Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
NESTE MOMENTO O TOCA A ESCREVER É PATROCINADO POR ALGUMAS EDITORAS E AUTORES QUE OFERECEM LIVROS DE POESIA.

domingo, 30 de junho de 2013

Ferro-velho - PEDRO MEXIA

Terraços inúteis, varandas
das traseiras, arrecadações,
escadas de caracol, marquises
desbotadas, antigas estufas,
barracas, vasos partidos,
paredes abertas, telhas,
ferro-velho, andares vazios,
degraus sem uso, o fosso
do elevador, fechaduras
de portões, gatos, cadeiras,
um sol sem préstimo,
ervas daninhas, um triciclo,
humidade, silêncio, azulejos,
sábado à tarde e o meu corpo.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

sábado, 29 de junho de 2013

Catinga de inimigo - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Minha senhora da cruz vermelha
crucificada na cruz gamada
trazeis-me novas da minha orelha?
 
Ai é cortada!
 
Minha senhora visitadora
da minha vida o desairada
trazeis-me novas da minha cova?
 
Ai é cavada!
 
Minha senhora retardadora
desta vingança sempre adiada
trazeis-me novas da minha hora?
 
Ai é suada!

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - AVANTE

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Não - NATÉRCIA FREIRE

Não formar nenhuma ideia
do que somos ou seremos
mas entre as vozes que fogem
precisar o que dizemos.
Dormir sonos ante-céus
abismos que são infernos.
Dormir em paz. Dormir paz,
enfim a nota segura.
Lembrar pessoas e dias
que penetraram no espaço
de eventos primaveris.
E dar a mão aos espectros
beijá-los lendas, perfis.
Amar a sombra, a penumbra
correr janelas e véus.
Saber que nada é verdade.
Dizer amor ao deserto
abraçar quem nos ignora
dormir com quem não nos vê
mas precisar do calor
de quem nunca nos encontra.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - NATÉRCIA FREIRE - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Amo os teus defeitos - ANTÓNIO OSÓRIO

Amo os teus defeitos, e tantos
eram, as tuas faltas para comigo
e as minhas; essa ênfase
de rechaçar por timidez; solidão
de fazer trepadeiras, agasalhos
para velhos, depois para netos;
indulgência de plantar e ver
o crescimento da oliveira do paraíso,
carregada de flores persistentemente
caducas; essa autoridade, irremediável
desafio; e a astúcia
de termos ambos quase a mesma cara.

EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Fragmento - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

O tempo é cíclico, move-se circularmente em segundos fora dos relógios, é voraz e (in)concreto, é um rasgo, é uma ilha com forma de quimera. O tempo é um fragmento do vazio que nos cabe preencher, é um grão de pó que não conseguimos guardar nas algibeiras. O tempo é o paradoxo da quietude.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

terça-feira, 25 de junho de 2013

Os meus versos - FLORBELA ESPANCA

Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...

Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...

EM - SONETOS - FLORBELA ESPANCA - BERTRAND

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Doces lembranças... - LUIS VAZ DE CAMÕES

Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai-me repousar em paz u'hora,
que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho n'alma larga história
deste passado beque nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro d'esquecido,
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.

Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.

EM - POESIA LÍRICA - LUIS VAZ DE CAMÕES - VERBO

domingo, 23 de junho de 2013

Domingo - JORGE DE SENA

Na orla do mar azul
de um céu quase sem nuvens,
as águas, crespas, murmuram.
Jogam ao sol crianças
na aragem primaveril.
Já outras param pensando
as formas do corpo alheio.
Os barcos, suaves, singram
nos olhos de solitários
cujos passos hesitantes
pela praia se misturam
aos de corridas e jogos
da juventude esgotando-se.
As vozes chegam longínquas...
Meus passos deixam sinais
que a tarde, ténue, adejando,
aos outros misturará
na orla do mar azul.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - JORGE DE SENA - GUIMARÃES

sábado, 22 de junho de 2013

Tesouro - JOSÉ LUÍS OUTONO

No fundo do mar aberto de pleno imenso
Está um tesouro opaco de curiosidades
Algas dançantes guardiãs seculares
Que hospedam o borbulhar de uma lenda...

No fundo secreto fascínio do mar toldado
Há um silêncio cantado de cores matizes
Há vida e espelhos de metamorfoses líricas
Há rasgos e correntes cíclicas de atrevimentos...

