Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
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terça-feira, 30 de abril de 2013

A Rosa - CRISTINA PINHEIRO MOITA

Era uma rosa diferente
como qualquer outra, morreu
tinha um cheiro enigmático
quem a cheirou não esqueceu.

Não há perfume de rosas
que faça lembrar o seu
foi uma rosa poderosa
no jardim onde cresceu.

Teve o reflexo no tempo
que a noite e o dia lhe deu.

Essa rosa já não volta
vive a roseira que a deu.

Podem nascer mais mil rosas
outras rosas, picos seus
No funeral dessa rosa.

O cheiro do amor floresceu:

EM - FALUA DA SAUDADE - CRISTINA PINHEIRO MOITA - LUA DE MARFIM

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pintor - GABRIELA PAIS

Pintor que sujas a tela de pranto
Escorrem as tintas sobre tua amada,
Teu ser sofre penoso desencanto,
Porque tua alma sangra desconsolada.

Cala essas lamentações dolorosas
Põe na pintura todo o teu sentir,
Desliza p'las tintas, que desejosas,
Querem garra no pincel a evoluir.

Cor de festa p'ró desenho emitir,
Nem constrangimento nem desalento,
Nas mãos sente, a arte e o amor a sobrevir.

Põe na mente este propósito ardente,
Fixa o olhar, com atenção a compelir,
Transpõe p'ra tela, teu vigor crescente.

EM - O LUGAR DAS PALAVRAS - GABRIELA PAIS - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 28 de abril de 2013

9º soneto - FERNANDO SAIOTE

Nada de meu caminho é importante
Nada excepto este chão que piso
A mão que abro e dou a quem passa
Ou o beijo que inocente me pedes

Tudo é coisa de tua estrela brilhante
Do mel, de tudo que em ti mais preciso
Do tempo em nós que faz a vida escassa
Empurra-me para ti quando te despedes

Nada é beijo que foi tudo para mim
Verso feito do teu corpo esculpido
Guitarra que em nós toca e silencia

Tudo é nada num teu beijo sem fim
Cavalgando na minha boca destemido
Por saber que a ninguém pertencia

EM - PRISÃO DE SENTIDOS - FERNANDO SAIOTE - LUA DE MARFIM

sábado, 27 de abril de 2013

Lembro - JOSÉ LUIS OUTONO

os teus olhos
contaram-me ensaios
de pauta criativa
naquela manhã
em que acordaste
dentro de mim...
apenas ouvia
o caminhar
dos teus cabelos
no meu corpo
onde escreveste lábios
em invenções de beijos
e "trancaste-me" a alma
com um verso em
decassílabos mar...

EM - MAR DE SENTIDOS - JOSÉ LUIS OUTONO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Voltarão as palavras - ANTÓNIO GIL

Voltarão as palavras
a ser pedras, agora
com talhe de amora
sementes furadas
pequenas contas
com as cores da aurora
perfeitas conchas
búzios, pequenas aras,
estrelas do céu e do mar:
lascas, cascalho, aparas,
gemas de pedras raras
que te ofereço em colar
em pulseiras, em tiaras.

EM - OBRA AO RUBRO - ANTÓNIO GIL - LUA DE MARFIM

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sonata de Outono - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Inverno não ainda mas Outono
a sonata que bate no meu peito
poeta distraído  cão sem dono
até na própria cama em que me deito.

Acordar é a forma de ter sono
o presente o pretérito imperfeito
mesmo eu de mim próprio me abandono
se o rigor que me devo não respeito.

Morro de pé, mas morro devagar.
A vida é afinal o meu lugar
e só acaba quando eu quiser.

Não me deixo ficar. Não pode ser.
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
pois viver é também acontecer.

EM - OBRA POÉTICA - JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS - EDIÇÕES AVANTE

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Guardo palavras ásperas - PAULO AFONSO RAMOS

No hábito do dia
que caminhas na memória
guardo palavras
como prisioneiras do templo

são palavras ásperas
acorrentadas ao silêncio.

EM - PASSOS ESPALHADOS PELO CHÃO - PAULO AFONSO RAMOS - LUA DE MARFIM

terça-feira, 23 de abril de 2013

Sofá de ilusões - GONÇALO LOBO PINHEIRO

Vou andando, alheio e devagar, ao teu encontro.
Estás meio perdida, deitada no teu sofá,
E junto a um copo vazio.
Descansas na esperança que chegue
E te ponha no meu colo.
Nesse momento serei apenas eu e tu,
Porque existes dessa forma,
Prostrada no sofá das ilusões,
Assim meio tosca mas, com sentido único.

EM - SOFÁ DE SENTIDOS - GONÇALO LOBO PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Mergulhadores - PEDRO MEXIA

Doze, catorze segundos, demoram
a boca na boca, mergulhadores
de águas em si mesmas não muito
profundas, mas atravessadas de fundura

em ideia e situação, artistas
da respiração e de com ela saberem
reter outros desejos
que ao mesmo tempo dissipam.

Despedem-se ou saúdam-se à porta
do centro comercial, tão novos
que era mais normal
que se detestassem. O mundo,

seus acidentes, sem dúvida noções
precoces para quem num abraço
se mete pelos blusões adentro
respirando depois onde também respiro.

EM - ELIOT E OUTRAS OBSERVAÇÕES - PEDRO MEXIA - GÓTICA

domingo, 21 de abril de 2013

Em litorais longínquos... - GRAÇA PIRES

Em litorais longínquos
as mulheres deitam-se sobre a areia
junto à rebentação das ondas.
Com os braços em cruz
afastam as embarcações costeiras
e aguardam que a lua inteira
inicie um inesperado bailado
perto de suas bocas.
E não há âncora nem cais
que emudeça o júbilo dos mastros.

EM - O SILÊNCIO: LUGAR HABITADO - GRAÇA PIRES - LABIRINTO

sábado, 20 de abril de 2013

Havia um relógio... - JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

havia um
relógio
de sala
castanho

tão esguio
tão esguio
quase não

ocupava
espaço
nenhum.

o seu
bom-dia
(porém)
espalhava-se pela casa toda

EM - 3 - JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES - GÓTICA

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Para lá dos campos... - FREDERICO LOURENÇO

Para lá dos campos e vales
que descem em violento declive
na direcção do mar e do horizonte
a que chamo bainha de Deus
(ou somente linha azul e violeta
a separar o mar do céu)
sigo o sentido que o teu braço indica
e fito as nuvens flamejantes,
rasgadas por relâmpagos.
Começas de novo a falar.
O estrondo da cascata
a trovejar aqui ao lado
torna as tuas palavras inaudíveis.
No entanto consigo compreender-te.

EM - SANTO ASINHA E OUTROS POEMAS - FREDERICO LOURENÇO - CAMINHO

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O poeta anda... - ANTÓNIO CARLOS CORTEZ

o poeta anda pelas ruas solitário
é um pássaro ferido que canta e imagina
e o seu canto é o labor incendiário
sua incerteza de espuma que termina
o poeta é a linha de sombra e não sabe
que oculta em si a última fúria inimiga
é a perpétua imagem de que tudo arde
pode ser a lira ou o lastro a palavra antiga
o poeta esse brutal assassino da nossa vida
com os dedos alongados e infinita cabeleira
com seu corpo diluído nos cristais
o poeta ninguém o pode conduzir na despedida
ou esperar sua palavra verdadeira
aquele amador que não volta mais

EM - A SOMBRA NO LIMITE - ANTÓNIO CARLOS CORTEZ - GÓTICA

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Os homens ladram... - ANTÓNIO BORGES COELHO

Os homens ladram como os cães às portas

Cá fora há um riso de tributo
mas a casa é o último reduto

Se vos aproximais
os homens ladram como animais

Ladram todo o ódio acumulado
pela vida pelo fado

Ladram fome ladram tudo
que a vida é um canudo

Aonde vai tanta violência cega
que ensombra o céu e nunca descarrega

EM - AO RÉS DA TERRA - ANTÓNIO BORGES COELHO - CAMINHO

terça-feira, 16 de abril de 2013

A idade do fogo - JOAQUIM CARDOSO DIAS

nas pálpebras a fuga é ainda possível
espio o anoitecer por detrás do crepúsculo
e nunca sonhei com essa mentira

as noites imensas respiram onde a minha memória te imortalizou
ouço-te e escuto e grito no teu rosto assim
abro a janela e tenho medo de ouvir a tua voz

em pleno voo o tempo solidificou este monólogo
as palavras que me restam falam devagar
enquanto a noite cresce demorando a loucura
e a maldição de ter amado

amanhã é o último dia do tempo
agora de repente ainda espero por ti

EM - O PREÇO DAS CASAS - JOAQUIM CARDOSO DIAS - GÓTICA

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O cavalo do Mouzinho - RUI KNOPFLI

Ironicamente, o herói colonial defendeu
e ajudou a fixar as fronteiras do país
que havia de converter-se em pátria alheia.
Décadas volvidas, caía uma chuva miudinha,
segundo consta, apearam-lhe a estátua

do alto plinto. Caía uma chuva miudinha,
mas o sr. Alberto Massavanhane garante,
solene e com ar grave, talvez com um nó
na garganta, que não, não era só chuva
e que, mesmo de bronze, até o cavalo chorava.

EM - O MONHÉ DAS COBRAS - RUI KNOPFLI - CAMINHO

domingo, 14 de abril de 2013

A tinta preta... - PEDRO TAMEN

A tinta preta que baila no papel
garante a eternidade do que empunha
o objecto dançarino e frio
(julgava eu um dia, ou simplesmente
fingia acreditar). A tinta
de qualquer cor e o papel
ou ferro onde se inscreva
passam voláteis como os dedos
cheios de intenções e como
o som do cuco três vezes repetido.

Ao silêncio seguinte ninguém sequer
responde, pois não sabe
ter havido um som, uma verdade, um antes.

EM - MEMÓRIA INDESCRITÍVEL - PEDRO TAMEN - GÓTICA

sábado, 13 de abril de 2013

Regresso - JOÃO MANUEL BRETES

No regresso da embarcação
onde vens sentado à proa
vais fixando no horizonte
a área minúscula o ponto na margem
onde a penumbra alberga a exígua casa
e ao rés da água a fria aragem
levanta a poalha
que te queima ao passar rápida
como a ave branca que atravessou o sol
com um brado de asas.

EM - POEIRA - JOÃO MANUEL BRETES - CAMINHO

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O meu futuro - JOSÉ RICARDO NUNES

O grelhador enferrujou
e teve o seu prémio: vasos
com as roseiras pegadas há dois anos.
Este é o pátio da minha mãe:
botijas de gás,
uma torradeira velha em cima do termo-acumulador,
a fita enrolada à volta dos estores.
O cimento denuncia os canos
mudados no Verão. Voltar
aqui.

EM - NOVAS RAZÕES - JOSÉ RICARDO NUNES - GÓTICA

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Tudo podia ser mais simples - GRAÇA PIRES

Tudo podia ser mais simples.
Mas a infância fica tão longe
e os espelhos começaram
a gritar-me uma inocência
que deixou de ser minha
para sempre.
O que quero dizer
acompanha, devagar,
o movimento do sol.
E são cada vez mais lentos
os passos que me levam
na direcção das nascentes.
Apesar da sede.

EM - UMA EXTENSA MANCHA DE SONHOS - GRAÇA PIRES - LABIRINTO