
em que deixo cair o ovo.

EM - GUIA DE CONCEITOS BÁSICOS - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

terça-feira, 9 de julho de 2013

Estatística - ANTÓNIO GEDEÃO

Quando eu nasci havia em Portugal
(em Portugal continental
e nas ridentes,
verdes e calmas
ilhas adjacentes)
uns seis milhões e umas tantas mil almas.
Assim se lia
no meu livrinho de Corografia
de António Eusébio de Morais Soajos.
Hoje, graças aos progressos da Higiene e da Pedagogia,
já somos quase dez milhões de gajos.

EM - OBRA COMPLETA - ANTÓNIO GEDEÃO - RELÓGIO D'ÁGUA

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Poema - ANTÓNIO MEGA FERREIRA

Uma nota só, de desordem persistente,
a vibrar no abismo das coisas,
no mapa dos delitos;
acarinhando o pequeno remorso precioso
dos fins por atingir;
dobrando o tempo numa curvatura baixa
que cinge os tornozelos
da fugidia esfinge;
uma nota só, de correcção insidiosa,
na dádiva natural do tempo já vivido,
de dor aflitiva pela palidez das coisas
e o seu nome por dizer.

Falando sempre, sempre lamentando
o que ficou por dizer.

EM - O TEMPO QUE NOS CABE - ANTÓNIO MEGA FERREIRA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 7 de julho de 2013

25 - PEDRO TAMEN

Não é qualquer ilusão
se estes olhos com que vejo,
olhos brancos e doirados,
revelam que o que faço
me faz a mim, me desvela,
à vela numa viagem
onde não há outro porto
que o mesmo de viajar:
mas o que vejo e revejo,
se me salva e me transporta,
existe aqui com as cores
que não fui eu que lhe dei.

EM - O LIVRO DO SAPATEIRO - PEDRO TAMEN - DOM QUIXOTE

sábado, 6 de julho de 2013

Os emigrados - ÁLVARO DE CAMPOS

Sós nas grandes cidades desamigas,
sem falar a língua que se fala nem a que se pensa,
mutilados da relação com os outros,
que depois contarão na pátria os triunfos sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
apenas sonharam de perto o que viram -
permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?

E o propósito que uma vez formei num hotel, planeando a legenda?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.

EM - POESIA - ÁLVARO DE CAMPOS - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Da incerta luz - JOÃO RUI DE SOUSA

Na margem dita do escuro
na sombra dita da erva
no esconso dito de um muro
um foco aponta e conserva
a destreza que desregra
os canteiros do absurdo
- a propensão de quem quebra
a cerração que nos cega
quando o quebranto é mais fundo.

EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Maio 68 - DAVID MOURÃO-FERREIRA

Vê-se daqui o rasto dos anjos em revolta
erguendo barricadas em cada boulevar

Que não seja um poeta levado sob escolta
o primeiro cativo num presídio lunar

EM -  MATURA IDADE - DAVID MOURÃO-FERREIRA - ARCÁDIA

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Volume de livros - TERESA M.G. JARDIM

Bati com a porta atrás do poema.
Os dedos trilhados pela segunda vez
num só dia, inspiram alguma cautela.

Foram-se os dedos, ficaram os anéis,
a sensação de não conseguir passar
com o corpo todo, o volume de livros
debaixo do braço.

E o peso que os livros ganham
quando arrumados num saco, numa caixa
na memória?

EM - JOGOS RADICAIS - TERESA M.G JARDIM - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 2 de julho de 2013

Solidão - ato I - GLEIDSTON CÉSAR

"Na vida há caminhos que exigem
silêncios para serem percorridos."

Então ela cosia seus pensamentos
enquanto suas ideias talhadas,
magras e pálidas
limpavam o pó das lembranças
da primavera e do verão.

Tinha esperança
de que uma negra solidão
não atingira o inverno da sua alma.
Se tal ocorresse,
seus galhos imaginários
morreriam embriagados
prlo frio do inverno.

Mas no seu olhar
havia uma melancolia absurda,
e quando o fixava no meu,
o reflexo que me apercebia
era quase imperceptível.

Havia nele algo do presente
talvez fosse a minha presença.
Sabia que, no fundo,
a sua alma estava embriagada pela solidão,
e o seu olhar
ainda demonstrava uma profunda desilusão.

Porque trazia nas suas lembranças
o mar e o sal das lágrimas,
era nordeste, densa, tão mar
quanto as suas memórias.

Mas no seu íntimo
sabia que não era só solidão
ou vales
mas que também
possuía asas para sobrevoar.

EM - FRESTAS - GLEIDSTON CÉSAR - MULTIFOCO-FUTURARTE

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Em um retrato - CAMILO PESSANHA

De sob o cómodo quadrangular
Da terra fresca que me há-de inhumar,

E depois de já muito ter chovido,
Quando a herva alastrar com o olvido,

Ainda, amigo, o mesmo meu olhar
Há-de ir humilde, atravessando o mar,

Envolver-te de preito enternecido,
Como o de um pobre cão agradecido.

EM - CLEPSYDRA - CAMILO PESSANHA - RELÓGIO D'ÁGUA