Neste sétimo mar de horizonte indefinido
Folheio o calendário metódico de esperanças
Na conquista de um passar sem amarras
Volteio de águas rainhas e feudos...

Escrevo-te mar profundo de viagens
Neste ritual de palavras vestidas de ti
Onde balanço as gotas da mão tangente
De um matinal brincar liberto contigo...

EM - MAR DE SENTIDOS - JOSÉ LUÍS OUTONO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A talha de Coimbra - JAIME CORTESÃO

Quem inventou a talha era casado.
Revejo o artista e a mulher, já mãe,
Cheia de graça doce que elas têm,
Vendo o filhinho adormecido ao lado.

Viu-a: e a talha tem o seio arqueado
E o mesmo pucarinho, vejam bem,
No lindo testo, se não é também
Um menino no berço inda deitado.

Formam as asas um airoso par:
É porque as Mães, a quem o Amor exalta,
Erguem os filhos, a tremer, no ar...

Ei-la igualzinha quase que ao modelo,
Tão boa e maternal que só lhe falta
Pôr o menino ao colo e adormecê-lo...

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Hino ao desejo e à fantasia - JESSICA NEVES

Cai a noite de mansinho, nua
Em pleno olhar de lua cheia
Agridoce tentação, minha e tua
Adivinhando a última ceia...

Contorno traço a traço o teu rosto
Dos teus lábios de mar, provo o sal
Sinto a ondulação, saboroso mosto
Des(a)pertando o toque celestial...

De asas acetinadas, somos anjos nus
Clamando o hino ao desejo e à fantasia
Diamante lapidados sem tabus
Em noite mágica, recital de poesia...

Troncos suados no cais do prazer
Soprando alto a mais pura paixão
Poema-explosão, sede de pertencer
De quem se quer em êxtase-união!

Afogados a meio da estrela sírio
Nossos corpos mornos, estremecidos
Ancorados um ao outro, em delírio
Exaustos, poeticamente rendidos...

Desvendando segredos ao ouvido
Nu(m)a explosão sem amanhã
Desatam-se as fontes em vagido
Com aroma a canela e hortelã!

EM - AUDAZ FANTASIA - ANTOLOGIA - UNIVERSUS

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Hotel viking - NATÁLIA CORREIA

Onde os peixes e as maçãs
misturam os acidulados cheiros
acordo numa vibrátil manhã
que descarregam os barcos pesqueiros

freme o mar no búzio do ar
um salgado latido um acorde
de coração pelas fúrias marinhas
atraído na ponta de um fiorde

Do resplendor do holmenkolen
despenha-se oslo branca e breve
no salto de um esquiador
crescente de uma lua de neve

Chamada pela rocha caminhante
atira-lhe serpentinas o mar
e por caminhos de leite de cabra
se chega à palavra chegar

Predicam as renas no púlpito
do granito uma abscôndita Ofir
à força dos olhos das renas
acabaremos por existir?

É esse o segredo que hasteia
no reino sonâmbulo das estátuas
um obelisco de corpos que trepam
por um som de prometidas flautas?

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 18 de junho de 2013

Mulher sofrida... mulher real - ALEXANDRE CARVALHO

Beijo-te com língua húmida
percorrendo teu pescoço
estás de vestes despida
sinto-te como um esboço.
Imóvel, hirta, tensa
feita estátua
em pó de pedra prensa
tua beleza será perpétua.
Escorrida de suor, ora frio ora quente
percorrendo-te o dorsal com as mãos
faço acelerar teu desejo premente
vivos estão os teus órgãos
sentes paixão renascer dentro de ti
imaginas um jogo
queres fugir daí
saltar do pedestal
brotam chispas de fogo
das entranhas da mulher animal
soltaste os pés
inicias um prólogo
finalmente és...
Mulher real.

EM - CAVALETE COM POESIA - ALEXANDRE CARVALHO - UNIVERSUS

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Só a prosa é que se emenda - ALBERTO CAEIRO

Como ele me disse uma vez:«Só a prosa é que se emenda. O verso nunca se emenda. A prosa é artificial. O verso é que é natural. Nós não falamos em prosa. Falamos em verso. Falamos em verso sem rima nem ritmo. Fazemos pausas na conversa que na leitura da prosa se não podem fazer. Falamos, sim, em verso, em verso natural - isto é, em verso sem rima nem ritmo, com as pausas do nosso fôlego e sentimento.
Os meus versos são naturais porque são feitos assim...
O verso ritmado e rimado é bastardo e ilegítimo.»

EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 16 de junho de 2013

Sou... - RITA FARIAS

Sou o que sou
nua e crua
com ou sem vestido
sou eu!

Triste arrependida
alegre destemida
sou eu!

A transparência
que alcanças em mim
aveludada em cetim
sou eu!

Aquela que maltratas
e que olha por ti
sem fim
sou eu!

A tal que dá o que tem
e o que não tem luta por ter
para te oferecer
sem nada temer
sou eu!

A vilã que chora
a vítima que grita
a cobarde que te encara
a frontal que se esconde
sou eu!

Pronta para viver
a temível realidade
sou eu!

Apagando
a vida em ilusão
temendo
a audaz fantasia
sou eu!

A que acende
a luz à escuridão
a que fecha
a cortina à multidão
sou eu!

A que vês e ouves,
a fria e quente
sou eu!
sou eu!
que deixei de ser
para ser TU!

EM - AUDAZ FANTASIA - ANTOLOGIA - UNIVERSUS

sábado, 15 de junho de 2013

Sangram roseiras - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

Sangram pétalas vermelhas
Das roseiras do meu jardim
São dores sofridas da alma
São lágrimas derramadas por mim.
Sentidas, profundas
Soltando os gritos contidos
Soltando amarras ao vento
No desatino dum pobre sentimento.

Rolam pela calçada
Formando um rio colorido
São lágrimas tristes, cansadas
Perdidas no caminho percorrido.

Soltam-se pétalas vermelhas
Gemendo, gritando lamentos
Sangram os espinhos cravados
Na vida, da vida, os tormentos.

Sangram
As roseiras do meu jardim.

EM - ENTRE O SONO E O SONHO VOL IV TOMO II - ANTOLOGIA - CHIADO EDITORA

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A tarde do romancista - VASCO GRAÇA MOURA

tarde tensa em bicesse. o meu romance
encravou e não ata nem desata.
há quem me recomende que descanse
e deixe de escrever da pátria ingrata

e fale de outras coisas, das que não
têm risco especial nem figurino,
mas pátria do romance é a paixão
e pátria da paixão é o destino

e é ele que comanda as personagens
e o seu desvario, o seu desnorte,
encontros, desencontros e viagens,
razão e sem razão e vida e morte.

tarde tensa em bicesse, mas os fados
por vezes dão enredos encravados.

EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O anjo de pedra - EUGÉNIO DE ANDRADE

Tinha os olhos abertos mas não via.
O corpo todo era a saudade
de alguém que o modelara e não sabia
que o tocara de maio e claridade.

Parava o seu gesto onde pára tudo:
no limiar das coisas por saber
- e ficara surdo e cego e mudo
para que tudo fosse grave no seu ser.

EM - PRIMEIROS POEMAS... - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Olhos lindos - JOSÉ MOURA

Um dia passaram por mim
Dois olhos tão lindos e depois
Julguei sonhar, vendo enfim
Os teus olhos como há só dois.

Vi esses dois olhos tão lindos,
A sonhar pensei serem os teus
E aqueles olhos tão lindos
Depois afastaram-se dos meus.

Falta pouco para me veres,
Ontem faltava mais.
Se são lindos não sei ver
Pois deve haver muitos iguais.

Olhos, espelhos da tua beleza!
Com uma força de razão
Definem em ti a pureza
E o amor que tens no coração.

EM - PALAVRAS QUE DIZEMOS - JOSÉ MOURA - UNIVERSUS

terça-feira, 11 de junho de 2013

Vida - CECÍLIA MEIRELES

Do pano mais velho usava.
Do pão mais velho comia.
Num leito de vides secas,
e de cilícios vestida,
em travesseiro de pedra,
seu curto sono dormia.
Cada vez mais pobre
tinha de ser sua vida,
entre orações e trabalhos
e milagres que fazia,
a salvar a humanidade
dolorida.
Mãos no altar, a acender luzes,
pés na pedra fria.
Humilde, entre as companheiras;
diante do mal, destemida,
Irmã Clara, em seu mosteiro
ténue vivia.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA