Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
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sábado, 20 de abril de 2013

Havia um relógio... - JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

havia um
relógio
de sala
castanho

tão esguio
tão esguio
quase não

ocupava
espaço
nenhum.

o seu
bom-dia
(porém)
espalhava-se pela casa toda

EM - 3 - JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES - GÓTICA

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Para lá dos campos... - FREDERICO LOURENÇO

Para lá dos campos e vales
que descem em violento declive
na direcção do mar e do horizonte
a que chamo bainha de Deus
(ou somente linha azul e violeta
a separar o mar do céu)
sigo o sentido que o teu braço indica
e fito as nuvens flamejantes,
rasgadas por relâmpagos.
Começas de novo a falar.
O estrondo da cascata
a trovejar aqui ao lado
torna as tuas palavras inaudíveis.
No entanto consigo compreender-te.

EM - SANTO ASINHA E OUTROS POEMAS - FREDERICO LOURENÇO - CAMINHO

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O poeta anda... - ANTÓNIO CARLOS CORTEZ

o poeta anda pelas ruas solitário
é um pássaro ferido que canta e imagina
e o seu canto é o labor incendiário
sua incerteza de espuma que termina
o poeta é a linha de sombra e não sabe
que oculta em si a última fúria inimiga
é a perpétua imagem de que tudo arde
pode ser a lira ou o lastro a palavra antiga
o poeta esse brutal assassino da nossa vida
com os dedos alongados e infinita cabeleira
com seu corpo diluído nos cristais
o poeta ninguém o pode conduzir na despedida
ou esperar sua palavra verdadeira
aquele amador que não volta mais

EM - A SOMBRA NO LIMITE - ANTÓNIO CARLOS CORTEZ - GÓTICA

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Os homens ladram... - ANTÓNIO BORGES COELHO

Os homens ladram como os cães às portas

Cá fora há um riso de tributo
mas a casa é o último reduto

Se vos aproximais
os homens ladram como animais

Ladram todo o ódio acumulado
pela vida pelo fado

Ladram fome ladram tudo
que a vida é um canudo

Aonde vai tanta violência cega
que ensombra o céu e nunca descarrega

EM - AO RÉS DA TERRA - ANTÓNIO BORGES COELHO - CAMINHO

terça-feira, 16 de abril de 2013

A idade do fogo - JOAQUIM CARDOSO DIAS

nas pálpebras a fuga é ainda possível
espio o anoitecer por detrás do crepúsculo
e nunca sonhei com essa mentira

as noites imensas respiram onde a minha memória te imortalizou
ouço-te e escuto e grito no teu rosto assim
abro a janela e tenho medo de ouvir a tua voz

em pleno voo o tempo solidificou este monólogo
as palavras que me restam falam devagar
enquanto a noite cresce demorando a loucura
e a maldição de ter amado

amanhã é o último dia do tempo
agora de repente ainda espero por ti

EM - O PREÇO DAS CASAS - JOAQUIM CARDOSO DIAS - GÓTICA

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O cavalo do Mouzinho - RUI KNOPFLI

Ironicamente, o herói colonial defendeu
e ajudou a fixar as fronteiras do país
que havia de converter-se em pátria alheia.
Décadas volvidas, caía uma chuva miudinha,
segundo consta, apearam-lhe a estátua

do alto plinto. Caía uma chuva miudinha,
mas o sr. Alberto Massavanhane garante,
solene e com ar grave, talvez com um nó
na garganta, que não, não era só chuva
e que, mesmo de bronze, até o cavalo chorava.

EM - O MONHÉ DAS COBRAS - RUI KNOPFLI - CAMINHO

domingo, 14 de abril de 2013

A tinta preta... - PEDRO TAMEN

A tinta preta que baila no papel
garante a eternidade do que empunha
o objecto dançarino e frio
(julgava eu um dia, ou simplesmente
fingia acreditar). A tinta
de qualquer cor e o papel
ou ferro onde se inscreva
passam voláteis como os dedos
cheios de intenções e como
o som do cuco três vezes repetido.

