Hora a hora,
Nasce outra vez em mim a vida.
Devagar,
Como um gomo de vide a rebentar,
Cobre de verde a cepa ressequida.
É um fruto que acena?
É uma flor que há-de ser?
- Fui eu que disse que valia a pena
Viver!
EM - POESIA COMPLETA VOL. I - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Intoxicação - NATÁLIA CORREIA
Poetas do mar vinde trazer-me as vossas ondas.
Sou cidade. Onde bichos e anjos se devoram
por uma côdea de imortalidade.
Vinde trazer-me a espuma onde as auroras
balbuciam o princípio dum segredo
guardado pelas bocas luminosas
que a noite fende nos últimos rochedos.
EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE
Sou cidade. Onde bichos e anjos se devoram
por uma côdea de imortalidade.
Vinde trazer-me a espuma onde as auroras
balbuciam o princípio dum segredo
guardado pelas bocas luminosas
que a noite fende nos últimos rochedos.
EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE
domingo, 18 de dezembro de 2011
Canção - JORGE SOUSA BRAGA
Este esperma é puro
Como a água de um iceberg
Colhido por masturbação
Centrifugado capacitado...
Bebe deste esperma simples
Ou com gelo e limão
Só assim conseguirás
A redenção
EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM
Como a água de um iceberg
Colhido por masturbação
Centrifugado capacitado...
Bebe deste esperma simples
Ou com gelo e limão
Só assim conseguirás
A redenção
EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM
sábado, 17 de dezembro de 2011
A pura falta - MANUEL ANTÓNIO PINA
Tudo é sabido onde
alguma coisa fala de si própria
e de falar de isso
e de falar de falar.
Aquilo que está cada vez mais longe,
a pura falta de coisa nenhuma,
é o que Conhece e É
a sua indizível inexistência.
Nós, os maus, onde
é fora de fora de tudo,
eternamente regressamos
ao sítio de onde nunca saímos.
EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM
alguma coisa fala de si própria
e de falar de isso
e de falar de falar.
Aquilo que está cada vez mais longe,
a pura falta de coisa nenhuma,
é o que Conhece e É
a sua indizível inexistência.
Nós, os maus, onde
é fora de fora de tudo,
eternamente regressamos
ao sítio de onde nunca saímos.
EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
25 - ARMANDO SILVA CARVALHO
A tua efígie foge-me, deixaste-a
adormecer sobre a almofada das tardes
últimas de maio
até chegar o dia dos teus anos.
Mas ela, ao acordar, entre as tuas amigas,
ficou junto de mim,
presa às fotografias moribundas.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
adormecer sobre a almofada das tardes
últimas de maio
até chegar o dia dos teus anos.
Mas ela, ao acordar, entre as tuas amigas,
ficou junto de mim,
presa às fotografias moribundas.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Os amantes de Novembro - ALEXANDRE O'NEILL
Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor
Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um
De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.
EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor
Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um
De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.
EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
XVI - MÁRIO CESARINY
A vida
às portas da vida
e o azul masculino de um rio
Amor Ardente
de forma distinta
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
A alta pirâmide da fala II - ANA HATHERLY
Falar é
um saber amplo e profundo
indício
duma obsessão incurável
Os pontos ágeis da petulante fala
dobro
como se fossem uma súbita esquina
É uma longa caminhada
no sentido do outro
buscando
a esquiva consonância do encontro
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
um saber amplo e profundo
indício
duma obsessão incurável
Os pontos ágeis da petulante fala
dobro
como se fossem uma súbita esquina
É uma longa caminhada
no sentido do outro
buscando
a esquiva consonância do encontro
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Queria erguer-te... - LUÍS FALCÃO
Queria erguer-te um cântico
Que ressoasse entre os cânticos
Noite fora persegui uma palavra
Um diamante de fogo e silêncio
O amor permanece uma língua bárbara.
EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM
Que ressoasse entre os cânticos
Noite fora persegui uma palavra
Um diamante de fogo e silêncio
O amor permanece uma língua bárbara.
EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM
domingo, 11 de dezembro de 2011
Lacrimatória 21 - JAIME ROCHA
Mas o rosto dela está definitivamente gravado
no corpo do homem, solidificado nos seus olhos,
como um banco de coral. As suas lágrimas caem
na pedra, fabricando novos rochedos. É nessa visão
que os pássaros suspendem o voo, nesse enigma. A
figura de branco mistura-se com a ninfa amortalhada
e esta olha para a remadora como se habitassem num
vaso grego, num outro mausoléu esquecido nas
masmorras da ilha. ouve-se um grito, o som de um
suplício, e os ciprestes fecham-se tomando a forma
de uma árvore de fruto. Uma única árvore que cresce
subitamente ao lado do túmulo, escondendo o homem
dentro do tronco para que os outros não vejam a
imensidão da dor.
EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
no corpo do homem, solidificado nos seus olhos,
como um banco de coral. As suas lágrimas caem
na pedra, fabricando novos rochedos. É nessa visão
que os pássaros suspendem o voo, nesse enigma. A
figura de branco mistura-se com a ninfa amortalhada
e esta olha para a remadora como se habitassem num
vaso grego, num outro mausoléu esquecido nas
masmorras da ilha. ouve-se um grito, o som de um
suplício, e os ciprestes fecham-se tomando a forma
de uma árvore de fruto. Uma única árvore que cresce
subitamente ao lado do túmulo, escondendo o homem
dentro do tronco para que os outros não vejam a
imensidão da dor.
EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
sábado, 10 de dezembro de 2011
Testamento - MIGUEL TORGA
Na taça que eu lavrei quero que bebas
O segredo profundo dos meus dias;
E, dona do que é meu, de mim recebas
Toda a riqueza que não conhecias.
A taça é branca como um véu sem cor,
E o segredo nimbado de vazio;
Quero que a veja pois o teu amor,
E bebas só dum trago o luar frio.
Quero, depois, que quebres o cristal
De encontro à fraga dura da lembrança
Do Poeta que fui ao natural
Junto de ti a trabalhar na herança.
EM - POESIA COMPLETA VOL. I - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE
O segredo profundo dos meus dias;
E, dona do que é meu, de mim recebas
Toda a riqueza que não conhecias.
A taça é branca como um véu sem cor,
E o segredo nimbado de vazio;
Quero que a veja pois o teu amor,
E bebas só dum trago o luar frio.
Quero, depois, que quebres o cristal
De encontro à fraga dura da lembrança
Do Poeta que fui ao natural
Junto de ti a trabalhar na herança.
EM - POESIA COMPLETA VOL. I - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
A exaltação da pele - NATÁLIA CORREIA
Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem o gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a selva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.
EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE
Sem lírios e sem lagos
e sem o gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a selva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.
EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Laboratório - JORGE SOUSA BRAGA
Tinham quatro células os embriões
Observados assim ao microscópio
Pareciam pães de Padronelo
Polvilhados de branca farinha
EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM
Observados assim ao microscópio
Pareciam pães de Padronelo
Polvilhados de branca farinha
EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Antes do princípio - MANUEL ANTÓNIO PINA
Este é o traidor, o filho
os seus puros olhos param
debaixo da cabeça,
em silêncio percorrem a Morte,
o passado, as palavras omitidas.
Só aquele através de cujo horror
a Literatura escrever
se tornam faladores.
aqui está a calúnia, o silêncio,
aquilo que não tem nada para dizer,
eu morro debaixo de isto e de tudo
e tudo isto é sabido para mim.
EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM
os seus puros olhos param
debaixo da cabeça,
em silêncio percorrem a Morte,
o passado, as palavras omitidas.
Só aquele através de cujo horror
a Literatura escrever
se tornam faladores.
aqui está a calúnia, o silêncio,
aquilo que não tem nada para dizer,
eu morro debaixo de isto e de tudo
e tudo isto é sabido para mim.
EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
20 - ARMANDO SILVA CARVALHO
Não revolvam as casas
nesse escoar das águas de lavagens
que te entopem os nervos, ao contemplares o lixo,
acamado, vivo, no canto mais infeliz
da garganta e da sala.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
nesse escoar das águas de lavagens
que te entopem os nervos, ao contemplares o lixo,
acamado, vivo, no canto mais infeliz
da garganta e da sala.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Poesia e propaganda - ALEXANDRE O'NEILL
Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
Pelo pequeno avião da propaganda
E no céu inocente de Lisboa,
Um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:
E será um verso de amor...
EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM
Pelo pequeno avião da propaganda
E no céu inocente de Lisboa,
Um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:
E será um verso de amor...
EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM
domingo, 4 de dezembro de 2011
V - MÁRIO CESARINY
Katyn?
Grande Descoberta!
O homem encontra
com tão pouco esforço
o pus o sangue
a peste a guerra
EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM
Grande Descoberta!
O homem encontra
com tão pouco esforço
o pus o sangue
a peste a guerra
EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM
sábado, 3 de dezembro de 2011
A alta pirâmide da fala I - ANA HATHERLY
A alta pirâmide da fala
o que é?
o que é que realmente expressa?
Uma efémera aliança
se esconde no enigma do sentido
no mistério do acidente
Tudo são zonas de silêncio
e intervalo
Um emaranhado só
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
o que é?
o que é que realmente expressa?
Uma efémera aliança
se esconde no enigma do sentido
no mistério do acidente
Tudo são zonas de silêncio
e intervalo
Um emaranhado só
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Só os corvos... - LUÍS FALCÃO
Só os corvos e um monge
Procuravam abrigo no claustro
Perante o ícone seu corpo tremia
E subitamente
A neve
O mundo inteiro irreconhecível
o amor a arder por entre as rosas.
EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM
Procuravam abrigo no claustro
Perante o ícone seu corpo tremia
E subitamente
A neve
O mundo inteiro irreconhecível
o amor a arder por entre as rosas.
EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Lacrimatória 17 - JAIME ROCHA
O homem vê um barco aproximar-se. Um
destroço errante que navega à deriva, sem mestre,
trazendo três figuras conhecidas, aprisionadas no
convés, o cavaleiro, o homem da montanha e o
guerreiro. Um anjo negro recolhe-os, ajudado pela
figura de branco. Vêm amarrados por cabos de aço,
como destroçados, como se saíssem de um desastre.
Procuram uma última morada junto do túmulo da
mulher. O pedreiro finge que não os vê, empenhado
que está na reconstrução da ilha. Mas um corpo
vermelho surgido de uma das fendas da muralha
trá-los para o presente. Os olhos deles ficam
devorados por um turbilhão de luz como se
olhassem para uma cidade incendiada.
EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
destroço errante que navega à deriva, sem mestre,
trazendo três figuras conhecidas, aprisionadas no
convés, o cavaleiro, o homem da montanha e o
guerreiro. Um anjo negro recolhe-os, ajudado pela
figura de branco. Vêm amarrados por cabos de aço,
como destroçados, como se saíssem de um desastre.
Procuram uma última morada junto do túmulo da
mulher. O pedreiro finge que não os vê, empenhado
que está na reconstrução da ilha. Mas um corpo
vermelho surgido de uma das fendas da muralha
trá-los para o presente. Os olhos deles ficam
devorados por um turbilhão de luz como se
olhassem para uma cidade incendiada.
EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
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