Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: - «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,
Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
Num turbilhão cruel e delirante...
Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz 'inda mais triste,
Dizem: - «Homens! Porque é que nos criastes?»
EM - SONETOS - ANTERO DE QUENTAL - ULMEIRO
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Sou leve e vil de mais - MÁRIO SAA
Sou leve e vil de mais, quando procuro
Pôr por ela, tão alta, o ardor e o zelo,
Cruzar as mãos no seu cabelo escuro
Ruminar-lhe as madeixas do cabelo.
Sou leve e vil de mais quando procuro
Cair tonto, a bailar, nos braços dela,
Lançar um coração terreno e impuro
No imaculado rastro duma estrela.
Sou leve e vil de mais! Mas pouco importa;
No seu palácio d'oiro abriu-me a porta,
E foi ela que me ungiu nalgum momento,
Por esta propriedade que aos feios pertence
De vencerem às vezes a mulher que os vence
Entre as mais lindas deusas do seu tempo.
EM - POESIA E ALGUMA PROSA - MÁRIO SAA - INCM
Pôr por ela, tão alta, o ardor e o zelo,
Cruzar as mãos no seu cabelo escuro
Ruminar-lhe as madeixas do cabelo.
Sou leve e vil de mais quando procuro
Cair tonto, a bailar, nos braços dela,
Lançar um coração terreno e impuro
No imaculado rastro duma estrela.
Sou leve e vil de mais! Mas pouco importa;
No seu palácio d'oiro abriu-me a porta,
E foi ela que me ungiu nalgum momento,
Por esta propriedade que aos feios pertence
De vencerem às vezes a mulher que os vence
Entre as mais lindas deusas do seu tempo.
EM - POESIA E ALGUMA PROSA - MÁRIO SAA - INCM
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
O soneto do ponto final desta entrada - ANTÓNIO BOTTO
Eu sou quem sou. O resto não interessa.
Que me importa que falem do que faço
Porque quero fazer sem o embaraço
Daquele que só quer viver depressa?
Porque não falo dizem que é cansaço
De acreditar no fumo da promessa
Que não teve princípio nem começa,
Para mim que sou Alma a andar no espaço?
Coitado do que sabe dizer tudo
Sem noção da ignorância que mostrou,
- Não gosto de enganar e não iludo.
Devolvo à humanidade o que Ela faz
Condenando a moral que Ela inventou
Para dar todo o mal de que é capaz.
EM - CANÇÕES E OUTROS POEMAS - ANTÓNIO BOTTO - QUASI
domingo, 17 de fevereiro de 2013
À sombra de uma nuvem - HENRIQUE PEDRO
Adormeço
Prostrado
À sombra de uma nuvem
Cansado
De um pensamento mais denso
Embalado
Por uma aragem de espírito
Que me refrigera o corpo
Do sopro ardente da Terra
Envolta em guerra
Acordo
De madrugada
Na frialdade da noite iluminada
Pela luz cósmica das estrelas
Que espargem espiritualidade
A geada
Prateada
Da verdade
Não me deixa dormir
Flutuo no nada
Demente que estou
Com a mente perturbada
Que virá
A seguir?
EM - ANGÚSTIA, RAZÃO E NADA - HENRIQUE PEDRO - TEMAS ORIGINAIS
sábado, 16 de fevereiro de 2013
E por vezes - DAVID MOURÃO-FERREIRA
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
EM - MATURA IDADE - DAVID MOURÃO-FERREIRA - ARCÁDIA
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Ouve, vê e cala - D. JOÃO MANUEL
Ouve, vê e cala,
e viverás vida folgada:
tua porta cerrarás,
teu vizinho louvarás,
quanto podes não farás,
quanto sabes não dirás,
quanto vês não julgarás,
quanto ouves não crerás,
se quiseres viver em paz.
Seis cousas sempre vê
quando falares, te mando:
de quem falas, onde e quê,
e a quem, como e quando;
nunca fies nem perfies
nem a outro injuries;
não estês muito na praça
nem te rias de quem passa;
seja teu tudo o que vestes,
a ribaldos não doestes;
não cavalgarás em potro,
nem ta mulher gabes a outro;
não cures de ser picão
nem travar contra razão.
Assi lograrás tas cãs
com tuas queixadas sãs.
EM - CANCIONEIRO GERAL - ANTOLOGIA - VERBO
e viverás vida folgada:
tua porta cerrarás,
teu vizinho louvarás,
quanto podes não farás,
quanto sabes não dirás,
quanto vês não julgarás,
quanto ouves não crerás,
se quiseres viver em paz.