Ao silêncio seguinte ninguém sequer
responde, pois não sabe
ter havido um som, uma verdade, um antes.

EM - MEMÓRIA INDESCRITÍVEL - PEDRO TAMEN - GÓTICA

sábado, 13 de abril de 2013

Regresso - JOÃO MANUEL BRETES

No regresso da embarcação
onde vens sentado à proa
vais fixando no horizonte
a área minúscula o ponto na margem
onde a penumbra alberga a exígua casa
e ao rés da água a fria aragem
levanta a poalha
que te queima ao passar rápida
como a ave branca que atravessou o sol
com um brado de asas.

EM - POEIRA - JOÃO MANUEL BRETES - CAMINHO

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O meu futuro - JOSÉ RICARDO NUNES

O grelhador enferrujou
e teve o seu prémio: vasos
com as roseiras pegadas há dois anos.
Este é o pátio da minha mãe:
botijas de gás,
uma torradeira velha em cima do termo-acumulador,
a fita enrolada à volta dos estores.
O cimento denuncia os canos
mudados no Verão. Voltar
aqui.

EM - NOVAS RAZÕES - JOSÉ RICARDO NUNES - GÓTICA

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Tudo podia ser mais simples - GRAÇA PIRES

Tudo podia ser mais simples.
Mas a infância fica tão longe
e os espelhos começaram
a gritar-me uma inocência
que deixou de ser minha
para sempre.
O que quero dizer
acompanha, devagar,
o movimento do sol.
E são cada vez mais lentos
os passos que me levam
na direcção das nascentes.
Apesar da sede.

EM - UMA EXTENSA MANCHA DE SONHOS - GRAÇA PIRES - LABIRINTO

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Um dia - EMANUEL LOMELINO

 

Um dia, quando despertares da letargia do sono
e te lembrares da poesia que respirámos juntos
recorda com saudade o meu acordar rubro
e a minha resistência em ser poeta pela manhã.
Um dia, quando te libertares da felicidade do sonho
procura no azul-celeste da tua memória viva
os versos doces que quis escrever no teu corpo
e sente o sal que os meus olhos derramaram
sobre as imaculadas folhas de papel virgem.
Um dia, quando sentires a dureza dos caminhos
e quiseres sarar as cicatrizes da tua existência
reaviva os verdes momentos de esperança
daquelas palavras escritas que um dia te dei.
Um dia, quando confessares a tua essência
e essa verdade que sempre viveu em ti
podes enfantizar as qualidades da poesia
que pensei mas sempre resisti em escrever.
Um dia, depois de ouvires os sinos da partida
e descobrires a cegueira dos meus olhos meigos
aplaude a minha falta de originalidade criativa
e enaltece a forma como lomelinizei a vida.  

EM - ENTRE O SONO E O SONHO VOL. IV TOMO I - ANTOLOGIA - CHIADO

terça-feira, 9 de abril de 2013

Nudez - JOÃO LOPES

A mentira do amor
Resiste na verdade
Da nudez
Na precisão branca
De uma lágrima

Sobre a madeira
Memórias de sonetos
Irregulares e castos
Deslocam a cor
Da morte à volta
A cidade sou eu
Esquecido em pedra

O cinema envolvendo
A palavra hoje.

EM - POEMAS DE GUERRA - JOÃO LOPES - GÓTICA

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Há um pouco de sol... - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Há um pouco de sol como uma arma tranquila
tenho os dedos enamorados sobre a página
Sinto os arbustos do mar de cor vermelha
A ligeireza do ar e a dura densidade
formam frescas verdades numa sala feliz
Um anjo terrestre ou só a mão alada
respira nas paredes e no solo como um desejo
que para nós voltasse o rosto transparente
Com o rumor do sono a mão enamorada
reconhece nas formas a suave aridez
que atravessa as portas brancas desta página

EM - DELTA - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

domingo, 7 de abril de 2013

Bicicleta azul - PEDRO MEXIA

Não sabia manter o equilíbrio enquanto
pedalava, precisava de duas rodas mais pequenas
como um triciclo, sempre um pouco
mais novo do que era,
o mundo incerto, a gravidade fortíssima.