Seis cousas sempre vê
quando falares, te mando:
de quem falas, onde e quê,
e a quem, como e quando;
nunca fies nem perfies
nem a outro injuries;
não estês muito na praça
nem te rias de quem passa;
seja teu tudo o que vestes,
a ribaldos não doestes;
não cavalgarás em potro,
nem ta mulher gabes a outro;
não cures de ser picão
nem travar contra razão.
Assi lograrás tas cãs
com tuas queixadas sãs.
EM - CANCIONEIRO GERAL - ANTOLOGIA - VERBO
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Tão perto e tão longe - SÃO REIS
Tão perto de mim
Tão longe de mim
Tão perto do meu coração
Tão perto do meu sentir
Tão longe da minha vista
Tão longe do meu sorrir
Tão perto e tão longe de mim...
Tão perto dos meus olhos
e no entanto tão longe do que vejo
Tão perto da minha boca
Mas tão longe dos meus lábios
Tão perto e tão longe de mim...
Tão perto dos meus passos
tão longe do meu silêncio
Tão perto da tua ausência
tão longe do meu corpo
Tão cheia da tua saudade
Tão vazia de ti
Tão perto e tão longe de mim
Tu estás
tu és
tu ficas e permaneces
Tão longe que até te esqueces
que eu fiquei aqui
deste lado
do lado de cá do muro
Esperando apenas por ti
Tão longe e tão perto de mim...
EM - 1ª ANTOLOGIA UNIVERSUS - VÁRIOS - UNIVERSUS
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Tantas mortes que nem sei - JOSÉ JORGE LETRIA

Já morri em tantas mortes que nem sei
como tenho ainda cara para aparecer
a mim próprio com fingimentos
de assombro, eu que perco todos os dias
as chaves de vidro com que me abro
e fecho por dentro, tão bem fechado
que esqueço até a liberdade mínima
de um grito ou de uma queixa,
a inocência branca de uma pétala
à deriva no mar morno dos teus lábios.
EM - POESIA ESCOLHIDA - JOSÉ JORGE LETRIA - IUC
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Vazio no meio do mar - ARMANDO SILVA CARVALHO

Quem ama o tempo como eu nesta manhã de ruídos
que se afastam de mim e me fazem sentir
vazio no meio do mar?
Quem devora este ar tão benfazejo à boca
e ao replicar das ondas
nos ouvidos como sinos de água?
Um tempo que se curva,
com o início nos joelhos dobrados na infância,
na mãe obsessiva,
e vem,
como de onda em onda,
transportando as dores, até este rochedo
que me suga os anos
e morde, devagar, a memória
da vida.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Torre - RAQUEL NAVEIRA
Subo o cilindro das escadas,
Isolo-me na torre mais alta do castelo,
Aqui coloquei a roca,
O alaúde,
Os livros;
Com dedos trémulos
Ora segurando o fuso
E as pastas de algodão,
Ora toco as músicas dos jograis,
Ora leio histórias e poemas.
Às vezes tanto tremo
Que tudo cai no chão
Sobre o tapete de cânhamo.
Na torre,
Tramo,
Horas a fio
Olhando o céu.
EM - SENHORA - RAQUEL NAVEIRA - TEMAS ORIGINAIS
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Súbita e clara - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
A lua poucas vezes tem manchado
este rectângulo branco. Agora
é alvinitente. talvez sedosa
se se pudesse tocar com a polpa
dos dedos o alto monte.
Estremece quando as árvores
a prendem. Quando se afasta
do mar sereno brilha
sobre as terras agitadas.
No fim do atalho ela é a
ideia mais súbita e mais clara
que eu conheço. Está a estender
as linhas brancas do seu rasto.
EM - ÂMAGO - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO - ASSÍRIO & ALVIM
sábado, 9 de fevereiro de 2013
A traço grosso - DOMINGOS DA MOTA
Pontilho a tinta-da-china,
por vezes a traço grosso,
a palavra que rumina
e recurva o pescoço,
pois se deve rebelar
e ao sacudir a cerviz
vê o lume a crepitar
desde a copa à raiz
Mais vale a fogueira acesa
(ou as cinzas apagadas)
do que uma vida represa
sob botas apertadas:
contracorrente e maré,
pinto a palavra de pé
EM - BOLSA DE VALORES E OUTROS POEMAS - DOMINGOS DA MOTA - TEMAS ORIGINAIS
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Durante o debate da lei contra o alcoolismo - NATÁLIA CORREIA
Num país de beberrões
Em que reina o velho Baco
Se nos tiram os canjirões
Ficamos feitos num caco.
E querem os deputados
Com um ar de beatério
Que fiquemos desmamados
Quais anjos num baptistério.
Se o verde e o tinto são
As cores da nossa bandeira,
Ai, lá se vai a nação
Se acabar a bebedeira.
De abstemia não se faça
A lex neste plenário
Que o direito à vinhaça
Esse é consuetudinário.
EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Amantes - DULCE ANTUNES
Amante, embrenho-me em teus braços,
Soltam-se aromas,
São no ar, essências de rosas.
Corpos abraçados
Carne toca em tua pele, olhos nos olhos,
Profundo toque em tua alma.
Ouço a tua respiração
Suspiros de um amor errante,
Como corpos que se desnudam na areia,
O amor faz-se em cada momento,
Bebendo-se a última gota do cálice,
Como se teu sangue escorresse,
Pelo meu corpo.
EM - POEMA EM TI - DULCE ANTUNES - TEMAS ORIGINAIS
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Contra a impiedade das gerações mais novas - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA
Quem vos pediu que, debaixo
de livros e cadernos, entre
o pó que acamou no fundo do saco,
estivesse a caridade, ou mesmo
essa mistura instantânea
de ternura e egoísmo
que, servida fria, haverá de
parecer a adolescência?
Nesta manhã de Maio, às oito
e trinta, o estrugido das cigarras
está em ebulição perfeita.
Cantam todo o Verão e morrem
imprevidentes, segundo
o fabulista. Um camião
azul, que passou na rua,
intimou as mais próximas,
um pombo julga-se solista.
De quem a culpa que observações
espúricas não possam ser um hino?
Do camião azul? Do que vos espera?
EM - TENTATIVA E ERRO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Alegre ou triste* - GLEIDSTON CÉSAR
Alegre ou triste,
Magoado ou ferido,
Iludido ou dissimulado,
Com saudade ou ausentado,
Gentil ou imbecil,
Sensível ou invisível,
Carente ou careca,
Rico ou bastardo,
Negro ou branco,
Pardo ou índio,
Casado ou amante,
Namorado ou enrolado
Imaturo ou maduro...
Sou um ser humano em busca dos
Sentidos da vida, do ser, evoluído e se ajustando
EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS
* Os poemas deste livro não são titulados. Usei o 1º verso como título por razões logísticas
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
A vocação dos poetas - JOÃO RUI DE SOUSA
Como quem pega na vida
por vezes além da hora,
como que treina o palato
com limões de estranha história,
mas que decorre do acto
de nada deixar de fora,
tal é a voz que é semente
e que é fruto e é fermento
de quem em fogo labora,
de quem em chamas se sente.
Sem pagar juros de mora
cumpre sempre o seu contrato,
o de não esquecer os sonhos
nem omitir qualquer facto.
EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE
por vezes além da hora,
como que treina o palato
com limões de estranha história,
mas que decorre do acto
de nada deixar de fora,
tal é a voz que é semente
e que é fruto e é fermento
de quem em fogo labora,
de quem em chamas se sente.
Sem pagar juros de mora
cumpre sempre o seu contrato,
o de não esquecer os sonhos
nem omitir qualquer facto.
EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE
domingo, 3 de fevereiro de 2013
As aves de Afrânio - MIA COUTO
Em lugar de livros,
Afrânio levava pássaros para casa.
Corredor adentro,
escapando dos olhares da esposa,
na concha das mãos,
o derradeiro tesouro.
Dona Magriça sossegava os filhos:
vosso pai anda muito aluacinado.
Os meninos se encantavam:
a palavra, aluacinado,
era mais alada que as avezinhas
que o pai contrabandeava.
No final, o pai desvalorizava:
«Triste
é só aqui dentro
haver quentura para ninho»
EM - IDADES CIDADES DIVINDADES - MIA COUTO - CAMINHO
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Sábado - JOÃO LOPES
O peixe grelhado a Mingas é que fez
o vinho fomos comprar no Calemba
o Maninho é a segunda vez que repete
o feijão d'óleo de palma
alguém pede uma canção no Zé Russo
eu olho mesmo só
sem respirar
o corpo de Manana
(uma angústia assombrosa
estremece o meu coração)
o Ju conta mais uma cena
e nós rimos
rimos rimos
como se fossemos os senhores do mundo
EM - CÂNTICO DA TERRA E DOS HOMENS - JOÃO MELO - CAMINHO
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Peixes - PAULA TAVARES
Nem bem peixes são os seres
Que habitam
O nocturno da lagoa
Onde a mãe veio deitar-se para morrer
Doía-lhe a luz do sol
O corpo de vidro
Sonhou os últimos sonhos
Não esqueças o meu rosto
A força das minhas mãos
Fez a passagem devagar.
EM - COMO VEIAS FINAS NA TERRA - PAULA TAVARES - CAMINHO
Subscrever:
Mensagens (Atom)