Na bicicleta azul de uma prima
dava voltas ao pátio ou seguia
pela pequena estrada campestre como se
fosse dominar a vontade adolescente,
os joelhos esfolados, buster keaton
que em breve ía cair numa vala, a bicicleta
cairia depois e depois o mundo.

EM - EM MEMÓRIA - PEDRO MEXIA - GÓTICA

sábado, 6 de abril de 2013

Sequência - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

A sua face transpôs os temporais
O vento azul rolou entre os seus braços

A penumbra subiu e rodeou
O seu rosto aceso as suas mãos iguais

Dos seus ombros nasceram as estátuas
E o gesto dos seus dedos
Encantou os navios

Baloiça um enforcado na baía
Mãos sem corpo levam castiçais

Uma cortina enrola-se na brisa
Uma porta bate e de repente
Um corredor fica vazio.

EM - MAR - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - CAMINHO

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Impressão digital - ANTÓNIO OSÓRIO

Mancha
de veios, abobadilhas
sobrepostas, curvas
de espirais, truncadas.

Nervuras
oriundas de raízes,
águas. Decifráveis,
testemunhantes
por sua única penumbra.

EM - LIBERTAÇÃO DA PESTE - ANTÓNIO OSÓRIO - GÓTICA

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Paisagem - EUGÉNIO DE ANDRADE

Entre pinheiros três casas.
Uma azenha parada.
Uma torre erguida
de fraga em fraga
contra o céu de cal.
E um silêncio talhado
para o voo de um moscardo
alastra de casa em casa,
sobe à torre abandonada
e sobre a azenha parada
tomba desamparado.

EM - PRIMEIROS POEMAS... - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A tentar criar - MIGUEL ALMEIDA

Um instante, é certo
Mas de valia singular,
Na partilha do que somos
E sabemos, talvez por sentir
Essa arte sem limites,
No auxílio do pensar,
Que nunca nos deixa parar,
Até se ter um ser, que é criar.
Ser de linguagem ou de pensar,
O homem já existe,
Nas paisagens que descreve,
Recriando-se no acto de criar,
Mas assim, ele acaba a pensar,
E quando por acaso acha,
Talvez esteja apenas a tentar criar.

EM - O LUGAR DAS COISAS - MIGUEL ALMEIDA - ESFERA DO CAOS

terça-feira, 2 de abril de 2013

Clamor - AL BERTO

tudo vem ao chamamento
noite após noite o que dissemos e
o que nunca diremos - a viagem
com uma giesta de algodão presa nos cabelos e
a sensação fresca de um sulco de aves na pele

tudo vem ao chamamento - os lobos
os anões as fadas as putas as bichas e
a redenção dos maus momentos - enquanto te barbeias

vês no espelho o homem
cuja solidão atravessou quase cinco décadas e
está agora ali a olhar-te - queixando-se da tosse
da dor de dentes e do golpe que a lâmina fez
num deslize perto da asa do nariz

não sei quem é - sei porém que vai afogar-se
naquela superfície clara quando dela se afastar e
abrir a porta para sair de casa murmurando: tudo
vem ao chamamento
por dentro do clamor da noite

EM - HORTO DO SILÊNCIO - AL BERTO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Fantasma - CECÍLIA MEIRELES

Para onde vais, assim calado,
de olhos hirtos, quieto e deitado,
as mãos imóveis de cada lado?

Tua longa barca desliza
por não sei que onda, límpida e lisa,
sem leme, sem vela, sem brisa...

Passas por mim na órbita imensa
de uma secreta indiferença,
que qualquer pergunta dispensa.

Desapareces do lado oposto,
e, então, como súbito desgosto,
vejo que o teu rosto é o meu rosto,

e que vais levando contigo,
pelo silencioso perigo
dessa tua navegação,

minha voz na tua garganta,
e tanta cinza, tanta, tanta,
de mim, sobre o teu coração!

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA